O começo de tudo



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O começo de tudo


A história de São Gonçalo data dos primeiros anos do Século XVI, mas somente no início do Século XVII começou o povoamento da região. Quando a baía de Guanabara foi descoberta, em 1502, a região era habitada pelos Tamoios que, a partir de 1504, passaram a negociar com os franceses o pau-brasil e outros produtos da região.

A Nação Tamoio com suas diversas tribos exercia mando e domínio em toda a zona de lagunas e de enseadas da costa fluminense desde Angra dos Reis até Cabo Frio, incluindo, por tanto, a região de São Gonçalo.

Alberto Ribeiro Lamego assinala em "O Homem e a Restinga" que entre um e outro índio, o ódio era perpétuo, ao mesmo tempo que, isoladamente, se atiravam ambos contra os portugueses. Eles é que retardaram a conquista do litoral.

O trato benévolo com os franceses, a quem se aliaram, deve-se de um lado ao misticismo dos huguenotes (calvinistas) indiferentes à conquista das terras, e, de outro, à sagacidade dos corsários, meros negociantes necessitados de boa acolhida, indo e vindo em trocas amigáveis.

Em outras palavras vale dizer que enquanto os portugueses queriam a plena posse da terra, plantando-se nela como senhor absoluto, tomando-a a todo custo dos seus primitivos donos, os franceses buscavam apenas o lucro mais imediato que pudessem auferir com o contrabando e comercialização do pau-brasil e outros produtos tropicais sem contudo interferir marcantemente na cultura dos indígenas.

É ainda Alberto Lamego quem lembra que "contra os milhares de flechas Tamoias, foram necessários mais de cem anos de persistência encarniçada. Somente a persuasão do Jesuíta e o bom senso de um Governador conseguiram que se abaixassem afinal os grandes arcos dos índios".

O historiador e geógrafo fluminense a cujo livro já citado, recorremos para a elaboração deste texto, observa que Tamoio é nome que pode ser traduzido por avô ou ascendente, entre as tribos do grupo Tupi, enquanto que Tupinambá quer dizer pai e Tupiniquim sobrinho.

Os primeiros habitantes de São Gonçalo, da mesma forma que todos os índios das lagunas e baías eram grandes canoeiros e em quase todos aqueles embates iniciais suas centenas de igaras de guerra sempre apareceram barbaramente aterradoras até que fossem paulatinamente expulsos ou chacinados.

De qualquer forma convém acrescentar que o território até então dominado pelos Tamoios, áspero de acidentes geográficos e rico de angras apropriadas à colonização, da mesma forma que atraía o europeu, impelia o indígena à luta irredutível.

Concluímos com Alberto Lamego que diz no capítulo dedicado ao indígina, da sua citada obra, que em nenhum ponto do Brasil a terra americana uniu-se tanto ao ameríncola na repulsa aos invasores europeus.

Leia mais sobre este período, no livro São Gonçalo no Século XVI aqui disponível.

Como surgiu São Gonçalo?

Algumas versões são apresentadas sobre a formação da atual Cidade de São Gonçalo, entre elas, uma considera que a fundação de São Gonçalo é atribuída a Gonçalo Gonçalves, que, tendo recebido uma sesmaria na margem esquerda do rio Guaxindiba, mandou edificar uma capela dedicada a São Gonçalo, feita paróquia em 1646 (sic). Em torno dela, formou-se um povoado, mais tarde transferida para a margem do rio Imboaçu, onde hoje se encontra a cidade de São Gonçalo.

No Brasil, o fevor religioso da população sempre foi uma característica marcante. Toda a população que aqui chegava, principalmente durante o período colonial, trazia um duplo compromisso. Primeiro, com a "Empresa Colonizadora Lusitana" que consistia na ocupação efetiva do solo de forma produtiva. Segundo, com a "Empresa Religiosa Contra-reformista Católica", professando a fé cristã, divulgando-a para os rincões mais recôndidos do território. Este, segundo compromisso, respaldado na ação dos "jesuítas", objetivava a recuperação de almas católicas perdidas e a conversão de outras que nunca haviam freqüentado o ambiente religioso da igreja de Roma. Nesse mesmo período histórico (século XV e XVI), o catolicismo havia perdido muitos fiéis para o protestantismo, devido ao avanço das "reformas religiosas" promovidas principalmente por Marinho Lutero e João Calvino no "Velho Continente".

