O conhecimento de Deus J. I. Packer



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Verdade absoluta

O que a palavra de Deus requer de nós, no entanto, não depende apenas de nosso relacionamento com ele como criaturas e súditos. Devemos crer e obedecer, não apenas porque ele nos diz que o façamos, mas também e primeiramente por ser uma palavra verdadeira. Seu autor é o "Deus da verdade" (Sl 31:5; Is 65:16), "cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6). Tua "fidelidade alcança as nuvens" (Sl 108:4; cf. 57:10), isto é, ela é universal e ilimitada. Portanto sua "palavra é a verdade" (Jo 17:17); "as tuas justas ordenanças são eternas" (Sl 119:160); "tu és Deus! Tuas palavras são verdadeiras" (2Sm 7:28).

A verdade na Bíblia é primariamente uma qualidade pessoal e só em segundo lugar propositiva: isso significa estabilidade, confiança, firmeza, fidelidade, a qualidade da pessoa inteiramente coerente, sincera, realista, que não se deixa enganar. Deus é tal pessoa. A verdade, neste sentido, é sua natureza, e não há nele possibilidade de ser qualquer outra coisa. Por isso ele não pode mentir (Tt 1:2; Nm 23:19; 1Sm 15:29; Hb 6:18). Por isso suas palavras para nós são verdadeiras e não podem ser nada senão a verdade. Elas são o sumário da realidade: mostram-nos as coisas como realmente são, e como serão para nós no futuro de acordo com a atenção que dermos ou não à palavra de Deus.

Vamos estudar um pouco mais esse assunto em duas associações.



1. As ordens de Deus são verdadeiras. "Todos os teus mandamentos são verdadeiros" (Sl 119:151). Por que eles são descritos dessa forma? Primeiro, porque têm constância e continuidade como que mostrando o que Deus quer ver nas pessoas em qualquer época; segundo, porque nos falam da verdade imutável sobre nossa natureza. Isto é parte do propósito da lei de Deus; ela nos fornece uma definição prática da verdadeira humanidade. Mostra-nos a finalidade da vida e nos ensina como ser verdadeiramente humanos e nos adverte contra a autodestruição moral. Trata-se de um assunto de grande importância e que exige muita atenção nos dias atuais.

Estamos acostumados com a idéia de que nossos corpos são máquinas e que precisam seguir uma rotina determinada de alimentação, repouso e exercício se quisermos que funcione eficientemente. O corpo está sujeito a perder a capacidade de funcionamento saudável se abastecido com o combustível errado: álcool, venenos, drogas, terminando por "engripar" de vez na morte física. O que talvez tenhamos mais dificuldade para entender é que Deus deseja que pensemos em nossa alma de modo semelhante.

Como pessoas racionais, fomos criados para ter a imagem moral de Deus, isto é, nossa alma foi feita para "funcionar" praticando a adoração, a observação das leis, a fidelidade, a honestidade, a disciplina, o auto-controle e para servir a Deus e ao próximo. Se abandonarmos essas práticas, não apenas seremos culpados diante de Deus, mas também destruiremos progressivamente nossa alma. A consciência se atrofia, o senso de vergonha desaparece, a capacidade de ser fiel, leal e honesto é destruída, e o caráter se desintegra. Tornamo-nos não apenas desespera-damente miseráveis, mas somos gradualmente desumanizados. Este é um aspecto da morte espiritual. Richard Baxter estava certo ao formular a alternativa, como "Um santo ou um bruto": essa, no final, é a única escolha; e todos, cedo ou tarde, consciente ou inconscientemente, optarão por uma ou pela outra alternativa.

Hoje em dia, algumas pessoas sustentarão, em nome do humanismo, que a moralidade sexual "puritana" da Bíblia é prejudicial para se alcançar a verdadeira maturidade humana, e que um pouco mais de liberdade torna a vida mais rica. O nome exato para essa ideologia, em nossa opinião, não é humanismo, mas brutismo. A lassidão sexual não o tornará mais humano; em vez disso o tornará menos humano. Ela o brutalizará e dilacerará sua alma. A mesma coisa acontece sempre que qualquer mandamento de Deus é desrespeitado. Viveremos de forma realmente humana apenas enquanto estivermos nos esforçando para guardar os mandamentos de Deus. Não há outro modo.



