O conhecimento de Deus J. I. Packer



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Bondade e severidade


"Portanto, considere a bondade e a severidade de Deus", escreveu Paulo em Romanos 11:22. A palavra-chave neste ponto é o e.O apóstolo explica a relação entre judeus e gentios no plano de Deus, e acabou de recordar aos gentios que Deus rejeitara a grande massa de judeus, seus contemporâneos, por sua incredulidade, enquanto na mesma época levava muitos pagãos à fé salvadora, como fizera com eles. Paulo chama agora sua atenção para os dois lados do caráter de Deus que aparecem nesse procedimento. "Portanto, considere a bondade e a severidade de Deus: severidade para com aqueles que caíram, mas bondade para com você". Os cristãos de Roma não deviam contar apenas com a bondade de Deus, nem só com sua severidade, mas considerar as duas em conjunto. Ambas são atributos, aspectos de seu caráter. Aparecem lado a lado em todo o processo da graça e, para que se conheça verdadeiramente a Deus, devem ser juntamente conhecidas.

Papai Noel e o desespero gigante

Desde que Paulo escreveu, creio que nunca houve mais necessidade de explorar esse ponto que hoje. A confusão e o desnorteamento atuais a respeito do significado da fé em Deus é quase impossível de descrever. Os homens dizem crer em Deus, mas não têm idéia de quem seja aquele em quem crêem nem que diferença pode fazer acreditar nele.

O cristão que quiser ajudar os companheiros que se debatem com o que um tratado famoso e antigo costumava denominar Segurança, certeza e alegria1 fica constantemente confuso, sem saber por onde começar. A fantástica mistura de idéias sobre Deus com que se depara quase o faz perder o fôlego, e ele pergunta: Como as pessoas puderam chegar a tal confusão? Como ela começou? Por onde começar para tirá-los dessa situação?

Para essas perguntas há diversos tipos de respostas complementares. Uma delas é que as pessoas começam a seguir uma forma particular de religião em lugar de aprender sobre Deus na própria Palavra. Devemos tentar levá-las a esquecer o orgulho e, em alguns casos, as idéias erradas sobre as Escrituras que originaram sua atitude, e orientá-las a fundamentar suas convicções daí por diante não em seus sentimentos, mas no que a Bíblia diz.

A segunda resposta é que hoje as pessoas consideram todas as religiões iguais ou equivalentes e extraem suas idéias sobre Deus tanto de fontes pagãs como cristãs. É preciso esforçar-nos para mostrar ao povo a singularidade e finalidade do Senhor Jesus Cristo, a última palavra de Deus ao ser humano.

A terceira resposta é que as pessoas deixaram de reconhecer a realidade de sua pecaminosidade, o que comunica um grau de perversidade e inimizade contra Deus sobre tudo o que pensam e fazem. É nosso dever levá-los a reconhecer esse fato a respeito de si mesmos e assim fazê-los menos autoconfiantes e abertos à correção pela palavra de Cristo.

A quarta resposta, não menos fundamental que as anteriores, é que as pessoas têm hoje o hábito de dissociar a idéia da bondade de Deus de

1Referência a um artigo escrito por volta do ano 1900, com o título acima, por George Cutting (1834-1934).

sua severidade. Precisamos procurar demovê-las desse hábito, pois enquanto persistirem nele o resultado será sempre a descrença.

O hábito em questão, primeiramente aprendido de alguns talentosos teólogos alemães do século xrx, contagiou todo o protestantismo ocidental. Rejeitar todas as idéias da ira divina e do julgamento, e presumir que o caráter de Deus, mal-representado (sem dúvida!) em muitas partes da Bíblia, é realmente de indulgente benevolência sem nenhuma severidade, é a regra quase sem exceção entre as pessoas comuns hoje.

É verdade que alguns teólogos, reagindo a esse pensamento, têm tentado reafirmar a verdade da santidade de Deus, mas seus esforços parecem tímidos e suas palavras têm caído, na maior parte das vezes, em ouvidos moucos. Os protestantes modernos não desistirão de sua adesão "iluminada" à doutrina de um Papai Noel celestial simplesmente porque um Brunner2 ou um Niebuhr3 suspeitam de que a história não seja realmente assim. A certeza de que não há mais nada a dizer sobre Deus (caso ele exista) além de ser infinitamente paciente e bondoso é de tão difícil eliminação quanto uma erva daninha. Uma vez que ela tenha criado raízes, o cristianismo, no verdadeiro sentido da palavra, simples-

mente definhará, pois sua essência é a fé no perdão dos pecados pela obra redentora de Cristo na cruz.

