O conhecimento de Deus J. I. Packer



Baixar 1.07 Mb.
Página11/22
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   22

Amor excelso!

É verdade que Deus é amor para mim como cristão? O amor de Deus é realmente tudo o que foi dito? Se assim for, surgem algumas dúvidas.



7Richard Sibbes (1577-1635) foi um extraordinário teólogo, pregador e mestre inglês, membro da Igreja Anglicana, continuamente perseguido por ser adepto do puritanismo. Após sua morte, seus sermões foram coligidos e impressos e desde então têm influenciado positivamente muitos cristãos.

8 Works, v. 6, p. 8.

9Ministro não-conformista (1608-1680) e defensor dos princípios do congregacionalismo. Escritor de livros de caráter devocional.

10 Works, v. 5, p. 308.

11John Tillotson (1630-1694), educado em uma família puritana, foi arcebispo da Cantuária (Igreja Anglicana). Dedicou-se ao estudo dos escritos patrísticos, especialmente os de Basílio e Crisóstomo.

  • Por que eu sempre reclamo e mostro descontentamento diante das circunstâncias em que Deus me colocou?

  • Por que estou sempre desconfiado, atemorizado ou deprimido?

  • Por que sempre me permito ficar impassível, formal e pouco dedicado ao serviço do Deus que me ama tanto?

  • Por que permito que minha lealdade se divida, de modo que Deus não tenha todo meu coração?

João escreveu "Deus é amor" a fim de estabelecer um ponto de ética: "... visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros" (1Jo 4:11). Será que algum observador poderá aprender pela qualidade e intensidade de amor que eu mostro aos outros (esposa, marido, família, vizinhos, irmãos da igreja, colegas de trabalho) alguma coisa sobre a grandeza do amor de Deus por mim?

Medite sobre essas coisas. Examine-se.



A graça de Deus


É comum em todas as igrejas denominar o cristianismo a religião da graça. É truísmo na erudição cristã que a graça, longe de ser uma força impessoal, um tipo de eletricidade celestial recebida como uma carga de bateria "ligada" aos sacramentos, seja uma atividade pessoal — Deus atuando com amor em relação ao ser humano.

Livros e sermões destacam repetidamente que as palavras gregas graça (charis) e amor (ágape) no Novo Testamento são de uso inteiramente cristão e expressam bondade espontânea, autodeterminada, antes completamente desconhecidas da ética e da teologia greco-romana. É comum dizer-se na escola dominical que a graça é a riqueza de Deus às expensas de Cristo. Entretanto, apesar desses fatos, parece não haver muita gente em nossas igrejas que realmente creia na graça.

Para ser mais exato, sempre há alguns que acham a idéia da graça tão irresistivelmente maravilhosa que nunca perdem esse sentimento inicial. A graça torna-se o tema constante de suas conversas e orações. Escreveram hinos sobre ela, alguns dos melhores — e é preciso um sentimento profundo para produzir um bom hino. Eles têm lutado por ela, aceitando zombaria e perda de privilégios, se necessário, como preço de sua defesa. Como Paulo combateu os judaizantes, assim Agostinho combateu os pelagianos, e os reformadores o escolasticismo. Os descendentes espirituais de Paulo, de Agostinho e dos reformadores têm desde então combatido as doutrinas romanistas e pelagianas. Com Paulo, seu teste- / munho é: "pela graça de Deus, sou o que sou" (1Co 15:10), e sua regra de vida: "não anulo a graça de Deus" (Gl 2:21).

Entretanto, muitas pessoas nas igrejas não são assim. Podem falar sobre a graça, mas ficam só nisso. A concepção que têm da graça não é falsa, na realidade é inexistente. A idéia não tem significado algum para elas e não toca nem de leve sua experiência. Fale com elas sobre o sistema elétrico da igreja ou sobre o orçamento do último ano, e eles reagirão imediatamente, mas fale sobre as realidades apontadas pela palavra graça, e sua atitude será de respeitosa estupefação. Não o acusarão de falar bobagens; não duvidarão do valor de suas palavras, mas não darão importância ao que você diz por se tratar de um assunto que não os atinge; quanto mais tiverem vivido sem a graça, mais certos estarão de que a essa altura da vida realmente não precisam dela.



Sem o mínimo toque da graça

O que impede, de fato, que muitas pessoas que professam sua crença na graça realmente creriam? Por que o assunto significa tão pouco mesmo para alguns que falam muito sobre ela? A raiz do problema parece ser a crença errada sobre as relações básicas entre o ser humano e Deus — enraizada não apenas na mente, mas no coração, no nível mais profundo das coisas que não questionamos por sempre estarmos seguros delas.

Há neste campo quatro verdades cruciais pressupostas na doutrina da graça, e se elas não forem reconhecidas e sentidas pelo coração torna-se impossível a fé real na graça divina. Infelizmente o espírito de nosso tempo se opõe a elas. Não é de admirar, portanto, que a fé na graça seja atualmente uma raridade. As quatro verdades são:

1. A moral indigna do homem. As pessoas modernas, conscientes de seu tremendo desenvolvimento científico nos últimos anos, estão naturalmente inclinadas a ter um elevado autoconceito. Consideram a riqueza material mais importante que o caráter moral, e no campo moral são resolutamente autocomplacentes. Pensam que as pequenas virtudes compensam os grandes vícios e se recusam a aceitar com seriedade a idéia de que existe algo, do ponto de vista moral, muito errado com eles.

A pessoa tende a rejeitar a consciência culpada, em si e nos outros, como anomalia psicológica, sinal de doença e aberração mental, em vez de considerá-la um indicador da realidade moral. O ser humano moderno está assim convicto de que, apesar de todos seus pecadilhos — bebida, jogo, direção negligente, libertinagem, mentiras, negócios desonestos, leituras imorais e muitas outras coisas —, ele é no fundo uma boa pessoa. Então, como os pagãos (o coração do indivíduo moderno é pagão, não tenha dúvidas sobre isso), eles imaginam Deus como uma projeção ampliada de si mesmos e acreditam que Deus compartilha sua autocomplacência. A idéia de que são criaturas caídas e distanciadas da imagem de Deus, rebeldes insubmissos à lei divina, culpados e impuros aos olhos de Deus, merecedores apenas de condenação, jamais entra em sua cabeça.



2. A justiça divina retributiva. Os homens e as mulheres de hoje costumam fechar os olhos para as transgressões durante o máximo de tempo possível. Toleram-nas nos outros, pois sabem que fariam o mesmo se as circunstâncias fossem outras. Pais hesitam em corrigir os filhos, professores em punir alunos, e o público aceita apenas com um murmúrio toda a sorte de vandalismo e comportamento anti-social. A regra aceita parece ser a de ignorar o mal tanto quanto possível. Deve-se punir apenas como último recurso, e isso unicamente quando for preciso evitar que o mal acarrete conseqüências sociais muito graves. A boa vontade em tolerar e perdoar o mal ao máximo é vista como virtude, ao passo que viver sob princípios rígidos de certo e errado é censurado por alguns como moral duvidosa.

De acordo com nosso estilo pagão, temos certeza de que Deus pensa como nós. A idéia de que a retaliação possa ser a lei moral do mundo de Deus e a manifestação de seu caráter santo nos parece quase fantástica. Seus defensores são acusados de projetar em Deus seus impulsos patológicos de raiva e vingança. A Bíblia, no entanto, afirma reiteradamente que a retaliação é um fato tão básico como respirar.

Deus é o juiz de toda a terra e agirá com justiça, vingando o inocente, se houver, mas punindo (na linguagem bíblica visitando pecados) os transgressores da lei (cf. Gn 18:25). Deus não será fiel a si mesmo a menos que castigue o pecado. E a menos que alguém conheça e sinta a realidade deste fato — os transgressores devem esperar da parte de Deus nada além de um julgamento justo — não poderá compartilhar a fé bíblica na graça divina.

