Nótula sôbre o exemplar de Chaucer da Biblioteca Municipal do Pôrto



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Nótula sôbre o exemplar de Chaucer da Biblioteca Municipal do Pôrto

Entre os livros apartados pela sua antiguidade e rari­dade na Biblioteca Municipal do Porto, figúra um exemplar de uma edição das obras de Chaucer. É um exemplar trun­cado; acerca dele resa o catálogo textualmente (salvo apenas a ortografia do português):

"Chaucer (Geoffrey): — The Caunterburie tales. (Segui­do de) "The Romaunt of the Rose”. E outras poesias, principalmente Baladas; e também a tradução inglesa de "Boecius: de consolatione.”

"Edição in fólio, gótico, a 2 colunas, do meado do século XVI. (falta o último ou últimos fólios em que se acha­va o Cólofon). Existem 375 fólios, tendo o último deles o reclamo How.”

"O fronTespício dos Canterbury tales e do Romance
da Rosa são formados por uma estampa a traço (a mesma
em ambos) contendo os retratos de todos os personagens
das casas riais (York e Lancaster), "a rosa branca e a rosa
vermelha”, figurando ramos de dois troncos opostos que
saem dos cantos inferiores da estampa, e se reúnem no
cimo simbolizando o enlace das ditas casas e terminando
pelo fruto desse enlace — O rei Henrique viu (a quem pro­-
vavelmente era dedicada a edição).”

"Como contém o Ploughman's tale é evidentemente posterior a 1542.”

(Suplemento geral ao catálogo, fascículo 2.o, "Obras acrescidas”,
pág. 213).

Do facto de só aparecer registado no suplemento vê-se, aparte quaisquer conclusões sobre a sua aquisição (v. i.), que a, inscrição se deve ao insigne bibliotecário de então Dr. Eduardo Augusto Allen, de ascendência inglesa.

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Com o auxílio do excelente e exaustivo trabalho da Dr.a Eleanor Prescott Hammond, intitulado "Chaucer, a Bibliographical Manual”, facilmente identificámos a edição. Foram numerosas as edições antigas de Chaucer, de obras isoladas ou coligidas, desde a primeira publicação dos Contos de Cantuária pelo célebre Caxton, talvez de 1478. Das edições de obras coligidas a primeira é a de Pynson, de 1526, a segunda a de Thynne, 1532, a terceira e quarta do mesmo, de 1542 e sem data, respectivamente; e a quinta a de Stow, de 1561. E' a esta que pertence o exemplar da Biblioteca do Pôrto.



E' curioso que Allen, tendo dado a notícia que trans­crevemos, e sem nada lhe acrescentar em uma primeira referência da Tábua sinóptica final — viu, Literatura e Poligrafia, § 2°, Literatura inventiva, pag, 235 —no § 4.° Bibliografia, Paleografia, etc., e só aí (pag. 236), acrescenta á menção do livro, entre parêntesis, a pregunta: (de 1561?)

Vê-se pois quão perto da verdade ele andou. Quanto à sua referencia ao "Plowman's tale”, aparece de facto (o de autor desconhecido) publicado em 1542 na segunda edição de Thynne, atribuído a Chaucer; porem já fora impresso isola­damente, sem data. mas, segundo Skeat, circa 1532-35.

Da edição de Stow fizeram-se duas tiragens que mostram
entre si pequena diferença. A primeira tem no prólogo dos
contos 26 gravuras em madeira representando peregrinos,
já empregadas por Pynson; como o exemplar da Biblioteca
as não apresenta, pertence claramente à segunda impressão,
Quanto propriamente à identificação da edição, não oferece
ela dúvida alguma. Bastavam as gravuras figurando a as­
cendência de Henrique viu para nos elucidar; confe-­
rimos no entanto minuciosamente todas as indicações de
Hammond, sem encontrar discrepância. Em particular veri-
ficámos a existência da seguinte nota, em que aparece o
nome do editor: .

"Here foloweth certaine woorkes of Geffray Chauser, whiche hath not here tofore been printed, and are gathered and added to this booke by lhon Stowe.” (1)

(1) Noto em todo o caso duas diferenças, pois Hammond tem Chau-cer e Iohn. Ou se guiou talvez pela primeira tiragem, ou são lapsos de copia ou de revisão.