Partindo da teologia de Papai Noel, entretanto, o pecado não traz problema algum e o sacrifício se torna desnecessário. A generosidade de Deus se estende tanto aos que desobedecem a suas ordens quanto aos que as cumprem. A



2Emil Brunner (1889-1966), teólogo neo-ortodoxo, membro da Igreja Suíça. Acreditava que as pessoas poderiam conhecer a Deus por meio do que denominava "teologia natural". O foco do trabalho de Brunner era a ética social.

3Reinhold Niebuhr (1892-1971), o mais proeminente pastor neo-ortodoxo dos Estados Unidos. Foi professor de teologia no Union Theological Seminary. Acreditava que a teologia cristã era mais um conjunto de doutrinas humanas que divinas, e que as narrativas bíblicas eram mais míticas que reais. Além disso, Jesus possuía uma natureza pecaminosa.

idéia de que a atitude de Deus para comigo é afetada pelo fato de eu fazer ou não o que ele diz não tem lugar na mente da pessoa comum. Qualquer tentativa de mostrar a necessidade do temor na presença de Deus e do tremor diante de sua palavra é tida por impossível, fora de moda, "vitoriana", "puritana" e "subcristã".



Entretanto, a teologia de Papai Noel porta em si mesma a semente do próprio colapso, pois não pode fazer frente à realidade do mal. Não foi por acidente que, ao espalhar-se a crença no "bom Deus" do liberalismo, mais ou menos no começo do século xx, o assim chamado "problema do mal" (que antes não era considerado um problema) de repente alcançou notoriedade, como a principal preocupação da apologética cristã. Isto era inevitável, pois não é possível ver a boa vontade de um Papai Noel celestial em coisas que causam sofrimento e destruição, como a crueldade, a infidelidade conjugai ou a morte nas estradas ou de câncer no pulmão. O único modo de salvar o conjunto da teologia liberal sobre Deus é dissociá-lo dessas coisas e negar que ele tenha qualquer relação direta com elas ou controle sobre elas. Em outras palavras, negam sua onipotência e domínio sobre o mundo.

A teologia liberal tomou esse rumo há uns sessenta anos e as pessoas hoje a aceitam. Assim ele é visto como um tipo de Deus que tem boas intenções, mas nem sempre pode afastar seus filhos de problemas e sofrimentos. Quando vêm as dificuldades não há o que fazer a não ser aceitá-las. Desse modo, por um irônico paradoxo, a fé no Deus todo-bondade e nada severo leva as pessoas a assumirem uma atitude fatalista e pessimista diante da vida.

Eis aí, então, uma das encruzilhadas religiosas de nossos dias, levando (como de um modo ou de outro o fazem) para a terra do "Castelo da Dúvida" e do "Gigante Desespero".4 Como pode voltar para a estrada certa quem tem trilhado este caminho? Só aprendendo a relacionar a bondade de Deus com sua severidade, de acordo com as Escrituras. Nosso propósito aqui é esboçar a essência do ensinamento bíblico sobre este ponto.

4Figuras encontradas em O peregrino.

A BONDADE DE DEUS

A bondade, tanto em Deus como no ser humano, significa o que é admirável, atraente e digno de louvor. Quando os escritores bíblicos chamam Deus bom, em geral estão pensando nas qualidades morais que levam seu povo a chamá-lo perfeito, e em particular na generosidade que os leva a chamá-lo misericordioso e gracioso e a falar de seu amor. Vamos pensar nisso um pouco.

A Bíblia atesta constantemente a perfeição moral de Deus, como declarado por suas palavras e pela experiência de seu povo. Quando Deus se colocou junto a Moisés no Sinai e "proclamou o seu nome [revelou o caráter]: o Senhor [Deus como o Jeová de seu povo, o soberano salvador que disse de si mesmo "Eu sou o que sou", na aliança da graça], o que ele declarou foi isto: "... Senhor, Senhor, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado. Contudo, não deixa de punir o culpado..." (Êx 34:5-7).

