O conhecimento de Deus J. I. Packer


A NATUREZA DO CIÚME DIVINO



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A NATUREZA DO CIÚME DIVINO

Perguntamos: qual a natureza do ciúme divino? Como pode o ciúme constituir virtude em Deus quando é defeito nos humanos? A perfeição divina é motivo de louvor, mas como podemos louvar a Deus por ser ciumento?

A resposta a essas questões será encontrada se tivermos dois fatos em mente:

1. As declarações bíblicas sobre o ciúme de Deus são antropomorfismos. Trata-se de descrições de Deus em linguagem extraída da vida humana. A Bíblia está cheia de antropomorfis-mos: braço, mão, dedo, ouvidos, vista, olfato, ternura, raiva, arrependimento, riso, alegria e assim por diante. Deus usa esses termos para automencionar-se porque se trata da linguagem usada em nossa vida pessoal. É o meio mais correto para comunicar o que pensamos sobre ele. Deus é pessoal, como nós somos, diferentemente de tudo o mais na criação. De todas as criaturas físicas, apenas ser humano, foi feito à imagem de Deus. Então, já que nos assemelhamos a Deus mais que a qualquer outro ser conhecido, é mais esclarecedor e compreensível que Deus se descreva a nós em termos humanos, em vez de em qualquer outro meio. Já estudamos este assunto em capítulo anterior.

Quando nos deparamos com os antropomorfismos de Deus, porém, é fácil enganar-se redondamente. Temos de lembrar que o ser humano não é a medida de seu Criador e que o fato de usar-se a linguagem por nós conhecida para referir-se a Deus, não significa que alguma das limitações da criatura humana esteja nele implícita: conhecimento limitado, poder, previsão, força, consistência ou qualquer coisa desse tipo.

Devemos também lembrar que os elementos das qualidades humanas que mostram o efeito corruptor do pecado não têm correspondência em Deus. Assim, por exemplo, sua ira não é a explosão indigna que normalmente caracteriza a raiva humana — sinal de orgulho e fraqueza —, mas é a santidade reagindo ao mal de modo moralmente certo e glorioso: "pois a ira do homem não produz a justiça de Deus" (Tg 1:20). A ira divina é precisamente sua justiça em ação. Do mesmo modo, o ciúme de Deus não consiste num conjunto de frustração, inveja e despeito, como geralmente é o ciúme humano; ao contrário, aparece como zelo, digno de louvor, para preservar alguma coisa muito preciosa. Isto nos leva ao ponto seguinte.

2. Há dois tipos de ciúme entre os homens, e apenas um deles é defeito. O ciúme maldoso expressa uma postura: "Eu quero o que você tem, e o odeio por não ter isso". É um ressentimento infantil que surge da cobiça irrefreável manifestada por inveja, malícia e atitudes indignas. É terrivelmente poderoso, pois alimenta e é alimentado pelo orgulho, a raiz de nossa natureza decaída. O ciúme provoca uma insensata obsessão, que, se tolerada, pode destroçar o caráter antes firme. "O rancor é cruel e a fúria é destruidora, mas quem consegue suportar a inveja?" (Pv 27:4), pergunta o sábio. É desse tipo o chamado ciúme sexual, a fúria cega de um pretendente rejeitado ou substituído.

Existe outro tipo de ciúme: o zelo em proteger de uma relação amorosa ou em vingá-la quando rompida. Este ciúme também opera na esfera do sexo. Nessa área, entretanto, não aparece como reação cega do orgulho ferido, mas como fruto da afeição marital. Como escreveu o prof. Tasker,1 as pessoas casadas "que não sentem ciúmes com a intrusão de um amante ou um adúltero em seu lar certamente têm falta de percepção moral, pois a exclusividade é a essência do casamento".2 Este tipo de ciúme é uma virtude positiva, pois mostra o entendimento do verdadeiro significado do relacionamento marido-mulher, aliado ao zelo por mantê-lo intacto.

A lei do Antigo Testamento reconhecia a propriedade de tal ciúme e prescrevia uma "oferta pelo ciúme" e um ritual de maldição pelo qual o marido, ao julgar que a esposa fosse infiel e por isso fosse ele possuído pelo "espírito do ciúme", poderia acalmar a mente de um modo ou de outro (Nm 5:11-31). Nem aqui nem em outra referência ao "ciúme" do marido ofendido em Provérbios 6:34 a Escritura sugere que sua atitude seja moralmente questionável; ao contrário, descreve a resolução de proteger seu casamento contra um ataque e de agir contra qualquer um que o viole como uma atitude natural, normal e certa, e ainda como uma prova de que ele dá à união o valor que lhe é devido.

