Novas tecnologias comunicacionais, economia política e continuidade



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Novas tecnologias comunicacionais, economia política e continuidade

Valério Cruz Brittos*



Resumo

O texto analisa a relação das novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI) com o capitalismo contemporâneo, identificando-as como expressão deste. Para isto, além de expor-se a configuração atual capitalista, pondera-se como os dispositivos tecnológicos participam deste processo, contribuindo para sua formatação e sendo concebidos no seu interior, como esforço para o delineamento de um novo ciclo de crescimento econômico. Desenvolve-se como a invenção persegue uma trajetória até ser assumida como inovação tecnológica e desta forma ser incorporada mercadologicamente. Assim, assume-se que os novos equipamentos e seu conteúdo representam continuidade com as precedentes condições capitalistas, ainda que perifericamente possam ser desviadas com propósitos coletivistas.



Palavras-chave: Economia Política da Comunicação; Novas Tecnologias de Comunicação; Comunicação e Capitalismo.

Introdução

As chamadas novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI) espalham-se por tudo e todos, enfaticamente a partir dos anos 80, refletindo movimentos e necessidades dos capitais. Ao mesmo tempo em que são constituídas pelos corpos econômico-políticos, participam da constituição deles, na mesma medida em que as companhias rearticulam-se transnacionalmente, num movimento globalizante e globalizado, coligado com interesses regionais, nacionais e locais. Antes de tudo, esses dispositivos tecnológicos (incorporados ao cotidiano de organizações dos mais diversos setores), as indústrias de comunicação e a cultura global apresentam um papel econômico definido, ligado diretamente à busca de um novo ciclo de crescimento econômico. As mudanças que se processam com essas tecnologias comunicacionais desenvolvem-se no âmbito do capitalismo, tanto que na essência há é um incremento de tendências já existentes, como maior mobilidade do capital, segmentação da oferta, ampliação do estoque cultural disponível, desenvolvimento de novos produtos, criação periódica de profissões, aumento do controle sobre os cidadãos e massificação da educação.

A disseminação de redes é uma característica da organização econômico-social capitalista contemporânea. Mesmo assim, euforicamente, tecno-utópicos vislumbram a chegada de um novo tempo, repleto de vantagens, a partir dessas técnicas comunicacionais e informacionais, que revolucionariamente instaurariam uma nova sociedade. Seria a sociedade da informação – marcada pelo alcance de um novo patamar de organização e de vida, em grande medida determinado pela tecnologia –, cujos defensores acusam os mais cautelosos na análise da realidade empírica de neo-luddites, justamente por não compartilharem esse entusiasmo. Outras metáforas denotadoras de otimismo, como nova economia e sociedade em rede ou pós-moderna, também foram lançadas pelos liberais. O espaço para o exercício humano permanece aberto, com as tecnologias, mas não devido a elas, sendo este o principal marco diferenciador entre os dois grupos. Não se pode extrair da tecnologia a qualidade das mudanças, como se a simples descentralização e interatividade própria da rede mundial de computadores favorecesse e estimulasse a disseminação da democracia e seus conceitos.

Por isso, compreende-se que as NTCI não provocam revolução, por si, representando a sofisticação do capitalismo, de forma que os primados de continuidade superam os de mudança. O caráter fortemente concentrador e conservador da sociedade chega a esses dispositivos, que são usados ainda para realimentar o todo social, no conjunto de suas características. Reconhecendo-se este dado, é possível rumar em sentido diverso e propor sua inversão com tudo que isso possa implicar, em termos de lógicas econômico-sociais. Alguns avanços podem ser constatados, mas em nenhum momento histórico houve só dominação e, como antes, se fazem acompanhados de muitos retrocessos, que, de modo geral, têm se sobreposto. As sociedades continuam a apresentar, com índices progressivamente mais alarmantes, os sérios problemas sociais nelas introjetados, o que atesta a falta de mudança para um novo patamar. As novas tecnologias inserem-se neste quadro de exclusão, onde a diferença entre rendas máximas e mínimas aumenta mesmo em sociedades avançadas.



Capitalismo e reconfiguração

Posiciona-se a contemporaneidade como marcada por uma definitiva reestruturação capitalista. Em parte, isto deve-se à chamada globalização, que atende a um movimento de expansão do capital, seja através da progressiva ocupação de novos espaços para inversão, por parte das corporações transnacionais, seja por intermédio do aumento do fluxo livre dos recursos diretamente financeiros. A tecnologia auxiliou de forma eficaz nisto, consentindo o funcionamento sincronizado de mercados e a transmissão ágil de informações entre diversas unidades das empresas. O outro item contribuinte da reestruturação capitalista é a política neoliberal, a qual, via liberalização, privatização e desregulamentação, abre novos espaços para atuação do capital, que passa a ocupar lugares até então de privilégio do Estado. Neoliberalismo e globalização acelerada atual imbricam-se, ligando-se estrategicamente na moldagem do capitalismo contemporâneo. A adoção das medidas integrantes do receituário de desmontagem de muitas atividades que até então eram desenvolvidas diretamente pelo Estado acabam servindo como pré-condição para a globalização mais integral da economia.