Essa proclamação da perfeição moral divina foi executada como cumprimento de sua promessa de fazer toda a sua bondade passar diante de Moisés (Êx 33:19). A bondade de Deus, no sentido mais amplo da soma total de suas excelências manifestadas, se constitui de todas as perfeições específicas aqui mencionadas e tudo o mais que as acompanha — a fidelidade e lealdade de Deus, sua justiça e sabedoria infalíveis, sua brandura e paciência e completa suficiência para com todos os que penitentemente buscam seu auxílio, e sua nobre generosidade oferecendo às pessoas o sublime destino da convivência com ele em santidade e amor.

Quando Davi declarou: "Este é o Deus cujo caminho é perfeito" (2Sm 22:31; Sl 18:30), o que ele quis dizer é que o povo de Deus descobre pela experiência, como aconteceu com ele próprio, que a bondade de Deus nunca é menor do que ele afirmou ser. "Este é o Deus cujo caminho é perfeito; a palavra do Senhor é comprovadamente genuína. Ele é escudo para todos os que nele se refugiam". Todo o salmo é uma declaração retrospectiva de como Davi havia provado por si mesmo a fidelidade de Deus a suas promessas e sua suficiência como escudo protetor. Todos os filhos de Deus que não tenham perdido seu direito inato por causa da apostasia desfrutam uma experiência semelhante.

(Se você nunca leu esse salmo com muito cuidado, perguntando a si mesmo a cada instante quantas vezes seu testemunho se iguala ao de Davi, insisto para que faça isso imediatamente, e depois repita outras vezes de tempos em tempos. Você descobrirá que essa é uma disciplina salutar, ainda que perturbadora.)

Entretanto, há mais para dizer. Em meio ao aglomerado das perfei-ções morais divinas, há uma em particular para a qual o termo "bondade" aponta. Trata-se da qualidade que Deus separou especialmente de todas as outras quando, proclamando "toda a sua bondade" a Moisés, declarou-se "misericordioso, cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6). A qualidade aqui referida é a generosidade, e quer dizer dar aos outros sem nenhum interesse mercenário, sem limitar-se ao que o receptor merece, mas indo sempre muito além. A generosidade expressa o simples desejo de que os outros tenham o que necessitam para ser felizes. É, por assim dizer, o ponto focai da perfeição moral divina, a qualidade que determina como as outras excelências de Deus devem ser manifestadas.

Deus é "abundante em benevolência" — ultro bônus, como os teólogos latinos costumavam dizer há tempos, espontaneamente bom, trans-bordante de generosidade. Os teólogos da escola reformada usam a palavra graça (bondade imerecida) do Novo Testamento para cobrir todos os atos da generosidade divina, de qualquer espécie, e assim distinguir a graça comum da "criação, preservação e todas as bênçãos da vida" da graça especial manifestada no processo da salvação. O ponto de contraste entre comum e especial é que todos se beneficiam da primeira, mas nem todos são alcançados pela última. A forma bíblica de fazer esta distinção seria dizer que Deus é bom para todos em alguns momentos e para alguns, todo o tempo.

A generosidade de Deus em conceder as bênçãos comuns é louvada no salmo 145: "O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas [...] Os olhos de todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os seres vivos" (v. 9,15,16; cf. At 14:17). O ponto destacado pelo salmista é que, pelo fato de Deus controlar tudo o que acontece no mundo, cada refeição, prazer, bem, cada réstia de sol ou noite de sono, cada momento de saúde e segurança, tudo o que sustenta e enriquece a vida é dádiva divina. E como são abundantes essas dádivas! "Conta as bênçãos, dize quantas são", diz o coro de um de nossos hinos, e todos os que começarem realmente a anotar apenas as bênçãos mais comuns logo sentirão a força da linha seguinte: "Pois verás surpreso quanto Deus já fez".5 Mas as misericórdias de Deus no plano natural, embora abundantes, são encobertas pelas maiores misericórdias da redenção espiritual.

Quando os cantores de Israel convocavam o povo para dar graças a Deus porque "[...] ele é bom; o seu amor dura para sempre" (Sl 106:1; 107:1; 118:1; 136:1; cf. 100:4,5; 2Cr 5:13; 7:3; Jr 33:11), estavam geralmente pensando nas misericórdias redentoras, como "as obras poderosas" que libertaram Israel do Egito (Sl 106:2; 136), sua disposição de ter clemência e perdoar quando seus servos caem em pecado (Sl 86:5) e a disponibilidade de ensinar aos homens seu caminho (Sl 119:68). A bondade a que Paulo estava se referindo em Romanos 11:22 era a misericórdia de Deus em enxertar os gentios "selvagens" em sua oliveira; isto é, na comunidade dos salvos, do povo da aliança.

A exposição clássica da bondade divina está no salmo 107. Aqui, para reforçar seu convite a dar "graças ao Senhor, porque ele é bom", o sal-mista tira conclusões gerais das antigas experiências de Israel no cativeiro e da necessidade pessoal dos israelitas e dá quatro exemplos de como as pessoas "Na sua aflição, clamaram ao Senhor, e ele os livrou da tribu-lação" (v. 6,13,19,28).

A primeira experiência é Deus livrando os indefesos de seus inimigos e tirando-os da aridez do deserto para conduzi-los a um lar. A segunda é Deus livrando das "trevas e da sombra mortal" os que por sua rebeldia



5Hino n°. 118 do Hinãrio (da Igreja Anglicana), Porto Alegre: ieb, 1962, p. 118.

haviam sido levados pelo próprio Senhor nessa condição. A terceira é Deus curando as doenças daqueles "tolos" que ele próprio havia punido por causa de sua negligência. A quarta é Deus protegendo os viajantes quando acalmou a tempestade que poderia afundar seus navios. Cada episódio termina com este refrão: "dêem graças ao Senhor por seu amor leal e por suas maravilhas em favor dos homens" (v. 8,15,21,31). O salmo todo é um panorama majestoso da atuação da bondade divina transformando as vidas humanas.



A SEVERIDADE DE DEUS

O que dizer então sobre a severidade de Deus? A palavra que Paulo usa em Romanos 11:22 literalmente significa "cortar fora" e denota a retirada decisiva de sua bondade dos que a haviam rejeitado. Isto nos faz lembrar de um fato sobre Deus que ele próprio declarou ao proclamar seu nome a Moisés, ou seja, que, embora fosse "paciente, cheio de amor e de fidelidade", ele "não deixa de punir o culpado", isto é, o culpado obstinado e impenitente (Êx 34:6,7).

O ato de severidade citado por Paulo foi o de Deus rejeitar a Israel como um todo — cortando-o da oliveira, da qual ele era o ramo natural —, porque não creu no Evangelho de Jesus Cristo. Israel havia abusado da bondade de Deus ao desprezar a manifestação concreta de sua bondade em seu Filho, e a reação de Deus foi rápida, ele rejeitou Israel. Paulo aproveita essa ocasião para alertar seus leitores gentios cristãos de que, se eles se desviassem como Israel havia feito, Deus também os rejeitaria: "... Eles, porém, foram cortados devido à incredulidade, e você permanece pela fé. Não se orgulhe, mas tema. Pois, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você" (Rm 11:20,21).

O princípio aqui aplicado por Paulo é que por trás de toda manifestação de bondade divina encontra-se uma ameaça de severidade no julgamento, caso essa bondade seja desprezada. Se não deixarmos que ela nos conduza a Deus com gratidão e amor, seremos os únicos culpados quando Deus se voltar contra nós.

Em capítulos anteriores de Romanos, Paulo se dirigiu ao crítico da natureza humana, autocomplacente e não-cristão, da seguinte forma: "não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?" (Rm 2.4). John Bertram Phillips assim parafraseou corretamente: "tem o objetivo de conduzi-los ao arrependimento". "Portanto, você, que julga os outros, é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga".

Deus, porém, tem suportado suas faltas, as mesmas faltas que você considera dignas de juízo quando as vê em outros, e você deveria mostrar-se muito humilde e agradecido. Se, no entanto, enquanto estiver criticando outros, deixar de se voltar para Deus, então "... será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência", "por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento" (Rm 2:1-5).

