O conflito árabe-israelense: a água pode trazer a paz antonio Fernandes



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O CONFLITO ÁRABE-ISRAELENSE:

A ÁGUA PODE TRAZER A PAZ

Antonio Fernandes

Técnico Judiciário do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região

Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia

e-mail: aferana@yahoo.com.br


Considerações iniciais


  1. O Oriente Médio passou a ser no século XX e XXI, uma das regiões mais conturbadas do planeta. Na verdade, em função de sua localização estratégica entre os continentes africano, asiático e europeu, a região é marcada por conflitos regionais e internacionais (Magnoli; Scalzaretto,1998. p. 27). De acordo com esses autores, a descoberta do petróleo, e sua exploração em larga escala aumentou ainda mais a importância geopolítica da região.

  2. É na história que se deve buscar a explicação para o complexo quadro desta região. Questões religiosas, políticas, socioeconômicas e culturais têm grande relevância, mas talvez seja a água, o grande entrave para que o processo de paz entre esses povos não se concretize.

  3. A abordagem dos conflitos nesta região, muitas vezes, é feita num contexto sensacionalista e parcial, sendo as informações apresentadas de forma efêmera, sem explicações concisas dos fatos, o que acaba omitindo algumas informações que são essenciais para o entendimento do conflito. Dificilmente se confere uma atenção às especificidades das disputas que envolvem Palestinos e Judeus. Além disso, os (as) alunos(as) e alguns professores(as) sentem dificuldades em compreender e dominar o complexo conflito árabe-israelense, em função da distância dos assuntos tratados nos livros didáticos em relação à realidade vivenciada pelos mesmos. Dessa maneira, ao tratar de temas relacionados à geografia política e à geopolítica, é preciso também levar em consideração as propostas didático-pedagógicas, para que esses temas não se tornem maçantes e cansativos.

  4. Apesar de remontar à era cristã, os conflitos no Oriente Médio, violentos tais como são hoje em dia, iniciam-se, com maior intensidade à partir da criação do Estado de Israel no final da década de 1940. Após o final da segunda guerra mundial, houve um ambiente favorável para a criação do tão sonhado Estado Judeu, em função das perseguições e das atrocidades cometidas pela política Nazista de Adolf Hitler durante a guerra e, também, a grande influência que a população judaica exerce no exterior, principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Coube à recém criada Organização das Nações Unidas (ONU), em 1947, sob mandato dos ingleses, mediar a partilha do território palestino na região da Terra Santa em três partes.

  5. Paralelamente, para refletir e analisar as disputas entre Árabes e Judeus é preciso rever a concepção ratzeliana de ´´espaço vital``, pois esta teoria foi muita utilizada para fins políticos e militares em vários conflitos ao longo do século XX, embora quase sempre de maneira implícita, mas sendo importante no desfecho de vários conflitos. Ratzel pautou na seleção natural das espécies, a qual ele acabou transpondo para a concepção de Estado, fortemente influenciado por Spencer que reproduziu esta teoria darwinista. Ratzel concebeu o ´´Estado como um organismo em parte humano e em parte terrestre``. Segundo ele, tais como as espécies, os Estados necessitam de espaço, por isso lutam pelo seu domínio. ´´A subsistência, a energia, a vitalidade e o crescimento dos Estados têm por motor a busca e conquistas de novos espaços``. Deste modo, Ratzel afirma que ´´os homens se organizam em Estados para os quais o espaço é fonte de vida`` (Moreira, 1994. p. 32-33). Um exemplo claro destas estratégias foi descrito por Lacoste (1989, p. 28-29) nas guerras da Indochina e do Vietnã, onde os invasores utilizaram meios como o bombardeamento de diques e a destruição da vegetação. Contudo, tratava-se de modificar radicalmente a repartição do povoamento praticando, de várias formas, uma política de reagrupamento forçado, ou seja, utilizando meios que são vitais para o controle de uma determinada região.