Vive-se um terceiro estágio capitalista, representando sua renovação e expansão, cujos limites podem alargar-se ao longo do século XXI, questionando o advento de sua superação, conquanto esta possibilidade esteja longe de mostrar-se desautorizada, diante dos múltiplos resultados sempre possíveis, a partir da prática humana conseqüente. A sociedade como um todo é atingida pelo reposicionamento do capitalismo, identificando-se alterações na estrutura das empresas e em suas relações com os trabalhadores, bem como em sua disposição e na distribuição geográficas de tarefas, coincidindo com a mudança do papel do Estado e a abertura de novos espaços para os capitais privados. Para João Manuel Cardoso de Mello, atualmente há “uma vingança do capitalismo contra a sociedade”, já que a mudança tecnológica e a globalização financeira permitiram o rompimento da “carapaça que o submetia e protegia as populações”, de maneira que este momento seria inverso ao anterior, em que o sistema capitalista “parecia ter sido domesticado pela sociedade”, com suas tendências estruturais atenuadas.1

O período atual do capitalismo caracteriza-se pela mudança do papel do Estado, que muito se afasta da atividade econômica direta e altera qualitativamente sua regulamentação, redirecionada ao fortalecimento dos mercados e privatizações. Há também retrocesso das políticas públicas e privadas de redistribuição da renda; declínio da produção em massa; aumento da produtividade; crescente desintegração vertical das empresas, voltando-se estas para a contratação de terceiros e não mais para a realização do máximo de tarefas no interior da firma; e flexibilidade geral, manifestada precipuamente no que envolve espaços de investimento (a partir de políticas econômicas liberais), emprego (quebra da rigidez da relação de trabalho), produção (sistemas mais versáteis e rentáveis, como o just-in-time2 e segmentações) e consumo (tendo em vista a maior variedade disponibilizada). Em todo este processo está presente a tecnologia, permitindo troca ágil de informações, maior eficiência empresarial e variedade de bens produzidos pelas empresas, o que envolve a economia como um todo e atinge as indústrias da comunicação e da informação particularmente.

Boaventura de Sousa Santos condiciona o fim do arranjo capitalista prevalecente no pós-guerra à deterioração das “duas promessas realistas” do sistema, parcialmente concretizadas nos países centrais, “uma distribuição mais justa dos benefícios sociais e [...] um sistema político estável e relativamente democrático” devido a manifestações relativas ao crescimento de desigualdades sociais, aumento da pobreza, redução de recursos para políticas sociais, deslegitimação ideológica da atuação do Estado como facilitador, e surgimento de novas formas de exclusão social e autoritarismo.3 Registre-se, no entanto, que o capitalismo não tem se revelado capaz de desenvolver os países subdesenvolvidos, principalmente da África e da América Latina. Por trás do conjunto de ações do capitalismo global repousam novas fórmulas de consumo, aumentando a acumulação dos capitais. A meta é desencadear um novo processo de crescimento acelerado e a retomada de taxas de lucro históricas mais elevadas, garantindo maior retorno aos investimentos. Isto não foi obtido uniformemente, e ficou ainda mais inacessível com a desaceleração econômica norte-americana de 2001.

Na contemporaneidade, enfraquecem-se partidos políticos e esvaziam-se políticas e instituições com base classista. De um lado, os governos aproximam-se dos mercados, de outro, rearticulam-se com os organismos de financiamento internacionais, seja condicionando benesses às nações necessitadas ao cumprimento dos ditames desses órgãos (no caso dos países ricos), seja abrindo mão de prerrogativas para

cumprir a cartilha neoliberal dessas entidades (quando os países são pobres). A expansão global do capital e o projeto de realização mundial das corporações, principalmente aquelas atuantes em áreas estratégicas, inserem-se na tendência inerente ao capitalismo, de internacionalização, reforçada no pós-guerra, mostrando-se como uma ampliação da atuação mundial das corporações norte-americanas. Por trás das reordenações capitalistas, está a crise da década de 70 e a decisão norte-americana de se desfazer do padrão monetário dólar-ouro, ponto de partida para a abertura e desregulamentação dos mercados financeiros e comerciais. Isso representou o fim da conversibilidade do dólar e, portanto, o fim de seu papel como moeda internacional.

Além desse fato – que representou a quebra do acordo de Bretton Woods e originou-se de uma série de medidas adotadas pelo Governo Ronald Reagan, no fim dos anos 70, visando conter os movimentos contra o dólar, as quais tiveram, entre outras conseqüências, o aumento das taxas de juros internacionais, prejudicial aos países endividados –, as alterações que redundaram na globalização são uma resposta das grandes empresas, bancos e governos à crise desencadeada no período, podendo identificar-se uma ampliação da atuação mundial das corporações norte-americanas. As mega companhias desencadearam aquisições e fusões, por motivos como necessidade de ampliar o mercado para compensar o aumento dos custos fixos, principalmente gastos de pesquisa e desenvolvimento (P&D), e de aprovisionar em escala mundial certos insumos essenciais, nomeadamente de ordem científica e tecnológica.4 Delineiam-se estes movimentos também porque o aumento da concorrência entre as empresas provoca uma elevação dos custos, notadamente devido à tecnologia, requerendo capitalização.

Se isto corresponde a decisões empresariais, devido à queda da rentabilidade do investimento na indústria, também é de responsabilidade dos governos, que, para atraírem esses capitais, eliminaram ao máximo os controles. O mercado é passado como tendo sentido por si próprio. Para atraírem o capital estrangeiro, os Estados devem cumprir a cartilha de abertura, desregulamentação e privatização, bem como rígido controle orçamentário, para que a inflação não corroa os ganhos. Ao lado da expansão transnacional e da ocupação de novos espaços, até então de privilégio do Estado, os capitais industriais partiram para maior valorização diretamente financeira, de forma complementar ou em substituição às atividades anteriores. Como atestam as posições das holdings, é nos mercados financeiros que se dá a geração de grande parte dos lucros das organizações industriais.5 O resultado é um sistema que privilegia o capital financeiro, presente nos principais negócios, e um mercado global oligopolizado, o que exacerba em alto grau a dificuldade da tomada de decisões autônomas.

As fusões e incorporações têm sido muito presentes igualmente na área de comunicações, por sua posição atual, de provedora de informações numa sociedade crescentemente vivenciada à distância, tanto corporativa, quanto individualmente. Os diversos movimentos de associação entre companhias podem ser sintetizados em dinâmicas de convergência empresarial, a partir de necessidades variadas, incluindo projetos tecnológicos, que dão lugar a novos aparelhos, unindo várias funções, e de provimento de mais de um serviço por uma mesma empresa ou rede. Assim, a compra da Time-Warner pela America Online (AOL), por um montante de US$ 181 bilhões, pode ser considerada uma gigantesca convergência entre empresas, unindo experiências, conhecimentos, produtos e clientes, que sinergicamente promovem outras convergências.6 Em mais um desdobramento do processo de transformação das técnicas comunicacionais, o mundo dos bits estimula ações empresariais direcionadas ao lançamento, por uma mesma corporação ou grupo associativo delas, de vários produtos diferentes, muitas vezes com uma mesma base e poucos dados peculiares.