2. As promessas de Deus são verdadeiras, pois ele as cumpre."... aquele que prometeu é fiel" (Hb 10:23). A Bíblia proclama em termos super-lativos a fidelidade de Deus. "... a tua fidelidade (chega) até às nuvens" (Sl 36:5); "A tua fidelidade é constante por todas as gerações" (Sl 119:90); "grande é a sua fidelidade!" (Lm 3:23).

Como a fidelidade de Deus se apresenta? Pelo infalível cumprimento de suas promessas. Ele é o Deus que mantém a aliança; ele nunca engana quem confia em sua palavra. Abraão provou a fidelidade de Deus, esperando por um quarto de século, com idade avançada, pelo nascimento do herdeiro prometido, e milhões mais a têm provado desde então.

Nos dias em que a Bíblia era universalmente reconhecida nas igrejas como "A Palavra escrita de Deus", entendia-se claramente que as promessas divinas registradas nas Escrituras eram a base própria, dada por Deus, para toda uma vida de fé. O modo de fortalecer a fé era se concentrar em determinadas promessas que se aplicavam às condições do indivíduo. Samuel Clark,1 um puritano moderno escreveu na introdução de sua obra Scripture promisses; or,

the Christian's inheritance: a collection of the promises of Scripture under their proper heads [Promessas das Escrituras ou a herança cristã: uma coleção de promessas das Escrituras classificadas por assunto]:

A atenção fixa e constante às promessas e a crença firme nelas poderiam evitar a preocupação e a ansiedade quanto aos problemas desta vida. Poderia manter a mente quieta e serena em qualquer mudança e sustentar e manter nosso espírito decadente sob as diversas dificuldades da vida... Os cristãos negam a si mesmos os mais sólidos confortos pela descrença e esquecimento das promessas de Deus. Pois não há situação tão desesperadora para a qual não exista uma promessa adequada e perfeitamente capaz de trazer alívio.

O conhecimento total das promessas seria de grande vantagem para a oração. Com que segurança o cristão pode dirigir-se a Deus em Cristo quando considera as repetidas afirmações de que suas preces serão ouvidas! Com que alegria pode apresentar os desejos de seu coração quando se lembra dos textos onde é prometida a misericórdia! E com que fervor de espírito e grande fé pode reforçar suas orações apoiando-se nas promessas feitas graciosamente e que se aplicam a seu caso!

Estas coisas costumavam ser entendidas, mas a teologia liberal, com sua recusa em identificar as Escrituras escritas com a palavra de Deus, tem-nos



1Destacado estudioso da Bíblia (1684-1750), era descendente de uma longa linhagem de ministros puritanos. Foi ordenado na Capela Dagnall Lane, freqüentada por muito pastores dissidentes. Tornou-se conhecido pela dedicação ao ministério e por fundar escolas de caridade para crianças (que permaneceram em operação por mais de cem anos).

privado largamente do hábito de meditar sobre as promessas e de basear nelas nossas orações, aventurando-nos pela fé na vida diária até aonde as promessas nos levarão. As pessoas hoje em dia zombam das caixinhas de promessa que nossos avós usavam, o que não é uma atitude sábia. As caixas de promessas podem ter sido usadas de modo errado, mas a abordagem das Escrituras e da oração que elas expressavam estava certa. Trata-se de uma perda que devemos recuperar.



Crer e observar

O que é um cristão? Ele pode ser descrito sob muitos ângulos, mas partindo-se do que dissemos é claro que resumiremos tudo ao dizer; é alguém que conhece e vive sob a palavra de Deus. É quem se submete sem reservas à palavra de Deus escrita no "Livro da Verdade" (Dn 10:21), crê nos ensinamentos, confia nas promessas e segue os mandamentos. Seus olhos vêem o Deus da Bíblia como seu Pai, e o Cristo da Bíblia como seu Salvador.

