Nunca o caminho percorrido é o mais acertado (…)



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Da cabeça aos pés

“Nunca o caminho percorrido é o mais acertado (…)”.
António Maria Lisboa

(in Erro Próprio, 1950)



Évora-Amesterdão-Évora

(Introdução)


Quarenta anos depois de José M. Rodrigues ter partido de Évora para o estrangeiro, em 1968, e quinze anos depois de ter regressado a Portugal, em 1993, chegou a altura de revisitar o percurso fotográfico do artista através de segmentos da sua produção experimental.

Considerando a relevância do experimentalismo na obra de José M. Rodrigues, não só no que respeita aos seus fundamentos históricos, mas também enquanto atitude íntima, esta exposição propõe-se seguir-lhe os passos experimentais desde 1972 até ao presente, com particular incidência na década de 1980, período de acentuada dedicação do autor à “fotografia criativa” holandesa e de aproximação aos movimentos de vanguarda do centro da Europa.

Todavia, sendo já de si difícil qualquer classificação exacta no que respeita aos diversos caminhos da fotografia contemporânea, delimitar os passos experimentais de José M. Rodrigues e ao mesmo tempo seleccionar os de maior amplitude, viria a revelar-se uma tarefa particularmente complexa. Porque a sua vasta obra tanto conjuga influências dos movimentos da fotoarte e da arte conceptual, ou do cinema experimental e das artes performativas, como abrange “citações” de várias épocas da história da fotografia e a exploração de recursos estritamente fotográficos.

É portanto uma obra multifacetada e labiríntica, configurando na sua globalidade “desconcertantes factores de unidade e diversidade, de continuidade e rotura”, conforme se assinalou em Solo a Solo (Centro de Artes de Sines, 2006), exposição que apresentou uma extensa série de retratos na qual, pela inversão aparente das imagens, José M. Rodrigues retoma o sentido experimental que dominou o seu discurso fotográfico na década de 1980.


Por iniciativa da Fundação Eugénio de Almeida, tornou-se possível levar a efeito esta “Antologia Experimental” em Évora, cidade a que José M. Rodrigues se encontra ligado desde a infância e onde actualmente reside e trabalha, onde fez também a sua primeira exposição individual (Fotografia, Museu de Évora, 1981) e onde publicou o seu primeiro livro (A Viagem, 1983). Trata-se, sem dúvida, de um tributo da cidade a José M. Rodrigues, mas também de um contributo para a revisitação da sua obra fotográfica no contexto da arte portuguesa contemporânea.

Transformado agora numa espécie de “museu transitório” dedicado unicamente ao percurso de José M. Rodrigues, o antigo Palácio da Inquisição, com seus velhos fantasmas e novas possibilidades, ainda sem antecedentes no campo das artes visuais e despido de infra-estruturas museográficas permanentes, constitui ele próprio um excelente lugar de experimentação. Proporciona, simultaneamente, formas de diálogo estimulantes entre projectos de arte contemporânea e referências culturais milenares, dada a localização privilegiada do edifício junto dos mais notáveis monumentos e testemunhos arqueológicos e artísticos da cidade de Évora.


A “recuperação do passado” no estúdio fotográfico da Quinta da Cancelinha, nos arredores de Évora, teve também o seu quê de reconstituição arqueológica: peças que surpreendentemente encaixavam umas nas outras, coincidências mágicas, pequenos milagres. E claro que houve também (mercê de um passado de aventura, entre paixões, viagens, mudanças de estúdio) algumas decepções: documentação escassa sobre intervenções efémeras, peças originais perdidas para sempre ou em paradeiro desconhecido, e ainda peças que não foi possível reunir a tempo para integrar a exposição.

Foto-objectos e foto-instalações, filmes e vídeo-instalações, séries e conjuntos fotográficos, registos da actividade performativa e documentação diversa, distribuem-se por catorze núcleos expositivos não cronológicos que ocupam o átrio do piso térreo e todas as salas do piso superior do Palácio da Inquisição. Traços da história do lugar cruzam-se inesperadamente com a história individual do artista, ajudando a moldar este projecto cuja escala e conteúdos foram ajustados à topografia do edifício, tendo em conta múltiplas ligações entre antigos e recentes trabalhos do autor.

Incluem-se obras mostradas entre nós uma única vez em resultado do trabalho de Jorge Calado para a grande exposição Ofertório – Retrospectiva 1972-1997 (Lisboa, Culturgest, 1999), bem como outras obras pouco divulgadas ou inéditas, algumas das quais foram alvo de operações de restauro ou de reconstituição minuciosa.

Esta Antologia Experimental, cujos preparativos se iniciaram no Outono de 2006, tem como principais pontos de referência o núcleo Solo a Solo, que inclui alguns retratos da série que deu origem ao actual projecto expositivo, e o núcleo-manifesto Crina, que recupera uma antiga homenagem a Ernesto de Sousa, com reconstituição de um filme-performance de 1984, entre outras obras do mesmo período.


Rui Oliveira


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