O camponês Jeca Tatu e a Saúde Pública



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Simpósio número 12: Estado y Políticas Públicas para el agro en Latinoamérica (Séculos XIX-XX).

O Camponês Jeca Tatu e a Saúde Pública
Ricardo Augusto dos Santos, Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz) e doutorando em História da Universidade Federal Fluminense
raugusto@coc.fiocruz.br



Mas Jeca não podia acreditar numa coisa: que os bichinhos entrassem pelo pé. Ele era ’positivo’ e dos tais que ‘só vendo’. O doutor resolveu abrir-lhe os olhos. Levou-o a um lugar úmido atrás da casa e disse:

-Tire a botina e ande um pouco por aí.

Jeca obedeceu.

- Agora venha cá. Sente-se. Bote o pé em cima do joelho. Assim. Agora examine a pele com esta lente.

Jeca tomou a lente, olhou e percebeu vários vermes pequeninos que já estavam penetrando na sua pele, através dos poros. O pobre homem arregalou os olhos, assombrado.

-E não é que é mesmo? quem “havera” de dizer!...

-Pois é isso sêo Jeca, e daqui por diante não duvide mais do que a Ciência disser.

-Nunca mais! Daqui por diante nha Ciência está dizendo e Jeca está jurando em cima! Tesconjuro! E pinga, então nem prá remédio!
Monteiro Lobato

Este trabalho narra a construção do personagem Jeca Tatu. Uma análise das representações sociais e literárias sobre o país, destacando um aspecto pouco presente na literatura acadêmica, que examina a difusão dos textos, sem uma investigação rigorosa das condições históricas de produção do pensamento social e político. Portanto, sem articulação da identidade cultural com a criação dos tipos sociológicos, que em vários momentos, foram “retratos” desta identidade: Jeca Tatu, Macunaíma, Policarpo Quaresma e outros. Consideramos que a contribuição deste texto consiste em investigar a participação dos intelectuais do movimento sanitarista1 na adoção de idéias e práticas de educação higiênica e, ao mesmo tempo, nas interpretações sobre a sociedade brasileira. Em outras palavras, julgamos relevante construir um projeto que relacione as imagens simbólicas da obra lobatiana às políticas de saúde pública e educação. Em suma, é um ensaio sobre esse pungente personagem das letras nacionais: o Jeca Tatu.2 Nascido como um símbolo do trabalhador rural pobre e doente, em artigo escrito por Monteiro Lobato ao jornal O Estado de São Paulo, Jeca tornou-se sinônimo de homem do interior do Brasil. Inclusive, uma empresa de produtos farmacêuticos distribuía um remédio contendo um folheto com o nome de Jecatatuzinho3. A presença deste símbolo em campanhas de educação higiênica, especialmente as direcionadas ao controle das endemias rurais, ajudou a popularizar os cuidados com a higiene individual e a saúde pública nas primeiras décadas do século XX.

Caricatura do camponês brasileiro, o Jeca é um dos mais conhecidos personagens de nossa cultura. De pessoa indolente à vítima da doença, sua trajetória está relacionada ao papel conferido às políticas de saúde publica e de educação no desenvolvimento econômico e social do país. Trata-se de uma das mais fortes representações sociais da identidade brasileira, em que se articula o retrato pobre e doente da sociedade, especialmente dos trabalhadores rurais, personagens presentes na literatura brasileira, à regeneração e salvação do “povo” por meio da ação do Estado. Lobato foi uma personalidade central do campo intelectual, sendo possível perceber em sua trajetória duas atividades, escritor e empresário editorial, que visavam um objetivo: a ampliação do número de leitores, através da renovação da linguagem literária, pela modificação na distribuição e comercialização, causando um impacto no incipiente mercado, ao produzir os livros com o farto uso de desenhos, figuras e cores.

Nosso objetivo não é apresentar um trabalho conclusivo acerca do racismo cientifico no Brasil. O que pretendemos é esclarecer alguns pontos que permanecem nebulosos. Acreditamos que desta maneira, estaremos empenhados em desvendar os meandros do pensamento social do país. Quase todos os intelectuais do período, que podemos datar entre 1870 e 1930, pelo menos em algum momento de suas vidas, pensaram a miscigenação racial como um problema a ser solucionado. Em maior ou menor grau, para estes atores, a questão étnica era a grande questão nacional. Para alguns, a mistura racial era um obstáculo ao desenvolvimento econômico e social. Viam como prova da evolução do Brasil um suposto e crescente branqueamento4. Acreditamos que aos olhos destes homens, esta expressão não se referia apenas à cor da pele. Naquela conjuntura, com o país recém-saído do escravismo colonial e da abolição da escravidão, as idéias e as atitudes estavam, e ficariam por muito tempo, impregnadas por símbolos que marcaram as relações sociais escravistas.

Lobato, em 1918, publicou O Problema Vital, reunindo em livro uma série de 15 artigos veiculados pelo jornal O Estado de S. Paulo. Estes artigos evidenciam uma mudança de perspectiva do homem rural brasileiro. Ao criar o Jeca tatu, um modelo do homem do campo, Lobato estava, ao menos, de acordo com o pensamento social hegemônico na passagem do século XIX para o século XX. Para tais idéias cientificistas, o clima, a localização geográfica e a raça determinavam a evolução e a hierarquia das sociedades humanas. Neste momento, Lobato denunciava uma determinada corrente de interpretação dos elementos nacionais, denominada por ele de “caboclismo”, e atribuía ao Jeca, espécie degenerada em sua origem mestiça e adaptada ao ambiente natural, a responsabilidade por todos os problemas do universo rural. O Jeca era indolente, incapaz de participação na política e na produção industrial do mundo moderno. Não possuía qualquer noção de pátria ou de nação. Era, portanto, incapaz de evolução e progresso.

Contudo, o enfoque mudaria. E o diagnóstico seria outro. Se o determinismo biológico representava um problema grave, uma herança genética, o saneamento poderia transformar cientificamente a realidade. Lobato, criador do Jeca, mostrava-se um entusiasta5 do discurso científico de sua época, especialmente no campo da microbiologia e da parasitologia. É por meio da ciência médica que Jeca, personagem literário, adquiria sua cidadania.6 Sua primeira aparição data de 12/11/1914, num texto enviado por Lobato ao jornal O Estado de S. Paulo com o titulo de “Velha Praga”, no qual o escritor se insurgia contra as queimadas7 e descrevia o modo de vida dos agregados8 de sua propriedade.9

Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando... vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão (...) de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se (...) o caboclo é uma quantidade negativa.10

Neste texto, aparecem os nomes de Manoel Peroba, Chico Marimbondo e Jeca Tatu. Porém, segue-se um novo artigo, novamente publicado no mesmo jornal, com o título de “Urupês”, onde Lobato dá um panorama mais completo do Jeca e do seu modo de vida, em oposição a uma literatura que exaltava romanticamente o camponês. Para Lobato, então fazendeiro no interior paulista, a explicação para a apatia, a indolência e a incapacidade do Jeca encontrava-se nas facilidades de sobrevivência proporcionadas pela mandioca, milho e cana, e concluía:

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive. 11

Em correspondência enviada ao seu amigo Godofredo Rangel em 20 de outubro de 1914, portanto, poucos dias antes da publicação do primeiro texto enviado ao Jornal, encontra-se mais uma descrição indignada de Lobato sobre o modo de vida do urupê12 de pau podre. Apesar de um pouco longa, é muito esclarecedora, porque descreve o processo de criação do personagem sombrio e apático – o Jeca Tatu:

Atualmente estou em luta contra quatro piolhos desta ordem – ‘agregados’ aqui das terras. Persigo-os, quero ver se os estalo nas unhas. Meu grande incêndio de matas deste ano a eles devo. Estudo-os. Começo a acompanhar o piolho desde o estado de lêndea, no útero duma cabocla suja por fora e inçada de superstições por dentro (...) Contar a obra de pilhagem e depredação do caboclo. A caça nativa que ele destrói, as velhas árvores que ele derruba, as extensões de matas lindas que ele reduz a carvão. Havia uma gameleira colossal perto da choça, árvore centenária – uma pura catedral. Pois ele derrubou-a com três dias de machado – atorou-a e dela extraiu (...) uma gamelinha de dois palmos (...) Como aproveitou a gameleira, assim aproveita a terra. Queima toda uma face de morro para plantar um litro de milho (...) o piolho, afugentado, vai parasitar um chão virgem mais adiante. A nossa literatura é fabricada nas cidades por sujeitos que não penetram nos campos de medo dos carrapatos. E se por acaso um deles se atreve e faz uma ‘entrada’, a novidade do cenário embota-lhe a visão, e ele, por comodidade, entra a ver o velho caboclo romântico já cristalizado – e até caipirinhas cor de jambo (...) O meio de curar esses homens de letra é retificar-lhes a visão. Como? Dando a cada um, uma fazenda na serra para que a administrem. Se eu não houvesse virado fazendeiro e visto como é realmente a coisa, o mais certo era eu estar lá na cidade a perpetuar a visão erradíssima do nosso homem rural. O romantismo indianista foi todo ele uma tremenda mentira; e morto o indianismo, os nossos escritores o que fizeram foi mudar a ostra. Conservaram a casca (...) Em vez de índio, caboclo. 13

Alguns anos depois, Lobato lançaria uma publicação com o mesmo nome do segundo texto publicado no periódico paulista: O livro Urupês, reunindo contos anteriormente editados, e incluindo os trabalhos “Velha Praga” e “Urupês”; páginas militantes contra o personagem indolente. No entanto, naquela conjuntura Lobato estava progressivamente participando do debate em torno da campanha pelo saneamento das áreas rurais. Ele tomara contato com os médicos Arthur Neiva, Belisário Penna14, Renato Kehl e outros intelectuais do movimento sanitarista. Assim, surgia um novo Jeca: O Jeca dos artigos do livro O Problema Vital15. O novo Jeca padecia dos mesmos males, no entanto, após entrar em contato com a ciência médica, curava-se das moléstias que o levavam a ser indolente; tornava-se trabalhador, enriquecia e transformava-se em exemplo para os vizinhos. Esta narrativa foi publicada com o título de “Jeca Tatu - A Ressurreição”, e ficaria conhecida como jecatatuzinho, em milhões de exemplares através do Almanaque de Produtos Farmacêuticos Fontoura.

Mas, se a personagem mudava, o seu criador também mudaria. Marisa Lajolo afirmou que “Monteiro Lobato parece ter percorrido quase todas as posições ideológicas disponíveis para um intelectual do seu tempo”. A autora menciona aquele que seria uma continuidade do Jeca Tatu: O Zé Brasil — publicado em final dos anos 40. Este Jeca era compreendido não como preguiçoso nem como um mero doente, mas como um trabalhador explorado. O texto foi apreendido16 e recolhido. “Coitado deste Jeca. Tal qual eu. Tudo o que ele tinha eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho” A figura do camponês nacional aparecia mais uma vez na obra de Lobato. Neste momento, superando a intolerância patronal presente no primeiro (Velha Praga e Urupês) e a ótica paternalista no segundo Jeca (Jecatatuzinho). Marisa Lajolo conclui:

Se o itinerário é plausível, o autor de Urupês parece ter corrigido progressivamente os desvios de uma má consciência. Se suas primeiras baterias se assentam com intolerância patronal frente ao camponês, se esta intolerância é substituída pela solução paternalista para um problema de saúde pública, o texto final — o de zé-brasil — aponta para uma análise da infra-estrutura, isto é das condições de produção e das relações sociais por ela instauradas no Brasil de Lobato. 17

Como entendermos a mudança do primeiro para o segundo Jeca? Algumas respostas podem ser buscadas nos artigos escritos por Lobato durante o ano de 1918, que foram reunidos no volume O Problema Vital, por decisão da Sociedade de Eugenia de S. Paulo e da Liga Pró-Saneamento do Brasil, graças às relações que o autor mantinha com Renato Kehl (1889-1974) e Belisário Penna (1868-1939) — Kehl, inclusive foi o autor do prefácio do volume. THIELEN & SANTOS (1989) sugerem que o ponto de inflexão desta transformação foi o contato de Lobato com o diário de viagem de Arhtur Neiva (1880-1943) e Penna. Em 1912, estes médicos chefiaram uma expedição patrocinada pela Inspetoria de Obras contra as Secas que percorreu regiões desconhecidas do Brasil. O diário desta viagem foi publicado no periódico Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em 1916, com fotografias obtidas durante o percurso registrando em detalhes a miséria em que viviam os homens do interior. No artigo “Início de Ação”, também incluído em O Problema Vital, Lobato refere-se a essas imagens fotográficas ao falar de idéias capazes de mudar a realidade:

A idéia do saneamento é uma. Bastou que a ciência experimental, após a série de instantâneos cruéis que o diário de viagem de Artur Neiva e Belisário Penna lhe pôs diante dos olhos, propalasse a opinião do microscópio, e esta fornecesse à parasitologia elementos para definitivas conclusões, bastou isso para que o problema brasileiro se visse, pela primeira vez, enfocado sob um feixe de luz rutilante. E instantaneamente vimo-la evoluir para o terreno da aplicação prática. E a idéia-força caminha avassaladoramente. Avassaladoramente e consoladora, porque o nosso dilema é este: ou doença ou incapacidade racial. É preferível optarmos pela doença.18

Se em Urupês e Velha Praga, Lobato atribuía preponderância às teses raciais e climáticas para a pobreza, chegando a culpar o trabalhador do campo por sua condição, nos artigos de 1918 refletia sobre a questão nacional do saneamento. É através de uma explicação científica que Lobato, preocupado com a reprodução da força de trabalho, mudaria a sua concepção do caboclo19 brasileiro. A ineficiência do Jeca não era mais uma questão de inferioridade racial, mas sim um problema médico e sanitário. O Jeca Tatu é doente. Ele é pobre porque é doente e assim não produz. A epígrafe do livro O Problema Vital é elucidativa: “O Jeca não é assim, está assim”. Esta mudança de concepção passava pela crença positiva de Lobato na ciência:

O nosso problema, verificado que foi o mau estado da população nativa, é simples e uno: sanear. Para sanear é forçoso, preliminarmente, convencermos o país da sua doença; e em seguida fazer dessa idéia o programa de todos os governos, a idéia fixa de todos os particulares. Tudo mais rola para plano secundário. Sanear é a grande questão. Não há problema nacional que não se entrose nesse. 20

Lobato acreditava, sobretudo, no poder da ciência experimental biomédica perante as doenças, vistas estas como obstáculos ao desenvolvimento econômico. Tratava-se de superar e modificar a realidade com o auxílio da ciência.

Depois dos estudos de Carlos Chagas, Artur Neiva, Oswaldo Cruz, e depois das veementíssimas palavras de Belisário Penna, governo nenhum, nenhuma associação, nenhuma liga pode alegar ignorância. O véu foi levantado. O microscópio falou. A fauna mentirosa dos apologistas que vêem ouro no que é amarelo e luz na simples fosforescência pútrida, que recolha os safados adjetivões que velaram durante tanto tempo os olhos da nação. 21

Em outro artigo do mesmo livro, Lobato reafirmaria e consolidaria esta visão. Neste momento, para Lobato, o Jeca não era um homem decaído por força de uma preguiça ou indolência inata, mas um indivíduo doente e, por isto, incapaz de produzir. Clamando contra a existência de milhões de vítimas doentes, Lobato se compadeceu daqueles Jecas.

A inteligência do amarelado atrofia-se, e a triste criatura vira um soturno urupê humano, incapaz de ação, incapaz de vontade, incapaz de progresso. Retrato do nosso caboclo quem o dá perfeito, com fidelidade fotográfica, é o médico ao desenhar o quadro clínico do ancilostomado. Tudo mais é mentira, retórica, verso. Esses heróicos sertanejos, fortes e generosos, evolução literária dos índios plutárquicos de Alencar; essa caipirinha arisca, faces cor de jambo, pés lépidos de veada, carne dura de pêssego; licenças poéticas de poetas jamais saídos das cidades grandes.22

Ressaltando o caráter revelador da ciência, Lobato asseverava que a imagem fotográfica é fiel à realidade por ela representada. Esta concepção acompanhou todo o desenvolvimento da fotografia e contribuiria para o seu constante uso como documentação. No caso analisado, em oposição à aludida subjetividade dos discursos ufanistas, estava a objetividade e neutralidade da fotografia, capaz de retratar e diagnosticar a verdadeira realidade nacional, assim como o médico sanitarista.

O processo de modernização pelo qual passava o Brasil nas primeiras décadas do século XX foi acompanhado de várias conquistas técnicas que, gradualmente, passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas. O período compreendido entre os últimos anos do século XIX e o início do XX tinha como horizontes técnicos não só a difusão da telefonia, do cinematógrafo e do fonógrafo, mas a introdução de novas técnicas de registro e de impressão. Com o advento dos processos de reprodução fotomecânicos, a fotografia foi introduzida na imprensa e logo surgiram as primeiras revistas ilustradas. Lobato não ficou imune a essas conquistas, pois identificamos nos seus escritos não apenas a referência direta à fotografia, como também inúmeras metáforas derivadas deste meio de comunicação visual. É assim que Lobato refere-se aos “instantâneos cruéis” de Penna e Neiva.

Ao participar da campanha pelo saneamento do país, é provável que Lobato tenha progressivamente desenvolvido suas idéias a respeito de alguns temas, entre eles, a identidade nacional e a composição física, étnica e moral do povo brasileiro. Lobato estava inserido em seu tempo, produzindo e veiculando idéias que, naquele momento, eram expressões de um “racismo à brasileira”, reproduzindo uma hierarquia social. O correto é que Lobato realizou um mea culpa em sua opinião sobre o indolente e apático Jeca Tatu. No texto “Uma Explicação Desnecessária”, publicada na quarta edição do livro Urupês, em 1919, Lobato assumia uma cristalina revisão ao pedir perdão ao pobre e doente homem.

Cumpre-me, todavia, implorar perdão ao pobre Jeca. Eu ignorava que era assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Estás provado que tem no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não. Assim, é com piedade infinita que te encara hoje o ignorantão que outrora só via em ti mamparra e ruindade. Perdoa-me, pois, pobre opilado... 23

Pouco a pouco a campanha pelo “Saneamento do Brasil” e “criação da consciência sanitária nacional” ganharia contornos mais definidos. Políticos, escritores e jornalistas manifestariam suas opiniões em várias oportunidades:

Há tempos o Dr. Miguel Pereira disse em um discurso célebre que o Brasil era um vasto hospital. Pareceu que havia nisso até, em certo ponto, um exagero, uma amplificação retórica. Quando, porém, foram sucessivamente aparecendo os trabalhos dos Drs. Belisário Penna e Arthur Neiva, nos anais do Instituto Oswaldo Cruz, e depois o do Dr. Roquete Pinto, nos anais do Museu Nacional, houve de certo em muita gente a surpresa de verificar a exatidão cruel daquela frase (...) O sertão de que os nossos literatos às vezes falam, o sertão idílico em que a vida se passa em misteres poéticos e bucólicos, onde se ouve a cada passo o tocar do violão, à noite, ao desafio, esse sertão, quando não é apenas ficção literária, representa somente uma faixa de terra muito próxima das capitais (...) O verdadeiro sertão é o que nos pintam os Drs. Roquete Pinto, Neiva e Belisário e esse não tem nada de poético: um atraso...24

Deste debate o escritor Lima Barreto (1881-1922) não ficaria ausente. Em artigo de jornal, publicado em 1918, encontramos suas opiniões sobre o “problema vital”:

...trabalhos de jovens médicos como os doutores Artur Neiva, Carlos Chagas, Belisário Penna e outros, vieram demonstrar que a população roceira do nosso país era vítima desde muito de várias moléstias que a alquebravam fisicamente (...) julgo que o doutor Penna tem razão, julgo que ele e seus auxiliares não falsificam o estado de saúde de nossas populações campestres. Têm toda a razão. O que não concordo com eles, é com o remédio que oferecem...25

Lima Barreto seria, naquele momento, um dos poucos a atacar a questão social e econômica, escrevendo: “Em suma, para não me alongar. O problema, conquanto não se possa desprezar a parte médica propriamente dita, é de natureza econômica e social”. Do Congresso Nacional também surgiam alguns comentários acerca da campanha pelo Saneamento do Brasil: O grito de Miguel Pereira veio despertar naquela atonia a que me referi; os nossos estadistas e assumindo a flâmula do combate, surgiu, secundando, não na palavra, mas na ação, o espírito altamente patriótico e abnegado de B. Penna.26

Mas é de Lobato a opinião mais contundente: “... Manguinhos já fez mais pelo Brasil do que um século inteiro de bacharelice onipotente. A salvação está lá. De lá tem vindo, vem e virá a verdade que salva – essa verdade científica que sai nua de arrebiques do campo do microscópio, como a verdade antiga saía do poço”27 Como declaramos anteriormente, Lobato publicou O Problema Vital, reunindo os artigos veiculados pela imprensa. Estes textos demonstram uma mudança de diagnóstico dos males da sociedade. A primeira aparição do Jeca, símbolo do caipira, data de 1914, onde Lobato, revoltando-se contra o triste espetáculo das queimadas, afirmava ser o caboclo um parasita da natureza. Nesta oportunidade, Lobato estava influenciado pelo pensamento social hegemônico daquela conjuntura, dominado pelas teorias cientificistas de origens européias. No entanto, queremos ressaltar que por mais inconsistentes que fossem e até mesmo existissem contradições no seio deste conjunto de idéias, elas apresentavam uma relação com a sociedade brasileira e uma história. Consideramos que a assimilação das idéias cientificistas constitui um processo original no Brasil.28

Em vez de absorção passiva ou mera repetição, o que implicaria negar ao Brasil chances de futuro, ocorreu um esforço de apropriação, um trabalho de interpretação, reelaboração e mesmo de luta com princípios que nos eram francamente desfavoráveis. 29

Assim, o cientificismo ordenava as diferenças e explicava a inferioridade inata das populações mestiça e negra.30 A principal preocupação dos intelectuais (cientistas e literatos) era com a questão racial. Por que? Segundo o conjunto de idéias cientificistas dominantes no Brasil e na Europa, a intensa miscigenação conduzia para uma degeneração étnica e moral que inviabilizaria uma “caminhada para o topo da civilização”. Desta maneira, a mestiçagem representava um obstáculo para a construção da nação e o desenvolvimento do país. Estas leituras da questão racial colocavam algumas perguntas para os intelectuais nacionais. Como construir uma verdadeira nacionalidade, se as “teorias” adotadas indicavam uma improvável nação moderna?

Como os intelectuais resolveram estas questões? Este impasse? Adotando perspectivas que modificaram os modelos deterministas do “racismo científico”, que condenavam o futuro da nação brasileira, sob o argumento do país possuir uma mistura racial biologicamente incapaz: negro, branco e índio. A partir daí, um conjunto de discursos apontariam o abandono da saúde e da educação como o fator que explicaria a degenerescência dos homens. Haveria uma chance para o impasse, para a tragédia31 nacional, pois solucionados tais problemas estaríamos a um passo de consolidarmos um projeto de nação moderna e industrial.

Lobato e seu Jeca regenerado pela ciência são os sinais emblemáticos desta mudança de concepção. Influenciado pelo contato com os membros do movimento sanitarista e pela leitura do relatório de Penna e Neiva, Lobato transformou seu personagem. Este, depois de tratado pelo médico, tornar-se-ia um trabalhador produtivo e saudável. Deste modo, para afastar qualquer risco de incerteza no processo de “branqueamento” da nação, foi necessário que os intelectuais se apropriassem do conhecimento científico em voga no campo das idéias, que era a eugenia. A adoção das regras e conceitos da educação eugênica e higiênica assumiria uma posição confortável na ciência para o desejado branqueamento dos corpos e mentes.

Seduzidos pela idéia de um conhecimento cientifico que anunciava medidas concretas para resolver o problema apontado como muito grave da mestiçagem racial no Brasil - obstáculo para a construção da nação - os intelectuais brasileiros, sobretudo os médicos, aderiram à causa eugênica. Desta forma, para o pensamento social influenciado pela eugenia, caberia aos cientistas transformar o processo de seleção dos que devem sobreviver, que funcionava naturalmente, em um instrumento racional e social de construção de uma raça brasileira saudável e de uma nação restaurada fisicamente e mentalmente. Como definiu Renato Kehl32, citando Galton a quem chamava de “pai da eugenia”: O que a natureza realiza às cegas e impiedosamente, deve o homem fazer precavida, rápida e suavemente 33.

De raça e clima, o problema que inviabilizava a construção da nação deslocou-se para a doença que passou a ser considerada a origem dos males. O Jeca permanecia incapaz, porém estava assim porque era uma vítima das doenças tropicais. No futuro, a ciência o absolveria da sua incapacidade étnica. A educação o capacitaria para a vida e para o trabalho. A parasitologia, a bacteriologia e a microbiologia libertariam seu corpo dos agentes patogênicos. A higiene o protegeria dos males.

A nossa gente rural possui ótimas qualidades de resistência e adaptação. É boa por índole, meiga e dócil. O pobre caipira é positivamente um homem como o italiano, o português, o espanhol. Mas é um homem em estado latente. Possue dentro de si grande riqueza de forças. Mas força em estado de possibilidade. E é assim porque está amarrado pela ignorância e falta de assistência às terríveis endemias que lhe depauperam o sangue, catequizam o corpo e atrofiam o espírito. O caipira não ‘é’ assim. ‘Está’ assim. Curado, recuperará o lugar a que faz jus no concerto etnológico. 34

O movimento pela reforma das políticas de saúde e educação exerceu um papel crucial na construção da identidade cultural. A idéia de redenção nacional através de “reformas” educacional e sanitária legitimaria a função do Estado no campo das políticas sociais. Para os intelectuais (Penna, Lobato, Kehl), após a identificação da inferioridade cultural, racial e moral realizada pelo pensamento cientificista haveria uma resposta: a educação. O ensino de novas maneiras de viver e pensar orientadas pela educação higiênica e eugênica. Tarefas que seriam gerenciadas pelo Estado e conduzidas por cientistas e técnicos aptos.

No Brasil, nas décadas iniciais do século passado, a eugenia possuía uma concepção bastante abrangente. Uma definição corrente seria o de um aperfeiçoamento genético para a eliminação de traços defeituosos físicos e morais. No entanto, Belisário Penna, Renato Kehl, Monteiro Lobato e outros atribuíam uma linha flexível entre higiene, eugenia e educação.35 Em artigo publicado na Revista do Brasil, Renato Kehl declararia: “instruir é eugenizar, sanear é eugenizar”; e ainda nas páginas dessa revista podemos acompanhar a lógica do “racismo à brasileira” ou como as idéias eugênicas no Brasil assumiam a hierarquia social. Personagem central do campo eugênico nacional, o médico Renato Kehl expôs36 em determinado momento seu conceito de eugenia, como sendo:

...a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias. Seus objetivos não se restringem à calipedia, isto é ter filhos bonitos. A beleza é um ideal eugênico. Mas a ciência de Galton não tem horizontes limitados; ao contrário, seus intuitos além de complexos são de uma maior elevação... 37

Em vários livros, correspondências e manuscritos de Belisário Penna, Renato Kehl e Monteiro Lobato, podem ser encontradas passagens de variados tons da teoria eugênica. Os novos conhecimentos higiênicos e eugênicos ofereciam uma saída para a tragédia nacional. Estávamos realmente condenados pela herança genética e climática a uma imutável inferioridade social e racial? Os registros sobre a saúde e condições sócio-sanitárias do povo brasileiro, retratadas e reveladas ao público, ofereciam novos e reveladores argumentos. Os tipos humanos, produtos da miscigenação racial, eram indolentes, preguiçosos e improdutivos porque estavam doentes. Regenerar e curar o Brasil seria construir uma nação. Saneá-lo, higienizá-lo e eugenizá-lo.

Temos literatura; ciência quase nenhuma. O esforço disciplinado que a ciência pede não condiz com o nosso temperamento de povo tropical, tão mais amigo da rua que dos interiores. A rua é literária e a ciência só germina no recesso silencioso dos gabinetes e laboratórios – instituições nitidamente peculiares aos climas frios. Como pode medrar a meditação, o estudo longo, numa terra em que o calor constantemente nos toca para a rua – para o ar livre? Falta na obra de R. Kehl uma página sobre a função do frio no desenvolvimento da ciência e da atitude científica... 38

Luca (1999) ajuda-nos a esclarecer as relações entre as diversas interpretações. De uma investigação racial dos problemas para a sanitarista, o camponês, habitante do interior do país, tido como ser inferior e inadaptável para a civilização industrial havia passado à condição de vítima, doente, sem saúde e educação. Mas, as ciências emergentes não modificaram a visão hegemônica sobre a incapacidade nacional para o mundo moderno? No entanto, segundo esta autora, o elo de ligação entre as diversas explicações era um ideal de sociedade dominada por um conjunto eclético de idéias.

... a uni-los estava a crença, de fundo neolamarquista, na transmissão dos caracteres adquiridos, que permitia encarar qualquer melhoria nas condições higiênico-sanitárias da população, nos hábitos alimentares, como um avanço em termos de aperfeiçoamento genético 39

Creio que a origem das ambigüidades, além da existência conjunta de fórmulas sanitaristas, educativas e esterilizadoras, está na solução adotada pelo pensamento social hegemônico: o branqueamento da nação. Segundo esta idéia, a miscigenação étnica não produzia necessariamente ou inevitavelmente seres híbridos totalmente degenerados. Os produtos da mistura de “raças” constituíam uma população mestiça, mas capaz de tornar-se capaz, tanto cultural quanto organicamente. Se os mestiços não nascessem totalmente degenerados, ações educacionais e sanitárias nos indivíduos, nas cidades e no campo ajudariam a salvá-los. Para evitar o nascimento de indivíduos indesejáveis, adoção de técnicas da eugenia negativa. Assim, não haveria contratempos nesse processo: esterilização e noções de eugenia e higiene para evitar uniões disgênicas.40

Ao analisarmos o campo eugênico brasileiro, queremos demonstrar que, ao lado das propostas de transformação da sociedade por meio de estratégias educacionais, deveriam ocorrer outras ações. Estamos falando, por exemplo, de exame pré-nupcial e esterilização. Durante as décadas de 20 e 30, as idéias de formação de uma nova ordem social tiveram uma sofisticada articulação de tendências. Educação higiênica e esterilização eram as marcas mais visíveis destas formulações. Ainda que correndo o risco da simplificação, poderíamos definir que os arautos do novo homem brasileiro desejavam normas de educação para melhorar as faces do povo doente, feio e pobre e de regras biológicas para garantir a produção de um estoque potencialmente capaz de formar uma raça nacional ideal.

A esterilização dá resultados na redução dos degenerados; estes resultados, porém, não são imediatos e só se farão sentir após muitos anos de uma execução perfeita e permanente (...) a esterilização é um auxiliar poderoso da redução dos degenerados, mas isoladamente não resolve o problema da eugenização da espécie(...) Em suma, para a melhora física, moral e intelectual dos nossos semelhantes, é necessário lançar mão da esterilização, sem prescindir, porém, da prática dos demais preceitos ditados pela eugenia positiva, preventiva e negativa.41

Para entender os conceitos presentes nas obras de Kehl, Penna e Lobato, será necessário compreender o percurso realizado por esses autores. Ao lançar as representações sobre o país, tentavam explicar a sociedade em que viviam. De maneira ampla, os intelectuais nacionais destacavam a inferioridade e a degeneração dos mestiços. Os cruzamentos promíscuos eram os produtores de indivíduos incapazes para o progresso da nação. O pessimismo em relação ao perfil racial brasileiro poderia ser superado se as idéias e práticas do eugenismo fossem adotadas. Recebida como uma arma capaz de promover uma nova ordem social pela melhoria da raça, a eugenia encontrou nestes intelectuais os seus mais importantes divulgadores. Os objetivos de eugenistas e sanitaristas dividiam-se em eugenia preventiva (controle dos fatores disgênicos pelo saneamento), em eugenia positiva (incentivo e regulação da procriação dos capazes) e na eugenia negativa (evitar o nascimento dos considerados incapazes). O grande objetivo era modernizar o país e apagar os símbolos da degeneração racial. Dos sanitaristas, que negavam as teses da indolência inata tropical, vinha o remédio para um futuro promissor: a educação higiênica e as ações públicas sanitárias.

As condições ambientais dever-se-iam modificar-se para que, transformando os indivíduos, os seus descendentes fossem beneficiados. Por outro lado, intelectuais eugenistas e sanitaristas entendiam que as reformas sanitárias aprimorariam a capacidade hereditária. Práticas associadas com a eugenia exemplificam esta filiação neolamarckista: campanhas contra o alcoolismo e as doenças venéreas. Assim, coexistiam teorias que adotavam uma seleção racial capaz de embranquecer a população, produzindo um tipo nacional pelas sucessivas miscigenações, com teses de que o futuro eugênico seria resultado também de aperfeiçoamento no desenvolvimento social. Consideramos que esta amplitude de técnicas eugênicas não se tratava de má interpretação de uma teoria original e sim uma construção de um pensamento original brasileiro.

Em nossa análise, o que distinguia os intelectuais que se propunham a pensar as questões de raça e identidade nacional era uma pequena diferença. Alguns fundamentavam a sua aversão pela sociedade fortemente miscigenada numa “ideologia do branqueamento”. Outros identificavam valores positivos no negro e nos elementos mestiços. Mas quase todos os exemplos desejavam e pensavam numa maneira de “branquear” a cor, a raça, as atitudes e os comportamentos. Por exemplo, para Kehl, este objetivo teria êxito, a partir de três estratégias. Promovendo condições favoráveis à procriação eugênica através da educação higiênica; evitando a reprodução dos degenerados e criminosos, porque estes poderiam transmitir os defeitos morais, físicos e mentais aos descendentes, e que o Estado adotasse as medidas profiláticas diagnosticadas pelos médicos para o combate das enfermidades que fortaleciam os fatores disgênicos (degenerativos) de uma saudável sociedade: a sífilis, a tuberculose e o alcoolismo. Nina Rodrigues, Euclides da Cunha, Belisário Penna, Monteiro Lobato, Silvio Romero, Renato Khel e outros, quase todos, em maior ou menor grau, pelo menos em algum momento de suas vidas pensaram a miscigenação racial como sinônimo de degeneração étnica, moral e física. Certamente, influenciados pelo conjunto de materiais ideológicos vindos da Europa, como o Positivismo de Comte, o Evolucionismo de Spencer, o Naturalismo de Taine e Buckler, a Etnologia de Gobineau, além das idéias de Darwin.

O processo chamado de “redescoberta” do Brasil havia sido para os intelectuais um “retrato” da identidade nacional. A existência de dois “Brasis” - o rural-atrasado e o urbano-civilizado - foi considerado um obstáculo à realização da verdadeira identidade. Mas havia uma esperança. Um novo diagnóstico e novos remédios estavam no campo das idéias: a viagem de Penna e Neiva havia descoberto o verdadeiro país. Afinal, para os cientistas, escritores e políticos, esta visão do Brasil não era fruto da literatura ufanista e romântica. O Brasil, sob a lente do microscópio e da máquina fotográfica, transformara-se num laboratório onde se podia alcançar a verdadeira nacionalidade. A análise do país verdadeiro pela ciência apresentava uma saída para o dilema brasileiro, pois, além de diagnosticar os problemas, indicava o remédio necessário. O encontro da ciência com a realidade nacional produzia uma solução para o progresso do Brasil. Era possível acabar com a indolência. Mas, seria necessário remover problemas. Como os que Penna e Neiva encontraram pelo interior do Brasil em 1912. Indagados sobre a necessidade de construção de um poço de água limpa, os médicos obtiveram uma resposta dos habitantes dos sertões que indicava a eterna apatia do homem rural:

A água é detestável, salobra, extraída de poços (...) porque não se faz um poço, revestido de pedra, e coberto, colhendo-se a água por meio duma bomba? Não vale a pena, é a resposta. O povo já está acostumado com isso, que não faz mal algum. Não há esgotos, nem se usam fossas para as fezes. Cada qual se exonera ao ar livre e a depuração é feita pelo sol.. 42

O movimento político pelo saneamento das áreas rurais concentrava suas atenções na rejeição do determinismo biológico e climático (influência negativa de clima, raça e geografia) e na melhoria das condições de vida e, no caso, voltando-se para a erradicação das graves endemias que assolavam os sertões43 No relatório da expedição Penna-Neiva, as deficiências do homem do campo foram atribuídas à ausência de saneamento que o protegesse das doenças tropicais.

Concluindo, para os intelectuais44, a constituição racial do país era um obstáculo à construção da nacionalidade. Sob este ponto de vista, o povo deveria ser transformado. Era intensa a influência dos teóricos do racismo científico como Gobineau, Agassiz e Le Bon. Os membros do movimento sanitarista criticavam as teses do determinismo biológico e racial, baseando-se em seus conhecimentos do Brasil adquirido nas viagens efetivamente realizadas, em contraste com as diferentes idealizações do país. Como outros autores também observaram, a imagem negativa do Jeca Tatu foi reformulada após o contato de Lobato com os membros do movimento pela criação da consciência sanitária nacional, como Belisário Penna, Arthur Neiva e Renato Khel. Contrários ao ufanismo e ao determinismo, estes homens qualificavam suas idéias e propostas como científicas — e assim pensavam justificar suas interpretações dos problemas nacionais, pois estavam autorizados pela racionalidade cientifica.


Em extenso Relatório que há mais de um ano apresentamos, o jovem cientista Dr. Arthur e eu, ao eminente Dr. Oswaldo Cruz, de uma excursão de sete meses, com um percurso a cavalo de mais de 4.000 quilômetros, através dos sertões da Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás, vem descrita e documentada a trágica epopéia da vida sertaneja..45


Após a publicação do relatório em 1916 e como desenvolvimento da campanha pelo “Saneamento do Brasil”, Belisário Penna escreveu no jornal Correio da Manhã uma série de artigos que, em 1918, também foram publicados em livro. Ele tornou-se um crítico das idéias ufanistas que exacerbavam as supostas qualidades positivas do país, opondo-se à visão do Brasil que ele conhecera. Ao considerar o relatório da expedição pelo interior do Brasil como o documento que comprovava a verdadeira identidade, pensava, assim, corroborar a frase de Miguel Pereira: “... o Brasil é ainda um imenso hospital”. O país que Penna documentara era um grande hospital, mas um hospital de pobres e doentes.

Não esmoreça o eminente professor na patriótica campanha iniciada e conte com a colaboração de todos aqueles que não se deixam mais iludir pelas fantasias e devaneios mentirosos de romancistas e poetas, descrevendo os nossos sertões como pedaços de terra da promissão, onde reinam a fartura, a saúde e a alegria, quando ao contrário são eles em geral, a sede da miséria, da doença, da tristeza e do aniquilamento físico e moral do homem (...) vegeta o sertanejo na miséria, idiotado pela moléstia de Chagas, ou cachetizado pela malária ou pela ancilostomíase, inteiramente abandonado à sua trágica sorte, sem assistência de espécie alguma. 46

O determinismo biológico e o racismo científico que fundamentavam as teorias raciais, condenavam a miscigenação considerando que a incapacidade social dos brasileiros explicava-se por fatores hereditários de natureza biológica ou pela influência do clima e/ou da geografia. No entanto, Penna definiria o caboclo como incapaz e inferior, porém ele era “vítima indefesa da doença, da ignorância, da deficiência ou vício de alimentação”. Se educado, alimentado e curado das doenças, a produção de seu trabalho seria como a de qualquer trabalhador europeu. Para Penna, era um equívoco atribuir uma exclusividade negativa às razões da degenerescência racial. E sempre enaltecendo a observação empírica, verdade irrefutável porque documentada:

... foi depois da verificação pessoal, demorada e conscienciosa dessas calamidades universais no nosso território, que no meu espírito, sucumbido ao peso desse cataclisma nacional, arraigou-se a convicção, a certeza de que é à miséria e à doença, multíplice, generalizada e incontida, mais do que à ignorância, que devemos todos os defeitos que se nos apontam, de indolência, de desânimo, de indiferença e de fatalismo, arrastando-nos todos eles, à ausência de organização social.. 47

Diagnosticando a situação do “povo brasileiro”, Penna não à associava a um só fator, mas ao conjunto de causas que prejudicavam as potencialidades do país. Nesse sentido, os indivíduos poderiam ser regenerados através da educação higiênica: “Além do otimismo exagerado e inconsciente, a doença e o analfabetismo são as calamidades que vão destruindo as forças vivas da nação e arrastando-a para a insolvência, e quiçá para a queda da sua soberania. A prova está feita, o alarma está dado...”48 Pensadores como Monteiro Lobato, Manoel Bomfim, Belisário Penna, Renato Kehl e outros que interpretaram o país encontram-se um pouco esquecidos. Geralmente, eles não são reconhecidos como relevantes autores do pensamento brasileiro, embora muitos tivessem sido divulgadores dos símbolos sociais que ainda hoje estão presentes em nosso imaginário social. Este é o caso dos cientistas e demais intelectuais (engenheiros, educadores, advogados), que participaram da campanha pelo saneamento do Brasil e implantação de uma educação higiênica nos lares e escolas. No âmbito deste texto, não esgotamos as inúmeras possibilidades de pesquisa que esse tema possui. Vários projetos, artigos e dissertações serão necessários para se compreender a presença das idéias de Lobato, Penna e Kehl no campo intelectual nacional.


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