3. A impotência espiritual do homem. O livro de Dale Carnegie, Como fazer amigos e influenciar pessoas,1 tem sido quase uma Bíblia moderna. Uma técnica completa de relações comerciais foi construída nos últimos anos com base no princípio de colocar outra pessoa em uma posição tal que lhe seja quase impossível dizer "não". Isto confirmou nas pessoas de hoje a fé que animava as religiões pagãs desde tempos imemoriais — a crença de que podemos reparar nosso relacionamento com Deus colocando-o em situações em que não possa mais responder de modo negativo. Os pagãos antigos procediam assim, multiplicando oferendas e sacrifícios; os pagãos modernos procuram fazer o mesmo por meio da moralidade e da afiliação a uma igreja. Embora admitam sua imperfeição, não têm dúvidas de que a respeitabilidade adquirida lhes garantirá aceitação divina afinal, independentemente de suas ações passadas. A determinação bíblica, no entanto, é como a expressa por Toplady:2

Eu de mim não cumprirei Nunca, ó Deus, a tua lei,



1São Paulo: Editora Nacional, 1985.

2Augustus Montague Toplady (1740-1778) foi um famoso compositor de hinos, ministro anglicano e vigário de Broadhembury. Desligou-se da Igreja Anglicana em 1775, mudou-se para Londres e tornou-se pregador de uma igreja calvinista de língua francesa em Leicester Fields. Polemista, enfrentou os irmãos Wesleys em batalhas teológicas acerca da doutrina da graça. Morreu aos 38 anos, de tuberculose.

Por mais zelo que tiver,

Por mais pranto que verter,

Nada poderei pagar,

— levando à admissão do próprio desespero e à conclusão:

Tu, só tu, me vens salvar.3

"Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à Lei", declarou Paulo (Rm 3:20). Consertar nosso relacionamento com Deus e conquistar seu favor depois de tê-lo perdido estão além da capacidade de qualquer um de nós. É preciso aceitar e curvar-se perante tudo isso antes de poder compartilhar da fé bíblica na graça divina.

4. A liberdade soberana de Deus. O antigo paganismo ensinava que cada deus estava ligado a seus adoradores por interesses próprios, pois dependiam dos serviços e das oferendas deles para seu bem-estar. O paganismo moderno lembra vagamente um conceito semelhante — Deus é de algum modo obrigado a nos amar e ajudar, embora nada mereçamos. Este foi o sentimento expresso pelo livre-pensador francês que morreu murmurando: "Deus perdoará, este é seu trabalho" (c'est son metier). Mas essa idéia não está bem fundamentada. O Deus da Bíblia não depende dos seres humanos para seu bem-estar (v. Sl 50:8-13; At 17:25), nem é obrigado a mostrar-nos algum favor depois de termos pecado.

3Hinário das Igrejas Evangélicas Reformadas no Brasil, Jongbloed (Holanda): Ierb, 1998, p. 558.

Podemos apenas apelar para sua justiça — e justiça, em nosso caso, significa condenação certa. Deus não é obrigado a impedir o curso da justiça para favorecer quem quer que seja. Ele não é obrigado a ter piedade e a perdoar, e se o fizer será um ato, como dizemos, "de sua livre vontade", e ninguém o obriga a revidar suas intenções. "Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus" (Rm 9:16). A graça é livre, no sentido de ser auto-originada e de proceder de quem poderia concedê-la ou não. Somente quando se percebe que a decisão do destino de cada indivíduo advém da resolução divina de salvá-lo de seus pecados, ou não, e que esta é uma decisão que Deus toma caso a caso, pode-se começar a apreender o conceito bíblico da graça.



NÃO-OBTIDA E NEM MERECIDA

A graça de Deus é o amor demonstrado livremente aos pecadores que se reconhecem culpados, contrariamente a seu mérito e a despeito de seu demérito. É Deus demonstrando bondade para com pessoas merecedoras apenas de rigor, e que não têm motivo algum para esperar outra coisa. Já vimos por que a idéia da graça significa tão pouco para alguns freqüentadores de igreja, isto é, não partilham dos conceitos sobre Deus e o homem implícitos nela. Agora precisamos perguntar por que esse conceito significa tanto para outras pessoas. Não é preciso ir muito longe para procuar a resposta; na verdade ela transparece em tudo o que já se afirmou. Assim que o homem se convença de que a descrição apresentada espelha sua condição e necessidade, o Evangelho da graça do Novo Testamento só pode entusiasmá-lo, deixá-lo cheio de alegria e surpreso, pois ele nos conta sobre como nosso Juiz se tornou nosso Salvador.



Graça e salvação estão juntas como causa e efeito: "pela graça vocês são salvos" (Ef 2:5, 8). "Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens" (Tt 2:11). O Evangelho declara como:

  • "Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" 0o 3:16);

  • "Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (Rm 5:8);

  • uma fonte foi aberta, de acordo com a profecia (Zc 13:2), contra o pecado e a impureza;

  • o Cristo vivo clama a todos os que ouvem o Evangelho: "Venham a mim [...] e eu os aliviarei" (Mt 11:28).

Como Isaac Watts4 colocou em seu hino mais evangélico, se não o mais sublime, estamos por natureza no mais completo estado de perdição:

Mas há uma voz de graça magnífica Vinda da santa Palavra de Deus; Ó, vós, pobres pecadores cativos, vinde E confiai no Senhor.

Minha alma obedece ao chamado soberano

E corre para seu livramento

Eu creio nas tuas promessas, Senhor,

Oh! ajuda-me apesar da minha incredulidade.

À bendita fonte de teu sangue,

Deus Encarnado, vôo

Para lavar minha alma das manchas escarlates

E da tinta forte do pecado.

Um verme culpado, fraco e indefeso, Em tuas mãos me entrego; Tu és, ó Senhor, minha justiça, Meu Salvador e meu tudo.5

Quem puder, com sinceridade, fazer suas as palavras de Watts, nunca se cansará de cantar os louvores da graça.



4Filho de um não-conformista aprisionado duas vezes, Isaac Watts (1674-1748) demonstrou interesse pela poesia e métrica na infância. Aprendeu latim, grego e hebraico. Anos mais tarde declinou do convite para ingressar no ambiente acadêmico ligado à Igreja Anglicana e tornou-se, algum tempo depois, ministro de uma congregação não-conformista. Escreveu centenas de hinos.

5Versos 2 a 5 do hino How sad our state by nature is, em Hymns and spiritual songs, 1707, <http://www.cyberhymnal.Org/htm/h/s/o/hsosbnis.htm>

O Novo Testamento apresenta a graça de Deus em três associações par- ticulares, cada uma delas uma constante maravilha perpétua para o cristão.



1. Graça como a fonte do perdão de pecados. O Evangelho concentra-se na justificação, isto é, na remissão de pecados e, como conseqüência, em nossa aceitação pessoal. A justificação é a transição verdadeiramente profunda da situação do condenado que espera a sentença terrível para a do herdeiro que espera uma herança fabulosa.

A justificação se dá pela fé e ocorre no momento em que a pessoa coloca toda sua confiança no Senhor Jesus Cristo, como seu Salvador. A justificação para nós é de graça, mas custou muito para Deus, pois o preço foi a morte sacrificial de seu Filho. Por que Deus "não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós" (Rm 8:32)? Por causa da sua graça. Foi sua decisão de nos salvar que tornou necessário o sacrifício. Paulo explica bem este ponto:

Sendo justificados gratuitamente [isto é, sem pagar nada] por sua graça [como conseqüência da resolução misericordiosa de Deus], por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiação [que satisfaz a ira divina pela expiação dos pecados] mediante a [torna-se real para as pessoas por meio da] fé, pelo seu sangue.

Romanos 3:24, 25; cf. Tito 3:7; grifo do autor

Mais uma vez Paulo nos diz que em Cristo "temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus" (Ef 1:7). A reação do cristão ao contemplar tudo isto — e comparar as coisas como eram antes e como são agora em conseqüência da graça de Deus manifestada no mundo — foi expressa maravilhosamente pelo antigo presidente de Princeton, Samuel Davies:6

6Ministro presbiteriano (1723-1761). Tornou-se pregador itinerante após a morte do filho e da mulher, em 1747. Em Londres, durante uma viagem para o levantamento de fundos para o Colégio de Nova Jersey (posteriormente denominado Universidade de Princeton), foi convidado pelo rei Jorge II para pregar na capela real. Durante a pregação, Samuel Davis pára e dirige-se ao rei: "Quando o leão ruge, todos os animais da floresta silenciam; quando o Senhor fala, os reis da terra calam a boca!".

Grande Deus de maravilhas! Todos os teus caminho;

Mostram os atributos divinos;

Mas os atos incontáveis da graça perdoadora

Brilham mais que todas as outras maravilhas.