De modo semelhante, Paulo fala aos cristãos romanos que a bondade de Deus lhes pertence sob certas condições "[...] desde que permaneça na bondade dele. De outra forma, você também será cortado" (Rm 11:22). É o mesmo princípio em ambos os casos. Os que se negam a responder à bondade de Deus com arrependimento, fé, confiança e submissão a sua vontade não podem surpreender-se ou reclamar se, cedo ou tarde, os sinais da bondade divina forem retirados, se a oportunidade de se beneficiar deles terminar e vier a retribuição.

Deus, porém, não é impaciente em sua severidade, ao contrário. Ele é "tardio em irar-se" (Ne 9:17; v.v. ra; Sl 103:8, 145:8; Jl 2:13; Jn 4:2) e "paciente" (Êx 34:6, Nm 14:18; Sl 86:15). A Bíblia fala muito mais sobre a paciência e clemência de Deus em adiar a merecida condenação a fim de ampliar o dia da graça e dar mais oportunidade para o arrependimento. Pedro nos lembra como, nos dias em que a terra estava corrompida e clamando pelo julgamento, mesmo assim "Deus esperava pacientemente" (1Pe 3:20), uma referência provável aos 120 anos de adiamento ao dilúvio (como parece ter havido) mencionado em Gênesis 6:3.

Em Romanos 9:22, Paulo nos fala que durante todo o curso da história Deus "suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a destruição". Pedro também explica a seus leitores do primeiro século que a razão de não ter sido ainda cumprida a promessa da volta de Cristo para julgar é que Deus "é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento" (2Pe 3:9). A mesma explicação provavelmente se aplica aos dias de hoje. A paciência de Deus dando tempo para o arrependimento (Ap 2:5) antes que o julgamento finalmente aconteça é uma das maravilhas da história bíblica. Não é de surpreender que o Novo Testamento destaque a paciência como virtude e dever cristão. Essa é na verdade parte da imagem de Deus (Gl 5:22; Ef 4:2; Cl 3:12).

Nossa resposta

Dessa linha de pensamento podemos tirar pelo menos três lições.



  1. Apreço pela bondade de Deus. Conte suas bênçãos. Aprenda a não tomar os benefícios naturais, dons e prazeres como certos, e a agradecer a Deus por todos eles. Não despreze a Bíblia ou o Evangelho de Jesus Cristo, negligenciando ambos. A Bíblia nos mostra o Salvador que sofreu e morreu para que os pecadores pudessem se reconciliar com Deus. O Calvário é a medida da bondade de Deus. Pense seriamente nisso. Faça a si mesmo a pergunta do salmista: "Como posso retribuir ao Senhor toda a sua bondade para comigo?". Busque a graça para dar a mesma resposta dele: "Erguerei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor [...] Senhor, sou teu servo [...] Cumprirei para com o Senhor os meus votos..." (Sl 116:12-18).

  2. Apreço pela paciência de Deus. Pense como ele o tem tolerado e ainda continua a fazê-lo, quando grande parte de sua vida é indigna dele e você tem merecido realmente sua rejeição. Aprenda a maravilhar-se com a paciência divina. Peça a Deus que o ajude a imitá-la em seu relacionamento com os outros. Procure não provocar mais sua paciência.

3. Apreço pela disciplina de Deus. Ele é quem o sustenta e também a tudo o que o cerca; todas as coisas vêm dele e você tem provado a bondade divina todos os dias de sua vida. Essa experiência tem levado você ao arrependimento e à fé em Cristo? Em caso negativo, você está menosprezando a Deus e colocando-se sob a ameaça de sua severidade. Se, porém, como disse Whitefield, ele "põe espinhos em sua cama" é apenas para fazê-lo levantar-se e buscar misericórdia.

Se você é um verdadeiro cristão, e ele ainda põe espinhos em sua cama, é apenas para impedir que você caia na complacência e para assegurar que você "permaneça na sua benignidade", deixando que seu sentido de necessidade o faça voltar constantemente, buscando sua face, com fé e humildade. Esta bondosa disciplina, na qual a severidade de Deus nos toca por uns momentos no contexto de sua bondade, tem a finalidade de impedir que soframos a violência de sua severidade separada desse contexto. É a disciplina do amor, e assim deve ser recebida. "Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor" (Hb 12:5); "Foi bom para mim ter sido castigado, para que aprendesse os teus decretos" (Sl 119:71).





