O conhecimento de Deus J. I. Packer



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O Conhecimento de Deus

J. I. Packer

Título original: “Knowing God”

Tradução de Cleide Wolf e Rogério Portela

2a Edição

Editora Mundo Cristão

ISBN: 85-7325-030-5

Digitalizado, Revisado e Formatado por: Skat

www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

S U MÁRI O

Prefácio . 3

Apresentação 8

Parte i: CONHEÇA O SENHOR


  1. O estudo de Deus 11

  2. O povo que conhece seu Deus 18

  3. Conhecer e ser conhecido 26

  4. O único e verdadeiro Deus 36

  5. Deus encarnado 44

  6. Ele dará testemunho 58

Parte ii: CONTEMPLE O SEU DEUS

  1. O Deus imutável 66

  2. A majestade de Deus 74

9. Só Deus é sábio 81

  1. A sabedoria de Deus e a nossa 89

  2. A tua palavra é a verdade 99

  3. O amor de Deus 106

13. A graça de Deus 119

  1. Deus, o Juiz 130

  2. A ira de Deus 139

  3. Bondade e severidade 149

  4. O Deus ciumento 158

Parte iii: SE DEUS É POR NÓS...

  1. O coração do Evangelho 168

  2. Filhos de Deus 189

  3. Tu, nosso guia 219

  4. Estas provações íntimas 233

  5. A suficiência de Deus 241

PREFÁCIO
Assim como os palhaços almejam representar Hamlet, eu queria escrever um tratado sobre Deus. Este livro, porém, não chega a tanto, ainda que sua extensão possa dar essa falsa idéia. Quem pensar assim ficará desapontado. É mais uma fieira de contas: uma série de pequenos estudos sobre grandes assuntos, muitos dos quais apareceram na Evangelical Magazine [Revista Evangélica}. Embora tenham sido escritos como mensagens independentes, são agora apresentados em conjunto porque englobam uma só mensagem a respeito de Deus e de nossa vida. É seu propósito prático que explica tanto a seleção como a omissão de diversos tópicos e seu tratamento.

Em A preface to Christian theology [Prefácio à teologia cristã], John Mackay1 ilustra dois tipos de interesse nos assuntos cristãos. Para isso usa a figura de pessoas sentadas na sacada de uma casa espanhola observando quem passa na rua. Eles podem ouvir a conversa dos transeuntes e mesmo conversar com eles, podem criticar seu modo de andar, ou discutir a respeito da rua: Como ela pode existir, ou para onde vai, o que



1John Alexander Mackay (1889-1983). Ministro presbiteriano escocês (nascido em Iver-ness), foi um missionário ligado à educação (principalmente no Peru, Uruguai e México), presidente do Seminário Teológico de Princeton e líder ecumênico, proponente da Teologia do Caminho.

poderia ser observado de diferentes pontos dela, e assim por diante; mas são apenas observadores, e seus problemas são teóricos.

Os viajantes, pelo contrário, estão enfrentando problemas, que embora tenham seu ângulo teórico são essencialmente práticos — problemas do tipo "aonde ir" ou "como chegar lá", problemas que exigem não apenas compreensão, mas também decisão e ação.

Observadores e viajantes podem refletir sobre o mesmo assunto, mas seus problemas diferem. Assim (por exemplo) em relação ao mal, o problema do observador é encontrar uma explicação que concilie o mal com a soberania e a bondade de Deus, enquanto o problema do viajante é como vencer o mal e se sair bem.

Quanto ao pecado, o observador questiona a credibilidade da tendência humana ao pecado ou da perversidade pessoal, ao passo que o viajante, conhecendo o pecado por dentro, pergunta que esperança de libertação pode haver. Ou, em relação à divindade, enquanto o observador da sacada pergunta como é possível que um Deus seja três, que espécie de unidade pode haver em três, e como três — que são um — podem ser pessoas, os viajantes querem saber como poderão mostrar honra adequada, amor e confiança perante as três pessoas que agora estão unidas no esforço de transportá-los do pecado para a glória.

