Novo Comentário Bíblico Contemporâneo atos



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Título e Propósito


O título não é original. Foi cunhado algum tempo depois de cortar-se a conexão do livro com o evangelho e, talvez, à época em que recebeu reconhecimento como livro canônico. A origem do nome pode estar no fato de esse livro vir antes das cartas, no Cânon, representando "atos" em vez de "palavras". A ocorrência mais antiga desse título encontra-se no prólogo antimarcionita ao Evangelho de Lucas (cerca de 180 d.C), sob a forma de "[os] Atos dos Apóstolos" (Gr. Praxeis Apostolori). Um pouco mais tarde o Cânon Muratório o intitulou "Atos de Todos os Apóstolos". Subseqüentemente outras variações apareceram, mas seja qual for a forma, esse nome para o livro não é adequado, nem exato. Dos doze apóstolos originais, lemos muita coisa a respeito de Pedro, um pouco a respeito de João e de Judas, e nada absolutamente sobre os demais, exceto uma menção ocasional de "os apóstolos" (a última das quais no cap. 15), e uma lista de seus nomes em 1:13. Por outro lado, o livro nos apresenta grande número de personagens que não eram após­tolos. Dezesseis dos vinte e oito capítulos são dedicados a Paulo.

Tampouco o título dá-nos alguma indicação dos propósitos de Lucas. Estes devem ser encontrados nos primeiros versículos de abertura. O livro se inicia com menção ao evangelho de Lucas, no qual "todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar" (assim diz o grego) estão registradas. Esta descrição do primeiro volume implica em que o segun­do contém tudo quanto Jesus continuou a fazer e a ensinar. Mas de que maneira Jesus continuou sua obra? O propósito de Atos é responder a essa pergunta, e a chave do livro encontra-se em 1:8. Ali foi dito aos apóstolos que receberiam poder quando o Espírito Santo viesse sobre eles e, nesse poder eles sairiam por todo o mundo, como testemunhas de Jesus. Prosseguiriam o ensino e as obras de Jesus. Seria como Jesus havia dito: "Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita" (Lucas 10:16). Cumpre-se o que Jesus havia prometido em Lucas 6:40 — que o discípulo seria como seu mestre. Por isso, visto que o Espírito Santo havia vindo, Pedro podia curar "em nome de Jesus" (3:6, 16, etc.) ou simplesmente declarar, "Jesus Cristo te dá saúde" (9:34). Era uma Pessoa, porque Jesus estava ativo e presente no mundo — não como antes, mas em suas testemunhas inspiradas pelo Espírito Santo. É digno de nota que neste livro o Espírito Santo é chamado de Espírito de Jesus (16:7).

É nesse contexto que devemos entender a ênfase que Lucas dá à pessoa de Paulo. Isso não aconteceu a fim de defender a memória de Paulo, como às vezes alguém sugere, mas para apresentá-lo como o "modelo das testemunhas"(25). Na mente de Lucas, a grande importância deste ho­mem jazia no fato de ele não ser um apóstolo — não, pelo menos, no sentido em que Pedro era — Paulo não foi um dos Doze (embora Lucas soubesse que Paulo usava esse título). Diferentemente de Pedro, Paulo não havia estado com Jesus nos dias de sua encarnação (cp. 1:21 s.), nem estivera presente no dia do derramamento do Espírito Santo. Entretanto, as realizações de Paulo não foram inferiores às de Pedro (Lucas, muito deliberadamente traça uma série de paralelismos entre Pedro na primeira metade do livro, e Paulo, na segunda metade, enfatizando precisamente este ponto). Assim é que Paulo representa a continuidade da obra de Jesus, desde os tempos dos apóstolos até os dias do próprio Lucas. Visto ser Paulo um crente dos últimos dias, sua vida e obra — mais do que as dos Doze —constituía um ideal a ser colocado diante dos demais crentes que não haviam estado presentes naqueles excitantes primeiros dias do início da igreja. A semelhança de Paulo, todos os crentes poderiam testemunhar eficazmente para Jesus Cristo. Em todos os crentes, e não só na primeira geração de discípulos, o Senhor estaria prosseguindo sua obra.

Fica claro que Lucas estava escrevendo para crentes (representados por Teófilo), o que explica os numerosos temas diferentes espalhados pelo livro todo. Um desses é o do cumprimento profético. Em certo sentido, o livro todo de Atos pode ser considerado uma espécie de comentário de um texto: "Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vedes, e não o viram, e ouvir o que ouvis, e não o ouviram" (Lucas 10:23s.). I ucas desejava que seus leitores entendessem que constituíam um povo privilegiado e, sob essa luz, encorajá-los a prosseguir na obra.