Quem' é Deus perdoador como tu?

Ou quem tem graça tão rica e gratuita?

Perdidos de admiração, com trêmula alegria,

Recebemos o perdão de nosso Deus;

Perdão por crimes de profunda tintura,

Perdão adquirido como sangue de Jesus:

Quem é Deus perdoador como tu?

Ou quem tem graça tão rica e gratuita?

Oh, possa essa graça surpreendente e sem igual,

Este milagre do amor divino,

Encher a ampla terra com grato louvor,

Como enche os coros celestiais!

Quem é Deus perdoador como tu?

Ou quem tem graça tão rica e gratuita?

2. Graça como motivo para o plano da salvação. O perdão é o coração do Evangelho, mas não a totalidade da doutrina da graça. O Novo Testamento coloca o dom do perdão divino no contexto do plano da salvação, que começou com a eleição antes que o mundo existisse e só será completado quando a Igreja estiver perfeita na glória.

Paulo se refere brevemente a este plano em diversos pontos (v., p. ex., Rm 8:29,30; 2Ts 2:12,13), mas sua observação mais completa está no pará-

grafo profundo, denso — apesar das subdivisões o fluxo dos pensamentos faz dele um só parágrafo — de Efésios 1:3—2:10. Como era seu costume, Paulo começava com uma declaração sumária e usava o resto do parágrafo para analisá-la e explicá-la. A afirmação é esta: "Deus [...] que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais [isto é, no reino das realidades espirituais] em Cristo" (1:3).

A análise começa com a eleição eterna e a predestinação para a filiação em Cristo (v. 4 em diante), prossegue com a redenção e a remissão dos pecados em Cristo (v. 7) e leva à esperança da glorificação em Cristo (v. 11,12) e a dádiva do Espírito em Cristo para nos selar como propriedade divina para sempre (v. 13,14).

Em seguida, Paulo concentra a atenção no ato poderoso pelo qual Deus regenera os pecadores em Cristo (1:19; 2:7), em cujo processo os leva à fé (2:8). Paulo descreve todos esses itens como elementos de o único e grande propósito de salvar (1:5,9,11), e nos diz que a graça (misericórdia, amor, bondade: 2:4,7) é sua força motriz (2:4-8); que "as riquezas de sua graça" aparecem ao longo de toda sua administração (1:7; 2:7), e que o louvor da graça é o objetivo final (1:6,12,14; 2:7).

Assim, nós, cristãos, podemos nos regozijar em saber que nossa conversão não foi simples acaso, mas um ato de Deus originado no plano eterno para abençoar-nos com o dom gracioso da salvação do pecado (2:8-10). Deus promete e se propõe a executar o plano todo até o final e, desde que sua realização se dá pelo poder soberano (1:19,20), nada poderá frustrá-lo. Bem pôde Isaac Watts exclamar em palavras tão magnificentes e verdadeiras:

Fale de sua maravilhosa fidelidade E espalhe pelo mundo o seu poder, Cante as doces promessas de sua graça E de nosso Deus que tudo faz.

Gravadas como que no bronze eterno Brilham as poderosas promessas Nem as forças da escuridão podem Apagar essas frases eternas.

Sua palavra de graça é forte Como a que criou o céu A voz que fez surgir as estrelas Fala de todas as promessas.7

As estrelas, na verdade, podem cair, mas as promessas de Deus permanecerão e serão cumpridas. O plano da salvação será levado ao final triunfante; e então a graça será reconhecida como soberana.



3. Graça como garantia da preservação dos santos. Se existe certeza no cumprimento do plano da salvação, o futuro do cristão está assegurado. Eu sou e serei guardado "pelo poder de Deus até chegar a salvação" (IPe 1:5). Não preciso, portanto, atormentar-me com medo de que minha fé possa falhar: como a graça me levou à fé na primeira vez, assim me manterá crendo até o fim. A fé, tanto no início como em seu decurso, é um dom da graça (v. Fp 1:29). Por isso, o cristão pode dizer com Doddridge:8

Foi a graça que inscreveu meu nome No livro eterno de Deus, Foi a graça que me deu ao Cordeiro Que levou todas as minhas tristezas.

A graça ensinou minha alma a orar E a conhecer o amor perdoador Foi a graça que cuidou de mim neste dia, E que nunca me deixará só.9

A RESPOSTA APROPRIADA

Nenhuma apologia é necessária para valer-nos tão livremente de nossa rica herança de "hinos sobre a graça" (infelizmente, mal-representada



7Versos 2 e seguintes do hino "Begin, my tongue, some heavenly theme", em Hymns and Sacred Songs, 1707.

8Philip Doddridge (1702-1751) foi o caçula entre vinte irmãos. Ministro não-conformista, pastoreou uma congregação independente em Northampton (Inglaterra). Faleceu em Lisboa (Portugal), aonde tinha ido recuperar-se de exaustão. Morreu de tuberculose. Compôs cerca de quarenta hinos.

9Versos 3 e 5 do hino Grace, 'tis a charming sound. Apesar de este hino ter sido composto por Philip Doddridge, estes dois versos foram escritos por Augustus Toplady.

em muitos hinários atuais), pois eles demonstram nossos conceitos de forma muito melhor que a prosa. Não precisamos também nos desculpar por fazer uso de mais um deles quando, para finalizar, pensamos um pouco na reação que o conhecimento da graça divina deveria provocar em nós.

Diz-se que no Novo Testamento a doutrina é a graça, e a ética, a gratidão; e alguma coisa está errada com qualquer forma de cristianismo que não justifique essa afirmação na experiência e na prática. Quem entende a doutrina da graça divina como incentivo à lassidão moral ("a salvação está garantida, não importa o que eu faça, portanto nossa conduta não influi") está apenas demonstrando que, no sentido mais literal, não sabe do que fala.

Amor gera amor, e este, uma vez despertado, deseja agradar. A vontade revelada de Deus é que quem recebeu a graça deve dedicar-se às "boas obras" (Ef 2:10; Tt 2:11,12); a gratidão levará qualquer pessoa que tenha recebido de fato a graça a agir como Deus requer e a clamar diariamente:

Oh! Quão grande devedor à graça Diariamente sou constrangido a ser, Deixe que agora a graça como um grilhão Ligue meu coração transviado a ti!

Inclinado a se desviar,

Senhor, eu sinto isso,

Inclinado a deixar o Deus que eu amo

Toma meu coração, oh, toma e sela-o

Sela-o desde os teus altos céus!10

Você afirma conhecer o amor e a graça de Deus em sua vida? Prove então sua afirmativa, agindo e orando de acordo com ela.



10Terceiro verso do hino "Come, thou fount of every blessing", de Robert Robinson, em A collection of hymns used by the Church of Christ in Angel Alley, Bishopgate, 1759.



Deus, o Juiz
Você acredita no julgamento divino? Com isto estou perguntando se você crê no Deus que será nosso juiz.

Muitos, ao que parece, não acreditam. Fale a eles de Deus como Pai, amigo, ajudador, aquele que nos ama apesar de todas nossas fraquezas, insensatez e pecado, e seus rostos se iluminam; você estabelece sintonia imediata com eles. Fale, porém, de Deus como juiz, e eles franzirão a testa e abanarão a cabeça negativamente. Sua mente se recusa a aceitar essa idéia, pois acham-na repulsiva e indigna.

Entretanto há poucas coisas na Bíblia mais fortemente destacadas que a realidade da ação de Deus como juiz. "Juiz" é um vocábulo constantemente aplicado a ele. Quando Abraão intercedia por Sodoma, uma cidade tomada pelo pecado que Deus estava a ponto de destruir, clamou: "Não agirá com justiça o Juiz de toda a terra?" (Gn 18:25). Jefté, concluindo seu ultimato aos invasores amonitas, declarou: "Nada fiz contra ti, mas tu estás cometendo um erro, lutando contra mim. Que o Senhor, o Juiz, julgue hoje a disputa entre os israelitas e os amonitas" (Jz 11:27). "É Deus quem julga" (Sl 75:7); "Levanta-te, ó Deus, julga a terra" (Sl 82:8). No Novo Testamento o autor de Hebreus fala de "Deus, o Juiz de todos os homens" (Hb 12:23). Não se trata de mera retórica, a realidade do julgamento divino é apresentada em todas as páginas da história bíblica.

