O combate de porongos



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O COMBATE DE PORONGOS

Aconteceu em Bagé ou Santa Bárbara?

Por Linara Cristina dos Santos*

Nos dois lugares. Entretanto, lembramos ao leitor que em História não há verdades acabadas, o que existe são “indícios” que algo aconteceu. Até mesmo a Batalha de Porongos de Bagé, que ficou conhecida pela historiografia moderna como a “Traição de Porongos” é baseada em indícios, que tem como peça documental a carta enviada pelo Barão de Caxias, em 09 de novembro de 1844, das imediações de Bagé, ao Coronel Francisco Pedro Abreu, o Moringue. O Combate de Porongos de Santa Bárbara, na época município de Cruz Alta, aconteceu em julho de 1837 e tem como fonte documental o primeiro Livro de Atas da Câmara de Vereadores da Vila do Divino Espírito Santo da Cruz Alta, especificamente as sessões de 1º de agosto e 06 de outubro de 1837.

Segundo o autor Prudêncio Rocha na obra “A História de Cruz Alta” (1980), o Combate de Porongos de Santa Bárbara teria acontecido próximo ao Capão de Porongos em julho de 1837, quando Bento Manoel Ribeiro (que retornava ao lado Farrapo) tenta conquistar, apoio do, então, Presidente da Câmara de Vereadores de Cruz Alta, Atanagildo Pinto Martins. Segue abaixo uma síntese do Combate de Porongos de Santa Bárbara descrita pelo autor:

* Pesquisadora do Museu e Arquivo Histórico de Santa Bárbara do Sul

(


Marco do Combate de Porongos

Santa Bárbara do Sul-RS
...) A situação política do município de Cruz Alta se caracterizava pela instabilidade. Vidal José Pilar, chefe político e Presidente da Câmara de Vereadores, organizou a “Leal Divisão Cruz- Altense” para defender a causa monárquica. No ano de 1837, o domínio republicano abrangia quase toda a província e não havia atingido à área de Cruz Alta. Bento Manoel Ribeiro deliberou operar nesta região, a fim de conquistá-la para o lado revolucionário. A essa altura, o Coronel Pilar foi a Bagé pedir ao General Sebastião Barreto para vir operar nesta região. (...) Era julho de 1837 e Cruz Alta não aderira à Revolução, Bento Manoel (que retornava para o lado farrapo), sabia que Atanagildo Pinto Martins, estava presidindo a Câmara de Vereadores, desde que Vidal saíra. (...) A tropa acampou nas imediações da Fazenda Porongos (o autor desconhece que a fazenda de propriedade de Atanagildo Pinto Martins se chamava “Fazenda Santa Bárbara”, como consta no inventário do mesmo, autuado em 1851- APERS) Bento Manoel entregou o comando ao General João Antônio da Silveira, dirigindo-se à estância de Atanagildo Pinto Martins, com a finalidade de conferenciar com o Presidente da Câmara de Vereadores, em exercício. Ao sair do local, Bento Manoel é surpreendido e aprisionado pelas forças imperiais, por uma escolta de Barreto, que desconhecia que a tropa farroupilha de João Antônio da Silveira, acampara na região com antecedência de horas apenas. João Antonio da Silveira, quando soube do ocorrido na fazenda de Atanagildo, organizou um ataque da cavalaria farrapa e surpreendeu os imperiais, cujas tropas ainda eufóricas comemoravam a prisão de Bento Manoel. Na confusão do recuo da tropa legalista, Bento Manoel Ribeiro conseguiu fugir, tomando a direção de um arroio (Caxambú) existente naquelas adjacências. Essa vitória foi conquistada no período áureo da revolução, que dominava a quase totalidade da província. Bento Manoel retornou à Campanha, enquanto João Antônio da Silveira apertava o sítio em torno da Vila de Cruz Alta. Atanagildo Pinto Martins encaminhou-se para a sede do município, para presidir a histórica reunião que iria vincular Cruz Alta ao regime republicano:

Ata da sessão de 1º de agosto de 1837

(...) Ao primeiro dia do mês de agosto de 1837, nesta vila de Cruz Alta, às 10 horas da manhã, reunidos os senhores vereadores Atanagildo Pinto Martins, Francisco das Chagas do Amaral Fontoura, Fidelis Militão de Moura, Francisco Rodrigues Sanxes, Miguel Rodrigues de Carvalho, presidindo o senhor Atanagildo Pinto Martins. (....) o que assim se praticou prestando o referido juramento, o Sr. Presidente da Câmara em um livro dos Santos Evangelhos, sobre a mão do vereador Fidelis Militão de Moura, que é imediato em votos. Em seguida, sobre a mão do mesmo senhor presidente, todos os demais senhores vereadores, oficiais e cidadãos que se acham presentes, cujos juramentos constam do livro competente. Concluído este ato, o Sr. Presidente deu os seguintes vivas: Viva a Independência do Estado Riograndense! Viva a República Constitucional! Viva a Constituição que fizer a Assembléia Constituinte da Nação Riograndense! Vivam os defensores da nova república!(...) (Livro 1 de Atas da Câmara de Vereadores da Vila do Divino Espírito Santo da Cruz Alta fls 75 e 76 verso)