Assim, embora surgindo dentro do processo de irradiação lusitana no Brasil, a população gonçalense se definiu por uma forte ligação com o catolicismo. Nossas raízes são muito fortes nesse sentido. Assim, "o Brasil nasceu à sombra da cruz" e São Gonçalo também.

Na introdução histórica da segunda edição de "Regimento das Câmaras Municipais", obra de 1885, João Baptista Cortines Laxe afirma que a Freguesia de São Gonçalo foi criada em 22 de janeiro de 1645 e confirmada por Alvará de 10 de fevereiro de 1647, sob o nome de igreja de Guaxindiba que por funcionar na pequena capela em sua fazenda desse nome edificou Gonçalo Gonçalves.

Tais datas e afirmativas que o estudioso das Câmaras Municipais Fluminenses certamente transcreveu de Monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, no volume 3o das famosas mas nem sempre precisas "Memórias Históricas do Rio de Janeiro", de 1820, também subsidiaram os escritos de J.C.R. Milliet de Saint-Adolphe no "Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo do Império do Brazil", de 1845; Alfredo Moreira Pinto, nos "Apontamentos para o Diccionario Geographico do Brazil", de 1896; Dalmo Barreto em "Criação da Vila Real da Praia Grande"; José Affonso Mendonça Azevedo, no prefácio de "Consolidação da Legislação do Município de São Gonçalo" e até mesmo Luiz Palmier em "São Gonçalo Cinqüentenário", para não falar dos viajantes estrangeiros, entre os quais Saint-Hilaire e John Luccock, que também se valeram das anotações de Pizarro.

A controvércia ficou por conta do jornalista Roberto Barros que no No. XV da "Revista Fluminense", em texto transcrito, em parte, pelo jornal "São Gonçalo - Diário", edições do mês de janeiro de 1964, afirma que "nunca existiu a capela erigida às margens do rio Guaxindiba" e assinala que a verdadeira data do Alvará de confirmação da Freguesia é 14 de outubro de 1647 e não 10 de fevereiro do mesmo ano.

É claro que para discodar do Monsenhor Pizarro e de todos aqueles historiadores que, bebendo nas suas fontes repetiram as mesmas informações incorretas, seria preciso muita pesquisa e até uma certa audácia da parte do jornalista-historiador, que introduz seus escritos com o seguinte comentário:

"A História não chega a ser totalmente contada: há sempre um detalhe que escapa à pesquisa ou atriçoa o raciocínio, a avidez de encontrar envolvendo aquele que procura, na luta pela descoberta, dificultada por documentário esparso, de grafia atordoante, desbotada pelo tempo sobre manuscritos que a traça perfurou, alheia às conseqüências de sua voracidade. E quando o que se quer narrar é de relativa importância, vem a superficialidade do escrito indefinido, outros mais aceitando pacificamente, até formar-se um roteiro cujos fundamentos acabam pondo de lado, e o correto passa a ser aquilo que está errado."

Roberto Barros não se limitou apenas ao minucioso estudo da extensa e bem selecionada bibliografia que de alguma forma pudesse elucidar suas dúvidas sobre o assunto, como também freqüentou arquivos, compilou manuscritos, analisou mapas antigos e até mesmo ouviu pacientemente autoridades religiosas, entre as quais D. José Batista Pereira, então bispo auxiliar de Niterói, Monsenhor Godofredo Coelho e Frei Basílio, do Convento de Santo Antonio.

