O amor sobrenano de cristo rei do universo



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O AMOR SOBRENANO DE CRISTO REI DO UNIVERSO

Pe. José Eduardo de Oliveira e Silva*

“Por que se tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações? Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo”. Quando chegam aos nossos ouvidos ou passam diante dos nossos olhos estas palavras iniciais do Salmo II, é inevitável que deixemos de pensar no panorama atual de declarada oposição de uma parte significativa da sociedade e dos dirigentes deste mundo para com Cristo e a sua Igreja.

Este era o cenário esboçado pelo Papa Pio XI quando, no ano de 1925, instituíra a festa de “Cristo Rei”. Com uma lucidez admirável e uma visão de futuro extraordinária, escrevia: “Julgamos como a chaga dos nossos tempos o chamado laicismo, com seus erros e abomináveis intentos;... tal impiedade não amadureceu num só dia, mas que se inculcava há muitos anos nas entranhas da sociedade. Começou-se por negar o império de Cristo sobre todas as gentes; negou-se à Igreja o direito, fundado no direito do próprio Cristo, de ensinar ao gênero humano... Depois, pouco a pouco, a religião cristã foi igualada com as demais religiões...; foi rapidamente submetida ao poder civil e à arbitrária permissão dos governantes e magistrados... houve alguns destes que imaginaram substituir a religião cristã por uma ‘certa religião natural’, com certos sentimentos puramente humanos. Não faltaram estados que acreditavam poder passar-se por Deus e puseram sua religião na impiedade e no desprezo de Deus.” (Pio XI, Encíclica Quas Primas, n. 23).

Com a esperança de remediar estes males, então, introduziu esta Solenidade Litúrgica na Igreja, afim de impulsionar “a sociedade a voltar-se para nosso amadíssimo Salvador”, pois, “quanto mais se oprime com indigno silêncio o nome suavíssimo de nosso Redentor, nas reuniões internacionais e nos Parlamentos, tanto mais alto se deve gritá-lo e com maior publicidade se devem afirmar os direitos de sua real dignidade e potestade” (Idem, n. 25).

Longe de contradizer tal realidade, o Magistério atual a tem sublinhado de diversas formas. Num de seus últimos discursos, ainda no ano de 2005, ano de seu falecimento, o Servo de Deus Papa João Paulo II, não hesitava em afirmar que “no âmbito social está a difundir-se também uma mentalidade inspirada no laicismo, ideologia que leva gradualmente, de maneira mais ou menos consciente, à restrição da liberdade religiosa a ponto de promover o desprezo ou a ignorância do âmbito religioso, encerrando a fé na esfera privada e opondo-se à sua expressão pública” (Discurso, 24.I.2005). Cada vez mais esta restrição vem dando espaço, de diferentes modos nas diferentes regiões do globo, a uma verdadeira hostilidade em relação à fé e à Igreja. Atualmente, é proibido, em nome da liberdade e do pluralismo, declarar-se contra qualquer espécie de opção pessoal ou de qualquer crença, por mais estranhos que sejam; ao mesmo tempo em que está altamente em moda e, ademais, considera-se politicamente corretíssimo criticar violentamente a fé cristã, sobretudo a Igreja, sem que os cristãos tenham reconhecido o seu direito de expressar seus argumentos, enquanto cidadãos livres e inteligentes, em questões de moral e de política, dentro do debate social.

A Solenidade de Cristo Rei vem lembrar-nos a soberania de Nosso Senhor em duas dimensões principais: de um lado, sobre toda a criação, exercida não apenas pela sua natureza divina, mas também pelo seu sacrifício redentor no Calvário, que o faz ser, por direito e enquanto homem, “o primogênito dentre os mortos e soberano dos reis da terra” (Ap 1,5), que triunfará sobre todo poder, “e seu reino não terá fim” (Lc 1,33); e, de outro lado, que este seu reinado, embora tenha de ser consumado, já é uma realidade presente, da qual participamos pela sua graça.

Contudo, para compreendermos que tipo de presença este Reino tem em nosso meio, o Papa Bento XVI, numa muito bem fundamentada interpretação do conceito de “Reino de Deus”, nos ensina que “falando do Reino de Deus, Jesus anuncia simplesmente a Deus, isto é, ao Deus vivo, que é capaz de atuar no mundo e na história de um modo concreto, e precisamente agora o está fazendo... Neste sentido, a mensagem de Jesus é muito simples: Deus atua agora; esta é a hora em que Deus, de uma maneira que supera qualquer modalidade precedente, se manifesta na história como seu verdadeiro Senhor, como o Deus vivo.” (Jesus de Nazaré, cap. III). Mas a pergunta ainda persiste: onde está este Reino? Mais uma vez, responde-nos o Papa: “o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança” (Spes Salve, n. 31).

É pelo amor que temos acesso ao Reino de Cristo. Mas não por um amor teórico, talvez composto de um sentimentalismo vago e cômodo; menos ainda por um amor soberbo que se sente portador de uma ideologia capaz de solucionar todos os problemas do mundo. O verdadeiro amor de Cristo não é fruto das nossas forças impotentes: é puro dom a ser recebido. Como não ouvirmos a voz anciã do discípulo amado a exclamar enfaticamente: “nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou” (1Jo 4,10)?...

Receber o seu amor, portanto, é a nossa resposta imprescindível e, sem ela, nada pode ser feito. É neste contexto – do amor a ser respondido – que a soberania de Cristo é desprezada na humanidade. O laicismo não é a recusa de uma doutrina ou de uma instituição: é a recusa e o fechamento ao amor divino. Por isso, aqueles se comprometem com o Reino de Cristo devem viver totalmente empenhados nele, entregando completamente a sua vida e consumindo as suas forças por ele.

Neste sentido, são três as atitudes fundamentais diante do amor soberano de Cristo Rei. Em primeiro lugar, ele deve ser adorado. “Adoração é entrar com a profundidade do nosso coração em comunhão com o Senhor”, “é fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele ao qual nos submetemos é Amor” (Bento XVI, Discurso, 3.III.2006; Homilia, 21.VIII.2005). No percurso da vida cristã, não devemos subestimar esta atitude radical de completa submissão amorosa diante do absoluto amor de Deus, que nos ultrapassa infinitamente. O amor rejeitado só pode ser acolhido e desagravado quando todo o nosso ser se abre para recebê-lo em total reconhecimento de que Ele é o nosso Deus, e de que vivemos para ele e ele para nós.

Em seguida, a realeza deste amor entronizado em nós deve ser proclamada. Somente nesta perspectiva o anúncio profético e missionário torna-se eficaz. De fato, não se pode entender um amor acolhido que não seja transmitido. É próprio do amor difundir-se por onde passa, ser generoso em distribuir-se e orientar-se aos demais.

Por fim, uma vez proclamado, este amor tende sempre ao compromisso com quem o recebe. Não existe amor desinteressado pelo outro e é exatamente por isso que, no Reino de Cristo, para com ele reinar, é preciso saber servir... servir a Cristo, presente no faminto, no sedento, no doente, no aprisionado, no despido, no estrangeiro; mas também nos que carecem de Cristo e de sua doutrina, nos que erram e precisam da nossa correção fraterna, nos tristes que necessitam do nosso consolo, naqueles que estão desacertados no caminho da vida, nos que nos ofendem, nos que não nos compreendem e – por que não? – inclusive naqueles que já partiram deste mundo...



Não é fácil pertencer a este Reino de Amor, mas, certamente, é muito mais difícil viver à margem dele. Nesta Solenidade de Cristo Rei renovemos o nosso entusiasmo pelo Reino de Cristo e, em meio a este ambiente hostil que a historia nos preparou, caminhemos com a certeza absoluta de que, embora os impérios desta terra se levantem contra a mansidão do Cordeiro de Deus, a sua realeza surpreendentemente permanece silenciosamente estável em meio ao barulho de todos os poderes que, sucessivamente, desabam ruidosamente um após o outro. A razão disso é apenas uma: “o seu reino é um reino eterno, e o seu império subsiste em todas as gerações” (Sl 144 [145], 13).

*Pe. José Eduardo de Oliveira e Silva é sacerdote incardinado na Diocese de Osasco (São Paulo); foi Pároco na Paróquia N. Sra. da Penha (Araçariguama-SP) e Professor no Seminário Arquidiocesano de São Paulo (Propedêutico); atualmente é mestrando em Teologia Moral na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma).

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