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Seja dito de passagem que, das produções assim acres­centadas, só duas ou três são hoje consideradas autênticas; Stow, alfaiate feito antiquário, entendeu exceder as edições anteriores, juntando-lhes tudo quanto de Chaucer lhe pareceu, e ainda, mas declaradamente o atribuindo a Lydgate, «The siege and destruccion of the worthy citee of Thebes». Deve porém observar-se que da sorte daqueles acrescentamentos partilham bastantes das produções ante­riores ao seu aviso, o qual vem ao alto do folio cccxl.



Êste mesmo Stow é o autor de várias obras, das quais se destaca a Survey of London, importante acima de tudo pelas suas minuciosas informações acerca da cidade nos tempos isabelinos, e que passou por várias reedições, sendo uma na vida do autor, e a terceira e quarta por aquele Anthony Munday que tem para nós o interesse especial de ter sido tradutor (embora não do português) do Palmeirim e do Amadis. Mas na sua Survey nova judiaria faz a Chau-cer: reincidindo em superficialidade... sartória, desloca o túmulo do poeta para os claustros de Westminster. Por alguma coisa teve Jaime I de lhe conceder, nos últimos anos da sua vida, licença para pedir «amongsf our loving subjects their voluntary contributions and kind gratuities»...

Na mesma Survey, Stow diz ainda que as obras de Chaucer, duplicadas (!) por êle em 1561, foram «beautified with notes by me, collected out of divers records and mo-numents, which I detivered to my loving friend Th. Speght», etc, Speght é o editor de Chaucer que se segue (1598, 1602 e 1087); e Stow deu ainda para as suas edições uma lista das obras de John Lydgate, que tinha dicididamente a mania de impingir, e de quem diz possuir muitos manuscritos.

Quanto ao exemplar da Biblioteca propriamente, em primeiro lugar devemos completar as indicações de Allen sobre os fólios que faltam (1); não só no fim do livro se perderam (mas apenas da Story of Thebes de Lydgate), senão também no princípio as folhas contendo:

o frontispício (do qual não constava o nome de Stow);

uma carta dedicatória de Thynne (2) a Henrique

(1) Segundo o Dr. Hammond o texto regista-se pelas letras A i-U vi, Aa-Zz, Aaa-Uuu vi, com mais duas folhas. Começando o exem­plar de que tratamos por A.ii e terminando por Uuu.v, vê-se que faltam exactamente uma folha de texto no princípio e três no fim.

(2) A carta não era realmente de Thynne, mas de Sir Brian Tuke,

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vm, reproduzida das suas edições. (Ainda aqui Allen quasi que acertou como se vê);
o índice;

quatro breves poemas impressos também na edi­ção de Thynne depois do índice, e que não são de Chaucer.

Segue-se-lhe a portada dos Canterbury Tales, primeiro fólio no exemplar a que nos reportamos; a confusão de Allen quanto a esta falta dos primeiros fólios vem talvez de que a numeração destes ao alto começa apenas depois do Prólogo, no Knightes Tale. Do mesmo modo o título da obra na segunda tiragem é, não The Caunterbarie tales, mas

The workes of Geffrey Chau- \ cer, newly prinied, with diuers ad- \ dicions, whiche were neuer in printe before: With the siege and \ destruccion of the worthy citee of Thebes, compiled \ by Jhon Lidgate, Monke of Berie. \ As in the table more plainly \ dooeth appere. |

Ao título segue-se uma grande estampa do brazão do Chaucer, com o dístico:



Vertue flourisheth in Chaucer still,

Though deathe of hym, hath wrought his will.

O cólofon é o mesmo nas duas tiragens:



Imprinted at Lon- don by Jhon Kingston for Jhon \ Wight, dwellyng in Poules \ Churchyarde \ Anno. 1561.. \

Se a Biblioteca do Pôrto quizesse reconstituir em manus­-


crito as folhas que faltam poderia fazê-lo aproveitando estes
elementos e, com referência às do princípio, copiando-as
da edição fac-simile da de Thynne, 1532, publicada pela
Oxford University Press ao preço de 5 guinéus, mas de
que vemos anunciado um exemplar pelos livreiros da ocasião
W. Heffer &. Sons, de Cambridge, por 3 guineus. Quanto
a completar a Historia de Tebas o problema será difícil,
porque só estão reproduzidos modernamente) que saibamos,
o Prólogo, a primeira parte. Mas, como acentuámos, nenhuma
produção de Chaucer falta neste exemplar. De mais conve-­
niência, no entanto, seria a substituição do seu índice manus­-
crito por outro menos deficiente. .

