Notas do tradutor douglas wile



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CAPÍTULO 8

PREFÁCIO E INTRODUÇÃO DE "OS PRINCÍPIOS COMPLETOS E AS APLICAÇÕES DO T'AI-CHI CH'ÜAN"

Do T'ai-chi ch'üan t'i-yung ch'üan-shu

( Princípios Completos e Aplicações

do T'ai-chi ch'üan ), de Yang Ch'eng-fu.

Taipei: Chung-hua wu-shu

ch'u pan-she, 1975 ( 1a. ed. 1934 ).


O Prefácio de Yang Ch'eng-fu
Na minha juventude, costumava observar meu avô, Yang Lu-ch'an, liderar meus tios e outros estudantes na prática diária do T'ai-chi ch'üan. Eles treinavam individualmente ou em duplas, dia e noite, sem descanso. Todavia, eu estava cético a respeito do valor da defesa pessoal contra um homem, pois seu estudo parecia-me sem valor e temia que, no futuro, tivesse que estudar a defesa contra dez mil.

Com um pouco mais de idade, meu tio, Yang Pan-Hou, convidou-me para treinar com ele. Como eu não conseguia conciliar minhas dúvidas com o estudo, apresentei-as diretamente ao meu avô. Meu pai, Chien-hou, ficou furioso e disse: "Muito bem, e agora? Que tipo de palavras são estas? Este é o legado de seu avô para a nossa família. O que você quer, descartar-se de nossa herança?" Meu avô, Lu-ch'an, acalmou-o com as seguintes palavras: "as crianças não devem ser coagidas". Ele me deu um tapinha afetuoso e continuou: "agüente um minuto e deixe-me explicar. A razão pela qual eu treino e ensino esta arte não é desafiar os outros, mas é a auto-defesa; não é para lutar com o mundo, mas para salvar a nação. Os cavalheiros de hoje conhecem apenas as grandezas da nação, mas não suas fraquezas. Ocorre que nossos líderes ansiosamente formulam milícias contra a pobreza, mas eu nunca ouvi falar de planos para levantar os fracos ou curar os doentes. Em uma nação de gente doente, quem é digno dessa tarefa? Somos pobres porque somos fracos. Se examinarmos a ascensão das nações, veremos que todas elas iniciam por fortalecer seu povo. A virilidade e o vigor dos europeus e dos americanos dispensam comentários; já os japoneses, embora com aparência de pigmeus, é um povo disciplinado e determinado. Quando a nossa gente fraca e magra encarar tudo isso, não precisaremos de adivinhações para predizer o desfecho. Portanto, o melhor método de salvar a nação é fazer da recuperação do fraco a nossa mais alta prioridade. Ignorá-lo é condenar-se ao fracasso.

Em minha juventude, passei a considerar o auxílio aos fracos como minha responsabilidade pessoal. Eu via artistas marciais cujos espíritos e físicos nada deixavam a desejar, em comparação com os tão aclamados homens musculosos do Ocidente. Empenhei-me em aprender sua arte, mas eles guardavam seus segredos, os quais não pretendiam revelar. Foi deste modo que eu descobri que a China, embora possuidora da arte da saúde física, não se tornara uma terra de fracos sem motivo.

Mais tarde, ouvi falar de uma certa família Ch'en, em Ch'en-chia-kou, Honan, que ficara famosa por desenvolver um estilo interno de boxe; apressei-me em procurá-los para estudar com Ch'en Ch'ang-hsing. Embora não causassem o meu retorno, eu ainda não tinha a permissão de compartilhar de seus segredos, mesmo depois de longo tempo. Controlei-me pacientemente por mais de dez anos. Meu instrutor acabou cedendo à minha sinceridade e, nas tardes em que todos repousavam, começou a revelar seus segredos para mim. Após completar meus estudos, vim para a capital e prestei um juramento para ensinar a arte livremente, para todos os interessados. Não foi necessário um longo período para que eu pudesse constatar que o magro havia encorpado, o gordo perdido peso, e o doente havia se curado. Foi muito gratificante.