As Escrituras coerentemente mostram o ciúme divino como deste último tipo, isto é, como um aspecto de sua aliança de amor por seu povo. O Antigo Testamento considera união a aliança divina com Israel, envolvendo a exigência de amor e lealdade ilimitados. A adoração de ídolos e todas as relações comprometedoras com os idólatras constituíam desobediência e infidelidade, que Deus via como adultério espiritual, provo-cando-lhe ciúme e vingança. Todas as referências mosaicas ao ciúme divino se referem a alguma forma de adoração idolátrica; elas incorrem sempre na penalidade do segundo mandamento, citada anteriormente.

O mesmo acontece em Josué 24:19; 1Reis 14:22; Salmos 78:58 e em 1Coríntios 10:22 no Novo Testamento. Em Ezequiel 8:3, um ídolo adorado em Jerusalém é chamado "o ídolo que provoca o ciúme de Deus". Em Ezequiel 16, Deus descreve Israel como sua esposa adúltera, enredada em uma ligação ímpia com ídolos e idólatras de Canaã, Egito e Assíria e pronuncia a seguinte sentença: "Eu a condenarei ao castigo determinado

1R.V.G. Tasker, estudioso protestante, especialista em Novo Testamento.

2The epistle of James, p. 106.

para mulheres que cometem adultério e que derramam sangue; trarei sobre você a vingança de sangue da minha ira e da indignação que o meu ciúme provoca" (v. 38; cf. v. 42; 23:25).

Por essas passagens podemos ver claramente o que Deus quis dizer a Moisés ao denominar-se "zeloso". Ele indicou a exigência de lealdade absoluta e total de todos a quem amou e redimiu, e que vingaria suas exigências agindo violentamente contra quem traísse seu amor sendo infiel. Calvino captou bem o significado dessa idéia quando explicou a sanção do segundo mandamento:

O Senhor muitas vezes se dirige a nós como um marido [...] Assim como ele desempenha todos os deveres de um marido fiel e verdadeiro, também requer de nós amor e castidade, isto é, que não prostituamos nossa alma com Satanás [...] Quanto mais puro e casto é o marido tanto mais fortemente se sente ofendido quando vê a esposa interessada em um rival; assim o Senhor, que, na verdade, nos desposou, declara arder em ciúmes sempre que, negligenciando a pureza de sua santa união, nos corrompemos pela luxúria; e, especialmente, quando a adoração de sua divindade, que devia ter sido mantida cuidadosamente, é transferida para outro ou adulterada com alguma superstição; desse modo não apenas violamos nossa promessa, mas desprezamos o leito nupcial, dando acesso a adúlteros.3

Mais um ponto, entretanto, deve ser visto, se quisermos esclarecer realmente este assunto. O ciúme de Deus por seu povo, como já vimos, está implícito em sua aliança de amor. Este amor não é

3Institutes II, viii, 18. (Publicado em português com o nome As institutas da religião cristã (São Paulo: Cultura Cristã).

uma afeição transitória, acidental e sem objetivo, mas sim a expressão de um propósito soberano. O objetivo da aliança do amor divino é que ele tenha um povo na terra enquanto perdurar a história, e depois disso tenha com ele, na glória, todos seus fiéis de todas as eras. A aliança do amor é o núcleo do plano de Deus para o seu mundo. E é à luz do plano total de Deus para o mundo que seu ciúme deve, em última análise, ser entendido.

O objetivo final de Deus, como diz a Bíblia, possui três partes: vin-dicar suas leis e sua justiça mostrando sua soberania no julgamento do pecado; resgatar e remir seu povo escolhido, e ser amado e louvado por ele por seus atos gloriosos de amor e auto-afirmação. Deus busca o que deveríamos buscar: sua glória nas pessoas e por meio delas; e é por assegurar este objetivo que ele é ciumento. Seu ciúme, em todas suas manifestações, é precisamente "O zelo do Senhor dos Exércitos" (Is 9:7; 37:32; cf. Ez 5:13), para cumprir seu propósito de justiça e misericórdia.