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Aparte as mutilações apontadas o exemplar da Biblio­teca do Pôrto apresenta-se bem conservado; apenas para o fim alguma coisa picado de bicho, afectando por vezes o texto.

Apresenta várias frases manuscritas, nem sempre facil­mente inteligíveis, e que em geral se nos afiguraram de ne­nhuma consequência. Logo na portada dos Contos escreve­ram o nome de Ghaucer, com a indicação, como se sabe errada, de que ele era "brother in law to John of Gaunt & Great Duke of Lancaster”; na mesma portada, ao alto, figura três vezes a data de 1718; mas no corpo do livro, em varia­dos sítios, e em uma caligrafia mais antiga, quinhentista ou seiscentista talvez, aparece o nome de William Bassett como seu possuidor, no fol. 48 v. muito declaradamente:



William Bassett is the right oner of this Boke.

Noutro sítio parece ler-se W. Bassett, Birmingham (?).


Particularidade curiosa destas notas do baixo da página é a de serem todas feitas com o livro invertido. O nome de Tomas também aparece algumas vezes, com diferentes apeli­dos, mas em nenhum caso com a indicação clara de ter pos-suido o livro, e aparentemente na mesma letra que as outras inscrições: a que aludimos. É ainda possível, contudo, que estas anotações não sejam todas do mesmo punho. Algumas, principalmente das laterais, foram cortadas pelo encaderna­dor. Em vários sítios as frases manuscritas estão oblitera­das a traço, e não conseguimos decifrá-las.

Ainda procurámos ver se este sr. William Bassett não seria alguma figura menor que constasse das enciclopédias: com a sua aquisição demonstra interesses literários, embora as suas notas não constituam positivamente uma revelação. Mas nada encontrámos mediante os recursos da Biblioteca, faltando-nos o monumental Dictionary of National Bio-graphy, único que verdadeiramente poderia ser decisivo. De­vemos ainda acrescentar que não há probabilidade alguma de se tratar do medíocre poeta William Basse, que foi amigo do William Browne, e viveu na primeira metade do século xvn. Escrevia o seu nome tambêm Bas, mas não Bassett ou Basset, como o "right owner” de que tratamos.

Pedimos ao proficiente conservador da Biblioteca Sr. João de Sousa elementos para a história dêste exemplar, mas infelizmente nenhum nos pôde fornecer. O 2.° fascículo

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do Suplemento do Catálogo, na parte das "Obras acrescidas durante a impressão”, faz referência expressa ao período de Março a Junho de 1872. Porém o Sr. Sousa diz que se po­derá tratar não de obra adquirida na ocasião, mas só então descoberta no «fundo» da Biblioteca. Procurou ver se en­contrava menção dela nos papeis desse tempo, mas nada lhe foi dado descobrir.

Quanto finalmente ao seu valor, lemos na obra que nos guiou, e que é de 1908, a indicação de que no catálogo n.° 243 do livreiro antiquário Quaritch as primeiras varian­tes eram cotadas a £ 48 e £ 40; e que o mesmo catálogo considera «barato» um exemplar da segunda por £ 21. En­contrámos também um exemplar oferecido à venda no catá­logo de livros de ocasião n.° 180, de 1919, da casa Heffer, a que já fizemos referência. Esclarecendo que contêm «um certo número de rasuras e notas manuscritas no título e última folha, em uma letra antiga», e que «algumas páginas estão picadas pelo bicho, afectando levemente o texto», pede por ele, com a nota de ser — very scarce, o preço de 15 guinéus.



E que a edição, entretanto, não é considerada falha de importância, prova-o a menção expressa que faz Hammond de que a Universidade de Columbia possui um exemplar, levemente imperfeito, da primeira variante, e a de Harvard outro, da segunda.

Luís cardim.
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