Poderíamos continuar indefinidamente neste tom, mas este livro é para os viajantes e é com suas perguntas que ele lida. Foi escrito com a convicção de que a ignorância sobre Deus — ignorância tanto de seus recursos como da prática da comunhão com ele — tem relação direta com a fraqueza da igreja moderna. Duas tendências infelizes parecem ter produzido este estado de coisas.

A primeira tendência é que a mentalidade cristã adaptou-se ao espírito moderno, ou seja, o que gera grandes idéias humanas e deixa espaço apenas para pequenos pensamentos sobre Deus. A atitude atual em relação a Deus é deixá-lo à distância, quando não o nega completamente. A ironia disto é que os cristãos modernos, preocupados em manter as práticas religiosas em um mundo sem religião, têm, eles mesmos, permitido que Deus se torne distante.

Pessoas com uma visão mais clara das coisas, percebendo esta situação, são tentadas a se afastar da igreja, um tanto desgostosas, para buscar a Deus por si mesmas. Ninguém poderá culpá-las totalmente, pois os cristãos que buscam a Deus usando, por assim dizer, o lado errado do telescópio, reduzindo-o à proporção de um pigmeu, não podem esperar concluir seus dias senão como cristãos pigmeus. As mais esclarecidas querem naturalmente alguma coisa melhor. Além disso, pensamentos sobre a morte, a eternidade, o juízo, a grandeza da alma e as conseqüências duradouras das decisões temporais são "ultrapassados" para os modernistas. O triste é que a Igreja cristã, em lugar de levantar a voz para lembrar ao mundo o que está sendo esquecido, adquiriu o hábito de também menosprezar esses temas. Estas capitulações ao espírito moderno são realmente suicidas quando se referem à vida cristã.

A segunda tendência é que a mentalidade cristã vem sendo confundida pelo ceticismo moderno. Por mais de três séculos o fermento naturalista da perspectiva renascentista tem agido como um câncer no pensamento ocidental. Os arminianos2 e os deístas3 do século xvn, assim como os socinianos4 no século xvi, negavam, em oposição à teologia da Reforma,5 que o controle de Deus sobre o mundo fosse direto ou total. Desde então,

2Partidários do teólogo holandês Jacó Armínio (1560-1609), cujos escritos foram julgados postumamente pelo Sínodo de Dort (1618-1619), convocado pela Igreja Reformada Holandesa (da qual Armínio fora ministro), por negar a doutrina oficial calvinista sobre a predestinação absoluta, afirmando a incompatibilidade entre a soberania de Deus e o livre-arbítrio humano.

3Adeptos de uma forma racionalista de explicar o relacionamento de Deus com o mundo. Costuma-se descrever o conceito deísta segundo a ilustração clássica criada por Nicolau de Oresmes (séc. xiv) de que Deus seria um "Relojoeiro", que inventou todas as engrenagens do relógio chamado Universo para trabalhar perfeitamente, deu corda e saiu para tratar de seus assuntos.

4Seguidores de Fausto Socino (1539-1604) que negavam a divindade de Jesus, a onisciência divina e ensinavam a morte da alma. São os precursores do que se tornaria o unitarismo (séc. xvii) e a teologia aberta ou neoteísmo (séc. xx), escola de interpretação bíblica atualizada dos argumentos de Socino contra a onisciência absoluta de Deus.

5Sucintamente descrita pela expressão "Cinco solas": Sola Scriptura (só a Escritura é a Palavra de Deus); Solus Christus (só Jesus Cristo salva mediante sua obra expiatória e substitutiva na cruz); Sola gratia (a salvação é decorrente única e exclusivamente da graça divina, sem nenhum merecimento por parte da humanidade decaída e pecadora); Sola

fide (a salvação é outorgada só àqueles que têm fé, que também é dom divino) e Soli Deo gloria (todos os que foram alcançados pela mensagem exclusiva da Palavra de Deus e creram só em Jesus para a salvação, por terem sido beneficiados por Deus com sua graça e o dom da fé, darão eternamente glória e louvor exclusivos ao Senhor que os salvou).

a teologia, a filosofia e a ciência têm em grande parte se unido para sustentar essa negativa. Como conseqüência, a Bíblia está sob fogo cerrado, assim como muitos outros marcos do cristianismo histórico. Os fatos fundamentais da fé são questionados. Deus se encontrou com Israel no Sinai? Jesus foi mais que um homem muito espiritual? Os milagres dos Evangelhos realmente aconteceram? O Jesus dos Evangelhos não será, em grande parte, uma figura imaginária? — e assim por diante.

E isso não é tudo. O ceticismo a respeito da revelação divina e dos fundamentos cristãos deu margem ao questionamento mais amplo que abandona toda idéia da unicidade da verdade, e com isso qualquer esperança de unificar o conhecimento humano. Assim, é comumente aceito que minhas percepções religiosas não mantêm relação com meu conhecimento científico das coisas externas, porque Deus não está "lá fora" no mundo, mas apenas "aqui dentro" na psique. A incerteza e a confusão a respeito de Deus, características de nossos dias, são piores que qualquer ataque desde a tentativa da teosofia gnóstica6 de absorver o cristianismo no século ii.

É comum dizer-se hoje em dia que a teologia está mais forte que nunca, e em termos de especificação acadêmica, ou na qualidade e quantidade de livros publicados, isto talvez seja verdade. No entanto, faz muito tempo que a teologia não se apresenta tão fraca e inábil na tarefa básica de manter a Igreja dentro das realidades do Evangelho. Há noventa anos Charles Haddon Spurgeon7 descreveu como "declínio" as vacila-ções observadas então entre os batistas a respeito das Escrituras, da expiação e do destino humano. Se ele pudesse avaliar o pensamento



6''Conjunto de movimentos religiosos, sincréticos e esotéricos, anteriores à expansão do cristianismo, marcados pelo profundo apego ao "conhecimento secreto" (gnosis) e que misturavam misticismo e especulação filosófica. Foi um grande e perigoso adversário do cristianismo, principalmente quando gerações de cristãos provenientes do paganismo tentaram explicar suas novas crenças fazendo uso da nomenclatura e da cosmovisão gnóstica.

7"Denominado o "Príncipe dos pregadores" (1834-1892). Nascido em Kelvendon (Grã-Bretanha), filho e neto de pregadores, Spurgeon foi um pastor batista calvinista que pregava a grandes audiências os princípios que extraía da teologia puritana. Foi um escritor prolífico e fundou também um seminário, orfanatos, sociedades assistenciais para diversas causas. Sua influência estende-se até o dia de hoje por meio de suas pregações e livros, que são impressos e distribuídos em todos os continentes.

protestante a respeito de Deus nos tempos atuais, creio que falaria em "afundamento"!

"Ponham-se na encruzilhada e olhem; perguntem pelos caminhos antigos, perguntem pelo bom caminho. Sigam-no e acharão descanso" (Jr 6:16). Eis o convite deste livro. Não se trata de uma crítica aos novos caminhos, a não ser indiretamente; pelo contrário, é um chamado direto às sendas antigas, pois "o bom caminho" é ainda o mesmo.

Não peço que meus leitores pensem que conheço perfeitamente o assunto de que estou falando. "Aqueles como eu", escreveu C. S. Lewis,8 "cuja imaginação ultrapassa de longe a sua obediência, estão sujeitos a um castigo justo. Imaginamos facilmente condições muito mais elevadas que aquelas que realmente chegamos a alcançar. Se descrevermos o que imaginamos poderemos fazer com que outros, e nós, acreditemos que na verdade estivemos ali"9 — e desse modo enganamos tanto aos outros como a nós mesmos.

Todos os escritores e leitores de literatura devocional fariam bem em pesar as palavras de Lewis. Entretanto, "Está escrito: 'Cri, por isso falei'. Com esse mesmo espírito de fé nós também cremos e, por isso, falamos" (2Co 4:13); e se o que aqui está escrito for útil a alguém, do mesmo modo como as minhas meditações durante este trabalho me ajudaram, esta obra terá então realmente valido a pena.

James I. Packer

8Clive Staples Lewis (1898-1963) foi escritor e estudioso. Nasceu em Belfast, Irlanda. Especialista em literatura medieval inglesa, escreveu após sua conversão sobre ficção cristã e outros temas ligados ao cristianismo. Suas obras mais conhecidas são Cristianismo puro e simples e As crônicas de Nárnia.

9''Os quatro amores, Col. Pensadores Cristãos, 2a. ed., São Paulo: Mundo Cristão, 1986. p. 108.

APRESENTAÇÃO


É com entusiasmo que recomendo a leitura desta obra. Embora esta segunda edição não contemple alterações substanciais, não perde para outros livros lançados mais recentemente. Desconheço outro escritor que tenha superado a qualidade teológica e a aplicação prática que J. I. Packer imprime em O conhecimento de Deus.

Jesus afirma que conhecer a Deus eqüivale à vida eterna, portanto essa deve ser a prioridade. Esse tema nunca estará "fora de moda", pois não é possível exauri-lo. Como não tirar proveito de uma leitura tão edificante e informativa!

Embora a designação best-seller não signifique necessariamente que seu autor escreve muito bem ou que o assunto seja da máxima importância, vemos ambas as características nesta obra. Com mais de um milhão de exemplares vendidos em uma dúzia de línguas, O conhecimento de Deus superou minhas expectativas.

Dr. James Packer é escritor talentoso. Possui mente aguda e coração ardente, qualidades que se destacam em cada página. Teólogos podem ser, às vezes, complicados e tediosos. Embora detenham extenso conhecimento acadêmico, em geral não se revelam muito hábeis em desenvolver o tema a que se propõem de modo a fascinar os leitores. Este, porém, não é o caso de J. I. Packer.



O conhecimento de Deus apresenta profundidade bíblica. Ao analisar diversas passagens das Escrituras, o dr. Packer tece discussões teológicas visando a desvelar verdades e pontos de vista antes despercebidos. Acredito que pastores e mestres da Bíblia aproveitarão muitas páginas deste livro para estimular seus alunos e suas ovelhas a conhecer melhor a Deus e a sua Palavra.

O conhecimento de Deus apresenta abrangência teológica. Ainda que não se trate de uma teologia sistemática, recomendo esta obra a todos os estudiosos de teologia como sua melhor fonte de conhecimento paralelo. Além de reunir muita reflexão sobre Deus e sua atuação na história, é uma ferramenta de combate contra a tendência de muitos cursos de seminários de banalizar as verdades centrais da fé e desestimular a paixão pelo Senhor.

O conhecimento de Deus ajuda a esclarecer doutrinas e práticas muitas vezes pouco compreendidas e, não raro, permeadas por erros. Muitos pastores e mestres da Palavra costumam repassar ensinamentos atraentes aos ouvintes sem analisar consistentemente sua veracidade ou seus fundamentos bíblicos. Para ilustrar a relevância deste aspecto, basta mencionar a discussão do dr. Packer sobre a proibição de imagens e o perigo que representam para os cristãos evangélicos. Utilitarismo e pragmatismo desviam facilmente as igrejas do caminho.

O conhecimento de Deus apresenta-se ainda como fonte de orientação ética para os que enfrentam dilemas e precisam tomar decisões condizentes com a santidade. Muitas escolhas e decisões presentes na vida dos cristãos de hoje jamais foram concebidas pelo povo de Deus de dois mil anos atrás.

Os desafios da modernidade, da vida urbana e do constante bombardeio da mídia requerem sabedoria. O leitor se sentirá grandemente estimulado ao acompanhar, por exemplo, o raciocínio do dr. Packer no capítulo 10, A sabedoria de Deus e a nossa, em que se evidencia sua capacidade de contextualizar a Bíblia.

Poderíamos mencionar muitos outros aspectos importantes e interessantes desta obra mas assim como, creio, a melhor maneira de conhecer uma iguaria é prová-la, a melhor maneira de conhecer a qualidade superior do livro O conhecimento de Deus é mergulhar em sua leitura.

A Deus toda a glória!

Dr. Russell Shedd

Parte I

Conheça


O Senhor



O estudo de Deus
Em 7 de janeiro de 1855 o ministro da capela da rua New Park começou seu sermão matinal do seguinte modo:

Já foi dito por alguém que "o estudo adequado da humanidade é o próprio homem". Não me oponho à idéia, mas creio ser igualmente verdadeiro que o estudo correto do eleito de Deus é Deus; o estudo apropriado ao cristão é a divindade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais poderosa filosofia que possa prender a atenção de um filho de Deus é o nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do grande Deus, a quem chama Pai.

Nada é melhor para o desenvolvimento da mente que contemplar a divindade. Trata-se de um assunto tão vasto, que todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidão; tão profundo que nosso orgulho desaparece em sua infinitude. Podemos compreender e aprender muitos outros temas, derivando deles certa satisfação pessoal e pensando enquanto seguimos nosso caminho: "Olhe, sou sábio". Mas quando chegamos a esta ciência superior e descobrimos que nosso fio de prumo não consegue sondar sua profundidade e nossos olhos de águia não podem ver sua altura, nos afastamos pensando que o homem vaidoso pode ser sábio, mas não passa de um potro selvagem, exclamando então solenemente: "Nasci ontem e nada sei". Nenhum tema contemplativo tende a humilhar mais a mente que os pensamentos sobre Deus...

Ao mesmo tempo, porém, que este assunto humilha a mente, também a expande. Aquele que pensa com freqüência em Deus terá a mente mais aberta que alguém que apenas caminha penosamente por este estreito globo. [...] O melhor estudo para expandir a alma é a ciência de Cristo, e este crucificado, e o conhecimento da divindade na gloriosa trindade. Nada alargará mais o intelecto, nada expandirá mais a alma do homem que a investigação dedicada, cuidadosa e contínua do grande tema da divindade.

Ao mesmo tempo que humilha e expande, este assunto é eminentemente consolador. Na contemplação de Cristo existe um bálsamo para cada ferida; na meditação sobre o Pai, há consolo para todas as tristezas, e na influência do Espírito Santo, alívio para todas as mágoas. Você quer esquecer sua tristeza? Quer livrar-se de seus cuidados? Então, vá, atire-se no mais profundo mar da divindade; perca-se na sua imensidão, e sairá dele completamente descansado, reanimado e revigorado. Não conheço coisa que possa confortar mais a alma, acalmar as ondas da tristeza e da mágoa, pacificar os ventos da provação que a meditação piedosa a respeito da divindade. Para este assunto chamo a atenção de todos nesta manhã.

Estas palavras, proferidas há mais de um século por Charles Haddon Spurgeon (que nessa época contava, inacreditavelmente, apenas 20 anos), foram verdadeiras do mesmo modo como são agora. Elas constituíram o prefácio adequado para uma série de estudos sobre a natureza e o caráter de Deus.



Quem precisa de teologia?

"Mas, espere um instante", alguém objetará, "diga-me uma coisa, será realmente necessário estudar isso? Nos tempos de Spurgeon, sabemos que as pessoas achavam interessante a teologia, mas eu a considero entediante. Por que alguém precisa hoje em dia perder tempo com esse tipo de estudo que você está propondo? Com certeza, pelo menos o leigo pode passar sem isso. Afinal de contas, este é o século xxi e não o xix!".

Uma pergunta justa! Mas acho que há uma resposta convincente para ela. Essa questão é levantada por alguém que pressupõe claramente a impraticabilidade e a irrelevância do estudo da natureza e do caráter de Deus para a vida. Entretanto, este é, na verdade, o projeto mais prático de que alguém poderia ocupar-se. Conhecer a Deus é crucialmente importante para nossa vida. Do mesmo modo que seria cruel levar de avião um indígena da Amazônia até São Paulo e deixá-lo, sem nenhuma explicação, sem que entendesse a língua portuguesa, em plena Praça da Sé, para que ele cuidasse da própria subsistência; assim também seríamos cruéis conosco se tentássemos viver neste mundo sem saber nada a respeito do Deus que é dono e Senhor do Universo.

Para quem não conhece a Deus o mundo se torna um lugar estranho, louco, penoso, e viver nele pode ser decepcionante e desagradável. Despreze o estudo de Deus e você estará sentenciando a si mesmo a passar a vida aos tropeções, como um cego, como se não tivesse nenhum senso de direção e não entendesse aquilo que o rodeia. Deste modo poderá desperdiçar sua vida e perder a alma.

Ao reconhecer, então, que o estudo de Deus tem valor, preparemo-nos para começar. Mas, por onde começar?

Obviamente temos de partir de onde estamos. Isto, entretanto, significa sair em meio a uma tempestade, pois a doutrina de Deus hoje em dia está no centro de uma verdadeira tempestade. O chamado "debate sobre Deus" com seus refrões surpreendentes: "nossa imagem de Deus deve desaparecer", "Deus está morto", "podemos recitar o credo, porém não podemos confessá-lo", está ecoando a nossa volta. Dizem-nos que "dogmatizar sobre Deus" como os cristãos têm feito ao longo da história é manifestar refinada insensatez e que o conhecimento de Deus é, na realidade, uma ficção. Os tipos de ensinamento que professam tal conhecimento são rejeitados como obsoletos: calvinismo, fundamentalismo, escolástica protestante, velha ortodoxia. Que devemos fazer? Se esperarmos a tempestade passar para depois iniciarmos a jornada, pode ser que jamais a comecemos.

Minha proposta é a seguinte: Você com certeza conhece a história de O peregrino, de Bunyan,1 e de como ele tapou os ouvidos e correu gritando: "Vida, vida, vida eterna", quando sua esposa e filhos o chamaram de volta da viagem que estava para iniciar. Peço-lhe que feche por um momento os ouvidos para quem diz não haver caminho algum que leve ao conhecimento de Deus e ande um pouco a meu lado para verificar por si mesmo. Afinal de contas, só se prova o pudim comendo-o, e qualquer pessoa que esteja realmente viajando por uma estrada conhecida não ficará preocupada se ouvir um não-transeunte dizer que tal estrada não existe.

Com tempestade ou sem ela, vamos começar. Mas como organizaremos nosso curso?

Cinco verdades básicas — cinco princípios fundamentais do conhecimento de Deus que os cristãos possuem — determinarão todo nosso programa, como segue:


  1. Deus falou aos homens, e a Bíblia é sua Palavra, que nos foi dada a fim de nos tornar sábios para a salvação.

  2. Deus é Senhor e Rei deste mundo; ele governa todas as coisas para sua glória, mostrando sua perfeição em tudo o que faz, a fim de que homens e anjos possam louvá-lo e adorá-lo.

  3. Deus é Salvador, ativo em amor soberano mediante o Senhor Jesus Cristo para salvar os crentes da culpa e do poder do pecado, adotá-los como filhos e assim abençoá-los.

1Pastor e escritor puritano, John Bunyan (1628-1688) foi preso durante doze anos por pregar sem a autorização da Igreja Anglicana. Era independente, separatista e possuía convicções batistas acerca do batismo e da Igreja. Enquanto estava aprisionado escreveu sua obra-prima: O peregrino.

  1. Deus é triúno. Há em Deus três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; e a obra da salvação é operada pelos três ao mesmo tempo: o Pai propõe a redenção, o Filho a assegura e o Espírito a aplica.

  2. Piedade significa responder à revelação de Deus com confiança, obediência, fé, adoração, oração, louvor, submissão e serviço. A vida deve ser vista e vivida à luz da Palavra de Deus. Isto, e nada mais, é a verdadeira religião.

A luz dessas verdades gerais e fundamentais, vamos agora examinar com detalhes o que a Bíblia nos mostra da natureza e do caráter do Deus sobre o qual estamos falando. Nossa situação é comparável à dos viajantes que, depois de estudarem de longe uma grande montanha, andando a sua volta e observando como domina a paisagem e determina o tipo de região a seu redor, se aproximam dela, com a intenção de escalá-la.




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