Assim, o ciúme de Deus o leva, por um lado, a julgar e destruir os infiéis entre seu povo que caíram na idolatria e no pecado (Dt 6:14,15; Js 24:19,20; Sf 1:18) e decerto a julgar os inimigos da justiça e da misericórdia onde quer que estejam (Na 1:2; Ez 36:5-7; Sf 3:8). Por outro lado, o leva a restaurar seu povo depois que o julgamento nacional os purificou e humilhou (a condenação ao cativeiro, Zc 1:14-17; 8:2; a praga dos gafanhotos, Jl 1). E o que motiva essas ações? Simplesmente o fato de que ele é "zeloso pelo [seu] santo nome" (Ez 39:25). Seu nome é sua natureza e seu caráter como Jeová, "o Senhor", governador da história, guardião da justiça e salvador dos pecadores. Deus quer que seu "nome" seja conhecido, honrado e louvado.

Eu sou o Senhor; este é o meu nome! Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor [...] Por amor de mim mesmo, por amor de mim mesmo, eu faço isso. Como posso permitir que eu mesmo seja difamado? Não darei minha glória a nenhum outro.

Isaías 42:8; 48:11

Aqui nestes textos está a quintessência do ciúme divino.


A RESPOSTA CRISTÃ

Que sentido prático tem tudo isso para quem professa ser povo do Senhor? A resposta pode ser dada sob dois tópicos:



1. O ciúme de Deus exige que sejamos zelosos com Deus. Assim como a resposta ao amor de Deus é nosso amor a ele, também a resposta certa ao seu ciúme por nós é nosso zelo por ele. Seu interesse por nós é grande, o nosso por ele também deve ser. O que está implícito na proibição da idolatria encontrada no segundo mandamento é que o povo de Deus deve ser positiva e apaixonadamente devotado à sua pessoa, causa e honra. A palavra da Bíblia para tal devoção é zelo, às vezes realmente chamada zelo por Deus. Deus mesmo, como já vimos, manifesta seu zelo, e os fiéis devem manifestá-lo também.

A descrição clássica do zelo por Deus foi oferecida pelo bispo John Charles Ryle. Citamos na íntegra:

Na religião, zelo é o desejo ardente de agradar a Deus, realizar sua vontade e propagar sua glória no mundo de todos os modos possíveis. E um desejo que nenhum homem sente naturalmente — colocado pelo Espírito no coração de cada crente quando se converte, mas que alguns sentem com muito maior intensidade que outros, por isso só eles merecem ser chamados "zelosos" [...]

O homem zeloso na religião é acima de tudo o homem de uma só coisa. Não é bastante dizer que ele é fervoroso, sincero, inflexível, enérgico, cordial, fervoroso em espírito, ele apenas vê uma coisa, preocupa-se com uma só coisa, vive por uma coisa, é absorvido por ela, e esta coisa é agradar a Deus. Viva ou morra, tenha saúde ou doença, seja rico ou pobre, agrade aos homens ou os ofenda, seja sábio ou ignorante, seja culpado ou elogiado, seja honrado ou envergonhado, nada disso interessa a este homem zeloso. Ele se inflama por uma só coisa e essa é agradar a Deus e fazer crescer sua glória. E se for consumido por essa mesma chama, não se importa, está contente. Sente que, como a lâmpada, foi feito para queimar; e se for consumido ao se queimar, nada fez além da obra que lhe foi destinada por Deus. Tal pessoa sempre encontra o alvo para seu zelo. Se não puder pregar, trabalhar e dar dinheiro, ele clamará, suplicará e orará [...] Se não puder lutar no vale com Josué, fará o trabalho de Moisés, Arão e Hur na colina (Êx 17:9-13). Se não puder trabalhar ele mesmo, não dará descanso ao Senhor enquanto não for levantada ajuda de outro lado e a obra continue. Isto é o que quero dizer quando falo em "zelo" em religião.4

Notamos que o zelo é ordenado e comentado nas Escrituras. O cristão deve ser "zeloso de boas obras" (Tt 2:4; ra). Depois de serem reprovados, os coríntios foram elogiados por seu "zelo" (2Co 7:11; ra). Elias era "muito zeloso pelo Senhor, o Deus dos Exércitos" (1Rs 19:10,14) e Deus exaltou seu zelo enviando uma carruagem de fogo para levá-lo ao céu, escolhendo-o como o representante da "santa congregação dos profetas"5 para estar com Moisés no monte da transfiguração e falar com o Senhor Jesus. Quando Israel provocou a ira de Deus pela idolatria e prostituição, Moisés sentenciou os culpados à morte, e o povo pôs-se a chorar. Um homem escolheu aquele momento para receber uma midia-nita em casa, e Finéias, desesperado, quase fora de si, os matou com uma lança. Deus elogiou Finéias porque "foi zeloso, com o mesmo zelo [...] para que em meu zelo eu não os consumisse" (Nm 25:11).