Se você lhe perguntar ele dirá que a palavra de Deus o convenceu de seu pecado e também lhe deu a garantia do perdão. Sua consciência, como a de Lutero, é cativa à palavra de Deus, e ele aspira como o salmista a pautar sua vida de acordo com ela. "Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência aos teus decretos [...] não permitas que eu me desvie dos teus mandamentos [...] ensina-me os teus decretos. Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos [...] Inclina o meu coração para os teus estatutos [...] Seja o meu coração íntegro para com os teus decretos" (Sl 119:5,10,26,27,36,80). As promessas estão diante dele enquanto ora e os preceitos estão à sua frente quando se move entre as pessoas.

O cristão sabe que além de a palavra de Deus ter sido dirigida diretamente a ele por meio das Escrituras, ela também foi proferida a fim de criar, controlar e ordenar as coisas que o rodeiam. Entretanto como as Escrituras lhe dizem que todas as coisas contribuem juntamente para o seu bem, a idéia de Deus ordenar todas as circunstâncias só lhe traz alegria. Ele é uma pessoa independente, pois usa a palavra de Deus como uma pedra de toque pela qual testa as diversas idéias que lhe são apresentadas e não aceitará coisa alguma sem ter certeza da aprovação das Escrituras.

Por que esta descrição se aplica a tão poucos de nós que professamos ser cristãos nestes dias? Você terá grande proveito se fizer esta pergunta a sua consciência e deixar que ela lhe fale.



O amor de Deus
A declaração repetida duas vezes por João: "Deus é amor" (1Jo 4:8,16) é um dos pronunciamentos mais tremendos da Bíblia — e também um dos menos entendidos. Idéias falsas cresceram à sua volta como uma cerca de espinhos, ocultando o significado real, e não é tarefa fácil atravessar esse aglomerado de vegetação mental. Entretanto, quanto maior a dificuldade envolvida maior é a recompensa quando o verdadeiro sentido desses textos são captados pela alma cristã. Quem sobe uma alta montanha não reclama do esforço ao contemplar o cenário que se descortina do topo!

Na verdade, feliz é quem pode repetir com João as palavras da sentença que precede o segundo "Deus é amor", "Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor" (v. 16). Conhecer o amor de Deus é na verdade o céu na terra. O Novo Testamento mostra este conhecimento não como privilégio de uns poucos favorecidos, mas como parte normal da experiência comum do cristão, algo estranho àqueles cuja espiritualidade é pouco sadia ou malformada. Quando Paulo diz: "... Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu" (Rm 5:5), ele não se refere ao amor de Deus, como pensava Agostinho, mas ao conhecimento do amor de Deus por nós. Embora nunca chegasse a conhecer pessoalmente os cristãos de Roma a quem escrevia, Paulo tinha certeza de que a afirmação seria verdadeira para eles como era para si mesmo.


Uma torrente de amor

Há três pontos nas palavras de Paulo que merecem ser comentados. Primeiro note o verbo derramou. Seu sentido literal é "despejou". É a palavra usada no "derramamento" do Espírito Santo em Atos 2:17,18,33; 10:45; Tito 3:6, sugerindo fluxo livre e grande quantidade — aliás, uma inundação. Paulo não fala de impressões vagas e incertas, mas de coisas profundas e irresistíveis.

Em segundo lugar observe o tempo do verbo. Está no perfeito, indicando uma situação estabelecida como conseqüência de uma ação completa. A idéia é que o conhecimento do amor de Deus, tendo inundado nosso coração, continua a enchê-lo agora, como um vale, que uma vez inundado permanece cheio de água. Paulo compreende que todos seus leitores, assim como ele mesmo, viverão na alegria da forte e permanente certeza do amor de Deus para com eles.

Em terceiro lugar, observe que a instilação desse conhecimento é descrita como parte do ministério normal do Espírito para. aqueles que o recebem — a todos, isto é, aos que nasceram de novo, todos os que crêem realmente. Seria desejável que esse aspecto de seu ministério fosse hoje mais valorizado do que de fato é. Com uma obstinação tão patética quanto empobrecedora, temo-nos preocupado hoje com os ministérios extraordinários, esporádicos e restritos do Espírito, negligenciando os comuns e gerais. Assim, mostramos muito maior interesse pelos dons de cura e de línguas — dons dos quais, segundo Paulo, nem todos os cristãos participarão (1Co 12:28-30) — que pelo trabalho normal do Espírito de conceder paz, alegria, esperança e amor por meio do derramamento do conhecimento de Deus em nosso coração. Este ministério, porém, é muito mais importante que o anterior. Para os coríntios, que tinham por certo que quanto mais falassem em línguas mais alegres e piedosos seriam, Paulo teve de insistir que sem amor — santificação, semelhança com Cristo — o dom de línguas não tinha valor algum (1Co 13:1).