  6. Neste contexto, as práticas israelenses de conquista e manutenção de territórios não são muito distantes das mencionadas. A água é, sem dúvida, um dos fatores mais importantes nas estratégias de desenvolvimento de um país. Sem água doce não há possibilidade efetiva de desenvolvimento econômico e social. Além da água, estar mal distribuída pelo globo, ainda tem que conviver com a poluição dos rios e de lençóis freáticos, que comprometem e encarecem a captação, o tratamento e a distribuição deste líquido. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), calcula-se que 2,5 a 3 bilhões de pessoas não têm hoje acesso à água em quantidades mínimas necessárias. A água deve ser a causa de vários conflitos no século XXI e ganhará a importância que o petróleo exerceu no último século.

  7. A situação do Oriente Médio é preocupante, pois esta região possui uma pequena quantidade da água doce renovável do planeta e concentra 5% da população mundial. Diante desse quadro, a presente tese tem como finalidade realizar uma análise do conflito sob a ótica da regionalização, num contexto da geografia política e geopolítica. Foi dada ênfase à questão da água, no que se refere: as formas de apropriação, seu controle e seus desdobramentos no decorrer do processo histórico, sobretudo a partir da criação do Estado de Israel em meados dos anos de 1940. Assim, em nossa investigação não desconsideramos as outras várias causas do conflito árabe-israelense, apenas decidimos optar por este tema pela relevância que a água exerce no contexto geopolítico mundial, principalmente nesta região. Esperamos que nossa investigação possa contribuir para o processo ensino-aprendizagem dos temas de geografia política e geopolítica e também na educação ambiental, os quais hoje, fazem parte do cotidiano de nossas vidas.



Surgimento do judaísmo e do islamismo


  1. O judaísmo teve início quando Abraão recebeu uma mensagem de Deus dizendo para que ele conduzisse o seu povo da Mesopotâmia (região localizada entre os rios Tigre e Eufrates, atual Iraque), para a Palestina ou Canaã (atual região de Israel, faixa de Gaza e Cisjordânia). Os Hebreus, mais tarde Judeus, foram guiados por Abraão para a terra prometida. Segundo o velho testamento, a região da Palestina seria assolada por uma grande seca, fato este que levou os Hebreus a fugirem para o Egito, buscando as margens férteis do rio Nilo. Viveram durante anos, até serem escravizados pelos Faraós (1580 A.C. – 1250 A.C). Dentre os Hebreus nasce Moisés, que é criado pela rainha do Egito. Inconformado com a condição de seu povo Moisés renuncia a seus privilégios e liberta seu povo, voltando para a Palestina.

  2. A Palestina foi dominada por vários povos, dentre eles os romanos de religião politeísta, que exigiam que os judeus pagassem tributos e cultuassem seus deuses. Sendo o Judaísmo monoteísta, eles se recusaram e foram expulsos do território, fato este, chamado de Diáspora Judaica.

  3. A volta para casa começou somente no final do século XIX, quando foi fundado o movimento Sionista (movimento de volta à Terra Prometida). Neste período, as terras da Palestina já tinham “novos donos”, os muçulmanos.

  4. O Islamismo tem início quando Maomé recebe uma mensagem do Anjo Gabriel, dizendo que ele era o escolhido por Deus (Alá) para ser o profeta. A sua pregação começou em Meca, cidade sagrada onde encontra-se o templo de Caaba. Maomé começa a pregar uma religião monoteísta, por isto é expulso de Meca em 622 d.c., ano de início do calendário muçulmano. Maomé foi para Iatreb, mais tarde Medina, conseguiu articular um exército de fiéis e retorna a Meca oito anos depois. Consegue então derrotar os Coraixitas (administradores do templo politeísta), tornando sua religião baseada em um único Deus (Alá). O profeta morre dois anos depois e a luta pela sua sucessão cria duas facções: os Xiitas, que defendem a sucessão hereditária e não separam política de religião e os Sunitas que defendem o poder secular.



O conflito Árabe-Israelense



  1. Apesar de remontar à era cristã, os conflitos no Oriente Médio violentos como são hoje em dia, iniciaram-se a partir da criação do Estado de Israel no final da década de 1940. No período entre guerras os Judeus foram muito perseguidos pela política Nazista de Adolf Hitler. E também em função da grande influência da população judaica principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Após o final da segunda guerra mundial houve um ambiente favorável para a criação do tão sonhado Estado para os Judeus. Coube à recém criada Organização das Nações Unidas (ONU) em 1947, mediar a partilha dos territórios da região da Palestina em três partes sob mandato dos ingleses.