Paulo era um homem zeloso, sincero e interiormente dedicado a seu Senhor. Enfrentando a dor e a prisão declarou: "Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a corrida e completar o



4Practical religion, 1959, p- 130.

5Expressão extraída do hino Te Deum laudamus (Livro de oração comum, Porto Alegre: ieab, 1988, p. 42).

ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus" (At 20:24).



O próprio Senhor Jesus foi o supremo exemplo de zelo. Observan-do-o quando purificava o templo, "lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: 'O zelo pela tua casa me consumirá'" (Jo 2:17).

E quanto a nós? O zelo pela casa de Deus e por sua causa nos consome? Devora-nos? Possui-nos? Podemos dizer como o Mestre: "A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra" 0o 4:34)? Que espécie de discipulado é o nosso? Não temos necessidade de orar como o ardente evangelista George Whitefield, um homem tão humilde quanto zeloso: "Senhor, ajude-me a começar a começar"?



2. O ciúme de Deus ameaça as igrejas que não são zelosas por ele. Amamos nossas igrejas; elas têm associações consagradas, não podemos imaginá-las desagradando a Deus, pelo menos não gravemente. O Senhor Jesus, porém, certa vez mandou uma mensagem a uma igreja muito semelhante a algumas das nossas, a complacente igreja de Laodicéia, dizendo à congregação que o zelo deles lhe era fonte de suprema ofensa. "Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente!". Qualquer coisa seria melhor do que a apática satisfação consigo mesmo! "Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca [...] seja diligente [zeloso] e arrependa-se" (Ap 3:15,16,19).

Quantas igrejas hoje são sólidas, respeitáveis e — mornas? Qual, então, deve ser a palavra de Cristo a elas? Que esperança podemos ter a não ser que, pela misericórdia de Deus, ele, em sua ira, se lembre da misericórdia e encontremos zelo para nos arrepender? Reaviva-nos, Senhor, antes que chegue o julgamento!

Parte III

Se Deus É Por Nós...



o coração do Evangelho


O príncipe Páris havia raptado a princesa Helena de Tróia. Os expedicionários gregos levaram um navio para resgatá-la, mas foram impedidos no meio do caminho por um persistente vento contrário. Agamenon, o general grego, mandou buscar sua filha em casa e em uma cerimônia ofereceu-a em sacrifício para acalmar a evidente hostilidade dos deuses. Essa ação deu bom resultado, o vento este começou a soprar e a frota alcançou Tróia sem mais dificuldades.

Esta passagem da lenda referente à guerra de Tróia, que data de cerca de 1000 a.C, reflete uma idéia de propiciação sobre a qual a religião pagã em todo o mundo e em todas as eras foi construída. A idéia é a seguinte: Há vários deuses; nenhum deles tem domínio absoluto, mas cada um tem poder para tornar a vida mais fácil ou mais difícil. O temperamento deles é uniformemente incerto, ofendem-se com as menores coisas ou sentem ciúmes porque acham que você dá mais atenção a outros deuses e a outras pessoas, e o modo de impedir que você aja desse modo é criar circunstâncias que possam feri-lo.



A PROPICIAÇÃO NO PAGANISMO

A única coisa a fazer nesses casos é alegrá-los e acalmá-los com uma oferenda cuja regra é: quanto maior, melhor. Os deuses são inclinados a suspender sua ação por qualquer coisa de bom tamanho que se lhes ofereça. São cruéis e sem coração neste ponto, mas estão com todas as vantagens, então o que se pode fazer? O sábio se inclina ao inevitável e cuida para que sua oferta seja bem expressiva para produzir o resultado desejado. O sacrifício humano, em particular, é muito dispendioso mas eficiente. Assim a religião pagã aparece como um duro mercantilismo, um modo de negociar com seus deuses e manipulá-los, usando um astuto suborno. De acordo com a propiciação do paganismo, o aplacar da ira celestial acontece regularmente como parte da vida, uma das maçantes necessidades das quais não se pode escapar.