Sem dúvida alguma Paulo veria motivo para tal admoestação também hoje. Será trágico se a preocupação com o reavivamento presentemente manifestado em muitos lugares se desviar para o beco sem saída de um novo "corintismo". A melhor coisa que Paulo podia desejar para os efé-sios, no que se refere ao Espírito, era que ele conseguisse dar continuidade ao ministério de Romanos 5:5 com um poder cada vez maior, levando-os ao conhecimento mais e mais profundo do amor de Deus em Cristo. Efésios 3:14-19 apresenta muito bem essa idéia:

Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai [...] para que [...] ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do seu Espírito [...] para, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o conhecimento...

Reavivamento quer dizer a ação de Deus de devolver a uma igreja moribunda, de maneira fora do comum, padrões de vida e experiência cristã estabelecidos pelo Novo Testamento como inteiramente normais. Não é o desejo ansioso de falar em línguas (pois, no final das contas, não tem importância alguma o fato de falarmos línguas ou não) que expressará uma preocupação correta com o reavivamento, mas sim o desejo ardente de que o Espírito derrame o amor divino em nosso coração com grande poder. Pois é com isso (ao qual o profundo interesse da alma no que diz respeito ao pecado é muitas vezes preliminar) que começa o reavivamento pessoal, e por meio dele o reavivamento na igreja, uma vez começado, é mantido.

Nosso objetivo neste capítulo é mostrar a natureza do amor divino derramado pelo Espírito. Com este propósito fixamos nossa atenção na grande afirmativa joanina de que Deus é amor: em outras palavras, o amor que ele mostra às pessoas, o qual os cristãos conhecem e no qual se alegram, é a revelação de seu próprio ser interior. Nosso tema nos fará aprofundar no mistério da natureza de Deus tanto quanto foi possível à mente humana, mais profundamente que nossos estudos anteriores.

Quando estudamos a sabedoria de Deus, vimos alguma coisa de sua mente; quando pensamos em seu poder, vimos um pouco de sua mão e de seu braço; quando consideramos sua palavra, aprendemos algo sobre sua boca, mas agora, contemplando seu amor, veremos seu coração. Estaremos pisando solo sagrado, precisamos da graça da reverência para que possamos pisar nele sem pecar.

Amor, Espírito e luz

Dois comentários gerais sobre essa afirmação de João serão úteis agora.



1. "Deus é amor" não é a verdade completa sobre Deus, no que diz respeito à Bíblia. Esta não é uma definição abstrata, isolada; mas um resumo, da perspectiva do cristão, do que a revelação feita nas Escrituras nos fala sobre seu Autor. Esta afirmação pressupõe o resto do testemunho bíblico sobre Deus. O Deus sobre o qual João fala é o Deus que fez O mundo, que o condenou pelo dilúvio, que chamou Abraão e fez dele uma nação, que disciplinou seu povo do Antigo Testamento pela conquista, cativeiro e exílio, que enviou seu Filho para salvar o mundo, que afastou o Israel incrédulo, que pouco antes de João haver escrito havia destruído Jerusalém e que um dia julgará o mundo com justiça. Esse Deus, diz João, é amor.

É errado citar essa afirmação de João, como muitos o fazem, como se ela levantasse dúvidas sobre o testemunho bíblico da severidade da justiça divina. Não é possível argumentar que o Deus amoroso não possa também ser o Deus que condena e castiga o desobediente, pois é precisamente do Deus que age assim que João está falando.

Se quisermos evitar um mal-entendido a respeito da afirmação de João, devemos torná-la associando-a com outras duas grandes declarações que apresentam a mesma forma gramatical encontrada em outros pontos de seus escritos. Interessante que ambas partiram do próprio Cristo. A primeira está no evangelho de João. São as palavras de nosso Senhor à samaritana: "Deus é espírito" (Jo 4:24). A segunda está no começo da primeira epístola. João a apresenta como resumo da "mensagem que dele (Jesus) ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz" (1Jo 1:5). A afirmação de que Deus é amor deve ser interpretada conforme os ensinamentos destas duas declarações e será útil fazermos agora um breve estudo delas.

Deus é espírito. Quando nosso Senhor disse isso, ele procurava fazer a samaritana abandonar a idéia de que havia apenas um lugar adequado para a adoração, como se Deus estivesse confinado de algum modo a algum lugar. "Espírito" contrasta com "carne". A idéia central de Cristo era que o homem, sendo "carne", só pode estar presente em um lugar de cada vez. Deus, porém, sendo "espírito", não está assim limitado. Deus não é material, não tem corpo, portanto, não fica confinado a um lugar. Por isso (Cristo continua), a verdadeira condição da adoração aceitável não é estar em Jerusalém, Samaria ou em qualquer outro lugar, mas o importante é que seu coração seja receptivo e responda à revelação dele. "Deus é espírito; e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade" (Jo 4:24).

O primeiro dos Trinta e nove artigos de religião expressa o significado da "espiritualidade de Deus" (como dizem os livros) pela asserção bastante estranha de que ele é "sem corpo, sem partes nem paixões".1 Alguma coisa muito positiva é expressa por essas três negativas.

Deus não tem corpo — portanto, como já dissemos, ele está livre das limitações do espaço e da distância, e é onipresente. Deus não tem partes — isto significa que sua personalidade, poderes e qualidades estão perfeitamente integrados, assim nada nele se altera. Ele "não muda como sombras inconstantes" (Tg 1:17). Assim, ele é livre de todas as limitações de tempo e dos processos naturais, e permanece eternamente o mesmo.

Deus não tem paixões — isto não quer dizer que ele seja insensível (impassível) ou que não haja nada nele que corresponda a nossas emoções e afeições. Entretanto, considerando que as paixões humanas,



1Livro de oração comum, p. 603.

especialmente as dolorosas, como medo, sofrimento, arrependimento e desespero, são de algum modo passivas e involuntárias, e que surgem por meio de circunstâncias fora de nosso controle, as atitudes correspondentes em Deus têm a natureza de escolha voluntária e deliberada, não sendo, portanto, absolutamente comparáveis às paixões humanas.

Assim, o amor de Deus, que é espírito, não é incerto nem inconstante como o amor humano. Não é apenas um desejo impotente de coisas que talvez nunca venham a realizar-se. Ao contrário, trata-se da determinação espontânea de todo o ser divino em uma atitude de benevolência e benefício,

escolhida livremente e estabelecida com firmeza. Não há inconstâncias nem vicissitudes no amor do Deus altíssimo, que é Espírito. Seu amor é "tão forte quanto a morte [...] nem muitas águas conseguem apagar o amor" (Ct 8:6,7). Nada poderá separá-lo dos que um dia foram por ele alcançados (Rm 8:35-39).



Deus é luz. Fomos informados de que o Deus que é espírito é também luz. João fez esta declaração atacando certos cristãos professos que haviam perdido o contato com as verdades morais e diziam que nenhuma de suas práticas era pecaminosa. A intensidade das palavras de João está no seguinte preceito: "nele não há treva alguma" (1Jo 1:5). Luz significa santidade e pureza baseadas na lei de Deus; treva significa deturpação moral e injustiça de acordo com a mesma lei (1Jo 2:7-11; 3:10).

O ponto principal das palavras de João é que apenas quem "anda na luz" procura ser igual a Deus em santidade e justiça, evita tudo o que não esteja de acordo com isto, desfruta da companhia do Pai e do Filho. Os que "andam nas trevas", não importa o que digam de si mesmos, são estranhos a esse relacionamento (v. 6).

Assim, o Deus-amor é primeiro e acima de tudo luz, e quaisquer idéias sentimentais a respeito desse amor como ternura indulgente e benevolente, alheios aos padrões e às idéias morais, devem ser abolidas desde o princípio. O amor de Deus é santo. O Deus que Jesus tornou conhecido não é indiferente a distinções morais, mas ama a justiça e odeia a iniqüidade, o Deus cujo ideal para seus filhos é este: "sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês" (Mt 5:48). Ele não aceitará em sua companhia qualquer pessoa — por mais ortodoxas que sejam suas idéias — que não procure a santidade de vida.

Aqueles a quem ele aceita estão sujeitos a uma disciplina enérgica a fim de que alcancem o que buscam: "pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho [...] Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade [...] Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados" (Hb 12:6-11). O amor de Deus é inflexível, pois expressa a santidade de quem ama e procura a santidade no amado. As Escrituras não nos permitem supor que, pelo fato de Deus ser amor, podemos confiar que ele fará feliz quem não busca a santidade, ou que protegerá seus amados de problemas quando ele sabe da necessidade dessas tribulações para auxiliar no processo de santificação.

Agora, porém, precisamos fazer um segundo comentário comparativo.

2. "Deus é amor" é a verdade completa sobre Deus no que diz respeito aos cristãos. Dizer "Deus é luz" implica a expressão da santidade de Deus em tudo o que ele diz e faz. Do mesmo modo, a afirmação "Deus é amor" significa que seu amor é encontrado em tudo o que ele diz e faz.

O conhecimento de que esta verdade se aplica á nós, pessoalmente, é o supremo conforto do cristão. Ao crer, descobrimos na cruz de Cristo a certeza de que somos amados individualmente por Deus: "o Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim" (Gl 2:20). Sabendo disto, podemos aplicar a nós mesmos a promessa de que "Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito" (Rm 8:28). Não apenas algumas coisas, repare bem, mas todas as coisas! Cada pequenina coisa que nos acontece expressa o amor de Deus e ocorre para cumprir o propósito divino para a nossa vida.

Portanto, pelo que nos concerne, Deus é amor — santo e onipotente amor — em todos os momentos e em todas as ocasiões de nossa vida. Mesmo quando não podemos ver a razão e a finalidade da ação de Deus, sabemos haver amor nela e por trás dela, por isso podemos sempre nos alegrar, mesmo quando, humanamente falando, as coisas vão mal. Sabemos que a verdadeira história de nossa vida, quando revelada, provará ter sido um ato de misericórdia do começo ao fim, e com isso nos alegraremos.

Definição do amor de Deus

Até agora simplesmente delimitamos o amor de Deus, mostrando em termos gerais como e quando ele opera, mas isto não é suficiente. Perguntamos: O que ele é em essência? Como devemos defini-lo e analisá-lo? A resposta que a Bíblia apresenta para essas questões ressalta uma concepção do amor de Deus que pode ser formulada do seguinte modo:

O amor de Deus é um exercício de sua bondade para com os pecadores, individualmente, por meio do qual, tendo se identificado com o bem-estar dessas pessoas, entregou seu Filho para ser o Salvador delas, e agora as leva a conhecê-lo e a desfrutá-lo em uma relação de aliança.

Vamos explicar as partes que constituem essa definição.



1. O amor de Deus é um exercício de sua bondade. A bondade de Deus no sentido bíblico significa sua generosidade cósmica. A bondade divina, escreveu Louis Berkhof, é "a perfeição em Deus que o leva a tratar benévola e generosamente todas as suas criaturas. É a afeição que o Criador sente para com as suas criaturas dotadas de sensibilidade consciente" (citando Sl 145:9,15,16; Lc 6:35; At 14:17).2 O amor de Deus é a

2Teologia sistemática, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 68.

manifestação suprema e mais gloriosa desta bondade. "O amor", escreveu James Orr,3 "é, de forma geral, o princípio que leva um ser moral a desejar e a se alegrar com outro, e alcança sua forma mais elevada em uma amizade na qual cada um vive na vida do outro e encontra sua alegria em se dar ao outro, recebendo de volta o extravasamento da afeição do outro em si mesmo".4 Assim é o amor de Deus.



2. O amor de Deus é um exercício de sua bondade para com os pecadores. Dessa forma, o amor encerra a natureza da graça e da misericórdia. É emanação divina na forma de bondade, não apenas imerecida, como contrária a qualquer merecimento, pois os objetos do amor de Deus são criaturas racionais transgressoras da lei, cuja natureza é corrupta aos olhos dele e merecedoras apenas de condenação e expulsão final de sua presença.

É admirável que Deus ame os pecadores; entretanto, a realidade é esta. Deus ama criaturas que se tornaram indignas desse amor. Não havia nada nos objetos de seu amor que pudesse merecê-lo; nada no ser humano poderia atrair esse amor ou induzir a ele. O amor entre as pessoas é despertado por alguma coisa encontrada no amado, mas o amor de Deus é livre, espontâneo, sem causa nem inspiração. Deus ama as pessoas porque escolheu amá-las — como compôs Charles Wesley: "Ele nos tem amado, ele nos tem amado, porque queria amar"5 (reprodução de Dt 7:8) —, e nenhum motivo para seu amor pode ser dado, salvo seu bondoso e soberano prazer.

O mundo greco-romano do Novo Testamento jamais sonharia com tal amor; atribuía-se muitas vezes a seus deuses a cobiça de mulheres, mas nunca amor por pecadores. Os autores do Novo Testamento tiveram de usar uma palavra grega quase nova — agape — para expressar o amor de Deus como eles o conheciam.

3Ministro presbiteriano escocês (1844-1913), um dos mais importantes apologistas dos

séculos xix e xx.



4Hasting's dictionary of the Bible, v. iii, p. 153.

5Metbodist hymnal, segundo verso do hino 808, < http://wesley.nnu.edu/charles_wesley/

hymns/800-899.htm>.



3. O amor de Deus é um exercício de sua bondade para com os pecadores, individualmente. Não se trata de boa vontade vaga e difusa para com todos em geral e ninguém em particular; ao contrário, por ser função da onisciência todo-poderosa, sua natureza é particularizar tanto os objetos como os efeitos. O propósito do amor divino, formado antes da criação (Ef 1:4), envolveu primeiramente a escolha e a seleção das pessoas às quais ele abençoaria; e em segundo lugar a relação dos benefícios que lhes seriam concedidos e os meios pelos quais seriam obtidos e desfrutados. Tudo isto foi assegurado desde o início.

Paulo escreveu aos cristãos tessalonicenses: "Mas nós devemos sempre dar graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor, porque desde o princípio [antes da criação] Deus os escolheu [selecionou] para serem salvos [o fim determinado], mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade [o meio determinado]" (2Ts 2:13). O exercício do amor de Deus, no tempo, em relação aos pecadores, individualmente, é a execução do propósito formado por ele na eternidade, no sentido de abençoar esses mesmos indivíduos pecadores.



4. O amor de Deus pelos pecadores implica sua identificação com o
bem-estar deles.
Tal identificação está envolvida em toda espécie de
amor, sendo, na realidade, uma prova para verificar se o amor é genuíno
ou não. Se um pai permanece alegre e despreocupado enquanto o filho
atravessa dificuldades ou se um marido fica impassível diante do deses-

pero da esposa, duvidamos de que haja realmente amor nesse relacionamento, pois sabemos que quem ama de verdade só fica feliz quando as pessoas queridas também estão felizes. O amor de Deus pelos homens é desse tipo.

Nos capítulos anteriores destacamos que Deus objetiva em todas as coisas a própria glória — para que ele seja revelado, conhecido, admirado e adorado. Esta afirmação é verdadeira, mas incompleta. Precisa ser equilibrada pelo reconhecimento de que Deus ligou voluntariamente sua felicidade última à das pessoas porque dedica seu amor a elas. Não é por acaso que a Bíblia fala freqüentemente de Deus como o Pai amoroso e o Esposo de seu povo. Conclui-se, então, que pela própria natureza desse relacionamento a felicidade de Deus não será completa enquanto seus amados não estiverem finalmente livres de dificuldades:

Até que toda a Igreja de Deus redimida Seja salva, para não mais pecar.6

Deus estava feliz sem os seres humanos, antes de sua criação. Ele teria continuado assim se simplesmente tivesse destruído o homem depois do pecado, mas como vemos ele dedicou seu amor a qualquer pecador, individualmente, e isso significa que, por sua livre e espontânea vontade, ele não conhecerá a felicidade pura e perfeita novamente até que tenha levado cada um deles para o céu. Na realidade, ele resolveu que daquele momento até a eternidade sua felicidade seria condicionada à nossa.