Assim, revelam-se as firmas de comunicação, informação e cultura extremamente valorizadas, com seus ativos sendo reposicionados e aumentando o ingresso de novos capitais, bem como transferências acionárias, alianças, acordos e associações em geral. No capitalismo contemporâneo, a indústria da informação e da comunicação assume um papel central, emergindo mesmo no chão da fábrica. A informação é o grande valor que se agrega à mercadoria. Mas o desenvolvimento atual da dupla comunicação-informação, suas indústrias e seu papel na estruturação da sociedade é mais um desdobramento do processo de transformação das técnicas comunicacionais verificadas desde o século XIX, no período formador do capitalismo monopolista. O que tem movido o desenvolvimento das tecnologias que avançam a globalização também são necessidades do capital. Para o estabelecimento de um sistema financeiro internacionalmente articulado e a própria expansão mundial do capitalismo, transportes e comunicações tiveram, através de mutações diversas, que caminhar na direção de possibilitar a troca de informações necessárias à plena realização do capital.

François Chesnais destaca a importância da tecnologia no capitalismo contemporâneo, um caráter que serve para articular estrutura produtiva e estratégia competitiva:

As transformações advindas, desde fins da década de 70, nas relações entre a ciência, a tecnologia e a atividade industrial fizeram da tecnologia um fator de competitividade, muitas vezes decisivo, cujas características afetam praticamente todo o sistema industrial (entendido em sentido amplo, e portanto abrangendo parte dos serviços). [...] A vinculação entre conhecimento científico fundamental e tecnologia tornou-se sensivelmente mais estreita. Mais do que em qualquer outra época, assiste-se a uma interpenetração entre a tecnologia industrial, de finalidade competitiva, e a pesquisa de base “pura”, sem falar na “pesquisa fundamental orientada”, que tem papel cada vez mais importante. Elas [as tecnologias críticas contemporâneas] oferecem oportunidades de renovar a concepção de muitos produtos e de inventar novos. Mais importante: exigem a transformação dos processos dominantes de fabricação, bem como das técnicas de gestão, em todo o sistema industrial.7

São os avanços tecnológicos, capazes de proporcionar redes com altíssimas velocidades de processamento, fundamentais para o funcionamento de mercados internacionalmente articulados, ligando-se no cerne à manifestação do capitalismo, impulso globalizante e consenso neoliberal. Ou seja, o capitalismo não se atenua, até avança. Transformada, a organização do trabalho permanece no modo capitalista e sua maior sofisticação atual, articulada com as novas tecnologias, não elimina a essência de sua posição ante o capital. A subsunção até amplia-se, chegando ao trabalho cultural, crescentemente planificado, subordinado e submetido às regras de divisão de tarefas, gerando a situação atual, onde os bens simbólicos são cada vez mais resultado de criação coletiva, embora nunca as estrelas tenham sido tão identificadas, diferenciadas no tratamento e agregadoras de valor aos bens. Hoje o acúmulo e a exploração capitalistas processam-se mais livremente,8 o que pode acarretar problemas de manutenção do sistema, a médio ou longo prazos. Com o fim de muitas políticas sociais, principalmente nos países pobres, justamente os que mais necessitam delas, as funções de legitimação e de regulação do consenso social ficam prejudicadas.



Revolução e nova sociedade

A idéia de que, a partir da informação, desde os anos 80 foi gerada e realizada – integralmente nos países centrais e ainda em curso nos mais atrasados, como o Brasil – uma revolução disseminou-se paulatinamente, chegou ao senso comum e consensualmente passou a ser utilizada de forma quase que generalizada. Mais indiscriminada é ainda a noção decorrente de que a referida revolução gerou uma sociedade da informação, que é apropriada acriticamente e incorporou-se aos discursos não só conversadores. “As transformações registradas e anunciadas no terreno das tecnologias da informação e da comunicação (TIC), nas duas últimas décadas do século XX, foram penetrando o consciente coletivo com a idéia de fundo que nos encontramos ante” um novo modelo de revolução, cuja culminação será o erguimento de um mundo novo.9 Para sustentar esta concepção, antes de tudo subjaz um entendimento de que a tecnologia funciona descolada da sociedade e, principalmente, do processo de acumulação econômica no qual está inserida, por isso mudando o eixo histórico.

A déia de obtenção de um novo patamar de sociedade a partir da tecnologia não é nova. Hoje, posições como as que identificam na técnica uma ruptura com determinações da inserção capitalista das redes, desconsideram que as tecnologias, como signos mitificados da trajetória humana, não são objetos neutros.10 Ao contrário, trazem toda uma marcação, estando impregnadas das condições econômicas, políticas, culturais e sociais dos tempos. Se concebidas em dias de consumismo, este dado deve integrar sua lógica, que inclui os interesses dos órgãos financiadores. Mas os tecno-utópicos acreditam seriamente que as novas tecnologias de informação e comunicação permitem uma reestruturação múltipla, descentralizando, popularizando e democratizando o poder e seus efeitos. Pierre Lévy, por exemplo, é ambíguo quando diz que a técnica não é boa nem má, mas que também não é neutra.11 É claro que, quando se atenta para os efeitos da técnica, o que se está colocando é que a tecnologia é todo o contexto pré e pós que a envolve e produz conseqüências sociais.