Deus julgou Adão e Eva, expulsando-os do Jardim e amaldiçoando sua vida na terra (Gn 3). Deus julgou o mundo corrupto dos dias de Noé enviando o dilúvio para destruir a humanidade (Gn 6—8). Ele julgou Sodoma e Gomorra, destruindo-as por meio de uma catástrofe vulcânica (Gn 18,19). Julgou os egípcios, que dominavam os israelitas, exatamente como havia prometido fazer (Gn 15:14), mandando contra eles o terror das dez pragas (Êx 7—12).

Deus também julgou os adoradores do bezerro de ouro usando os levitas como seus executores (Êx 32:26-35). Julgou Nadabe e Abiú por lhe oferecerem fogo estranho (Lv 10:1-3), bem como Coré, Data e Abirã, que foram engolidos por um tremor de terra. Deus julgou Acã por roubo sacrílego, eliminado a este e aos seus (Js 7). Julgou Israel por infidelida-de depois da entrada em Canaã, permitindo que caísse sob o domínio de outras nações (Jz 2:11-15; 3:5-8; 4:1-3).

Antes de entrar na terra prometida, Deus havia ameaçado banir seu povo como castigo final para a impiedade, e depois de repetidas admoes-tações feitas pelos profetas, ele os julgou, cumprindo sua ameaça: o reino do norte (Israel) caiu vítima do cativeiro assírio e o reino do sul (Judá), do babilônico (2Rs 17; 22:15-17; 23:26,27). Na Babilônia, Deus julgou Nabu-codonosor e Belsazar por impiedade. Ao primeiro foi dado tempo para corrigir sua vida (Dn 4:5,27,34), ao segundo, não (Dn 5; 5,6,23-38,30).

As narrativas do julgamento divino não estão confinadas apenas no Antigo Testamento. Na história do neotestamentária, o julgamento cai sobre os judeus por haverem rejeitado o Messias (Mt 21:43,44; 1Ts 2:14-16); sobre Ananias e Safira por terem mentido a Deus (At 5); sobre Herodes por seu orgulho (At 12:21); sobre Elimas por sua oposição ao Evangelho (At 13:8); sobre os cristãos de Corinto, afligidos por doenças (fatais em muitos casos), por sua irreverência grosseira, particularmente em relação à ceia do Senhor (1Co 11:29-32). Esta é apenas uma seleção das muitas narrativas dos atos de julgamento divino contidos na Bíblia.

Quando passamos da história para os ensinamentos bíblicos — a lei, os profetas, a literatura sapiencial, as palavras de Cristo e dos apóstolos —, percebemos que o propósito da ação de Deus no julgamento sobrepuja tudo o mais. A legislação mosaica proveio de um Deus que é justo juiz e que não hesitará em punir mediante uma atuação providencial direta se seu povo infringir sua lei. Os profetas acolheram esse tema; na verdade, a maior parte de seus ensinamentos registrados consiste na exposição e aplicação da lei, e de ameaças de julgamento contra os impenitentes e os transgressores da lei. Eles gastaram muito mais tempo proclamando o julgamento que prognosticando o Messias e seu Reino!

Na literatura sapiencial aparece o mesmo ponto de vista: a única cer
teza fundamental subjacente a todas as discussões sobre os problemas
da vida em Jó, em Eclesiastes e em todas as máximas práticas de Provér
bios é que "Deus o trará a julgamento", "Pois Deus trará a julgamento
tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja
mal" (Ec 11:9; 12:14).

As pessoas que não lêem a Bíblia confiantemente nos asseguram de que quando vamos do Antigo para o Novo Testamento, o tema do julgamento divino passa para segundo plano. Entretanto, se examinarmos o Novo Testamento, mesmo superficialmente, perceberemos logo que a ênfase do Antigo Testamento na ação de Deus como Juiz, longe de ser reduzida, é na realidade intensificada. Todo o Novo Testamento é dominado pela certeza da chegada do dia

do juízo universal e pela questão que ele levanta: Como podemos nós, pecadores, nos reconciliar com Deus enquanto há tempo? O Novo Testamento menciona o "dia do julgamento", "o dia da ira", "a ira vindoura" e proclama Jesus, o divino Salvador, como o Juiz indicado por Deus.

O juiz que está à porta (Tg 5:9) "pronto para julgar os vivos e os mortos" (1Pe 4:5), o "justo juiz" que dará a Paulo sua coroa (2Tm 4:8) é o Senhor Jesus Cristo. "Foi a ele que Deus constituiu juiz de vivos e de mortos" (At 10:42). Deus "estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que destinou" (At 17:31), disse Paulo aos atenienses. E aos romanos escreveu: "no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Cristo Jesus, conforme o declara o meu evangelho" (Rm 2:16).

O próprio Jesus disse o mesmo: "... o Pai [...] confiou todo julgamento ao Filho [...] Deu-lhe autoridade para julgar [...] está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados" (To 5:22,27-29). O Jesus do Novo Testamento, que é o Salvador do mundo, é também o seu Juiz.



Características do juiz

Qual é o significado disso? O que está envolvido na idéia de ser o Pai, ou Jesus, o juiz? Pelo menos quatro conceitos estão em jogo:



  1. O juiz é alguém que possui autoridade. No mundo bíblico, o rei era sempre o juiz supremo por ser a autoridade maior. Dessa forma, segundo a Bíblia, Deus é o juiz do seu mundo. Como nosso Criador, ele é nosso dono e proprietário, e tem o direito de dispor de nós. Ele tem, portanto, o direito de criar leis para suas criaturas e recompensá-las de acordo com sua atitude, por cumprir ou não essas leis. Na maior parte dos Estados modernos os Poderes Legislativo e Judiciário são separados, de modo que o juiz não cria as leis que aplica, mas no mundo antigo não era assim, e também não é assim com Deus. Ele é o legislador e o juiz.

  2. O juiz é alguém que se identifica com o que é bom e certo. O ideal moderno de que o juiz deva ser frio e imparcial não tem lugar na Bíblia. Espera-se do juiz bíblico que ame a justiça e a honestidade, que sinta repulsa por todo o mau tratamento infligido às pessoas por seus semelhantes. Um juiz injusto, que não tem interesse em ver o certo triunfar sobre o errado, é, de acordo com os padrões bíblicos, uma monstruosidade. A Bíblia não deixa nenhuma dúvida sobre o amor divino pela justiça e seu ódio pela iniqüidade, e que o ideal do juiz totalmente identificado com o que é bom e justo enquadra-se perfeitamente nele.

  3. O juiz é alguém com sabedoria para discernir a verdade. No mundo bíblico a tarefa primordial do juiz é apurar os fatos do caso a ele apresentado. Não há júri; é sua responsabilidade, e de ninguém mais, interrogar, acariar, detectar mentiras, penetrar nos subterfúgios e determinar a situação real. Quando a Bíblia mostra Deus julgando, dá ênfase a sua onisciência e sabedoria perscrutando corações e descobrindo fatos. Nada lhe escapa. Podemos enganar as pessoas, jamais a Deus. Ele nos conhece e nos julga como realmente somos.

Quando Abraão se encontrou com o Senhor em forma humana nos carvalhos de Manre, ele lhe fez entender que estava a caminho de Sodoma para estabelecer a verdade sobre a questão moral naquela cidade. "Disse-lhe, pois, o Senhor: 'As acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Senão, eu o saberei" (Gn 18:20,21). E sempre é assim, Deus saberá. Seu julgamento corresponde à verdade — a verdade real e moral. Ele julga "o íntimo dos homens", não apenas o exterior. Paulo tem razão ao dizer: "Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo" (2Co 5:10).

4. O juiz é alguém com poder para executar a sentença. Atualmente, o juiz apenas proclama a sentença, cabendo a outra área do judiciário fazê-la cumprir. O mesmo acontecia no mundo antigo. Mas Deus é seu próprio executor. Do mesmo modo como julga e sentencia, ele pune. Em Deus fundem-se todas as funções judiciais.

Retribuição

De tudo o que foi dito fica claro que a proclamação bíblica da ação de Deus como Juiz faz parte do que seu caráter evidencia. Confirma também o que se disse antes sobre sua perfeição moral, retidão, justiça, sabedoria, onisciência e onipotência. Mostra-nos ainda que a retribuição é o centro da justiça demonstrada pela natureza de Deus: dar ao ser humano o que merece; pois esta é a essência do trabalho do juiz. Retribuir o bem com o bem e o mal com o mal é inerente a Deus.

