O campo acadêmico da comunicaçÃo revisitado prof. Dr. Sérgio Capparelli



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O CAMPO ACADÊMICO

DA COMUNICAÇÃO

REVISITADO

Prof. Dr. Sérgio Capparelli (UFRGS)*

e Profa. Dra. Ida Regina C. Stumpf (UFRGS)**

Resumo: a partir de uma descrição dos programas de pós-graduação em comunicação no Brasil, no que se refere às áreas de interesse, linhas de pesquisa e formação dos pesquisadores, procura-se revisitar o campo acadêmico da comunicação, ressaltando seu caráter multidisciplinar, as perspectivas de sua consolidação e os desafios que ainda tem a enfrentar no país.




Introdução
Quando se analisa o início e a consolidação do campo acadêmico de estudos de Comunicação no Brasil, um fator a ser levado em conta é a origem dos programas de mestrado e de doutorado no país. O programa de mestrado e de doutorado da Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e o da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, tiveram origem em cursos de Letras ou eram, inicialmente, programas de pós-graduação em Literatura. Já o maior de todos, o da Universidade de São Paulo, organizou-se em termos departamentais no início dos anos 70, com Mestrado e Doutorado em Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade, Editoração etc. A origem literária dos dois primeiros parece influenciar fortemente as linhas de pesquisa e as interfaces da comunicação com outras áreas das ciências humanas. Já no caso da USP, o fato de existir uma organização departamental, relacionada diretamente com as profissões, não significa que seus antigos professores não tenham sido selecionados nas áreas de Ciências Humanas e Sociais. Estes três programas (USP começou em 1972; a UFRJ, em 1973; e PUCSP, em 1978) tinham em 1999 quase 70 por cento dos doutores de todos os programas e quase 80 por cento dos mais 600 estudantes de pós graduação

A especialidade dos professores orientadores destes e dos outros quatro programas (UnB, início em 1974; UMESP, 1978; UNICAMP, 1986; e UFBa, 1990) também parece reforçar essa idéia de um caleidoscópio de interesses e de perspectivas de pesquisa dentro da área de Comunicação. De fato, a se julgar pelos relatórios que os programas de pós-graduação enviaram à Capes em 1996, de 254 professores, 116 doutoraram-se em Comunicação e 58 em Ciências Humanas e Sociais (29 em Letras; 9 em Ciências Sociais Aplicadas) e 31 em Artes, incluindo-se Cinema, e 9 em outras especialidades. Um exame mais detalhado revela que os 116 professores que se doutoraram na área de Comunicação o fizeram tanto num campo específico - por exemplo, jornalismo - como em Comunicação com outras interfaces.

Outro aspecto a se destacar são os interesses de pesquisa dentro do campo da Comunicação. Os relatórios daquele ano incluíam dados dos sete programas existentes no país, ou seja, Comunicação e Artes, da USP; Multimeios, da Unicamp, Culturas Contemporâneas, da UFBa; Comunicação, da UFRJ; Comunicação, da UnB; Semiótica, da PUCSP; e Comunicação, da agora UMESP. As informações sobre linhas de pesquisa e, mais especificamente, sobre os projetos desenvolvidos pelos pesquisadores desses programas eram sucintas, estabelecendo especificamente objetivos e não informando sobre as metodologias utilizadas durante os trabalhos. Assim mesmo os dados podem ser considerados válidos, caso se esteja interessado em analisar mais tendências de pesquisas, interesses, interfaces dos objetos de estudo, valores partilhados pelos membros desta comunidade

Organizados os dados dos relatórios por temas ou por metodologias utilizadas, percebe-se que o mapa abarca interesses em comunicação como campo de trabalho profissional (exemplo: estudos sobre Jornalismo, Televisão ou Rádio); as interfaces desse campo com outros (Comunicação e Educação, Comunicação e Literatura; Comunicação e Artes); ou, finalmente, metodologias de análise do objeto (Semiótica, Análise do Discurso, Economia Política Crítica). No nosso levantamento, que faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo (Stumpf e Capparelli, 1997), cada uma das 253 pesquisas, em andamento ou concluídas naquele ano, puderam ter mais de uma entrada, pois uma pesquisa poderia explicitar seu tema e ao mesmo tempo sua metodologia.