O Deus ciumento
"O Deus ciumento" não soa ofensivo? Reputamos o ciúme por defeito, um dos piores e mais destrutivos que existem; ao passo que Deus, estamos certos, é perfeitamente bom. Como, então, pode alguém imaginar que haja ciúme nele?

O primeiro passo para responder a essa questão é tornar bem claro que não se trata de imaginar alguma coisa. Se estivéssemos imaginando um Deus, então é claro que o descreveríamos apenas com as características que admiramos, e o ciúme não faz parte do quadro. Ninguém imaginaria um Deus ciumento. Entretanto, não estamos criando uma idéia de Deus a partir de nossa imaginação, estamos, ao contrário, procurando ouvir as palavras das Sagradas Escrituras, em que Deus fala a verdade a respeito de si mesmo. Pois Deus, nosso Criador, a quem jamais poderíamos descobrir por meio da imaginação, revelou-se. Falou e tem falado por muitos agentes e mensageiros humanos e, sobretudo, por meio de seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Ele também não deixou que sua mensagem e a lembrança de seus atos poderosos fossem deturpadas e se perdessem mediante os processos distorcedores da transmissão oral. Deixou-os registrados de forma permanente. Na Bíblia — "o registro público" de Deus, como Calvino a denominava — descobrimos Deus falando diversas vezes de seu ciúme.



Quando Deus tirou Israel do Egito levando o povo para o Sinai, dando-lhes sua lei e aliança, seu ciúme foi um dos primeiros fatos a respeito de si mesmo que lhes ensinou. A sanção do segundo mandamento, pronunciado em voz audível para Moisés nas "tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus" (Êx 31:18), era este: "porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso" (20:5). Mais tarde, Deus falou a Moisés de modo mais direto: "porque o Senhor, cujo nome é Zeloso, é de fato Deus zeloso" (34:14).

Por surgir neste ponto, este último versículo é muito significativo, pois o tema básico do Êxodo, como sempre vemos nas Escrituras, é tornar o nome de Deus conhecido, sua natureza e seu caráter. No capítulo 3, Deus declarou seu nome como "Eu Sou o que Sou", ou "Eu Sou" simplesmente, e no capítulo 6, como "Jeová" ("o Senhor"). Estes nomes se referem a ele como auto-existente, autodeterminado e soberano. A seguir, no capítulo 34:5, Deus proclamou seu nome a Moisés dizendo-lhe: o "Senhor" é "compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado...". Este era "um nome" que determinava sua glória moral.

Finalmente, sete versículos adiante, como parte da mesma conversa com Moisés, Deus resumiu e completou a revelação declarando-se "Zeloso". Esta palavra inesperada determina claramente uma qualidade divina que, longe de ser incoerente com a exposição anterior de seu nome, foi de certo modo o resumo de tudo. Já que essa qualidade era no verdadeiro sentido "seu nome", era importante que seu povo a entendesse.

Aliás, a Bíblia fala bastante sobre o ciúme de Deus. Há diversas referências a ele no Pentateuco (Nm 25:11; Dt 4:24; 6:15; 29:20; 32:16,21), nos livros históricos 0s 24:19; 1Rs 14:22), nos proféticos (Ez 8:3-5; 16:38,42; 23:25; 36:5-7; 38:19; 39:25; Jl 2:18; Na 1:2; Sf 1:18; 3:8; Zc 1:14; 8:2) e nos Salmos (78:58; 79:5). O ciúme é constantemente apresentado como motivo para agir, seja em ira seja em misericórdia: "serei zeloso pelo meu santo nome" (Ez 39:25); "Eu tenho sido muito zeloso com Jerusalém e Sião" (Zc 1:14); "O Senhor é Deus zeloso e vingador!" (Na 1:2).

No Novo Testamento, Paulo pergunta aos presunçosos coríntios: "Porventura provocaremos o ciúme do Senhor?" (1Co 10:22), e está provavelmente certa a tradução da difícil sentença de Tiago 4:5: "o Espírito que ele fez habitar em nós tem fortes ciúmes?".



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