  2. A saída dos ingleses da região algumas semanas antes do combinado pela ONU, gerou insegurança. Os Judeus em meio ao caos e à desordem declararam a fundação do Estado de Israel, em 15 de Maio de 1948, que foi rapidamente reconhecido pelos EUA e URSS. Imediatamente, as forças militares da Liga Árabe (Egito, Iraque, Transjordânia, Síria e Líbano) invadiram a região declarando guerra à Israel, criando o primeiro grande conflito entre Árabes e Judeus. Israel foi beneficiado pela desorganização, a desconfiança entre os próprios países árabes e a trégua negociada pela ONU, a qual previa o embargo de armas e munições aos dois lados. No entanto, esse acordo foi descumprido pelos israelenses. Com dinheiro arrecadado das comunidades judaicas no exterior, conseguiram comprar novos armamentos que foram decisivos para se fortalecerem frente aos adversários árabes.

  3. Deste modo, o recém criado Estado de Israel venceu a guerra e ocupou terras além daquelas que a ONU havia designado, provocando a fuga de aproximadamente um milhão de Palestinos, que ficaram sem o Estado que lhes fora prometido. Com isso, teve início a “Questão Palestina”, ou seja, a luta desse povo pela recuperação de seus territórios e pela criação do Estado próprio. No desfecho deste primeiro conflito, além de perdas humanas, ocorreu a ocupação da Faixa de Gaza pelo Egito, da Cisjordânia e a parte Oriental de Jerusalém pela Transjordânia e o restante por Israel.Paralelamente, em 1959, estudantes Palestinos sob a liderança de Yasser Arafat, fundaram uma organização armada contra Israel chamada Al-Fatah, com o propósito de obterem terras para a formação do Estado Palestino. Em 1964, com apoio de outras lideranças do mundo árabe, foi criada a Organização para Libertação da Palestina (OLP), que em 1969 passou a ser dirigida por Arafat. Desde 1975, a ONU passou a reconhecer a OLP como único representante do povo palestino nas negociações de paz na região.

  4. Israel, num prenúncio da guerra dos seis dias, tentou desviar as águas de afluente do Rio Jordão, fato que foi repudiado pela Síria. Posteriormente, esta última também tentou fazer o mesmo. É neste contexto que a região da Terra Santa, como é chamada, se encontrava. De um lado, as negociações dos países que lideravam o Pan-Arabismo, mesmo com todos seus individualismos; de outro, Israel, com suas estratégias em ocupar e dominar ´´espaços vitais``. As negociações entre Síria, Jordânia e Egito e a retirada das tropas da ONU foram substituídas por tropas egípcias, ocupando o Golfo de Ácaba, bloqueando o Porto israelense de Eliat que recebiam suprimentos petrolíferos do Irã.

  5. Toda essa movimentação gerou tensão em Israel, que despejou um ataque surpresa em Junho de 1967. Este foi preparado para hora exata. Israel dizimou a força aérea egípcia em terra. Em apenas seis dias de combates, as tropas israelenses ocupavam as estratégicas Colinas de Golã da Síria, o Sinai e Faixa de Gaza do Egito e a Cisjordânia e a parte Oriental de Jerusalém da Jordânia. Estas regiões foram imediatamente ocupadas por colônias judaicas. Logo após a guerra, o Conselho de Segurança da ONU votou uma resolução exigindo a retirada de Israel de todos territórios ocupados e exigia o reconhecimento mútuo. A resolução nunca foi obedecida.