Parecia-me que seria muito limitado o que um único indivíduo poderia ensinar, assim como aquele velho tolo que queria remover a montanha. Também aqueles da geração anterior à minha, que só pensavam em combater, não optariam por deixar de estudar sua arte, ao ver tal método de salvar a nação?" Neste momento, subitamente eu comecei a apreciar a grande diligência de meu avô para com sua arte e, a partir de então, comecei a empenhar-me por dar continuidade à transmissão familiar. Eu me submeti arduamente aos treinos.

Meu avô legou-me estas palavras: " O T'ai-chi ch'üan começou com Chang San-feng, no final da dinastia Sung. Ele a transmitiu a Wang Tsung-yüeh, Ch'en Chou-t'ung, Chang Sung-hsi e Chiang Fa sucessivamente, sem interrupção. Meu professor, Ch'en Ch'ang-hsing, foi o único discípulo de Chiang Fa. Sua arte sempre foi baseada em tudo o que é natural, jamais afastando-se da Grande Polaridade. Ela consistia de treze posturas, com aplicações infinitas. O movimento está no corpo, mas sua influência alcança o espírito; contudo, sem longa prática, é impossível atingir o nível mais elevado. Nunca me faltaram alunos, mas se eu procurar por aqueles que alcançaram a mais absoluta perfeição, eu não posso estar certo nem mesmo de Pan-hou. Entretanto, se falarmos apenas de uma ciência voltada para a saúde, constataremos que um só dia de esforço produz um só dia de benefício, um ano de treino produz um ano de resultados. Se você entender isto, meu neto, então você terá todos os meios de prosseguir com as minhas aspirações". Eu segui respeitosamente as suas palavras, e jamais ousei esquecê-las. Deste ponto em diante, eu trabalhei sem parar, por vinte anos. Meu avô, meu tio e meu pai se foram, um após o outro.

No princípio, eu comecei a aceitar estudantes em Pequim, mas sentia-me confinado e limitado em meus resultados. Foi então que resolvi viajar para a região de Fukien-Chekiang, entre os rios Yangtze e Huai. Posteriormente, pedi ao meu aluno, Ch'en Wei-ming, que publicasse um livro baseado nos meus ensinamentos orais. Agora, dez anos depois, o T'ai-chi ch'üan espalhou-se pelo norte e sul do rio Amarelo e a leste e oeste do Yangtze, tão distante quanto a província de Kwangtung. Considerados em conjunto, o número de alunos hoje é bastante grande. O livro de Ch'en explica apenas a seqüência da forma; olhando minhas posturas de dez anos atrás, observo que elas são inferiores às atuais. Com isto pode-se notar que a arte continuará a desenvolver-se indefinidamente.

Hoje, por causa do apelo de meus alunos, mais uma vez compilei o método completo de princípios e aplicações, acrescentando novas fotos. Eu o submeti à impressão com o objetivo de compartilhá-lo com o mundo. As técnicas de espada de dois gumes, lança, lança de duas pontas, facão, e outras, serão apresentadas num eventual segundo volume. Não ouso buscar a fama com a minha arte, mas desejo prosseguir modestamente com a ambição de meus antepassados, de reabilitar o povo e salvar a nação21.


Introdução
O princípio guia deste livro reside em dar igual importância tanto a princípios quanto a aplicações. O número de praticantes do T'ai-chi ch'üan aumenta a cada dia. Todavia, sem aprender a combinação entre princípios e aplicações, haverá muito pouco proveito. Não tenho pretensões de acrescentar algo a nível mundial, mas tenho a esperança de encontrar homens bravos, ambiciosos e devotados ao progresso. Em companhia de todos os meus compatriotas, eu gostaria de encorajá-los.

O T'ai-chi ch'üan é baseado na Grande Polaridade do I Ching e nos oito trigramas. Ele é desenvolvido a partir de três conceitos: princípio, ch'i e forma (hsiang). Como pode tudo aquilo a que Confúcio referiu-se como "abarcar todas as coisas do Céu e da Terra sem excesso" ser outra coisa, senão princípio, ch'i e forma? Eles são a origem do T'ai-chi ch'üan. Quando os três são desenvolvidos, aplicações e princípios estão completos. Quanto à forma, ela é modelada pela Grande Polaridade e os oito trigramas. Ch'i nada mais é do que yin e yang, duro e suave. O princípio controla o que permanece imutável na própria mudança, sendo a raiz da transformação. Os estudantes deveriam primeiro buscar a forma adequada, com o objetivo de cultivar o ch'i. Depois de um certo tempo, eles dominarão os princípios naturalmente.

A essência do T'ai-chi ch'üan encontra-se na regulagem entre o movimento e a tranqüilidade. Portanto, em prática, devemos cuidar da altura de nossa posição, a leveza ou peso da movimentação, a extensão ou retração de nosso avanço ou recuo, a expansividade ou a delicadeza da respiração, a direção do olhar e as posições da cintura, cabeça, costas e barriga. É um erro estar subitamente alto ou subitamente baixo, repentinamente veloz ou repentinamente lento, e o mesmo vale para o investir e o recuar, leve e pesado, largo e estreito, ir para a esquerda, direita, acima, abaixo, em frente ou para a retaguarda, sem uniformidade. Somente quando a altura de nossa posição e a velocidade de nossas mãos são guiadas pela medida adequada, podemos nos livrar da necessidade de regras fixas de altura e velocidade.

Ao todo, existem treze pontos importantes para a prática do T'ai-chi ch'üan. Eles são:




  1. Baixar os ombros e dobrar os cotovelos.

  2. Recolher o peito e expandir as costas.

  3. Deixar o ch'i baixar para o tan-t'ien.

  4. Energia leve e sensitiva no topo da cabeça.

  5. Relaxar a cintura e quadril.

  6. Distinção do cheio e do vazio.

  7. Coordenar o corpo superior e inferior.

  8. Usar a mente, não a força.

  9. Harmonizar o interno e o externo.

  10. Conectar mente e ch'i.

  11. Buscar serenidade no movimento.

  12. Unificar serenidade e movimento.

  13. Continuidade e uniformidade em cada postura.

Estes são os treze pontos. Devemos prestar atenção em cada movimento, e cada postura deve ser precisa. Nenhum destes treze conceitos pode ser descuidado. Espero que os estudantes mantenham uma atitude cuidadosa e crítica.

As aplicações de defesa pessoal deste livro são destinadas àqueles que já treinaram o T'ai-chi ch'üan e gostariam de alcançar um progresso ulterior. Eles não precisam ficar restringidos a uma determinada direção: eles podem experimentar qualquer um dos quatro lados ou quatro cantos das diagonais do quadrado. Aqueles que ainda não estão familiarizados com a forma não deveriam avançar com as aplicações, pois, sem um sólido fundamento, os resultados são mínimos. Espero que os iniciantes dediquem-se cuidadosamente às posturas mostradas nas ilustrações. Quando eles já tiverem se tornado adeptos da forma, não haverá dificuldades para dominar as aplicações.

Há apenas uma escola de T'ai-chi ch'üan; não há dois métodos. Não se torne desiludido pela sua própria esperteza: não faça adições nem subtrações. Se as modificações fossem necessárias neste método legado pelos valorosos homens do passado, elas teriam sido implementadas durante os vários séculos, desde as dinastias Yüan e Ming até hoje. Teriam essas modificações a necessidade de esperar pela nossa própria geração? Espero que os futuros estudantes não se percam buscando os aspectos externos; ao contrário, espero que eles se dediquem à busca da verdade interior. Devemos ser pacientes, se desejarmos alcançar a mais elevada excelência. A coisa mais importante no estudo das posturas não é a aparência externa, mas alcançar a idéia essencial. O maior perigo consiste em introduzir inovações pessoais e acabar por transmitir erros como transmissão verdadeira. A verdadeira transmissão de princípios e aplicações é facilmente perdida, até chegar ao ponto de obscurecer a intenção dos primeiro mestres. Por esta razão oferecemos este livro, baseado nos antigos textos revisados, como um padrão correto.

T'ai-chi ch'üan não foi criado meramente para se altercar com baderneiros. Ao contrário, o Imortal Chang San-feng inventou esta suave arte marcial como um auxílio para a manutenção da saúde. Todos os interessados em saúde e auto-disciplina, eliminando doenças e prolongando os anos de vida, podem praticar: quer sejam letrados, jovens, velhos ou mulheres. Aqueles que praticarem fielmente terão resultados consistentes em três anos. Se alguém nos perguntar qual a sua utilidade, podemos dizer que ele nos permite dispensar o uso da força e, ainda mais, não sermos intimidados pela força. Se formos atacados por uma pessoa muito forte, nossa suavidade suprema é suficiente para nos descartarmos dela. Nosso sucesso deve-se ao acompanhamento da força do adversário. Podemos dizer que a chave da saúde e da auto-disciplina está em seguir e preservar a fraqueza. Mesmo a força de guerreiros antigos como Meng Pen ou Hsia Yü não são de interesse para os praticantes do T'ai-chi ch'üan.

Ao iniciar os estudos da forma do T'ai-chi, devemos absolutamente evitar a precipitação. A cada dia, pratique uma ou duas posturas; assim será fácil apreciar sua essência interior. Aqueles que praticam demais e de uma só vez, não podem fazer mais do que arranhar superfície. Depois de terminar a prática, jamais sente-se imediatamente, mas ande um pouco para reajustar o ch'i e o sangue.

Depois de treinar no calor do verão, não lave as mãos com água fria, ou você será "afligido pelo fogo". Após a prática no inverno, vista rapidamente um agasalho, para evitar um resfriado. Sua habilidade aumentará durante o inverno ou verão. Por isso é dito para "treinar três períodos após o solstício de verão e três períodos após o solstício de inverno", pois neles a influência do sol é mais poderosa do que no outono ou na primavera. É absolutamente essencial praticar a forma logo após acordar e pouco antes de deitar. Deste modo, a habilidade pessoal rapidamente mostrará seus progressos.

Tradução de Giancarlo Salvagni





1Assunto muito polêmico. A tradução foi feita de maneira fiel ao texto inglês.

2Nome popular de boneco inflável que contém areia na base (“punching bag doll”).

3”Cheekbones”= ossos das maçãs do rosto.

4No sentido de “verificar”.

5Literalmente “engolir”.

6"Soft bone".

7"Topple". Para empurrar, devemos estar abaixados e enraizados, sem inclinar de maneira alguma, sob pena de perder a estabilidade do golpe.

8No livro "The Thirteen Chapters", de Cheng Man-ch'ing, este mesmo tradutor usa o termo

"image ( hsiang )". Aqui, ele emprega "charisma".



9Na base da coluna.

10Tronco com cabeça de carneiro esculpida, usado para arrebentar portas em invasões.

11"Clay"= barro , "Pill"= pílula.

12Arma antiga.

13Costume chinês: gesto de grande respeito.

14Isto é, flexionado.

15"Inhaling and retreating".

16Para melhor compreensão deste assunto ( assim como de todos os outros ), recomenda-se a leitura dos comentários de Richard Wilhelm em "Tao Te King", de Lao Tzu, Editora Pensamento.

17"Rattan", tipo de junco.

18Traduzido fielmente do inglês. Contudo, não deve ter o sentido usual do ocidente.

19Entretanto, vários mestres lançam mão ou de excessiva mistificação, ou de "técnicas secretas, reservadas para um nível mais que avançado".

20 “Three yards” = 2,74 m. Não impressiona muito, pode ser um erro de conversão.

21Escrito por Yang Chao-ch'ing ( Ch'eng-fu ) em Kuang-p'ing, primavera de 1933 ( nota do trad. inglês ).



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