Dessa forma, quando o Novo Testamento fala do julgamento final, sempre o apresenta em termos de recompensa. Deus julgará todos os seres humanos "de acordo com o que tenham feito" (Mt 16:27; Ap 20:12). Paulo amplia essa idéia:
[Deus] retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal [...] mas glória, honra e paz para todo o que pratica o bem. [...] Pois em Deus não há parcialidade.

Romanos 2:6-11



O princípio da retribuição é aplicado integralmente a cristãos e não-cristãos: todos receberão de acordo com suas obras. Os cristãos estão explicitamente incluídos na seguinte referência de Paulo: "Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más" (2Co 5:10).

Portanto, a retribuição aparece como expressão natural e predeterminada do caráter divino. Deus resolveu ser o Juiz de todo indivíduo, recompensando cada um de acordo com suas obras. A

retribuição é a inescapável lei moral da criação. Deus cuidará para que cada pessoa, cedo ou tarde, receba o que merece, aqui ou na vida futura. Este é um dos fatos básicos da vida. E tendo sido feitos à imagem de Deus, sabemos em nosso íntimo que isso é correto. É assim mesmo que deve ser.

Muitas vezes reclamamos, como faz o criminoso (embora neste caso sem muito fundamento): "Não há justiça". O problema do salmista que via homens inofensivos serem castigados e os ímpios, "livres dos fardos de todos", prosperar e ter paz (Sl 73), é repetido constantemente na experiência humana. Entretanto, o caráter de Deus é a garantia de que tudo o que é errado será endireitado um dia, quando chegar o "dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento" (Rm 2:5), a recompensa será justa e nenhum problema de injustiça deste mundo permanecerá para assombrar-nos. Deus é o Juiz, e a justiça será feita.

Por que, então, ficamos apreensivos com a idéia de Deus como Juiz? Por que consideramos essa idéia indigna dele? A verdade é que parte da perfeição moral de Deus é sua perfeição no julgamento. O Deus que não se importasse com diferençar entre o certo do errado seria um ser bom e admirável? O Deus que não fizesse distinção entre os monstros da história, os Hitlers e os Stálins (se ousarmos dar nomes), e seus santos, seria moralmente perfeito e digno de louvor? A indiferença moral seria a imperfeição divina, e não a perfeição. Portanto, não julgar o mundo demonstraria indiferença moral. A prova final de que Deus é o Ser moralmente perfeito, que não fica indiferente às questões do que é certo nem errado, é o fato de ele ter se comprometido pessoalmente a julgar o mundo.

É evidente que a realidade do julgamento divino deve ter um efeito direto em nosso modo de encarar a vida. Se soubermos que teremos de enfrentar o julgamento retributivo no final, não viveremos como o faríamos de outro modo. Deve-se frisar, porém, que a doutrina do julgamento divino, e em particular a do julgamento final, não deve ser vista primariamente como um truque para amedrontar as pessoas a fim de que pareçam íntegras. Ela possui implicações assustadoras para os ímpios, é verdade, mas seu ponto principal é revelar o caráter moral de Deus e oferecer significado moral à vida humana. Como escreveu Leon Morris:

A doutrina do julgamento final [...] destaca a responsabilidade do homem e a certeza de que a justiça finalmente triunfará sobre todo o mal, que é parte e parcela da vida aqui e agora. A primeira concede dignidade ao ato mais humilde, e a última traz tranqüilidade e certeza aos que estão no auge da batalha. Esta doutrina dá sentido à vida [...] A visão cristã do julgamento significa que a história se dirige para um alvo [...] O julgamento defende a idéia do triunfo de Deus e do bem. É impossível pensar que o conflito presente entre o bem e o mal perdure por toda a eternidade. O julgamento significa que o mal será eliminado de uma vez por todas com decisão e autoridade. O julgamento significa que no final a vontade de Deus será perfeitamente realizada.1

1 The biblical doctrine of judgment, Grand Rapids: Eerdmans, 1960, p. 72.

Jesus, o agente do Pai

Nem sempre as pessoas percebem que a autoridade suprema no julgamento final (apresentada no Novo Testamento), tanto no céu como no inferno, é o próprio Senhor Jesus Cristo. Acertadamente o ofício fúnebre anglicano se dirige a Jesus como "o santo e misericordioso Salvador, tu, mais do que notável Juiz eterno".2 Jesus afirmou muitas vezes que no dia em que todos comparecerem perante o trono de Deus para acolher o resultado permanente e eterno de seu estilo de vida, ele próprio será o agente do Pai no julgamento, e sua palavra de aceitação ou rejeição será decisiva. Há muitas passagens referentes a este assunto, dentre as quais destacam-se: Mateus 7:13-27; 10:26-33; 12:36,37; 13:24-50; 22:1-14; 24:36-25:46; Lucas 13:23-30, 16:19-31; João 5:22-30. A prefiguração mais clara de Jesus como juiz está em Mateus 25:31-34,41:

Quando o Filho do homem vier [...] assentar-se-á em seu trono na glória celestial. Todas as nações [isto é, todas as pessoas] serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras [...] Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: "Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino" [...] Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: "Malditos!, apartem-se de mim para o fogo eterno".

O registro mais claro da prerrogativa de Jesus como Juiz encontra-se em João 5:22,23,26-29:

O Pai a ninguém julga, mas confiou todo julgamento ao Filho, para que todos honrem o Filho como honram ao Pai [...] o Pai [...] deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem [a quem foi prometido domínio, incluindo-se as funções de juiz, Dn 7:13,14] [...] pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida; e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados.

2The book of common prayer, versão eletrônica <http://www.holycross-raleigh.org/bcp/ 484,html>.


A própria indicação de Deus tornou o ofício de Jesus Cristo inevitável. Ele está no fim da jornada da vida de todas as pessoas, sem exceção. "Prepare-se para encontrar-se com o seu Deus, ó Israel" (Am 4:12) foi a mensagem de Amós a Israel. "Prepare-se para encontrar-se com Jesus ressuscitado" é a mensagem de Deus hoje ao mundo (v. At 17:31). Podemos ter a certeza de que o verdadeiro Deus e homem perfeito será um juiz perfeitamente justo.

Indicativos do coração

O julgamento final, como já vimos, avaliará nossas obras, isto é, o que fizemos no decurso da vida. A relevância de nossos feitos não está em merecer um prêmio da corte — eles estão muito aquém da perfeição para isso —, mas em indicar o que há no coração — isto é, a natureza real de cada agente. Jesus disse certa vez: "... os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado. Pois por suas palavras vocês serão absolvidos, e por suas palavras vocês serão condenados" (Mt 12:36,37).

Qual o significado das palavras que pronunciamos (cuja expressão é, lógico, uma "obra" no sentido apropriado)? Exatamente este: as palavras mostram o que você é interiormente. Jesus salientou bem este ponto: "Pois uma árvore é conhecida por seu fruto [...] como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração" (v. 33,34). Assim também, na passagem sobre as ovelhas e os cabritos, é feita uma citação sobre o fato de alguém ter ou não atendido às necessidades dos cristãos. Qual o significado disso? Não quer dizer que um modo de agir seja meritório e o outro não, mas que mediante essas ações pode-se dizer se houve amor a Cristo, procedente da fé, no coração. (v. Mt 25:34-46.)

Uma vez que tenhamos compreendido que o significado das obras no julgamento final são indicativos do caráter espiritual, torna-se possível responder a uma pergunta que tem confundido muitas pessoas. Ela pode ser formulada do seguinte modo: Jesus disse: "Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida" (Jo 5:24). Paulo afirmou: "Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas, quer sejam más" (2Co 5:10). Como podemos juntar estas duas afirmações? Como o perdão gratuito e a justificação pela fé se enquadram no julgamento pelas obras?

A resposta parece ser a seguinte. Primeiro, o dom da justificação certamente protege os cristãos de ser condenados e banidos da presença de Deus como pecadores. Isto aparece na visão do julgamento em Apocalipse 20:11-15, em que, junto com os "livros" onde estão registradas todas as obras de cada pessoa, é aberto o "livro da vida". As pessoas cujos nomes estiverem escritos nele não serão "lançadas no lago de fogo", como acontecerá com as demais.