  6. Na década de setenta, os Palestinos continuaram sendo renegados após ataques terroristas contra colônias judaicas e os seqüestros de 4 aviões. O rei Hussein da Jordânia, ordenou uma grande operação para desarmar os grupos palestinos. O Setembro Negro, como ficou conhecido, teve um saldo próximo de 4 mil Palestinos mortos e 10 mil feridos. Em 1973, árabes e israelenses protagonizaram o quarto grande confronto, a guerra do Yom Kippur (o dia do perdão). Israel foi apanhado de surpresa pelo Egito e Síria que visavam recuperam os territórios ocupados em 67. No início do conflito, parecia ser fácil a vitória sobre Israel. Entretanto, o entusiasmo egípcio e a desorganização dos aliados árabes favoreceram a recuperação israelense. O conflito se alonga e internacionaliza, quando terminam os combates com mais uma derrota árabe; porém, sem perdas de território. A guerra foi transferida para o campo político, a OPEP triplicou o preço do petróleo gerando a chamada crise do petróleo. A partir de então, muda o cenário político no Egito como ascensão de Anuar Sadat. Este aceitou negociar com Israel a devolução do Sinai de forma pacífica. No final dos anos setenta em Camp David - EUA, Egito e Israel firmaram um acordo que restabelecia o Sinai ao Egito até 1982. Em troca, teria que reconhecer o Estado Judeu. Este foi mediado pelo então presidente dos EUA, Jimmy Carter. Enquanto o mundo assistia esse acordo, o Líbano enfrentava uma guerra civil violenta entre os grupos religiosos do país, inclusive os Palestinos Islâmicos.

  7. Encerrada a retirada e acalmados os conflitos no Sul, Israel parte para a invasão no Líbano. Alegando a necessidade de destruir os guerrilheiros palestinos, mais uma vez Israel massacrou os palestinos, sob comando do general Sharon, nos campos de refugiados de Sabra e Chatila na periferia de Beirute. As tropas israelenses de ocupação, com o apoio dos norte-americanos, autorizaram a entrada de milícias cristãs, com o intuito de vingança ao atentado que matara dois dias antes, Bachir Gemayel, presidente recém eleito. Estas milícias massacraram sobretudo crianças, mulheres e idosos. Após fortes pressões internacionais, inclusive da população israelense, os israelenses retrocedem, fixando-se no Sul, onde ocupam uma faixa de segurança, com cerca de 15 km de largura, desocupada a pouco tempo em função de acordos e pressões internacionais.

  8. Em fins de 1987, teve início a intifada (ou revolta das pedras), uma rebelião que chamou a atenção mundial sobre a ocupação de territórios palestinos pelos judeus. Ainda nesse ano, a Jordânia renunciou de lutar pela posse da Cisjordânia, ocupada por Israel desde 67 e cedeu essas terras aos palestinos, obrigando Israel a negociar com a OLP.

  9. A partir dos anos 90, foram feitas várias negociações visando chegar a um acordo de paz. O impasse começa a ser rompido com a vitória dos trabalhistas nas eleições para primeiro Ministro, elegendo Itzhak Rabin, que defendia negociações com base no princípio ´´paz em troca de terra``. Em setembro de 1993, foi assinado um acordo de paz reconhecendo-se mutuamente, o qual, ficou acertada a retirada israelense, a partir de 1994, da maior parte da Faixa de Gaza e de Jericó, na Cisjordânia, locais onde os palestinos conquistaram relativa autonomia. Os acordos encontravam resistência dos dois lados. Uma série de atentados terroristas do lado palestino, os protestos dos direitistas do Likud e as represálias do exército israelense esfriaram os acordos.

  10. Mesmo assim, as negociações entre Israel e a OLP foram retomadas. Finalmente, em 1995 foram firmados acordos que previam a retirada israelense de áreas urbanas da Cisjordânia, incluindo as cidades de Jenin, Nablus, Tulkarn, Qalqylia Ramallah, Belém e partes de Hebron; com exceção desta última, a retirada ocorre ainda em 95. Com o avanço das negociações de paz, acirram as divisões na sociedade israelense. Em virtude dessa resistência em 1995, Itzhat Rabin é assassinado por um judeu radical, contrário à devolução de territórios aos palestinos, colocando em risco os acordos firmados até então. Assume, Shimon Peres tentando dar seqüência as negociações, que outra vez foram interrompidas em virtude de ataques de homens-bombas e retaliações por parte do exército de Israel.