O jornalista-historiador prefere defender a tese do pioneirismo da Igreja de São Gonçalo, em detrimento da capela de Guaxindiba, mesmo quando demonstra ser praticamente impossível fixar o ano da sua edificação. Ele observa que "o hábito era a capela instalar-se simultaneamente com a posse do solo, e Gonçalo Gonçalves não iria deturpá-lo, tanto mais que sua formação era cristã e o vemos pelo apoio e auxílio que deu à Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, antes e por ocasião da sua morte, se não bastasse, o próprio fato de louvar ao Santo cujo nome portava, com a capela da sua invocação. As anotações eclesiásticas é que, perdidas ou demasiadamente guardadas, agora que se tem um período de tempo demarcado, podem fornecer alguma coisa se existem ou deixar que as convicções prevaleçam na outra hipótese".

Por outro lado Roberto Barros observa que o nome fundador da capela não consta entre os fregueses "nomeados no alvará que criou a vigairaria de São Gonçalo de 1647, embora apareça registrado no mapa de Manuel Vieira Leão, datado de 1767."

Assim sendo é possível deduzir que a construção da capela tenha sido concretizada entre 1647 e 1666, enquanto a criação da vigairaria de São Gonçalo deu-se em 14 de outubro de 1647, por consulta ao Rei, datada de 11 de feveirero de 1646, o qual - diz o jornalista - não tem ligação alguma com a fundação do município. Ordenou aquele alvará o desmembramento da matriz dos "fregueses" e engenhos que se refere porém como "matriz" não pode nem deve ser entendido a de São Gonçalo, porquanto a esta os nominados, diz o documento reconhecerão por sua paróquia e ao vigário nela nomeado por seu pároco e aos mais que por oferecimento nela se nomearem e sim a da Capitania do Rio de Janeiro tratando-se, portanto da criação da paróquia que longe de atestar a edificação da igreja, positiva o desenvolvimento da região.

Para Roberto Barros, aqueles anos tem, por isso, limitado a esse fato a presença na história gonçalense, inclusive porque também os historiadores até agora apenas citam de forma positiva tal particularidade, embora reportando-se ao dia 10, e não 11 de fevereiro, datando de 29 de janeiro de 1648 a provisão do primeiro vigário da Freguesia de São Gonçalo de Guaxindiba, da Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, o reverendo João de Bastos. "Observe-se, conclui o jornalista, 'São Gonçalo de Guaxindiba', diz o documento, assinalando os dois locais, apesar de serem já na época, e desde antes, inteiramente distintos.

A polêmica levantada pelo jornalista-historiador Roberto Barros, em que pese a seriedade de pesquisador amplamente demonstrada a partir de seu texto e das citações, não deve ser considerada como verdade absoluta, mesmo porque, se ele soube, como ninguém, contestar a existência da capela às margens do rio Guaxindiba, manteve-se, por outro lado, no terreno das hipóteses e conjecturas, a não ser quando se refere ao Alvará de 14 de outubro de 1647.

São Gonçalo foi Freguesia e Distrito da Vila Real da Praia Grande (Niterói). Em 1835 Niterói passou a ser Capital da Província do Rio de Janeiro mantendo São Gonçalo como seu sexto distrito.

A emancipação política ocorreu em 22 de setembro de 1890. Instaurava-se a Cidade de São Gonçalo pelo Decreto no 124. Nesse período o crescimento experimentado pela região era grande. Crescia em importância pelas rotas comerciais, principalmente fluviais, que cortavam as suas terras em direção a baía de Guanabara, porto escoador de toda uma produção interiorana, principalmente do Centro-Oeste do Brasil, que já contava com inúmeras áreas agrícolas inicialmente de produção canavieira.

O Município de Niterói imperial nascia em 1835 com as seguintes freguesias: São Gonçalo, Nossa Senhora da Conceição de Cordeiro, São Sebastião de Itaipu. Era uma imensa área territorial que ao longo dos tempos sofreu reduções devido aos focos de crescimento e desenvolvimento que apresentava, responsáveis por emancipações geradores de novos municípios até nossos dias.

Bibliografia:


São Gonçalo - Salvador Mata e Silva e Osvaldo Luiz Ferreira - Editora Belarmino de Mattos - 1993. - CDD-372.8909815.

Revista Municípios do Brasil - Setembro/89, Agosto/90 e Setembro/95 - J.E.F. Editora Cultural Ltda.


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