Entretanto, em segundo lugar, a dádiva da justificação não protegerá de modo algum OS cristãos de serem avaliados como cristãos e de perderem benefícios que outros desfrutarão se ficar provado que, como cristãos, foram negligentes, maldosos e destrutivos. Paulo adverte os coríntios de que sejam cuidadosos com o tipo de vida que construíram sobre o único fundamento, Cristo.

Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo.

1Coríntios 3:12-15



Recompensa e prejuízo significam um relacionamento mais rico ou mais pobre com Deus, embora atualmente esteja além de nossas possibilidades determinar como será isso.

O julgamento final também corresponderá ao conhecimento. Todos sabem alguma coisa sobre a vontade de Deus por meio da revelação geral, mesmo que não tenham sido instruídos na lei ou no Evangelho, e todos são culpados diante de Deus por não corresponder ao que sabem. O demérito, porém, é proporcional ao grau desse conhecimento (v. Rm 2:12; cf. Lc 12:47). Este é o princípio aqui empregado: "A quem muito foi dado, muito será exigido" (v. 48). A justiça é evidente neste ponto. O juiz de toda a terra agirá retamente em cada caso.



Sem necessidade de fugir

Paulo se refere ao fato de que todos devemos comparecer diante do tribunal de Cristo com o "temor ao Senhor" (2Co 5:11), e ele está com a razão. Jesus, o Senhor, da mesma forma que seu Pai, é santo e puro; nós não somos nem uma coisa nem outra.

Vivemos debaixo de seus olhos, ele conhece nosso interior, e no dia do julgamento será feita diante dele a recapitulação de toda nossa vida passada, uma espécie de revisão. Se nos conhecemos realmente, sabemos que não estamos qualificados para comparecer diante dele. Que devemos fazer então? A resposta do Novo Testamento é: clame ao Juiz para que se torne seu Salvador no presente.

Como juiz ele é a lei, mas como Salvador é o Evangelho. Fuja dele agora e você o encontrará mais tarde como Juiz, e sem esperança. Busque-o agora e você o encontrará (pois "quem busca acha"), e descobrirá que está à espera do futuro encontro com a alegria, sabendo que agora "já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8:1). Assim:

És amparo no viver, És consolo no morrer,

Esperança no porvir: Tu vieste me remir. Rocha eterna, a me salvar, Hei de em ti me refugiar!3


3Hinário das Igrejas Evangélicas Reformadas no Brasil, p. 558 (último verso).



A ira de Deus
A palavra ira significa "um intenso sentimento de ódio ou rancor". Ódio é definido como "aversão intensa"; rancor é "mágoa guardada por uma ofensa ou um mal recebido". Assim é a ira. E a Bíblia nos diz que a ira é um dos atributos divinos.

O hábito moderno na maioria das igrejas é falar pouco sobre esse assunto. Quem ainda crê na ira de Deus (nem todos o fazem) fala pouco sobre ela, e talvez pense pouco também sobre isso. Em uma época que se tem vendido vergonhosamente aos deuses da ganância, orgulho, sexo e egoísmo, a Igreja apenas emite murmúrios sobre a bondade de Deus, e quase nada enuncia sobre seu julgamento. Quantas vezes você ouviu falar a respeito disso no último ano. Ou, se você é ministro, pregou algum sermão sobre a ira de Deus? Quanto tempo faz que um cristão mencionou diretamente esse assunto no rádio ou na televisão, ou em pequenos sermões de meia coluna que aparecem em alguns jornais e revistas? (E se alguém o fizesse, quanto tempo passaria até que alguém lhe pedisse que escrevesse novamente sobre o assunto?).

O fato é que o assunto da ira divina tornou-se praticamente um tabu na sociedade moderna, e os cristãos em geral aceitaram essa definição e se condicionaram a nunca levantar o assunto.

Poderíamos perfeitamente perguntar se essa atitude está correta, já que a Bíblia se comporta de modo bem diferente. Não é possível imaginar que o julgamento divino fosse um assunto muito popular; entretanto, os escritores bíblicos se referem a ele constantemente. Uma das coisas mais impressionantes sobre a Bíblia é o vigor com que os dois Testamentos destacam a realidade e o terror da ira de Deus: "Um estudo da concordância mostrará que nas Escrituras há mais referências à cólera, fúria e ira de Deus do que ao seu amor e bondade".1

A Bíblia afirma que Deus é tão bom para aqueles que confiam nele, como é terrível para os que não confiam:

O Senhor é Deus zeloso e vingador! O Senhor é vingador! Seu furor é terrível! O Senhor executa vingança contra os seus adversários, e manifesta indignação contra os seus inimigos. O Senhor é muito paciente, mas o seu poder é imenso, o Senhor não deixará impune o culpado. [...] Quem pode resistir à sua indignação? Quem pode suportar o despertar de sua ira? O seu furor se derrama como fogo, e as rochas se despedaçam diante dele. O Senhor é bom, um refúgio em tempos de angústia. Ele protege os que nele confiam [...] expulsará os seus inimigos para a escuridão.

Naum 1:2-8

A expectativa de Paulo era de que o Senhor Jesus um dia aparecerá "em meio a chamas flamejantes. Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder. Isso acontecerá no dia em que ele vier para ser glorificado em seus santos" (2Ts 1:7-10).

Essa passagem é suficiente para lembrar que a ênfase de Naum não é peculiar ao Antigo Testamento. Na realidade, ao longo de todo o Novo Testamento "a ira de Deus", "a ira", ou simplesmente "ira" são termos quase técnicos para a ação divina retributiva, qualquer que seja o meio empregado, contra quem o desafiou (v. Rm 1:18; 2:5; 5:9; 12:19; 13:4,5; lTs 1:10; 2:16; 5:9; Ap 6:16,17; 16:19; Lc 21:22-24 etc).

1Arthur W. Pink, The attributes of God, <http://www.pbmimstries.org/books/pinkyAttri-butes/attrib_07.htm>.

A Bíblia também não nos apresenta a ira de Deus apenas por meio de declarações gerais como as citadas. A história bíblica, como vimos no último capítulo, proclama em alta voz tanto a severidade como a bondade de Deus. Assim como o O peregrino2 pode ser tido como um livro a respeito dos caminhos que levam ao inferno, a Bíblia poderia ser chamada "o livro da ira de Deus", pois está repleta de narrativas da retribuição divina, desde a maldição e expulsão de Adão e Eva em Gênesis 3 até a derrota da Babilônia e o grande tribunal de Apocalipse 17,18 e 20.

O tema da ira de Deus é claramente usado sem nenhuma inibição pelos escritores bíblicos. Por que deveríamos senti-la então? Por que nos sentiríamos obrigados a silenciar sobre o assunto quando a Bíblia trata dele? O que nos deixa atrapalhados e constrangidos quando surge o assunto, fazendo-nos correr para abafá-lo, evitando discuti-lo quando nos perguntam sobre ele? O que está por trás de nossa hesitação e dificuldade?

Não estamos pensando agora em quem recusa a idéia da ira divina por não estar preparado para levar a sério qualquer parcela da fé bíblica. Ao contrário, pensamos nos muitos que se consideram "de dentro", crendo firmemente no amor e na piedade de Deus, na obra redentora do Senhor Jesus Cristo, seguidores resolutos das Escrituras nos demais assuntos e, no entanto, vacilam quando esta questão é levantada. Qual o verdadeiro problema neste ponto?



Com o que se parece a ira de Deus

A raiz de nossa infelicidade parece ser a inquietante suspeita de que idéias sobre a ira sejam de alguma forma indignas de Deus. Para alguns, por exemplo, "ira" sugere perda do autocontrole, o ato de "ver tudo



2John Bunyan, São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

vermelho", o que, em parte, se não no todo, é puramente irracional. Para outros, sugere o furor da impotência consciênte, o orgulho ferido, ou simplesmente mau gênio. Certamente, dizem, seria errado atribuir a Deus atitudes como essas.