  11. Novas eleições, e o Likud volta ao poder refreando o processo de paz. O governo israelense revoga o decreto que proibia a expansão de colônias judaicas na Cisjordânia e aprova a construção de mais 1.800 casas em uma colônia da região; além disso, fecha o escritório da OLP em Jerusalém, demolindo-a. A Intifada é retomada em uma das visitas do general direitista Ariel Sharon à esplanada das Mesquitas, em Jerusalém. Em resposta a construção de um túnel que une a Via Dolorosa ao Muro das Lamentações, principal santuário do judaísmo, passando sob a Mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do islamismo. Em 1999, os trabalhistas voltaram ao poder e no ano seguinte, através de acordos firmados em Camp David (EUA), foi proposto aos palestinos o controle integral da Faixa de Gaza e de 90% da Cisjordânia. No entanto, Israel recusou-se a entregar Jerusalém Oriental, que os palestinos reivindicam como capital, o que criou um impasse.

  12. Com a ascensão do primeiro-ministro Ariel Sharon, a região se transformou numa guerra sem precedentes. Com o mesmo discurso de antes, ou seja, destruir os terroristas palestinos, quando na verdade sua real intenção era enterrar de vez os acordos de paz de 1993. Em 2002, em resposta a novos ataques suicidas, numa operação que foi chamada de ´´Muro Protetor``, Israel ocupou com tropas, tanques, blindados e escavadeiras, praticamente todas cidades sob controle palestino na Cisjordânia, fechou o cerco ao quartel general de Yasser Arafat em Ramallah. Em um desses cercos, as pessoas ficaram por uma semana sem poder sair de casa. Quando puderam sair foram cuidar das tarefas mais urgentes, como conseguir água e comida. Entre todas, uma indispensável, enterrar os mortos. Muitas famílias tiveram parentes baleados dentro de casa e não puderam sair para enterrá-los. Eles ficaram na sala ou nos quartos, cobertos de cal para diminuir a velocidade de putrefação dos corpos. George Fridman disse a revista Veja (2002): ´´Que nos últimos meses quem era moderado se tornou radical. Quem era radical apenas no discurso está pronto para matar. Isso vale para os dois lados``.

  13. Desta forma, uma das grandes dificuldades de se chegar a uma paz definitiva são o grande número de colônias judaicas instaladas na faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Não basta o chefe de Estado Judeu firmar acordos, sendo que as comunidades judaicas resistem a desocupar os territórios em que estão instalados. Nesse ambiente de confronto entre judeus e palestinos, o medo está presente dos dois lados. A vantagem dos primeiros, é que eles podem ir e vir de um lugar para o outro sem constrangimentos. Os palestinos enfrentam vários postos de checagem e estão isolados do mundo, impedidos de circular em seu próprio território.

A disputa pela água



  1. Em 1991, o jornalista Fábio Altman entrevistou o então ex-primeiro-ministro de Israel Shimon Peres (Revista Veja, 20.02.1991, p. 5-7) e perguntou:

Veja: O descompasso da economia pode causar guerras?



Shimon Peres: Sim. Um dos conflitos mais conhecidos do Oriente Médio é o dos territórios, da briga de fronteiras, mas as pessoas se esquecem da água. A próxima guerra pode ser a guerra da água. Há nessa região do mundo uma escassez terrível de água, e se os países não cooperarem entre si para desenvolver a tecnologia da dessalinização e da distribuição de líquidos, teremos enorme dificuldades num futuro próximo. Apenas a paz – e falo também da paz econômica – eliminará o risco de um conflito por causa da falta de água. Parece ser uma coisa prosaica, mas não é. (Veja, 20.02.1991, p. 6)



  1. A difícil paz entre israelenses e seus vizinhos no Oriente Médio, já foi explicada pelas questões religiosas, políticas, econômicas, sociais e até culturais, mas é talvez a questão da água a razão maior deste conflito, e é nesta perspectiva, não menosprezando os aspectos políticos, religiosos, econômicos, que já nos referimos, discorremos para explicar este conflito.

  2. Segundo o ONU, a escassez de água doce no mundo é atualmente um dos maiores problemas em todos os continentes e é hoje uma das prioridades desta organização para este século.

  3. A água é, sem dúvida, um dos fatores, mas sem dúvida o mais importante nas estratégias de desenvolvimento dos países. Sem água doce, não há possibilidade efetiva de desenvolvimento das cidades e do campo.

  4. Além da água doce existente no mundo estar mal distribuída pelo globo, outros fatores como a poluição dos rios e lençóis freáticos por esgotos industriais e domésticos, comprometem e encarecem a captação, o tratamento e a distribuição para a população.

  5. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), calcula-se que 2,5 à 3 bilhões de pessoas não tenham hoje acesso a saneamento básico e a consumo de água em quantidades mínimas necessárias.

  6. Esta má distribuição da água doce pelo globo já está acarretando conflitos pelo mundo, pois em algumas regiões, a situação já é crítica, e não se vislumbra uma solução para o problema.

  7. Na África Setentrional, já há 14 países em situação de estresse hídrico e outros 11 devem entrar para este grupo até 2.025. Na Ásia e no Pacífico, que concentram 60% da população mundial, o mais alarmante é a contaminação por esgotos e dejetos industriais e uma a cada três pessoas só possui acesso à água que já não é mais saudável para consumo humano. Mas a situação mais preocupante é a do Oriente Médio, pois nesta região está apenas 1% da água doce renovável do planeta e concentra 5% da população mundial, e é com ênfase nesta questão fundamental, que aprofundaremos a debate neste trabalho, principalmente quanto à questão da difícil paz entre israelenses e palestinos.No Oriente Médio, estão concentrados 70% das reservas conhecidas de petróleo do mundo; e como vimos acima, apenas 1% da água doce do planeta. A discussão sobre a questão da água nesta região é pertinente, pois todos nós sabemos que já existem alternativas para a substituição do petróleo como fonte de energia, e quanto à água, pelo que sabemos, não existe substituto.

  8. Como vamos nos ater neste momento ao debate sobre a região da Palestina, cabe aqui informar que: a água existente na região está concentrada em território palestino, mas é Israel quem controla e domina toda a distribuição deste líquido precioso. Além disso, as águas do Rio Jordão são disputadas por sírios, israelenses, palestinos e jordanianos. Já vimos anteriormente as causas e conseqüências das Guerras travadas entre Israel e seus vizinhos, mas cabe aqui ressaltar que a intenção da Síria, em 1967, de desviar as águas do Rio Banyas, afluente do Rio Jordão, levou os dois países a travar conflitos fronteiriços, estopim da Guerra dos Seis Dias, entre Israel, Síria, Egito e Jordânia. Este conflito vencido pelos israelenses foi muito lucrativo para Israel, pois além de vencer a Guerra, o mesmo se apoderou das regiões estratégicas em disponibilidades hídricas.

  9. A situação da escassez de água é tão grande, que estudos de 1997, indicam que a oferta de água na região Palestina será de 20% até 2010, enquanto a população desta região terá crescido de 13 milhões para 20 milhões. Além disso, hoje a média de precipitação pluviométrica na região gira de 250 mm a 400 mm por ano, e apenas a agricultura consome em torno de 400 mm por ano, o que ocasiona um grande déficit hídrico do consumo para outras atividades, inclusive a humana.

  10. A situação de escassez é mais grave para os palestinos, pois seu consumo médio atual é de 30 mil litros por ano, enquanto o dos israelenses é de 100 mil litros por ano.

  11. A situação atual não é nova, pois como já vimos, já na Guerra dos Seis Dias (1967), Israel dominou a região onde repousa o Aquifero das Colinas de Golã, e de quebra conquistou as nascentes do Rio Jordão. Além disso, ocupou áreas estratégicas em Gaza e na Cisjordânia. Neste período Israel construiu uma estação bombeadora na margem ocidental do Mar da Galiléia, e através de aqueduto, levou água até o Deserto de Negev.

  12. A utilização da água existente é injusta, pois Israel utiliza mais de 50% da água potável para sua agricultura. Para conseguir isto, a empresa israelense de distribuição de água (MEKOROT) corta 30% do fornecimento de água para os lares palestinos, ligados a uma rede obsoleta e sem manutenção. Outrossim, os palestinos que dependem de poços artesianos fora do perímetro urbano ficam sem água quando suas vilas são cercadas pelo exército de Israel, que, a cada dia, se tornam mais freqüentes e violentos.

  13. As lavouras palestinas, são cultivadas com água recolhida dos telhados, e armazenada em cisternas, além do que cada vez mais palestinos estão tratando e reciclando a água de uso doméstico para utilização nas lavouras.

  14. Israel utiliza vários artifícios para controlar a água que os palestinos utilizam, ora impondo cotas para a retirada de água dos poços já existentes, ora proibindo a cavação de novos poços.

  15. A construção de um novo “muro da vergonha”, que está sendo construído por Israel no intuito de separar os israelenses dos palestinos, alegando que este muro vai impedir ataques terroristas em seu território, e em contrapartida os palestinos alegam que este muro é muito mais do que isto. Os palestinos dizem que as melhores terras e as fontes de água estão ficando do lado israelense.

  16. A questão da água é tão estratégica, que durante a intifada palestina, foi assinado um acordo entre as partes para separar a água do conflito.

  17. Shimon Peres em seu Livro “O novo Oriente Médio” volta a afirmar:


A água é um elemento tão estratégico, que o acordo de paz assinado entre israelenses e palestinos, em 1993, inclui de maneira clara o uso racional das escassas reservas de água doce da região. O tratado de 1994 entre Israel e Jordânia também abordou a questão da água, incluindo o compromisso do governo israelense de fornecer anualmente uma determinada quantidade de água ao seu vizinho. Atualmente, as negociações de paz com a Síria giram em torno do problema da escassez da água. (www.jb.com.br, acesso em 20.11.2006)


  1. A água é um dos elementos principais que separam israelenses e palestinos. É um motivo constante de conflitos e tensões na região, e apenas o manejo racional das reservas e da distribuição deste líquido, poderia levar a aproximação dos povos da região. Mas isto não é possível somente pela utilização racional da água, pois a quantidade existente não é suficiente para suprir as necessidades dos habitantes, portanto somente a junção de esforços num processo abrangente e mútuo de dessalinização da água do mar poderia aliviar as tensões ora em curso.

  2. A solução para este problema seria a instalação de usinas de dessalinização da água do mar. Hoje, este processo é responsável por apenas 1% do total da água consumida na região. Este sistema ainda tem um custo altíssimo, apesar da tecnologia ter evoluído, de 1979 a 1999, e o preço por metro cúbico ter caído de $5,50 dólares para $0,55 centavos de dólar, e segundo os especialistas esta é uma das soluções mais viáveis para por termo ao conflito.

  3. Segundo o diretor-geral da Unesco, Koichiro Matsuura: (Almanaque Abril, Atualidades vestibular, p. 89): “De todas as crises sociais e naturais que os seres humanos devem enfrentar, a dos recursos hídricos é a que mais afeta a nossa própria sobrevivência e a do planeta”.


Considerações finais


  1. Diante da situação atual no Oriente Médio, no que se refere aos conflitos Árabe-Israelense, entendemos que é essencial uma abordagem destes conflitos sob o ponto de vista da regionalização, dando ênfase à questão da água.

  2. O papel do Geógrafo é estar constantemente encontrando novas formas e caminhos na arte de ensinar e educar. A geografia contribui muito para que o aluno(a) compreenda como são complexas as relações entre os povos e países, e muitas vezes, o que vemos são as lideranças desses povos utilizando estas relações para justificar as guerras e a intolerância.

  3. Nós, Geógrafos, não podemos furtar-nos da nossa obrigação em mostrar aos nossos (as) alunos(as) que outra sociedade é possível, que é através da cooperação entre os povos que podemos salvar este planeta. Não podemos utilizar a geografia como muitos já fizeram, através da história para justificar a guerra. Devemos, sim, utilizar à geografia para conquistar a paz.

  4. Deste modo, este assunto não se esgota neste trabalho, muito pelo contrário, é um tema extenso, complexo e de difícil entendimento.

  5. Assim, tentamos afastar nossa abordagem de uma visão sensacionalista e parcial, buscamos identificar e analisar o conflito através da questão da água (líquido tão precioso em nossos dias), sem desconsiderar os demais aspectos que envolvem o tema, e neste ponto concordamos com Shimon Peres quando diz que: “pode ser uma coisa prosaica, mas não é”.



Referência Bibliográfica
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Todos os sítios foram acessados em 20.11.2006


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