Os dados indicam que pouco mais de 60 por cento das 396 entradas - 172 de 396 - concentram-se preferencialmente em 10 interesses de pesquisa (área temática ou método), na seguinte ordem: Jornalismo, 31; Cinema, 16; Novas Tecnologias, 15; Educação, 14; Semiótica, 12; Literatura, 11; Artes, 10. As cinco restantes (Subjetividade, Recepção, Discurso Jornalístico, Televisão e Comunicação nas Organizações) tiveram sete entradas cada uma.

Já se esperava que o campo da Comunicação iria exibir uma profusão de enfoques, de perspectivas teóricas e de objetos de estudo também na produção científica do corpo discente, tomados numa série histórica. Comparamos os temas e interesse demonstrados materialmente nas dissertações e teses de 1992 a 1996, cujos resumos publicamos recentemente (Stumpf e Capparelli, 1998). Os resultados mostram que as dez maiores incidências de áreas temáticas, objetos de estudo e metodologias constantes nos resumos das 754 teses e dissertações do período de cinco anos (1992/1996) praticamente reproduzem o quadro anterior relativo às pesquisas dos professores dos programas de Mestrado e de Doutorado. Repetimos que esses objetos de estudo são aqueles citados explicitamente nos resumos. Assim, por exemplo, Indústria Cultural, Cultura ou Cultura Popular são apresentados como itens independentes, mesmo que todos eles possam estar englobados no campo semântico relativo à cultura.

No caso das dissertações e teses, o número de entradas é bem maior, chegando a mais de mil. Os temas, perspectivas metodológicas ou interfaces também somam quase duas centenas. Optamos, então, por selecionar os 20 temas/metodologias/interfaces mais presentes nos resumos de dissertações ou teses, num total de 820. O quadro encontrado foi o seguinte: Semiótica, 100; Literatura, 77; Televisão, 62; Jornalismo, 60; Arte, 56; Discurso Jornalístico, 55; Educação, 45; Novas Tecnologias, 45; Cultura, 41; Cinema, 39; Imprensa, 39; Comunicação Organizacional, 36; Imagem, 36; Subjetividade (Psicanálise), 36; Narrativa, 34; Música, 33; Estudos de Recepção, 31; História, 30; Filosofia, 29.

Como se pode observar, os trabalhos na área de Comunicação ou em suas interfaces tratadas pela Semiótica aparecem em primeiro lugar, talvez pelo fato de os resumos serem mais completos do que a descrição dos objetivos de pesquisa do corpo docente enviados à CAPES. Muda, porém, a ordem de incidência, mostrando, por exemplo, que proporcionalmente os professores têm preferência por pesquisas sobre Jornalismo, Cinema ou Novas Tecnologias, enquanto os estudantes têm uma maior aproximação com a Literatura, Televisão ou Educação como objetos de estudo.

Esses dados ensejam vários tipos de análises. Optamos, neste trabalho, tomar esses dados empíricos como ponto de partida para uma reflexão mais ampla, sobre os paradigmas que enquadram as pesquisas em questão e estabelecer um paralelo entre a aparente organização institucional e a aparente confusão teórica dentro do campo de estudos da Comunicação. Em outras palavras, muitos pesquisadores ainda questionam o estatuto da Comunicação enquanto disciplina, apontando-a como uma intersecção de diversos campos disciplinares. O exame desses problemas é uma condição prévia necessária numa análise da Comunicação no país como um todo. Para isso, trabalharemos em três seções: num primeiro momento, discutiremos a existência ou não da Comunicação enquanto disciplina, seguido de uma reflexão sobre a aplicabilidade do conceito de paradigma nessa área de conhecimento; depois, delimitado o campo ou estabelecidas suas características principais, contextualizaremos sua evolução em termos institucionais, tendo como pano de fundo os dados empíricos apresentados anteriormente.

2. Protociência?

Quando o pesquisador da área da comunicação seleciona determinado objeto de estudo, ele depara-se com problemas teóricos inerentes a toda pesquisa. As primeiras respostas que ele encontra estão escondidas tanto dentro de uma caixa de perguntas - ou de respostas - como essas bonecas russas em que a primeira contem a segunda, menor; a segunda, uma terceira; menor ainda, e assim por diante.

Essa boneca, porém, não é russa mas teórica, e a caixa de perguntas contém muitas delas, algumas dizendo respeito ao próprio pesquisador e outras sobre sua comunidade científica. Nós seríamos tentados a afirmar que a boneca tem sua origem num molde - ou paradigma - e que as questões propostas, que concernem o paradigma teórico, são um índice do contexto e da prática da pesquisa ligadas a uma visão particular do pesquisador diante da ciência.

Essa resposta comporta igualmente certas considerações sobre a escolha de um paradigma ou modelo teórico existentes e sugere a possibilidade segundo a qual não se trataria de um paradigma completo mas de um quase-paradigma, supondo que os estudos de comunicação não propõem paradigmas no sentido literal da palavra. (Rosengren, 1989, p.25). Ela deve, por outro lado, levar em conta outros temas importantes, a questão principal recobrindo outras questões, como o estatuto das ciências sociais e humanas e a crise dos paradigmas existente nesse domínio de conhecimento.

No que concerne ao estatuto das ciências humanas e sociais, a questão pode variar segundo a visão que temos do conhecimento científico em relação à sociedade. Isso levaria a uma discussão sobre as possíveis diferenças entre o conhecimento científico tal como concebido nas ciências naturais e aquele existente nas ciências sociais.

Caso essa diferença não existisse, o entomologista que examinasse os insetos e o especialista em comunicação que estudasse a televisão e as relações de poder dentro dela teriam o mesmo tipo de comportamento, isto é, tratariam insetos e a Rede Globo indiferentemente, como se fossem objetos. E caso esse este "sujeito conhecedor" se perguntasse quais são as influências principais que marcaram sua formação de pesquisador, ele se daria conta de que existem diferenças fundamentais entre as ciências sociais e as ciências naturais. Ele acrescentaria que há diferenças intelectuais entre as diferentes escolas e tradições no domínio da comunicação. Ele poderia finalmente concluir que as representações que os grupos e as classes sociais fazem da sociedade onde vivem têm efeitos variáveis sobre as possibilidades e sobre as tendências do pensamento científico (Ianni, cit. in Lopes,1990, p.32).

Se essas questões são de difícil resposta quando se trata da constituição de campos do conhecimento tradicionais, como a Sociologia, a Psicologia, Antropologia ou Política, multiplica-se a dificuldade quando o campo é o da Comunicação, por se tratar de uma área de conhecimento nova, o que levanta debates sobre a sua identidade.

Essa questão sobre a identidade ou autonomia da comunicação enquanto campo - ou sobre suas interfaces com outras disciplinas - são sempre atuais, numa área considerada nova e multidisciplinar. Há quem proponha que não se considere a Comunicação como ciência ou disciplina, visto ela não ter princípios explicativos próprios, seguindo modelos teóricos emprestados de outras disciplinas. Há também aqueles que aceitam a existência de uma disciplina chamada Comunicação, se bem que sinalizando uma ausência de autonomia enquanto campo de conhecimento.

Por outro lado, a idéia de que a Comunicação e de outras áreas do conhecimento próximas dela, não constitui uma ciência ou uma disciplina, pode ser localizada na bifurcação representado pelo surgimento da ciência moderna, quando torna-se clara a divisão entre uma área que diz respeito ao que é material e outra, que se refere ao que é imaterial; ou entre as áreas lingüísticas e não lingüísticas; ou, ainda, entre o que interessa e o que não interessa, ficando a Comunicação e seus termos associados dentro do não essencial da grande divisão (Shepherd, 1993, p.85).

Não se quer dizer que a Comunicação constituísse um campo já no século XVI ou XVII se bem que os gregos são conhecidos como os primeiros a tratarem da Retórica, que tanto pode se situar na Comunicação quanto na Literatura. Mais tarde, quando a Comunicação vai se constituir como campo, integra nessa parte desconsiderada pelas pelos outros campos científicos.

Essa tendência de se considerar a Comunicação como um conjunto de técnicas e de habilidades encontra-se já em Locke, na época dessa separação das Ciências lingüísticas e não lingüísticas. Se Shakespeare falava sobre a vacuidade da Comunicação - sem se referir especificamente a ela - “palavras, palavras, palavras”, Locke vive o conflito de reconhecer a importância dessas mesmas palavras, ao argumentar que a sociedade liberal seria constituída por indivíduos que, de alguma forma, tinham de se comunicar. Ora, para se comunicar, esses indivíduos utilizavam palavras. Como resolver o conflito da inutilidade das palavras e ao mesmo tempo de sua serventia? Locke resolve esse conflito falando nesses “nadas vazios” que precisavam ser preenchidos com idéias. Em outras palavras, comunicação foi inventada como um “container”, um conduto, um mero meio para o transporte de pensamentos, um mecanismo ancilar intermediário entre os indivíduos (Shepherd, p. 87).

Visto que num processo de comunicação os indivíduos usam esse “container” - palavras - para transportar suas idéias, o estudo da comunicação adquire uma perspectiva instrumental, em que o estudante irá desenvolver suas habilidades e as técnicas para que os “containers” funcionem de forma eficiente. Tal perspectiva implica na inexistência da disciplina Comunicação. De fato, a estrutura curricular em muitas universidades segue esse caminho, procurando penas instrumentalizar os estudantes para o mercado de trabalho. O estudante de jornalismo, por exemplo, aperfeiçoa sua linguagem dentro de um jargão e de uma prática específica, necessária ao mercado de trabalho onde vai atuar mas que poderia ser adquirida numa escola técnica do II Grau.

Por outro lado, o desenvolvimento do campo acadêmico da Comunicação no Brasil segue um caminho curioso, persistindo, ainda hoje, uma visão que privilegia a prática, as habilidades e as técnicas, considerando, indiretamente, a Comunicação como não disciplinar. Como se a graduação em Comunicação estivesse localizada dentro das Ciências Sociais Aplicadas e a pós-graduação, dentro das Ciências Humanas e Sociais.

Essa aparente bifurcação de objetivos dentro da própria Comunicação junta-se à outra bifurcação, anteriormente citada, ou seja, de um lado as Ciências em geral, divididas entre as Naturais e as Lingüísticas, tornando essas últimas carentes de legitimidade enquanto disciplina,

Essas duas divisões se reproduzem em patamares diferentes na formação do campo da comunicação. Em parte porque se Antropologia, Sociologia, Política e outras áreas das Ciências Sociais são consideradas, do ponto de vista das Ciências Naturais, como “primas pobres”, carentes de uma legitimidade conforme o modelo positivista; e no interior das Ciências Sociais, a Comunicação também adquire de mais pobre entre os pobres, pela sua aparente falta de legitimidade. Daí a busca de um guarda-chuva protetor em outras disciplinas mas consolidadas.
Aceitando isso, busca-se um campo de estudo voltado primariamente para a investigação de habilidade, práticas e uso. Nesse caso, o estudo é mais ou menos como um vaso pode ser trabalhado e manipulado para transmitir certo conteúdo. A Comunicação é vista como um meio para transportar subjetividades, regras sociais, cultura (Shepherd, 1993, p 87).
Em termos históricos, percebe-se que, de fato, os primeiros estudos de comunicação são capítulos, partes ou produtos marginais de algumas disciplinas preocupadas com o comportamento de indivíduos ou certas teorias globais da sociedade, onde a comunicação passa a ser encarada como um setor importante. É assim que os primeiros estudos - a Mass Communication Research - desenvolve-se “como um tipo de análise pluridisciplinário em que a Sociologia, a Antropologia, a Política e a Psicologia têm um papel central. Esta convergência sobre um mesmo objeto de estudo chamou-se Ciência da Comunicação pluridisciplinar” (Muñoz, 1995, p.50).

O que queremos dizer aqui é que, historicamente, a preocupação com a comunicação origina-se também em outros campos do conhecimento. Ao lado de estudos oriundos da Psicologia e da Sociologia, da Antropologia e da Política, os primeiros estudos de Comunicação explicam-se dentro do própria tipo de exploração dos meios de comunicação de massa nos Estados Unidos. De um lado, sua utilização comercial, com pesquisas de audiência, voltadas para o mercado; do outro, sua utilização política, a partir da eleição de Roosevelt já nos anos 30, com a ajuda da utilização massiva do rádio.

O outro tipo de pesquisa em Comunicação, já existente nessa época, distancia-se claramente desse tipo de análise “onde se procura identificar as conseqüências mais básicas de um processo, separando-se radicalmente o sujeito do conhecimento, do campo do objeto de estudo, apresentando-se como mais como cientistas da Natureza que do Social” (Muñoz, 1955, p. 51).

Em um texto narrando sua passagem pelos Estados Unidos, fugindo das perseguições dos anos 30 na Alemanha, Adorno mostra o choque de sua perspectiva, crítica e européia, em contato com as chamadas pesquisas administrativas:


Pelo contrário, minhas primeiras impressões acerca das pesquisas em curso foram desconcertantes. Levado por Lazarsfeld, fui de peça em peça e me entrevistei com os co-diretores; escutei expressões como Likes and Dislikes Study, Success or Failure of a Programme e coisas parecidas que para mim, a princípio significavam muito pouco. Mas entendi o suficiente para me dar conta de que se tratava de uma reunião de dados, dos temas da planificação no campo dos meios de comunicação de massa, em benefício, seja da indústria diretamente, seja dos assessores culturais e grupos semelhantes. Pela primeira vez tropecei com com a administratrive research (pesquisa administrativa: hoje não não me lembro se foi Lazarsfeld quem cunhou esse conceito, ou se fui eu na minha estranheza sobre este tipo de ciência orientado diretamente no sentido prático, coisa para mim insólita (Adorno, 1995, p.95).
Já no início, portanto, temos um tipo de pesquisa que se desenvolver a partir de outros campos do conhecimento, como a Antropologia, a Sociologia, a Política ou a Psicologia, interessando-se pelos estudos da Comunicação numa perspectiva de mercado e de utilização política; do outro, uma perspectiva especulativa, onde o mais importante era interpretar os fenômenos; não reunir fatos, ordená-los, classificá-los e pô-los à disposição do público a título de informação (idem, p. 108). Não é à toa que a esta outra vertente surge no Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, nos anos 30. Talvez guiado por esse início dos estudos de Comunicação ou mesmo pelo desenvolvimento desse campo do conhecimento, Rudiger vai dizer, em 1996:
A comunicação não é uma ciência mas um campo de estudo multidisciplinar, cujos métodos de análise não têm qualquer especificidade, foram desenvolvidos pelos diversos ramos do conhecimento filosófico, histórico ou sociológico. O conceito do mesmo não dispõe de autonomia teórica, deve ser pesquisado no quadro das teorias da sociedade (Rudiger, p. 17).
Dentro dessa linha de raciocínio - com a qual estamos de acordo - podemos acrescentar que até mesmo a organização do campo, em termos institucionais, vai demorar a se desprender de departamentos dentro dessas outras disciplinas. Porque a Comunicação na sua dimensão institucional, procura se organizar de forma autônoma mas não em teremos epistemológicos. Não que os objetos de estudo tivessem se tornado particulares ou que os pressupostos teóricos fossem próprios. Na verdade, a massa crítica sobre o fenômeno criou nichos de pesquisadores situados, em termos profissionais ou burocráticos, nos chamados departamentos de comunicação. Em outras palavras, o campo institucional procurou se especializar. Um paradoxo: procurou se especializar institucionalmente no momento em que a fragmentação aumenta em termos de interfaces e de perspectivas teóricas.

Nesse caso, os profissionais da área de comunicação empreendem um caminho inverso: localizados dentro do nicho da comunicação, com palavras-chaves de subáreas específica, buscam conhecimentos em outras áreas para se especializarem no seu campo de conhecimento - novo paradoxo. Esse caminho inverso, porém, não anula os movimentos anteriores, isto é, o movimento de outras áreas do conhecimento que passam não só a se interessar pela comunicação mas passam a vê-la como instância fundamental da sociedade. Ianni fala do deslocamento da questão do nacionalismo e dos Estados Nacionais da Ciência Política e sua substituição pela questão da Comunicação (Ianni, 1995). Tanto a Sociologia quanto a Antropologia passaram a ter na comunicação e na cultura um conceito chave da análise social. Aliás, Canclini sinaliza que o reconhecimento e valor social e político da cultura nas duas últimas décadas favorecerá dois tipos de pesquisa, sendo, o primeiro tipo dessas pesquisas:


(...) as que se ocupam da modernização do desenvolvimento cultural, citando, entre elas, novas tecnologia da telecomunicação e eletrônica; produção, circulação e consumo de indústrias culturais (Canclini, 1991, p.19 )
Além dos movimentos dos movimentos centrífugos - outros campos de conhecimento que se interessam pela Comunicação e dos movimentos centrípetos - pessoas oriundas da área de comunicação que se servem de outros campos de conhecimento para se especializarem - assiste-se, nos últimos anos, a uma flexibilização de paradigmas para darem conta da complexidade da comunicação nos tempos atuais.
O tempo histórico é de crise: fracassaram os projetos políticos dos dois lados e os paradigmas legitimados já não dão conta dos fragmentos sociais em sua totalidade. Categorias prontas são conclamadas a se flexibilizarem para esclarecer as descontinuidades e as novidades (Berger, 1996, p.7)

Tudo isso ajuda a compreender a aparente confusão no campo da Comunicação, detectada por Craig. Ele reconhece que embora tenha crescido e amadurecido, mesmo que pesquisadores tenham contribuído com mais e melhores teorias originais, o campo permanece confuso (Craig, 1993, p.26).A origem dessa confusão teórica o autor vai buscar não apenas na comunicação mas também na transformação geral das ciências humanas, que está transformando a comunicação ao mesmo tempo que diversas outras disciplinas (Iden, p.26)


A transformação essencial nas ciências humanas que melhor explica tanto a proliferação de teorias da comunicação como a presente confusão sobre teoria foi bem definida por Geertz como blurred genres. Como ele apontou, os até então claros limites entre ciências sociais e humanidades tornaram-se indistintos (daí a crescente inutilidade do termo ciências humanas, que inclui ambas). Pessoas de diferentes disciplinas ficaram livres para moldar seu trabalho em termos de suas necessidades, mais do que em relação a idéias recebidas sobre o que devem ou não devem estar fazendo (Ib. p.28).
O diagnóstico que Craig estabelece para o campo das Ciências Sociais e, indiretamente para a Comunicação, pode ser aplicado no Brasil. Saindo de um aumento quantitativo nos programas de graduação em comunicação, que nos anos 60 somavam algumas dezenas e hoje chegam a centenas, mudanças qualitativas puderam ser observadas com a implantação dos programas de mestrado e de doutorado no início dos anos 70 e agora, no início dos anos 90.

Não é segredo para ninguém que as pesquisas em Ciências Humanas e Sociais no Brasil acontecem nas universidades públicas e, especialmente, em seus programas de pós-graduação. O campo da comunicação vem fugindo à regra, visto existirem escolas particulares como a PUC de São Paulo, a PUC do Rio Grande do Sul ou o IMESP, de São Bernardo do Campo, realizando pesquisas e ajudando a consolidar o campo no país. Talvez fosse melhor dizer que essas pesquisas são realizadas dentro dos programas de pós-graduação, onde está a maior parte dos professores e pesquisadores com grau de doutor.

O aumento do número de pesquisas nas universidades, sua melhor qualidade, a ausência de delimitações claras entre as diversas áreas das ciências humanas e a característica multidisciplinar da Comunicação ajudam a compreender a aparente confusão em que esse campo parece mergulhado, numa convivência nem sempre tranqüila da filosofia, sociologia, retórica, estudos culturais, crítica literária ou artística, ciências da informação, num discurso comum, embora heterogêneo. É o que Craig fala para a Comunicação em geral, onde aparecem pos-modernismo, descontrução, teoria da recepção ativa, historicismo, feminismo, marxismo, psicanálise, e assim pôr diante, que emergem, separam, recombinam e se espalham através de disciplinas e continentes (Craig, p.29).

Finalmente, a ausência de uma Ciência da Comunicação - pelo menos em sua fase atual - está ligada à constituição de paradigmas. No posfácio de sua obra A estrutura das revoluções científicas, Kuhn observa que sua teoria comporta duas concepções principais de paradigma: 1. de um lado, o paradigma concerne a toda uma constelação de crenças, de valores, de técnicas etc, partilhada pelos membros de uma certa comunidade científica; 2. por outro lado, concerne um elemento específico dessa constelação, o "puzzle solution" que, utilizado como um modelo ou exemplo, pode substituir as regras explícitas que servem de base para a solução dos problemas restantes da ciência normal (Kuhn, 1979:174).

Dito com outras palavras, o paradigma na ciência pode ser considerado, segundo Kuhn, como a visão do mundo partilhada por uma comunidade científica e expressa tanto através do trabalho teórico como pelas orientações escolhidas, com a finalidade de resolver 1. os problemas ligados à construção de inferências (interpretações, generalizações, leis), 2.as inferências submetidas à comprovação (os princípios de verificação, os testes das hipóteses) 3. os fundamentos das inferências (os princípios de causalidade ou de determinação).

A obra de Kuhn que se refere à existência de paradigmas nas ciência provocou muitas críticas. Não temos a intenção de discuti-las, especialmente aquelas que dizem respeito à imprecisão do conceito de paradigma (Masterman, M., 1970 et Shapere, D., 1973) que o próprio Kuhn tentou esclarecer no posfácio de 1969. Mesmo assim acrescentaremos que o Kuhn tenta estabelecer a diferença entre uma teoria e um paradigma e também discutir as condições necessárias para que um paradigma novo substitua o antigo que perdeu sua eficácia na exploração de um aspecto da natureza onde, antes, tinha se mostrado eficiente.

Certamente que a noção de paradigma de Kuhn, aplicado a outros domínios, levantou algumas perguntas do gênero: A noção de paradigma é aplicável à sociologia, à antropologia e a comunicação? Pode se aceitar, a partir de Rosengren, a idéia segundo a qual as ciências humanas e sociais ainda não chegaram a um estágio paradigmático comum às ciências naturais? As ciências sociais e humanas partilham os conceitos, as crenças, as teorias e as práticas de pesquisa da mesma forma que as ciências naturais partilham certos paradigmas? E se, tal como proposto por Rosengren, cada disciplina das ciências naturais comporta apenas um paradigma, visto que a existência de um segundo paradigma leva a uma crise de grandes proporções, o que se poderia dizer da coexistência de muitos paradigmas como os que existem atualmente no domínio da comunicação? Ainda mais: a especificidade da comunicação pode abrigar pesquisas utilizando matrizes-disciplinares diferentes, com o estabelecimento de estudos enquadrados em um paradigma dominante e por diferentes paradigmas alternativos?

Somos inclinados a responder que a noção de paradigma pode se aplicar aos estudos de comunicação de uma maneira parcial. E que se essa noção de paradigma deu suporte a uma crítica da história da ciência modelada pelo positivismo, ela também enriqueceu a crítica que diferentes escolas e tradições de pesquisa dirigiam ao funcionalismo, enquanto paradigma dominante no campo da comunicação.

Por outro lado, a história comparada das ciências naturais e humanas mostra que a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia são disciplinas recentes, o que explica a ausência de paradigma no sentido forte do termo. Segundo Rosengren, essa ausência exige uma análise profunda das diferenças intelectuais entre as diferentes escolas e tradições para tirar a disciplina da situação pré-paradigmática e começar uma protociência (Rosengren 1989:21). Apesar dessas considerações, muitos autores preferem esquecer as nuances do conceito e o utilizam no domínio da comunicação. Lopes, por exemplo, apóia nas idéias de Kuhn para descrever os paradigmas que modelam as pesquisas nas ciências sociais. Ela estranha porém quem faça a sugestão de que as metodologias das ciências sociais e das ciências naturais têm um estatuto idêntico:
"Nas ciências sociais, o próprio objeto é dinâmico e cambiante porque os problemas estudados são fenômenos históricos, institucionais, de relações de poder, de classes sociais, manifestações culturais etc. O que muda não é o dado ou o objeto mas as próprias verdades, e as confirmações produzidas pelas ciências têm relações com os processos históricos...Com efeito, certas problemáticas só se impõem a partir de teorias determinadas e as problemáticas específicas só chegam a uma solução completa pelo apoio de uma teoria específica" (Lopes, 1990, p.32).

Christian et Carey tentam, por outro lado, sistematizar as diferenças em uma crítica severa daqueles que alvitram uma visão positivista aplicada às ciências sociais. Eles realçam a necessidade de reforçar a atual tendência dos estudos qualitativos em ciências sociais por oposição a uma "versão da ciência social - ou da história - conhecida filosoficamente como positivismo e, metodologicamente, como empirismo (Christian e Carey, 1981, p.19). Esta tendência, no ponto de vista desses autores, leva a uma participação social mais forte da parte dos pesquisadores, porque eles deixam de considerar a sociedade como um conjunto de fatos contingentes e neutros e passam a tê-la como uma criação ativa de seus membros. Segundo esses autores, os estudos qualitativos reafirmam o espírito crítico e liberador do pesquisador. Assim mesmo, Carey et Chistians não fazem uso da noção de paradigma. Eles preferem falar em tradição alternativa que, dizem, tem diferentes nomes segundo os países: ciências humanas, Geistewissenschaft, teoria crítica, ciências sociais interpretativas, hermenêutica, ciência da cultura e estudos qualitativos.

Talvez Carey e Christians não utilizam a noção de paradigma porque eles não acham adequada a designação de estudos qualitativos a teorias metodológicas tão distantes como teoria crítica estudos fenomenológicos. Mas eles demostram não ter a intenção de discutir os diferentes modelos ou paradigmas, considerando essas denominações como indices de perfis diferentes: diferenças na orientação filosófica, na tradição nacional, de prioridades de pesquisas e de instâncias ideológicas. (Christians e Carey, l981, p344).

3.Conclusão

No início do ano 2000, constata-se um número maior de programas de mestrado e doutorado no Brasil, passando a 14 programas, com a inclusão dos mestrados da Universidade Federal de Minas Gerais, da Universidade Federal Fluminense, do mestrado e doutorado da Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, do mestrado e doutorado da Universidade do Vale dos Sinos e do mestrado e doutorado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do Mestrado da Universidade Tuiuti, do mestrado da Universidade Casper Libero, além de doutorados que vieram a se ajuntar a mestrados já existentes, como o de Multimeios, da UNICAMP . Se institucionalmente o campo parece mais disperso em termos geográficos, diminuindo a centralização no Sudeste, isso não quer dizer que as delimitações do campo ficaram mais definidas. Na verdade, as novas linhas de pesquisa e áreas de concentração continuam mostrando essa multidisciplinaridade, em especial com programas reunindo, numa mesma área de concentração, Comunicação e Informação, como é o caso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal do Pernambuco e da Universidade de São Paulo.

A produção científica do corpo discente e do corpo docente tem crescido, tanto devido ao início de uma consolidação do campo, às exigências da Capes enquanto principal órgão financiador e ao maior número de programas em funcionamento. Assim mesmo os limites são imprecisos, as divisões internas do campo apresentam uma clivagem cada vez maior, cada subárea “olhando coisas diferentes através de diferentes paradigmas " (Shapere,1973, p. 35).

Quando se aceita esse ponto de vista - e nós o aceitamos - seria possível concluir que a busca de limites fixos entre a Comunicação e outros campos de conhecimento não têm sentido. Além do mais, os pesquisadores não estão de acordo sobre o que são os fatos e os problemas reais que eles devem enfrentar mas também sobre a existência de princípios explicativos dominantes. Dominantes, em quê? Em número de pesquisas realizadas dentro de um tema ou utilizando determinada metodologia, tendo como pano de fundo esse ou aquela modelo de análise?

Se isso fosse possível, dois princípios explicativos seriam comparados a partir de qual tema? Por que é necessário que um deles seja vitorioso? Finalmente, as críticas sobre determinados paradigmas e sobre a preferência por outros paradigmas são, a priori, embasadas numa perspectiva paradigmática. Aliás, essa perspectiva paradigmática leva também o pesquisador a problematizar certas realidades - e não outras - para constituí-las enquanto objetos de estudo.


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* **Breve currículo: Sérgio Capparelli e Ida Regina C. Stumpf são professores do Programa de Mestrado em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sérgio Capparelli é doutor pela Universidade de Paris e Ida Stumpf, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo




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