A idéia é que em países como Estados Unidos, Japão, Alemanha e Grã-Bretanha a revolução já foi completada, estando em vigor pleno a sociedade da informação. Esta concepção tem como origem as formulações de Daniel Bell, o primeiro a explicar e definir as sociedades atuais como pós-industriais, distinguindo três períodos históricos, marcados pela estruturação de suas economias em esquemas produtivos sensivelmente distintos: o primeiro, entre 1500 e 1750, pré-industrial; o segundo, que vai de 1750 a 1950, industrial; e o terceiro, de 1950 aos dias de hoje, pós-industrial, quando se observa uma terceirização da economia, em detrimento do tradicional secundário, processo acelerado e amplificado pela crescente informatização do entorno social.12 Os defensores da sociedade da informação argumentam que o conjunto da vida social assumiu as tecnologias da informação em seu funcionamento, reproduzindo globalmente que emergiu um novo tempo, diante da inovação tecnológica, mas a técnica participou fundamentalmente também na definição inicial da sociedade industrial.

A sociedade da informação trata de um novo modo de desenvolvimento produtivo, o informacional, onde a fonte de produtividade e, conseqüentemente, a estratégia de extensão do capital, se assenta na inovação tecnológica, vinculada à centralidade do processamento de dados, assim como na crescente desigualdade na distribuição dos benefícios.13 Mas a questão é que o crescimento do fluxo informacional, e de tecnologias que permitem esta ampliação, desenvolvem-se e são abrigados no ritmo industrial. O principal problema da idéia de admitir-se o advento da sociedade da informação é conceber-se que se trata de uma mudança definitiva em direção a um rumo oposto. Mattelart alerta que o deslizamento que leva a comunicação a passar a uma definição com objetivos totalizantes substitui, no fim das contas, a “ideologia do progresso” pela “ideologia da comunicação”, tarefa realizada por “vulgarizadores técnicos” e “ideólogos-escritores”, que fazem da “‘revolução tecnológica’ um novo cavalo de batalha na luta contra tudo que mexe à sua esquerda”; e põem “no campo dos simpatizantes do autoritarismo” os que estão em desacordo “com esse novo mito redentor”.14

Há uma ideologia da sociedade da informação, sustentada por um juízo que eleva a tecnologia a uma circunstância revestida de valor único ou pelo menos supremo, na estruturação social. João Pissarra Esteves identifica na concepção de sociedade da informação “um objetivismo e uma lógica positivista que conferem à tecnologia um estatuto de valor supremo – uma forma de reificação da tecnologia”, apresentando as mudanças nos domínios da eletrônica e das telecomunicações “em termos tautológicos”.15 A regra é que os dispositivos e a cultura resultantes das mídias-tecnologias símbolos do capitalismo globalizado não impliquem ruptura quanto às práticas de consumo, apesar das visões ufanistas em contrário. A própria questão do aumento de profissões não-produtivas, não raro exposta como um índice da dita revolução, explica-se ante o processo de realização da mercadoria e as macro-necessidades de funcionamento do capitalismo. A inovação tecnológica permite a plena realização do movimento globalizador, fornecendo parte de suas condições, ainda que tal deslocamento não seja novo, relacionando-se com a trajetória histórica do capitalismo.

Para Bernard Miège, a existência de uma sociedade da informação é “impensável hoje como ontem”, pois uma coisa é revelar mudanças significativas e identificar a emergência de novos “paradigmas”, outra “é concluir pela passagem de um nova era” da humanidade, sendo a impressão de que o informacional afirmou sua supremacia enganosa, pois os elementos de continuidade com a sociedade industrial capitalista permanecem muito fortes, até onde a produção está em vias de automatização.16 Sendo efetivamente inegável a elevação da dupla informação e comunicação como elementos-chave da racionalidade produtiva capitalista contemporânea, tal configuração tem conduzido a uma séria interpenetração entre ambas, não a uma substituição das atividades industriais pelas informacionais. Por este caminho, não é negada a importância da informação e da comunicação da contemporaneidade, mas questiona-se seu papel como agente autônomo e o raciocínio simplista que o fundamenta. Projetam-se e são projetadas as tecnologias da informação – emblematicamente simbolizadas em redes integradas por fibras óticas e satélites –, a partir de marcos econômicos, políticos e culturais.17

Uma distinção especial é apresentada por Castells, entre sociedade da informação e sociedade informacional: a primeira indica o papel da informação na sociedade, mas num sentido amplo, como comunicação de conhecimentos, decisivo a toda história da humanidade, até na “Europa medieval que era culturalmente estruturada e, até certo ponto, unificada pelo escolasticismo”; já o segundo corresponde a um período histórico específico “em que a geração, o processamento e a transmissão tornam-se uma das fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas” nessa formação social.18 Para aplicar-se o termo sociedade da informação, tendo em vista a centralidade contemporânea do fenômeno comunicacional, teriam que ser feitas ressalvas, enfatizando a não-superação da sociedade industrial e sua inserção num sistema de produção capitalista. O debate sobre o termo e seu uso vai além da

preocupação semântica, sendo importante porque a idéia de sociedade da informação esconde um juízo de valor, de apreciação positiva, somado à evidente constatação de um novo lugar da informação nas sociedades capitalistas.

Não obstante, historicamente manifestam-se reações negativas frente à tecnologia, geralmente em número inferior às posições de defesa. Um marco reativo é o movimento ludista, transcorrido no início do século XIX, na Inglaterra, quando operários desencadearam destruições de máquinas, numa percepção de que elas contribuiriam para o estabelecimento de relações sociais mais duras, em troca de um maior acúmulo de riquezas para seus proprietários.19 Mas a idéia de que aqueles que hoje não vêem a tecnologia como provocadora de desenvolvimento distributivista, por si mesma, são novos luddistas, ou neo-luddistas, carece de fundamento, já que a realidade atual é outra, o papel social de seus questionadores também é diferente e o tom do contraditório travado igualmente não é o mesmo. Não se trata agora de contraponto à tecnologia, mas de matização de seus efeitos e de defesa de uma regulamentação eficaz, que possa contribuir para a solução de questões emergentes quanto à técnica, como acesso aos dispostivos e formas de socialização e incorporação de resultados.