A Bíblia, porém, nos tira de imediato do mundo da religião pagã. Ela condena totalmente o paganismo como monstruosa distorção da verdade. Em lugar de um aglomerado de deuses feitos tão claramente à imagem do ser humano e que se comportam como artistas de cinema, a Bíblia apresenta o único Criador poderoso, o único Deus verdadeiro, em quem toda a bondade e verdade encontram origem, e para quem todo o mal é abominável.

Em Deus não há gênio mau, caprichos, vaidades nem má vontade. Podia-se esperar, portanto, que não houvesse na religião bíblica lugar para a idéia da propiciação. Mas não é isso o que vemos, e sim o contrário. A idéia da propiciação, isto é, acalmar a ira de Deus por meio de oferendas, é encontrada em toda a Bíblia.



A propiciação na Bíblia

No Antigo Testamento, ela é a base de todos os rituais prescritos para a expiação do pecado e da culpa ("expiação pela transgressão" no Antigo Testamento) e para o dia do sacrifício (Lv 4:1-6:7; 16:1-34). Ela é também claramente expressa em narrativas como a de Números 16:41-50, onde Deus ameaça destruir o povo por caluniar seu julgamento sobre Coré, Datã e Abirã: "e Moisés disse a Arão: 'Pegue o seu incensário e ponha incenso nele, com fogo tirado do altar, e vá depressa até a comunidade para fazer propiciação por eles, porque saiu grande ira da parte do Senhor e a praga começou. Arão [...] fez propiciação por eles [...] e a praga cessou" (v. 46-48).

No Novo Testamento a palavra propiciação aparece em quatro passagens de importância tão sublime que faremos bem em parar para estudá-las direito.

A primeira é a clássica declaração de Paulo sobre a base lógica da justificação dos pecadores por Deus.

Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus [...] justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos [e sobre todos] os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

Romanos 3:21-26

A segunda é parte da exposição em Hebreus da base lógica da encarnação do Filho de Deus.

Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus, e fazer propiciação pelos pecados do povo.

Hebreus 2:17

A terceira é o testemunho de João sobre o ministério celestial de nosso Senhor.

Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados.

1João 2:1,2


A quarta é a definição do amor de Deus oferecida por João.

Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.

1João 4:8-10

A palavra propiciação tem algum lugar no seu cristianismo? Na fé contida no Novo Testamento ela é central. O amor de Deus, a encarnação do Filho, o significado da cruz, a intercessão celestial de Cristo, o caminho da salvação, tudo deve ser explicado em termos de propiciação, como vimos nas passagens citadas. Qualquer explicação que não inclua a propiciação será incompleta e, na verdade, mentirosa pelos padrões do Novo Testamento.

Dizendo isto, nadamos contra a corrente de muitos ensinamentos modernos e condenamos, com um só golpe, os pontos de vista de um grande número de destacados líderes da Igreja moderna. Entretanto, nada podemos fazer. Paulo escreveu "mas ainda que nós ou um anjo dos céus" — quanto menos um ministro, bispo, palestrante, professor de faculdade ou autor destacado — "pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!" (anátema, ra, rc; maldito, bv; Gl 1:8). O evangelho que não tem como centro a propiciação é outro evangelho diferente do pregado por Paulo. As implicações disto não podem ser evitadas.

Não só propiciação

Entretanto, se você verificar algumas traduções modernas dos quatro textos citados, verá que a palavra propiciação não aparece. Nas duas passagens de ljoão, as possíveis traduções serão "reparação pela mancha" de nossos pecados; em outra parte, algumas versões substituem a propiciação pela idéia de expiação. Qual é a diferença entre essas duas palavras? A diferença é que expiação significa apenas a metade do que é a propiciação. Expiação é a ação que tem o pecado como objeto; denota a cobertura, o afastamento ou a extinção do pecado de modo que ele não mais constitua barreira à comunhão amigável entre a pessoa e Deus.

Na Bíblia, entretanto, a propiciação denota tudo o que a expiação abrange e mais a pacificação da ira de Deus. Esta é, de qualquer forma, a opinião mantida pelos estudiosos cristãos desde a Reforma, quando esses pontos começaram a ser estudados com precisão. Ainda hoje o caso pode se tornar constrangedor.1

No século passado, porém, certo número de estudiosos, especialmente o dr. Charles Harold Dodd,2 reviveu conceitos socinianos (unicistas do século xvi), idéia já levantada no início do século xx por Albrecht Ritschl, fundador do liberalismo alemão, com o propósito de afirmar a inexistência em Deus de algo como a ira ocasionada pelo pecado humano e, conseqüentemente, a não-necessidade ou possibilidade de propiciação. O dr. Dodd tem se esforçado para provar que a palavra propiciação no Novo Testamento não possui o sentido de acalmar a ira de Deus, apenas denota a extinção do pecado, portanto expiação é a melhor tradução.

Ele decifra esse caso? Não podemos aqui entrar em minúcias técnicas sobre o que trata a maior parte da discussão de teólogos, mas de qualquer forma daremos nosso veredicto no que valer a pena. Dodd parece ter mostrado que esta palavra não deve significar mais que expiação se o contexto não exigir um significado mais amplo. No entanto, ele não mostrou que ela não pode indicar propiciação em contextos onde este significado é exigido. Este é, porém, o ponto crucial: na epístola aos romanos (para tomar a mais clara e mais óbvia das quatro passagens), o contexto exige o significado de propiciação, em 3:25.

Em Romanos 1:18, Paulo prepara o terreno para sua declaração sobre o Evangelho afirmando que "a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça". "A ira de Deus opera de maneira eficiente e dinâmica no mundo dos homens e, por ser procedente dos céus, o trono de Deus, ela é


1V. Leon Morris, The apostolic preaching of the cross, p. 125-85.

2Charles Harold Dodd (1884-1973) foi um dos mais destacados estudiosos do evangelho de João.

ativa".3 No resto de Romanos 1, Paulo salienta a presente atividade da ira de Deus no endurecimento judicial dos apóstatas assim expresso repetidas três vezes: "Deus os entregou" (v. 24,26,28).

Em Romanos 2:1-16, Paulo nos confronta com a certeza do "[...] dia da ira de Deus quando se revelará o seu justo julgamento. Deus 'retribuirá a cada um conforme o seu procedimento [...] os que [...] rejeitam a verdade e seguem a injustiça [...] no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo [...]'" (v. 5,6,8,16).

Na primeira parte de Romanos 3, Paulo segue com sua argumentação para provar que todos, judeus ou gentios, estando "debaixo do pecado" (v. 9), permanecem expostos à ira de Deus tanto na manifestação presente como na futura. Aqui, então, estamos todos no estado natural, sem

o Evangelho. A ira ativa de Deus é a realidade que mantém o controle final de nossa vida, quer estejamos conscientes dela quer não. Agora, porém, diz Paulo, aceitação, perdão e paz são outorgados graciosamente a todos os que até aqui eram "ímpios" (4:5) e "inimigos" de Deus (5:10), mas que, agora, põem sua fé em Cristo Jesus, "a quem Deus propôs como propiciação [...] pelo seu sangue". Os cristãos sabem que "fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por meio dele, seremos salvos da ira de Deus!" (5:9).

Que aconteceu? A ira de Deus contra nós, tanto agora como no futuro, foi extinta. Como isso se realizou? Por meio da morte de Cristo, "quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho" (5:10). O "sangue" — isto é, a morte sacrificial — de Jesus Cristo aboliu a ira de Deus contra nós e assegurou-nos de que seu tratamento para conosco será sempre propício e favorável. Daqui por diante, em lugar de mostrar-se contra nós, ele será por nós, em nossa vida e experiência. O que então indica a expressão "a propiciação [...] pelo seu



3John Murray, Romanos, São José dos Campos: Fiel, 2003, p. 65.

sangue"? Ela expressa, no contexto da argumentação de Paulo, precisamente este pensamento: que por sua morte sacrificial por nossos pecados, Cristo acalmou a ira de Deus.

É verdade que há uma geração o dr. Dodd tentou escapar desta conclusão argumentando que a ira de Deus em Romanos é o princípio cósmico impessoal da retribuição. Nele a mente e o coração de Deus para com as pessoas não encontra real expressão. Em outras palavras, a ira de Deus é um processo exterior à vontade do próprio Deus. Hoje, porém, aumenta o número dos que admitem o fracasso dessa tentativa. "É inadequado", escreveu R. V. G. Tasker, "referir-se a este termo (ira) simplesmente como descrição do inevitável processo de causa e efeito no universo moral, ou como outro modo de se referir ao resultado do pecado. Trata-se mais de uma qualidade pessoal, sem a qual Deus deixaria de ser completamente justo e seu amor cairia no plano do sentimentalismo".4 A ira de Deus é tão pessoal e potente quanto seu amor. O derramamento do sangue do Senhor Jesus foi a manifestação frontal do amor do Pai para conosco, mas foi também o impedimento frontal da ira do Pai contra nós.



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