Assim, Deus salva não apenas para sua glória, mas também para sua satisfação. Isto ajuda a explicar por que há alegria (alegria divina) na presença dos anjos quando um pecador se arrepende (Lc 15:10), e por que haverá "grande alegria" quando Deus nos colocar imaculados em sua santa presença no último dia (Jd 24). Essa idéia ultrapassa nosso entendimento e desafia a fé, mas não há dúvida de que, segundo as Escrituras, assim é o amor de Deus.

5. O amor de Deus pelos pecadores foi expressa pela dádiva de ser seu Filho o Salvador deles. Mede-se o amor calculando quanto ele oferece, e a medida do amor divino é a dádiva de seu único Filho para ser feito homem e morrer pelos pecadores, e assim tornar-se o único mediador que nos pode levar a Deus.

6Frase do terceiro verso do hino There is a fountain filled with blood, de William Cowper, em Conyer's collection of psalms and hymns, 1772.

Não nos admiramos de que Paulo tenha se referido ao amor de Deus' como "grande", ultrapassando o conhecimento (Ef 2:4; 3:19). Será que já houve generosidade mais cara? Paulo argumenta que este dom supremo é, por si mesmo, a garantia de todos os outros: "Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente, e. de graça, todas as coisas?" (Rm 8:32). Os escritores do Novo Testamento apontam constantemente a cruz de Cristo como prova cabal da realidade do ilimitado amor divino.

Assim, João, imediatamente após a expressão "Deus é amor", prossegue: "Foi assim que Deus manifestou seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4:9,10). Do mesmo modo em seu evangelho: "Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer [...] tenha a vida eterna" (Jo 3:16). Paulo também escreveu: "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (Rm 5:8). E encontra a prova de que "o Filho de Deus [...] me amou" no fato de que ele "se entregou por mim" (Gl 2:20).

6. O amor de Deus pelos pecadores alcança seu objetivo quando "os leva a conhecê-lo e a desfrutá-lo em uma relação de aliança". O relacionamento segundo a aliança é aquele no qual as duas partes estão permanentemente comprometidas uma com a outra em serviço mútuo e dependência (p. ex., o casamento). A promessa da aliança é aquela na qual um contrato de relacionamento é estabelecido (p. ex., os votos do casamento).

A religião bíblica tem a forma de um relacionamento baseado na aliança com Deus. A primeira ocasião em que os termos desse relacionamento foram esclarecidos aconteceu quando Deus se revelou a Abraão como El Shaddai (o Deus todo-poderoso, o Deus todo-suficiente) e formalmente lhe deu a promessa da aliança "para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes" (Gn 17:1-7).

Todos os cristãos, pela fé em Cristo, são herdeiros dessa promessa, como Paulo diz em Gálatas 3:15-29. O que isso significa? Trata-se, na verdade, de um repositório de promessas englobando todas. "Esta é a primeira promessa e a fundamental", declarou o puritano Sibbes,7 "na verdade, é a vida e a alma de todas as promessas".8 Thomas Brooks,9 outro puritano, dá o seguinte esclarecimento:

[Isto] é como se ele dissesse: "Você terá uma participação tão verdadeira em todos os meus atributos, para seu benefício, como eles são meus para minha glória" [...] "Minha graça", disse Deus, "será de vocês para lhes perdoar, meu poder será de vocês para protegê-los, minha sabedoria será para dirigi-los, minha bondade para livrá-los, minha misericórdia para sustentá-los e minha glória será de vocês para coroá-los". Esta é uma promessa completa de que Deus seria nosso Deus; nela estão incluídas todas as coisas. Lutero disse: "Deus meus et omnia" [Deus é meu, e todas as coisas são minhas].10

"Este é o verdadeiro amor para com qualquer pessoa", disse Tillotson,11 "fazer o melhor possível em relação a ela". Deus procede assim em relação a quem ama — o melhor possível; e a medida do melhor que Deus pode fazer é a onipotência! Assim, a fé em Cristo nos leva ao relacionamento que abrange bênçãos incalculáveis, tanto para agora como para a eternidade.



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