Os processos contemporâneos que redefinem o capitalismo fazem com que os mecanismos de mediação comunicacional, cultural e informacional sejam os veículos por excelência de apresentação e divulgação do viver capitalista. Por eles, o cidadão é descolado dos espaços de origem e aproximado da realidade mundializada. Para Castells, o processo de reestruturação capitalista foi e é “o valor histórico mais decisivo para a aceleração, encaminhamento e formação do paradigma da tecnologia da informação e para a indução de suas” atuais formas, representando o Estado um crucial fator neste quadro, interrompendo, promovendo ou liderando a inovação tecnológica, na medida em que organiza “as forças sociais dominantes em um espaço e uma época determinados”.20 Apesar dos traços inovadores acoplados aos modernos sistemas econômicos, não se identifica uma revolução efetiva. Há é uma mudança promovida no âmbito do capitalismo, cujos atores têm revelado uma inegável capacidade de adaptação, relacionada também com a apropriação da tecnologia como um todo, mesmo aquela que por ventura possa representar um desvio do modelo hegemônico.

A assunção crescente de um maior número de empresas ao mercado mundial impulsiona o desenvolvimento global de inovações tecnológicas, com objetivos de comunicação e circulação do capital, viabilizando a multiplicação de processos decisórios à distância, envolvendo da concepção inicial ao lançamento de projetos. Com o trânsito informativo colando-se dinamicamente às corporações, há uma redução dos custos de transação, ampliação da oferta e aumento do retorno do consumidor aos produtores, o que, por sua vez, estimula o crescimento da quantidade de produtos disponibilizados. Apoiados na regulamentação dos direitos de propriedade, os agentes investem mais acentuadamente na inovação, certos de sua apropriação privada e todas as conseqüências decorrentes dessa condição. Diante disso, evidencia-se o caráter de bem privado dos recursos informativos e seus fluxos, incorporados endógena e estrategicamente às estruturas econômicas, gerando disputas entre os participantes do mercado e inacessibilidade a parte da população.

As principais razões objetivas que permitem às novas tecnologias informativas modificar as formas de produção, gestão e comercialização na generalidade dos setores e introduzir novas atividades econômicas, conforme Juan Luis Millán Pereira, são a crescente dependência da informação, por parte dos diversos agentes intervenientes na economia; a definição de um adequado marco jurídico, consubstanciado nos direitos de propriedade, que garantiu a superação da condição de bem público; e a “aquisição do valor de troca, e não só de uso, por parte dos conteúdos informativos, ao possibilitar-se sua difusão massiva e/ou direcionada”.21 As mudanças tecnológicas, então, representam uma evolução do capitalismo, que, ao entrar em crise, reestrutura-se. A função destas novas tecnologias corresponde às necessidades atuais do capital social, que passa a atuar em áreas até então reservadas ao Estado, ao mesmo tempo em que são a principal difusora da cultura global, ordenadora de novas sociabilidades e estimuladoras do próprio movimento de reordenação do capitalismo.

Uso e formatação

Assim é que a idéia de inovação schumpeteriana distingue-se da invenção ou criação pura, só manifestando-se quando a invenção consegue impor-se no interior do sistema econômico, fazendo nascer um processo de “destruição criadora”.22 Cabe ao empresário schumpeteriano a função econômica de realizar a transformação da criação em inovação, por meio de sua validação econômica no mercado. Conforme Schumpeter, o que interessa não é o conhecimento, “mas o sucesso da solução, que se traduz na tarefa sui generis de pôr em prática um método não experimentado”, podendo não haver, como ocorre freqüentemente, nenhuma novidade científica aplicada, o que não faz diferença à natureza do processo, até porque nunca “o stock de conhecimentos científicos deu todos frutos que podia dar no sentido da sua aplicação ao desenvolvimento industrial”.23 O traço característico da inovação é sua repercussão nos negócios, distintamente da invenção e da experimentação. Envolve, acima de tudo, uma alteração histórica na forma de como os produtos são feitos e disponibilizados.

A forma como a invenção precisa consubstanciar-se em inovação, para sua absorção no mercado e uso pela sociedade, deixa pouco espaço para usos não-capitalistas. Contemporaneamente, a conexão entre tecnologia, indústria e quadro econômico total fica muito evidente, nos diversos países, diante da profusão de inovações que surgem, em regra ligadas ao avanço da microeletrônica, e as repercussões que apresentam. Assim é que o progresso econômico relaciona-se diretamente com a inovação, a qual apresenta progressivamente uma maior velocidade de sedimentação no tecido social, numa conexão entre tecnologia, forma de fazer as coisas, Estado e consumo. Defender o contrário seria cair no entendimento errôneo de que, independentemente do capitalismo, as novas tecnologias de comunicação são unicamente parte da evolução-expansão do homem. As sociedades primitivas não chegaram à complexidade atual por geração espontânea, nem a expansão dos signos e símbolos é resultado de relações mágicas. O que cria o contexto indispensável para isso são as relações sociais, que historicamente têm sido desiguais, por sua base econômica.

É na interação da tecnologia com as forças econômicas, o Estado e os usuários que se dará sua configuração, atualizando seu potencial em inovação, o que em geral ocorre em consonância com a forma predominante de organização social, atendendo a preceitos industriais e a processos globalmente imitativos. Se a sociedade rege-se pelas leis do capitalismo, é pouco provável que o uso principal da tecnologia seja em outro rumo; a tendência é o controle da inovação por empresas privadas, que implementarão ações para atraírem clientes. A questão da tecnologia e sua vinculação econômico-social deve ser refletida levando-se em conta não somente o financiamento, a concepção e o desenvolvimento da pesquisa que conduz à inovação, mas a regulação e sua apropriação pelo contexto, que em regra acaba direcionando a um aproveitamento em conformidade com a racionalidade empresarial. O uso comercial ganha um valor supremo, primeiro a ser perseguido, sendo a tecnologia, suas aplicações e seus usuários fetichizados, seguindo a regra capitalista.24

Nem toda invenção é definitivamente implantada ou assumida nos moldes inicialmente projetados. Explica Lopes da Silva que, desde a década de 70, existem sistemas de TV estereoscópica (em relevo) em estudo, baseada “na transmissão simultânea de duas imagens capazes de separação ótica, por exemplo por meio de prismas, ou de duas imagens de cores complementares, separáveis por meio de filtros”, permitindo “duas imagens com informação diferente do mesmo objeto, uma para cada olho”.25 Sua não industrialização até o presente comprova como, para a difusão tecnológica, não basta o processo de investigação científica, sendo considerados outros fatores, na trajetória entre a proposta e o uso. A inovação desenvolve-se também a partir de novas utilizações para um mesmo bem ou o direcionamento para uma determinada potencialidade não explorada do produto, num movimento em que o processo de uso, por parte dos consumidores, é muito importante. Sendo a partir da interação utente-tecnologia que se pode avançar e inovar, cresce o papel dos departamentos de atendimento ao consumidor, renovando-se ainda a função das pesquisas.

Patrice Flichy coloca como, em 10 anos, a telegrafia sem fios, cuja única utilização prevista era a telecomunicação ponto a ponto, transformou-se em um sistema radiodifusor, com a superação de seu aproveitamento inicial por alguns países combatentes na Primeira Guerra Mundial, principalmente por ter havido um movimento social no sentido desta passagem, incluindo radioamadores, de forma que a produção e comercialização industrial de aparelhos, bem como a posterior definição sobre o financiamento dos programas, consagrou a mudança fundamental do uso social do rádio, e a incorporação de seu papel de vetor de comunicação marítima em uma função mais global, de meio comunicativo de massa.26 Nesta viragem do rádio, que parte de uma simples extensão do telégrafo adaptada a condições especiais, como transmissões no mar, para um modelo massificador, fica escrita a importância do contato da tecnologia com todos os agentes econômicos diretamente intervenientes, como molde capaz de formatá-la conforme suas potencialidades e as necessidades de mercado.

O potencial tecnológico não leva escrito sobre si, como um catálogo de instruções, o próprio desenvolvimento aplicativo, podendo atualizar-se em uma multiplicidade de usos, de instituições e “de aparelhos utilizáveis em escala de massa”, condicionando “sua própria história peculiar” tendo em vista fatores como “o estado da economia, os hábitos de consumo, as condições políticas e a habilidade dos empreendedores”.27 Isso é a regra do desenvolvimento, como atesta o próprio telefone, que, anteriormente ao modo ponto a ponto assimilado globalmente, foi várias vezes testado como um mecanismo transmissor multiponto. Mesmo quando criada não exclusivamente por motivação econômica, a tecnologia tende a ser incorporada desta forma. Espalhando-se indistintamente, as construções tecnológicas colam-se no tempo em que se reproduzem, participando dos desafios individuais e coletivos diários, e transmitindo muito de sua lógica ao contexto no qual se desenvolveram. Na sociedade globalizada, as novas técnicas são absorvidas como mercadorias.

Progressivamente os sítios e portais na Internet desenvolvem todas as estratégias para captar a atenção do público com objetivos acentuadamente comerciais, sepultando as metas coletivistas da rede mundial. Assim, inserem-se no mesmo processo da indústria cultural tradicional, que implementa movimentos para gratificar os clientes e assim fidelizá-los. John Dimmick acentua que as “indústrias de comunicação competem e sobrevivem na base de sua habilidade de fornecer gratificações e o que nós chamamos oportunidades de gratificação (gratification opportunities)”, conceito relativo às escolhas, conveniência e flexibilidade no uso da mídia.28 Para isso, a estética tradicional, que contesta sem confrontar, disciplinando e normatizando como os agentes devem comportar-se para que sejam publicizados, ou seja, para que o mundo passe a saber de sua existência e suas manifestações possam produzir algum sentido, acaba permeando as redes, mesmo naqueles espaços que pretendem novos olhares, trazendo os mesmos vícios inerentes à sociedade capitalista, até porque a integram.

Neste cenário surge a convergência das comunicações como busca de maximização de lucros, oferecendo redes transportadoras de informações com altíssimas velocidades de processamento. Repousa a convergência na “homogeneização dos suportes, produtos, lógicas de emissão e consumo das indústrias info-comunicacionais” [telecomunicações, informática e audiovisual], incluída a mídia impressa, o que permite às plataformas suporem a viabilidade de imbricarem tecnologias, culturas e tradições de trato e distribuição de informação.29 Os impactos da convergência refletem-se na economia, na política e na cultura, originando possibilidades de manuseio específico da forma e do conteúdo inovativo, pelo receptor, que muda sua relação com o objeto, empresas fornecedoras e demais usuários, atingindo a sociabilidade. Para chegar-se à plena convergência, devem ser ultrapassadas as divergências, atravessando aspectos tecnológicos, organizacionais, regulamentares e de acolhida pelos utentes. Sem isto ter sido já alcançado, a convergência encontra-se em um estágio prematuro, distinguindo-se com significância sistemas distributivos e sua organização industrial.30

Os caminhos da tecnologia em grande parte são criados historicamente, ou seja, não compõem um processo inevitável. Por isso, o que sob o capitalismo é assumido como duto de rentabilização, eventualmente pode ser empregado num sentido mais pluralista. Nesta linha, Mosco e Herman lembram que a mesma convergência do processamento de dados e telecomunicações, que no regime capitalista tem o destino primeiro de centralizar o conhecimento, foi utilizada democraticamente para viabilizar a distribuição regular de material informativo nos processos micro e macroeconômicos, entre 1970 e 1973, pelo Governo de Unidade Popular do Chile, de Salvador Allende, o qual instituiu um sistema complexo de comunicações, que organizava e armazenava dados relativos ao desempenho da economia de todo o país em um computador central, que produzia quadros sintéticos colocados à disposição dos trabalhadores em seus lugares de trabalho, para amparar “decisões autônomas nas suas áreas de interesse”.31 Deve-se refletir o que representa de mudança para manifestações populares as novas possibilidades que são abertas e, na maioria das vezes, escondidas, ante o rumo em que a tecnologia vem sendo absorvida no contexto social.