Um segundo tema é o da compatibilidade entre a igreja e o estado. Há nesse livro "uma atitude surpreendentemente irônica, e isso sem a menor sombra de dúvida, a respeito de Roma"(26). Essa atitude tem sido explicada com freqüência em termos de um hipotético interesse da parte de Lucas em convencer as autoridades romanas de que o cristianismo era politicamente "seguro". Todavia, C. K. Barrett faz uma penetrante observação: "nenhuma autoridade romana jamais filtraria um volume substancial de coisas que considerava lixo teológico e eclesiástico a fim de obter um grãozinho de apologia relevante"(27). É melhor, então, explicar essa motivação em termos de atendimento às necessidades dos crentes. Argumenta Maddox que na igreja dos dias de Lucas havia um ressentimento crescente contra o estado romano e, junto a esse ressenti­mento, uma inclinação para confrontar o estado e transformar as teste­munhas de Cristo em mártires. Entretanto, essa não era a tática de Lucas. Daí decorre seu cuidado em "atrair a atenção para a inocência política dos cristãos, e assumir, no todo, uma atitude otimista quanto ao governo imperial". O ponto de vista de Lucas era que a própria essência do espírito dos cristãos consistia em "viver em paz com o poder soberano, tanto quanto fosse possível" e adotar "um estilo de vida sóbrio, inofensivo, e uma atitude de respeito para com o governo"(28).

Outro tema é que os judeus excluem-se da salvação por causa de sua persistente hostilidade contra o evangelho. Todavia, por que razão Lucas precisaria insistir neste ponto perante leitores cristãos? Talvez por que os leitores de Lucas corressem o perigo de mudar de pensamento. Talvez pudessem ser levados a pensar que os cristãos (não os judeus) é que estavam excluídos da salvação. Foi por essa altura que os judeus intro­duziram em sua liturgia uma oração em que suplicavam que os apóstatas ficassem privados de toda esperança, e que os nazarenos e todos os demais hereges se perdessem. As atitudes odientas endureciam-se de ambos os lados, de modo que Lucas poderia ter sentido que seria bom a igreja ver de que lado estavam os hereges e de que lado o povo de Deus. Por causa de sua forte tradição, os judeus exerciam grande influência. A atitude deles para com os cristãos está bem expressa em João 2:28-29: "Discípulo dele sejas tu! Nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés, mas este nem mesmo sabemos de onde é". A resposta de Lucas foi mostrar que Jesus havia cumprido tudo quanto Deus havia anunciado por meio dos profetas, de modo que todo aquele que não o aceitasse estaria separado do povo de Deus e destruído (3:23). Os judeus — não os cristãos, seus leitores — é que eram apóstatas e hereges; eles é que estavam excluídos, e isto por sua própria escolha, visto que o evangelho havia sido pregado a eles desde o princípio.

Todavia, se Atos havia sido escrito com a finalidade de atingir a esses objetivos didáticos, não somos porventura levados de volta ao ponto inicial do círculo, à questão da confiabilidade da história de Lucas? Podemos confiar em Lucas? Com freqüência esta pergunta é formulada como se Lucas só pudesse ser uma coisa ou outra — um historiador ou um teólogo, mas não ambos ao mesmo tempo. Entretanto, não há razão alguma pela qual ele não poderia ser ambos simultaneamente, escreven­do com um propósito definido, mas ao mesmo tempo fornecendo-nos um relato confiável de tudo que aconteceu. Afinal, Lucas expressamente afirma que foi seu propósito teológico que o motivou: "Pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio" (Lucas 1:3). Observa muito bem Hengel: "O sistema radical 'redacional-crítico' tão popular hoje, que vê Lucas acima de tudo como um teólogo que inventa coisas livremente, é método que perde de vista o propósito real de Lucas, a saber, que este'historiador' cristão propõe-se a relatar os acontecimentos do passado que provêem os alicerces da fé e sua extensão. Seu objetivo primordial não é apresentar sua própria 'teologia"(29).

Resumamos, então: se tivéssemos que localizar uma expressão "de cobertura" que caracterizasse Lucas o escritor, nenhuma palavra o des­creveria melhor do que a palavra "pastor". Lucas "desejava escrever uma hislória, mas história que trouxesse uma mensagem a seus contemporâ­neos. Esta ênfase na motivação prática e pastoral dos escritos de Lucas deixa ampla margem para distinguirmos vários temas dentro desta des­crição genérica e, ao mesmo tempo, mostra-nos onde se encontra o centro de gravidade dos interesses de Lucas. Ele se interessava primordialmente pelos problemas práticos, não pelos 'teológicos'"(30). Preocupava-se com a igreja de seus dias: ela devia entender onde estava, e o que devia fazer. Todavia, Lucas escreve como alguém que tem certeza absoluta de haver cumprido seu dever sagrado, consciente e integralmente. Não descobrimos razões para duvidar dele. Conquanto sua história tenha ficado incompleta, podemos lê-la crendo que tudo quanto ele escreveu é Verdadeiro, e que pessoas comuns, cheias do Espírito Santo, realizavam Feitos incomuns, extraordinários. Aqueles milagres foram realizados “em nome de Jesus", sendo essa a razão por que "têm alvoroçado o mundo". Atos termina em 28:31, mas a história de Jesus prossegue onde quer que seu Espírito encontre homens e mulheres dispostos a crer, a obedecer, a dar, a sofrer e, se necessário, morrer por ele.





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