A resposta é: de fato seria, mas a Bíblia não nos pede que façamos isso. Parece haver aqui um mal-entendido quanto à linguagem antro-pomórfica das Escrituras, isto é, a descrição das atitudes e emoções de Deus em termos comumente usados para se referir aos seres humanos. A base dessa prática é o fato de que Deus fez o ser humano a sua imagem, assim nossa personalidade e nosso caráter são mais semelhantes à natureza de Deus que qualquer outra coisa conhecida. Entretanto, quando as Escrituras falam de Deus antropomorficamente, não implica que as limitações e imperfeições características das pessoas, criaturas pecadoras, pertençam também às qualidades correspondentes de nosso santo Criador; ao contrário, tem-se por certo que isso não acontece.

Assim, o amor divino, como a Bíblia o vê, nunca leva Deus a agir insensata, impulsiva e imoralmente, como seu correlato humano muito freqüentemente nos leva. Do mesmo modo, a ira de Deus na Bíblia jamais é caprichosa, auto-indulgente, irritável e moralmente ignóbil, como em geral é a ira humana. Ao contrário, a ira de Deus é a reação justa e necessária à perversidade moral. Deus só se ira quando a situação o exige.

Mesmo entre os seres humanos, há o que chamamos indignação justa, embora talvez seja raramente encontrada. Entretanto toda indignação de Deus é justa. Um Deus que tivesse tanto prazer no mal quanto no bem seria um Deus bom? Um Deus que não reagisse contra o mal em seu mundo seria moralmente perfeito? É claro que não. Pois é exatamente esta reação contra o mal, parte necessária da perfeição moral, que a Bíblia tem em vista quando fala da ira de Deus.

Para outros então, imaginar sobre a ira de Deus sugere crueldade. Pensam, talvez, no que se conta sobre o famoso sermão de Jonathan Edwards, Pecadores nas mãos de um Deus irado, usado para levar ao despertamento a cidade de Enfield, na Nova Inglaterra, em 1741. Nesse sermão, Edwards, ao desenvolver o tema de que "os homens impenitentes estão detidos nas mãos de Deus por cima do abismo do inferno",3 usou da mais vivida imagem da fornalha ardente para levar sua congregação a sentir o horror de sua situação e reforçar assim sua conclusão: "Portanto, todo aquele que está fora de Cristo desperte agora e fuja da ira vindoura".4

Qualquer pessoa que leu esse sermão saberá que Augustus H. Strong, o grande teólogo batista, estava certo quando salientou que as imagens apresentadas por Edwards, embora claramente focalizadas, não passavam de imagens. Ou seja, que Edwards "não considera o inferno um lugar composto de fogo e enxofre, mas uma consciência culpada e acusada de falta de santidade e separação de Deus, as quais são simbolizadas pelo fogo e pelo enxofre".5 Mas isto não satisfaz inteiramente as críticas feitas a Edwards de que o Deus capaz de infligir uma punição que requer tal linguagem descritiva deve ser um monstro terrível e cruel.

Isto tem fundamento? Duas considerações bíblicas mostram que não.



Em primeiro lugar, a ira de Deus na Bíblia é sempre judicial, isto é, a ira do juiz aplicando a justiça. A crueldade é sempre imoral, mas a pressuposição explícita de tudo o que vemos na Bíblia — e no sermão de Edwards com respeito ao assunto — sobre os tormentos de quem experimentará a plenitude da ira de Deus é que cada um recebe exatamente o que merece. O "dia da ira", diz Paulo, é também o dia "quando se revelará o seu justo julgamento. Deus 'retribuirá a cada um conforme o seu procedimento'" (Rm 2:5,6). O próprio Jesus, que na realidade tinha mais para dizer sobre este assunto do que qualquer outra figura do Novo Testamento, salientou que a recompensa seria proporcional ao merecimento individual.

3São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, s/d, p. 9.

4Ibid., p. 24.

5Teologia sistemática, São Paulo: Hagnos, 2003, v. 2, p. 849.

Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado muito mais será pedido.

Lucas 12:47,48

Diz Edwards no sermão já citado: Deus "fará que sofram na medida exata que sua rigorosa justiça vier a requerer";6 mas é exatamente esse "estritamente exigido pela justiça", ele insiste, que será tão doloroso para os que morrem na descrença. Se se perguntar: pode a desobediência ao Criador realmente merecer um castigo tão grande e doloroso? Qualquer pessoa que já esteja convicta de seu pecado sabe sem sombra de dúvida que a resposta é afirmativa, e sabe também que aqueles cuja consciência não foi ainda despertada para considerar, como disse Anselmo,7 "como o pecado é pesado" não estão qualificados para opinar.

Em segundo lugar, a ira de Deus na Bíblia é algo que as pessoas escolhem por si mesmas. Antes de o inferno ser uma experiência imposta por Deus, é a condição pelo qual a pessoa optou, afastando-se da luz que Deus faz brilhar em seu coração para dirigi-lo por si. João escreveu: "quem não crê [em Jesus] já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus". E continuou explicando: "Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más" (Jo 3:18,19). É exatamente isso o que João quer dizer: o ato decisivo da condenação sobre os perdidos reside no juízo auto-imposto pela rejeição da luz que os alcança em Jesus Cristo e por meio dele. Em última análise, tudo o que Deus faz subseqüentemente, aplicando a ação judicial ao descrente, é com a finalidade de mostrar-lhe a conseqüência total da escolha que fez e levá-lo a senti-la.

6Op. cit., p. 18.

7Anselmo da Cantuária (1033-1109), italiano nascido na Aosta, tornou-se sacerdote e mais tarde foi feito arcebispo de Cantuária (Inglaterra). Famoso teólogo, filósofo e escritor do século xii.

A escolha básica sempre foi e continua sendo simples: responder à intimação "Venham a mim [...] Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim" (Mt 11:28,29), ou não atendê-la; "salvar" sua vida evitando a censura de Jesus e resistindo a sua ordem para assumir o controle da mesma ou "perdê-la" negando a si mesmo, carregando sua cruz, tornando-se discípulo, deixando que Jesus atue em sua vida como lhe aprouver. No primeiro caso, Jesus nos diz, podemos ganhar o mundo, mas não tiraremos nenhum proveito disso, pois perderemos a alma, enquanto, no segundo caso, perdendo a vida por amor a ele, a encontraremos (Mt 16:24-26).

O que significa, então, perder a alma? Para responder a essa pergunta Jesus usa suas figuras solenes: Geena ("inferno", em Mc 9:47 e em outros dez textos do Evangelho), o vale fora de Jerusalém onde o lixo era queimado; o verme que não morre, imagem, ao que nos parece, da dissolução contínua da personalidade mediante a consciência acusadora; fogo, pela agonizante consciência do desprazer de Deus; trevas exteriores, pelo conhecimento da perda, não apenas de Deus, mas de tudo o que é bom e tudo o que torna a vida digna de ser vivida; ranger de dentes pela autocondenação e repulsa íntima.

Estas coisas são, sem dúvida, terrivelmente sombrias, embora os que estão convencidos do pecado conheçam um pouco de sua natureza. Tais punições, contudo, não são arbitrárias, ao contrário, representam o desenvolvimento consciente rumo à situação que a pessoa escolheu para si. O descrente preferiu ser independente, sem Deus, desafiando-o, tendo-o contra si, e terá, então, o que prefere. Ninguém permanecerá sob a ira de Deus a menos que o queira. A essência da ação divina na ira é dar às pessoas o que escolheram, com todas suas implicações; nada mais e nada menos. A presteza de Deus em respeitar a escolha humana em toda a extensão pode parecer desconcertante e mesmo aterradora, mas é claro que sua atitude aqui é essencialmente justa, e muito diferente do sofrimento infligido arbitrária e irresponsavelmente — o que consideramos crueldade.

Precisamos, portanto, lembrar que a chave da interpretação para muitas passagens bíblicas, no geral majoritariamente figuradas, que mostram o Rei e Juiz divino agindo contra o ser humano com ira e vingança, está em compreender que o que Deus faz nada mais é que confirmar o veredicto já proclamado sobre si mesmos por aqueles aos quais "visitou", tendo em vista o caminho que resolveram seguir. Isto aparece na narrativa do primeiro ato da ira de Deus para com ser humano, em Gênesis 3, onde vemos que Adão resolveu por si mesmo se esconder de Deus e sair de sua presença antes mesmo que Deus o expulsasse do jardim; e esse mesmo princípio é usado em toda a Bíblia.