É inegável que o barateamento das formas de produção e o surgimento de novas vias de distribuição, como a Internet e os canais de acesso público institucionalizados na Lei do Cabo, contribuem para que expressões de origem popular encontrem um novo espaço de exibição e discussão, enfim, de interação. A questão é que os produtos desenvolvidos fora desse contexto comercial ainda são inexpressivos em termos de representatividade. Desses, poucos efetivamente desafiam o capitalismo e não reproduzem o seu modelo, incorporando suas técnicas industriais de realização e comercialização. O processo de inovação tecnológica tende a marcar rupturas, ainda que parciais, com os modos de fazer precedentes, de forma que se conectam com o desenvolvimento de novas estéticas, podendo ser absorvidos de forma criativa, subvertendo o que está posto e, até, criando novos paralelos com propostas não-homogêneas. No entanto, tais rupturas tendem a ser periféricas ou incorporadas mercadologicamente, já que a médio prazo o capitalismo estabelece regulações das tecnologias de forma a favorecer o processo concorrencial entre os capitais individuais.

Entende-se ser possível obter avanços a partir da forma como a tecnologia é incorporada, mas, como se tem acentuado, não é a inovação em si, nem as indústrias da cultura ou suas mensagens, que, por si próprias, produzem mudanças. Não se descartando a possibilidade de subversão da tecnologia, trazendo para a experiência do mundo real dos excluídos a viabilidade de novos usos sociais, os dispositivos técnicos inserem-se e acompanham um quadro onde o aproveitamento de produção e distribuição comercial é a tônica. Os avanços que venham a se utilizar da mídia devem fazê-lo apesar das contradições desta e não porque haja uma condição natural dos meios massivos nesse sentido. No máximo, pode haver um aumento quantitativo dos capitais em disputa, o que assim mesmo deve ser relativizado, num momento em que a concentração das corporações midiáticas é um dado crescente. As mudanças resumem-se a novos agentes atuando em fases intermediárias, já que, nos momentos decisivos da cadeia econômica, as fusões entre grupos multimídia desvelam como a liberdade de informação é mais um mito, refortalecido pela globalização.


Considerações finais


Globalmente presentes em quase todos os negócios e assumindo posições crescentes junto aos consumidores, as tecnologias de comunicação e informação são expressões do capitalismo contemporâneo. Sendo assim, representam a continuidade, coadunadas com as condições econômico-político-culturais em que estão inseridas e nas quais foram concebidas e moldadas. Situa-se o potencial emancipatório num segundo plano, posicionando-se em primeiro lugar propósitos de produção e consumo capitalistas. O público é fidelizado como cliente, pagante de mensalidades, assinaturas e taxas, bem como receptor de publicidade, já que esta é crescentemente chamada a contribuir pecuniariamente na formação da receita das corporações atuantes na Internet. Não é a tecnologia que vai viabilizar eventuais superações da sociedade nos moldes em que está estabelecida, já que a técnica traz consigo o contexto sócio-econômico-cultural que a concebeu. A técnica pode colaborar com propostas solidárias, mas para tal será preciso subvertê-la, já que a regra é um modelo voltado prioritariamente para a reprodução do sistema, apesar de existirem brechas em meio à globalização.

Com isso, rejeita-se as proposições de que, ante os elementos comunicacionais e informacionais, processa-se uma revolução, originária de uma sociedade da informação. Não há uma alteração positiva de patamar social, seja analisando-se a partir de mudanças tecnológicas, de organização do trabalho, de distribuição da riqueza ou qualquer outro indicativo. Ao contrário, apesar de uma euforia ante os rearranjos capitalistas, verificada em diversos grupamentos e nos mais variados países, há um aumento dos desníveis sociais, que se materializam inclusive no acesso e uso dos eventuais benefícios dos novos equipamentos técnicos. Isto, que é um incremento da faceta mais individualista e cruel do capitalismo, como as que se identificam na desproteção ao trabalho, se facilitam a acumulação, comprometem a adesão ao sistema. Tal realidade permite projetar-se a probabilidade de, a médio prazo, ocorrer a retomada de algumas tradicionais tarefas estatais, retornando a protecionismos anteriores aos movimentos re-regulamentadores atuais e a revalorizações de projetos coletivistas, que superem subjetividades e individualismos, independentemente da tecnologia.



Referências

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* Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas na Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professor-adjunto na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). E-mail: .

1 MELLO, João Manuel Cardoso de. A contra-revolução liberal conservadora e a tradição crítica latino-americana. In: TAVARES, Maria da Conceição; FIORI, José Luís (Orgs). Poder e dinheiro: uma economia política da globalização. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 15-24. p. 23.

2 Entrega imediata, o que permite o desenvolvimento da atividade econômica sem estoques, com os insumos, matérias primas e produtos finais necessários sendo pedidos de acordo com o ritmo de produção e vendas.

3 SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Porto: Afrontamento, 2000. v. 1: Para um novo censo comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. p. 142-143.

4 CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996. p. 64.

5 Os departamentos financeiros das grandes empresas industriais de hoje têm uma crescida importância na geração de lucros. Portanto, quando se trata da expansão do capital financeiro, a abrangência envolve também o contingente do setor produtivo. Neste momento em que grandes negócios necessitam de recursos de forma ágil, objetivando efetivar transações rapidamente, é o capital financeiro que tem maior capacidade de efetivar a transferência necessária, por apresentar maior liquidez e, conseqüentemente, maior transferibilidade. Este fenômeno de financeirização acaba presente também nas corporações midiáticas, numa imbricação de interesses que afeta também a questão dos conteúdos, já que o fato de cada vez mais as empresas de comunicação estarem atreladas a grandes conglomerados pode refletir-se no tratamento dado às realidades sociais.

6 Representa a união do maior provedor de acesso à Internet do mundo, detentor de ativos como a mais importante operadora norte-americana de cabo (Time Warner Cable), com os conteúdos da principal empresa de entretenimento do planeta. A Time Warner inclui a Warner Bros, a Warner Music, a WEA, a HBO, a TNT, a CNN, a Cartoon Network, a Hanna Barbera, a Castle Rock, a New Line, a People, a Time, a Fortune, a Sports Illustrated, a Atari, 19% da rede de televisão e rádio CBS, equipes de basquete e futebol americano e outros negócios. Por outro lado, uma importante fusão, substancial mas inferior à negociação relativa à AOL e à Time Warner, ocorreu no mercado europeu. Somou US$ 100 bilhões a fusão entre o canal de TV paga Canal Plus, do grupo francês Vivendi, e a canadense Seagram Co., anunciada em 19 de junho de 2000, e que resultou na Vivendi Universal, com operações em cinema, televisão, música, edição, telefonia, Internet e parques temáticos. PEERS, Martin; DEOGUN, Nikhil. Vivendi, Canal Plus e Seagram decidem fusão hoje. O Estado de S. Paulo, 20 jun. 2000.

7 CHESNAIS, François, op. cit., p. 142.

8 Neste momento vê-se não só o agravamento da miséria na América Latina e a exclusão africana, mas a pobreza crescendo em grandes proporções no próprio seio do capitalismo mais desenvolvido, entre os países da União Européia, especificamente. No berço da implantação da política neoliberal, Londres, a realidade atual inclui a presença de vários mendigos e demais sem-teto perambulando pelas ruas. Na região que circunda a capital da Inglaterra, próxima ao Aeroporto de Heathrow, há um grande número de crianças e adultos, junto aos semáforos, aguardando a chegada dos automóveis, para oferecer a lavagem dos vidros dianteiros das conduções, em troca de algumas moedas, uma realidade tão conhecida do Brasil, Argentina e tantos países em dificuldades.

9 PRADO, Emili; FRANQUET, Rosa. Convergencia digital en el paraíso tecnológico: claroscuros de una revolución. Zer-Revista de Estudios de Comuniación, Bilbao, n. 4, p. 15-40, mayo 1998. p. 16.

10 As possibilidades de troca de sentido têm sido primordialmente desenvolvidas e utilizadas com objetivos restritos, comerciais e militares, desde o telégrafo aéreo ou ótico do final do século XVIII e mesmo antes disso.

11 LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. p. 194.

12 BELL, Daniel. El advenimiento de la sociedad post-industrial. Alianza: Madrid, 1989.

13 BECERRA, Martín. La vía europea hacia la Sociedad de la Información. Revista da Sociedade Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 35-56, jan./jun. 1998. p. 36.

14 MATTELART, Armand. Comunicação-mundo: história das idéias e das estratégias. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 143, 145.

15 ESTEVES, João Pissarra. A ética da comunicação e os media modernos: legitimidade e poder nas sociedades complexas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998. p. 173-174.

16 MIÈGE, Bernard. A multidimensionalidade da comunicação. In: BOLAÑO, César (Org.). Globalização e regionalização das comunicações. São Paulo: Educ, 1999. p. 13-28. p. 26.

17 A ciência deve cada vez mais consubstanciar-se em técnicas, seguindo o modelo implantado no século XX, com os Centros de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). A procura de uma utilidade econômica para a pesquisa, em seus resultados, cada vez mais espreme pensamentos, projetos e conclusões de grupos de investigação.

18 CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 1: A sociedade em rede. p. 46.

19 O movimento Luddites – iniciado em Nottingham, em 1811, e disseminado entre Yorkshire e Lancashire, até 1816, quando entrou em declínio – deve sua denominação a seu líder, Ned Ludd. A idéia de que atualmente os que se contrapõem à visão de autonomia da tecnologia são neo-luddistas advém de uma conexão construída envolvendo os dois grupos e tempos históricos.

20 Ibid., p. 31, 36.

21 PEREIRA, Juan Luis Millán. La economía de la información: análisis teóricos. Madrid: Trotta, 1993. p. 8-9.

22 SCHUMPETER, Joseph. A teoria do desenvolvimento econômico. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1985. p. 62-63.

23 SCHUMPETER, Joseph. A instabilidade do capitalismo. In: _____. Ensaios: empresários, inovação, ciclos de negócio e evolução do capitalismo. Oeiras: Celta, 1996. p. 42-66. p. 59.

24 Assim, o que poderia ser um meio para colaborar numa vida digna, repleta de outros valores, tornou-se o próprio fim. A conseqüência é esse mundo materializado e materializante, de violência e banalização.

25 LOPES DA SILVA, Manuel José. História técnica da TV. In: LOPES DA SILVA, Manuel José; TEVES, Vasco Hogan. Vamos falar de televisão. Lisboa: Verbo, 1971. p. 7-90. p. 85.

26 FLICHY, Patrice. Storia della comunicazione moderna: sfera pubblica e dimensione privata. Bologna: Baskerville, 1994. p. 176-183.

27 IOPOLLO, Domenico; PILATI, Antonio. Il supermercato delle immagini: scenari della televisione europea nell’epoca digitale. Milano: Sperling & Kupfer, 1999. p. 7.

28 DIMMICK, John. Ecology, economics, and gratification utilities. In: ALEXANDER, Alison; OWERS, James; CARVETH, Rod. Media Economics: theory and practice. Hillsdale, New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, 1993. p. 135-156. p. 140.

29 BECERRA, Martín. De la divergencia a la convergencia en la sociedad informacional: fortalezas y debilidades de um processo inconcluso. Zer-Revista de Estudios de Comuniación, Bilbao, n. 8, p. 93-112, mayo 2000. p. 95.

30 PARSONS, Patrick R.; FRIEDER, Robert M. Distribution, competition and convergence: “the waltz of the elephants”. In: _____. The cable and satellite television industries. Boston: Ally and Bacon, 1998. p. 115-156. p. 117.

31 MOSCO, Vincent; HERMAN, Andrew. Critical theory and eletronic media. Theory and society, Amsterdan, v. 6, n. 10, p. 869-896, 1981. p. 888.


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