O autor Rossano Viero Cavalari em sua obra “Gênese de Cruz Alta” (2004) ressalta que “a composição da Câmara de Vereadores estava modificada radicalmente, já que a maioria dos titulares não estava presente. Apenas Athanagildo e Fidélis pertenciam à composição oficial quando da primeira eleição” (p. 109), o autor deduz que os suplentes deveriam ter assumido em caráter emergencial e indaga “onde andaria os demais titulares?”

Livre o município das tropas farroupilhas, na sessão de 06 de outubro de 1837, a Câmara opera uma reviravolta, voltando ao antigo regime imperial, desaprovando o ato da proclamação do regime republicano e anulando o juramento prestado anteriormente sobre a alegação de que a Câmara fora obrigada pelas forças anarquistas existentes nas imediações da Vila:

Ata da sessão de 06 de outubro de 1837

Aos seis dias do mês de outubro, do ano de N. S. Jesus Cristo, de 1837, nesta Vila do Espírito Santo da Cruz Alta, na sala da Câmara, aí se reuniram às 8 horas os senhores vereadores, Atanagildo Pinto Martins, José Thomás da Silva, Francisco Rodrigues Sanxes, Silvestre José de Pontes, Miguel Rodrigues de Carvalho, presidindo o Sr. Atanagildo Pinto Martins. (....) a Câmara fora obrigada pela força anarquista existente, então nas imediações da Vila, comandada por João Antonio da Silva, pelas terminantes ordens que este dirigiu ao Juiz de Paz, do distrito desta Vila, Manoel Joaquim dos Santos, em 18 de julho e que lhe foram transmitidas pelo mesmo Juiz de Paz, com ofício datado de 19 do mês de julho, para, como o vereador mais votado e que se achava dentro do município, convocasse aos demais senhores vereadores a fim de se proclamar nesta Vila a Independência da Província e o sistema republicano, documentos estes que se acham arquivados. E, tomando a Câmara, na devida consideração, a proposta do senhor presidente, deliberou unanimemente, desaprovar, como, com efeito, por esta desaprova, não só o ato da proclamação da Independência da Província e sistema republicano, como todos os demais que se seguiram, praticados por coação, continuando a dar-se obediência ao governo do Brasil, (...) Depois do que, o senhor Presidente deu os vivas seguintes: _Viva a Nação brasileira! Viva a Constituição Reformada! Viva o jovem Monarca brasileiro! Viva a integridade do Império! Vivam os legalistas da Província! (Livro 1 de Atas da Câmara de Vereadores da Vila do Divino Espírito Santo da Cruz Alta fls 78 verso a 79 verso)

Na sessão da Câmara de 06 de outubro de 1837, Atanagildo Pinto Martins também presidiu a sessão e deu “vivas” ao Império. Como ressalta Cavalari (2004) “a Câmara estava modificada radicalmente”(p.109), sendo que Atanagildo presidiu as duas sessões mudando de opinião, por ter sido coagido pelas forças revolucionárias na sua fazenda próximo ao Capão de Porongos, se dirigiu a sede da Vila para presidir a sessão que faria com que Cruz Alta aderisse ao sistema republicano e depois na sessão seguinte desaprova o ato e dá “vivas”ao Império.

Cavalari (2004) afirma que Atanagildo Pinto Martins “tinha uma leve e muito tênue simpatia pela causa farroupilha” (p.108). Não acredito nesta afirmação, pelo fato de que seus antepassados e ele próprio (Expedição Real de 1816) sempre serviram ao Rei de Portugal, e a concessão de posse de suas terras fora concedida pela Comandância de São Borja, por serviços prestados ao Império.

Segundo o autor Lauro Prestes Filho (1989) “o Combate de Porongos ficou na memória do povo da circunvizinhança e vem sendo transmitido de geração em geração. É o que se chama de tradição oral.” (p.118) A historiografia moderna considera a tradição oral como fonte histórica. Por isso, podemos afirmar que há “indícios” que aconteceu, na região de Porongos, atual município de Santa Bárbara do Sul, um confronto entre forças imperiais e farroupilhas, saindo os republicanos vencedores e instalando no município de Cruz Alta o regime republicano.

Traição de Porongos

Bagé, 14 de novembro de 1844

A Batalha de Porongos de Bagé, que aconteceu em 14 de novembro de 1844, no Cerro de Porongos, nas imediações de Bagé, é descrita pelo autor Jorge Euzébio Assumpção, Mestre em História pela PUCRS, em um artigo publicado na revista História e Luta de Classes, intitulado “A traição dos soldados negros farroupilhas na Batalha de Porongos”:

Como Bento Gonçalves fazia exigências “descabíveis” para por fim à Guerra, o Barão de Caxias afastou-o das negociações abrindo a discussão com o General David Canabarro, interessado em encontrar a saída mais favorável possível para os revoltosos. Logo, chegou-se a acordos substanciais, entre os quais, que os oficiais republicanos que quisessem seriam transferidos para o Exército Imperial, o poder central assumiria as dívidas republicanas e os principais chefes farroupilhas seriam indenizados. Faltava ainda superar um grande impasse, a libertação dos soldados negros, que Bento Gonçalves e outros lideres republicanos não abriam mão. A solução encontrada para a questão deu-se através de um acordo secreto estabelecido entre o Barão de Caxias, general das tropas imperiais, e o General Canabarro, representante farroupilha nas negociações, que ficou conhecido pela historiografia moderna como a “A Traição de Porongos”. A principal peça documental dessa tragédia histórica é a carta enviada pelo Barão de Caxias, em 09 de novembro de 1844, das imediações de Bagé, ao coronel Francisco Pedro de Abreu, o Chico Pedro, ou Moringue, o mais eficiente oficial do Império no Sul.

Ilmo Sr. Regule V.Sa. suas marchas de maneira que no dia 14 às 2 horas da madrugada, possa atacar a força ao mando de Canabarro, que estará neste dia no cerro dos Porongos (...) suas marchas devem ser o mais ocultas que possível seja, inclinando-se sempre sobre a sua direita, pois posso afiançar-lhe que Canabarro e Lucas ajustaram ter as suas observações sobre o lado oposto. No conflito, poupe o sangue brasileiro quando puder, principalmente da gente branca da Província ou índio, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro. A relação junta é das pessoas a quem deve dar escápula se por causalidade caírem prisioneiras (...) Se Canabarro ou Lucas, que são os únicos que sabem de tudo, forem prisioneiros deve dar-lhes escápula de maneira que ninguém possa levemente desconfiar, nem mesmo os outros que eles pedem que não sejam presos, pois V.Sa. bem deve conhecer a gravidade deste secreto negócio que nos levará em poucos dias ao fim da revolta desta Província. (...) (Coletânea de documentos de Bento Gonçalves da Silva – 1835-1845 AHRS)

A
Marco de Batalha dos Porongos

Foto: Eugênia Herter
traição foi bem sucedida. A infantaria farroupilha, composta sobretudo por negros, foi vítima de uma chacina vil organizada por David Canabarro e Vicente Fontoura que abriu caminho para a rendição dos farroupilhas, já que, entre mortos e prisioneiros, os republicanos perdiam em Porongos, 447 combatentes, em esmagadora maioria negros.

Afastado das negociações, Bento Gonçalves da Silva recriminou duramente a “surpresa” de Porongos, levantando a suspeita de traição, a poucos dias do ocorrido:



(...) Campo do Volante em Capivari, 27 de novembro de 1844. Foi com a maior dor que recebi a notícia da surpresa que sofreram o dia 14 deste! Quem tal coisa esperaria por uma massa de infantaria cujos caminhos indispensáveis por onde tinham que avançar eram tão visíveis que só poderiam ser ignorados por quem não quisesse ver nem ouvir, ou por quem só quisesse ouvir a traidores talvez comprados por um inimigo...Perder batalhas é dos capitães, e ninguém pode estar livre disso; mas dirigir uma massa e prepará-la para sofrer uma surpresa semelhante e ser despeita sem a menor resistência, é só da incapacidade, e da inaptidão e covardia do homem que assim se conduz. (...) ( Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, vol.III, 1979, p. 141)

Concluímos com a Batalha de Porongos de Bagé que é necessário primeiro conhecer a História antes de enaltecer seus heróis.



Fontes:

ASSUMPÇÃO, Jorge E. A Traição dos soldados negros farroupilhas na Batalha de Porongos. Revista História & Luta de Classes, Rio de Janeiro, n. 3, p. 61-9, novembro, 2006.

CAVALARI, Rossano Viero. A Gênese de Cruz Alta. Cruz Alta: UNICRUZ, 2004. P. 108-9.

FILHO, Lauro Prestes. Crônicas II de Santa Bárbara do Sul. Santa Bárbara do Sul: Gráfica e Editora Minuano LTDA, 1999. P. 118.

ROCHA, Prudêncio. História de Cruz Alta. 2. Ed. Cruz Alta: Mercúrio, 1980. P. 41-7.

Livro nº 1 de Atas da Câmara de Vereadores da Vila do Divino Espírito Santo da Cruz Alta fls 75 a 79 – Sessões de 1º de agosto e 06 de outubro de 1837.



Pesquisa: Linara Cristina dos Santos

Pesquisadora do Museu e Arquivo Histórico de Santa Bárbara do Sul (MAHSBS)


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