A IRA EM ROMANOS

O tratamento clássico dado no Novo Testamento à ira divina é encontrado na carta aos romanos, que Lutero e Calvino consideravam a porta de entrada da Bíblia e que na verdade contém referências mais explícitas sobre a ira de Deus que as encontradas nas demais cartas de Paulo. Terminaremos este capítulo analisando o que esta carta nos diz sobre isso: um estudo que servirá para esclarecer alguns pontos já estudados.

1. O significado da ira de Deus. Em Romanos a ira de Deus denota sua ação resoluta na punição do pecado. É tanto a expressão de uma atitude pessoal e emocional do Jeová triúno quanto é de seu amor pelos pecadores: é a manifestação ativa de seu ódio à descrença e à perversidade moral. A expressão ira pode referir-se especificamente à futura manifestação do auge desta aversão no "dia da ira" (2:5; 5:9), mas pode também se referir aos acontecimentos e processos atuais da providência nos quais se pode discernir a retribuição ao pecado. Assim, a autoridade que condena os criminosos é "serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal" (13:4). A ira de Deus é sua reação ao nosso pecado e "a Lei produz a ira" (4:15) porque ela incita o pecado latente em nós e multiplica a transgressão, comportamento que evoca a ira (5:2; 7:7-13). Como reação ao pecado, a ira de Deus é expressão de sua justiça.

Paulo rejeita, indignado, a sugestão de que "Deus é injusto por aplicar a sua ira" (3:5). O apóstolo descreve as pessoas "preparadas para a perdição" como "vasos da ira", isto é, objetos da ira, no mesmo sentido que ele em outra parte as chama de servos do mundo, da carne e do demônio, "merecedores da ira" (Ef 2:3). Tais pessoas simplesmente por serem o que são atraem sobre si a ira de Deus.

2. A revelação da ira de Deus. "Porquanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça" (1:18). O tempo do verbo no presente — "é revelada" — implica manifestação constante, agindo durante todo o tempo; "dos céus", que atua como contraste ao "Evangelho" nos versículos anteriores, implica a manifestação universal atingindo quem não foi ainda alcançado pelo Evangelho.

Como se processa a revelação? Ela é impressa diretamente na consciência de cada pessoa: os que Deus "entregou a uma disposição mental reprovável" (1:28) para se entregar ao mal entretanto conhecem "o justo decreto, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte" (1:32). Nenhuma pessoa é inteiramente ignorante sobre o julgamento futuro. Essa revelação imediata é confirmada pela palavra revelada no Evangelho, que nos prepara para as boas novas falando-nos a respeito das más notícias do "dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento" (2:5).

E isso não é tudo. Aos que têm olhos para ver, os sinais da ira de Deus aparecem aqui e agora em situações reais da humanidade. Em todas as partes os cristãos observam um tipo de degeneração agindo constantemente — do conhecimento de Deus à adoração do que não é Deus, e da idolatria à imoralidade da pior espécie, de modo que cada geração cria uma nova safra com a "impiedade e a injustiça dos homens". Neste declínio temos de reconhecer a ação presente da ira divina, em um processo de rigidez judicial e cancelamento de restrições pelo qual as pessoas se entregam a suas preferências corruptas e põem em prática, cada vez mais desinibidamente, a concupiscência de seu coração pecador. Paulo descreve o processo, como ele conhecia a partir da Bíblia e do mundo de seus dias, em Romanos 1:19-31. As frases principais são: "Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos do seu coração", "Deus os entregou a paixões vergonhosas", "ele os entregou a uma disposição mental reprovável" (1:24,26,28).

Se você quer a prova de que a ira de Deus, revelada como um fato em sua consciência, já está agindo como uma força no mundo, Paulo lhe diria que basta olhar a seu redor. Você verá a que tipo de coisas Deus entregou os homens. Hoje, 21 séculos após sua carta ter sido escrita, quem poderá desmentir suas teses?



3. O livramento da ira de Deus. Nos três primeiros capítulos de Romanos, Paulo está preocupado em lançar-nos a pergunta: se "a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens", e "o dia da ira virá", quando Deus "recompensará cada um conforme as suas obras", como podemos escapar de tal desastre? A questão nos oprime porque estamos todos "debaixo do pecado"; "Não há nenhum justo, nem um sequer"; "Todo o mundo" está "sob o juízo de Deus" (3:9,10,19).

A lei não nos pode salvar, pois seu único efeito é estimular o pecado e nos mostrar como estamos longe de cumprir a justiça. A pompa exterior da religião também não nos pode salvar, assim como a circuncisão não pode salvar o judeu. Haverá então algum livramento da ira futura? Existe, e Paulo sabe disso. "Como agora fomos justificados por seu sangue", Paulo proclama, "muito mais ainda, por meio dele, seremos salvos da ira de Deus!" (5:9). Sangue de quem? O sangue de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. E o que quer dizer "justificado"? Significa ser perdoado e aceito como justo. Como somos justificados? Pela fé, isto é, pela confiança total na pessoa e obra de Jesus. E como o sangue de Jesus, sua morte sacrificial, constitui a base da justificação? Paulo explica isso em Romanos 3:24,25, onde ele fala da "redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue". Que é propiciação? É o sacrifício que afasta a ira pela expiação do pecado e pelo cancelamento da culpa.

Isto, como veremos mais detalhadamente adiante, é o verdadeiro núcleo do Evangelho: que Jesus Cristo, pela virtude de sua morte na cruz como nosso substituto, levando nossos pecados, "é a propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 2:2). Entre nós, os pecadores, e as nuvens carregadas da ira divina, levanta-se a cruz do Senhor Jesus. Se somos de Cristo, pela fé, então estamos justificados pela sua cruz, e a ira não nos atingirá quer aqui quer no futuro. Jesus "nos livra da ira vindoura" (1Ts 1:10).


A REALIDADE SOLENE

A verdade, sem dúvida alguma, é que o assunto da ira divina no passado foi usado especulativa, irreverente e mesmo maldosamente. Não há dúvida de que houve quem pregasse sobre a ira e a maldição com os olhos secos e sem nenhum sentimento no coração. O fato de pequenas seitas enviarem com alegria o mundo todo para o inferno, com exceção de si mesmas, com razão desagradou a muitos. Entretanto, se queremos conhecer a Deus, é vital que enfrentemos a verdade a respeito de sua ira, não importa quão fora de moda possa estar ou quão forte tenha sido nosso preconceito contra ela. De outro modo, não entenderemos o Evangelho que salva da ira, nem a realização propiciatória da cruz, nem a maravilha do amor redentor de Deus. Nem ainda entenderemos a mão divina na história e sua ação entre nosso povo. Não saberemos o que pensar sobre o Apocalipse, nem nosso evan-gelismo terá a urgência imposta por Judas: "a outros, salvem, arrebatando-os do fogo" (v. 23). Nem ainda nosso conhecimento de Deus ou o culto a ele estará de acordo com sua Palavra. Escreveu Arthur W. Pink:



A ira de Deus é a perfeição do caráter divino sobre o qual precisamos meditar freqüentemente. Primeiro, para que nosso coração possa ficar devidamente impressionado com o ódio divino contra o pecado. Temos a tendência de dar pouca atenção ao pecado, encobrir sua hediondez, desculpá-lo; mas, quanto mais estudamos e pensamos no horror que Deus tem pelo pecado e em sua terrível vingança contra ele, estaremos mais aptos a compreender sua infâmia. Segundo, criar o verdadeiro temor a Deus. em nossa alma para que "sejamos agradecidos e, assim, adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor, pois o nosso 'Deus é fogo consumidor'" (Hb 12:28,29). Não podemos servi-lo "aceitavelmente" a menos que haja "reverência" por sua impressionante majestade e "temor" por sua justa ira, e tudo fica mais fácil quando nos lembramos freqüentemente de que "nosso 'Deus é fogo consumidor'". Terceiro, levar nossa alma ao fervoroso louvor (a Jesus Cristo) por ter-nos livrado da "ira vindoura" (1Ts 1:10). Nossa presteza ou relutância em meditar sobre a ira de Deus torna-se um teste seguro para saber se nosso coração está realmente dedicado a ele.8

Pink está certo. Se quisermos conhecer verdadeiramente a Deus e ser conhecidos por ele devemos pedir-lhe que nos ensine a considerar a solene realidade de sua ira.



8

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   22


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal