O conhecimento de Deus J. I. Packer



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A ira de Deus

O que é na realidade a ira de Deus propiciada no Calvário?

Não é raiva caprichosa, arbitrária, geniosa e presunçosa que os pa-gãos atribuíam a seus deuses. Não é também a raiva infantil, pecaminosa, cheia de ressentimentos, maliciosa que encontramos entre as pessoas. É uma função da santidade expressa na exigência da lei moral de Deus ("Sejam santos, porque eu sou santo" — 1Pe 1:16) e da justiça divina, que se expressa nos atos de julgamento e recompensa: "Pois conhecemos aquele que disse: 'a mim pertence a vingança; eu retribuirei'" (Hb 10:30).

A ira divina é "a santa reação de Deus contra aquilo que é contrário a sua santidade", expressando-se por meio de "uma manifestação positiva



4New Bible Dictionary, s. v. "Wrath".

do desprazer divino".5 Esta é a justa ira, a reação reta da perfeição moral do Criador contra a perversidade moral da criatura. A manifestação da ira de Deus ao punir o pecado está longe de ser moralmente duvidosa, pois isto só seria verdadeiro se ele não mostrasse sua ira desse modo. Deus não é justo, isto é, ele não age do modo certo, ele não faz o que se espera de um juiz, a menos que inflija sobre todo o pecado e maldade o castigo merecido. Veremos dentro em pouco a argumentação de Paulo sobre este ponto.



DescriçAo da propiciação

Note agora três fatos sobre a propiciação, e como Paulo os descreve.



1. A propiciação é obra do próprio Deus. No paganismo, a pessoa propicia seus deuses, e a religião se torna uma forma de comércio e, na verdade, de suborno. No cristianismo, entretanto, Deus propicia sua ira mediante a própria ação. Ele anunciou Jesus Cristo, diz Paulo, para a sua propiciação. Ele enviou seu Filho, diz João, para ser a propiciação pelos nossos pecados. Não foi o homem a quem Deus era hostil que tomou a iniciativa de tornar Deus amigável, nem foi Jesus Cristo, o Filho Eterno, que tomou a iniciativa de transformar a ira de seu Pai contra nós em amor.

A idéia de que o filho bondoso tenha mudado a mente do pai cruel, oferecendo-se em lugar do ser humano pecador, não faz parte da mensagem do Evangelho. Na realidade, trata-se de uma idéia subcristã e mesmo anticristã, pois nega a unidade da vontade do Pai e do Filho e cai no politeísmo pedindo que creiamos em dois deuses diferentes. A Bíblia, porém, anula completamente essa idéia, insistindo na iniciativa divina de extinguir a própria ira contra quem, apesar de seu demérito, ele amou e escolheu salvar.

A doutrina da propiciação é precisamente essa, que Deus amou tanto os objetos de sua ira que deu o próprio Filho com a finalidade de, pelo seu

5John Murray, Romanos, p. 64,5.

sangue, propiciar a remoção dessa ira. Cristo solucionou de tal modo o problema da ira que os amados não são mais objeto dela, e o amor pôde alcançar o objetivo de transformar os filhos da ira em filhos do prazer de Deus.6

Paulo e João confirmam isto explícita e enfaticamente. Deus revela sua justiça, diz Paulo, não apenas em retribuição e juízo de acordo com sua lei, mas também "sem a lei" ao justificar os que crêem em Jesus Cristo. Todos pecaram, entretanto todos são justificados (resgatados, aceitos, restaurados, reconciliados com Deus) livre e gratuitamente (Rm 3:21-24). Como foi isso? "Pela graça (isto é, misericórdia em desacordo com o mérito; amor a quem não era digno dele e, como diríamos, não-amáveis). Como a graça opera? "Pela redenção" (salvo pelo resgate) "que há em Cristo Jesus".

Por que para os que crêem nele, Cristo Jesus é fonte, meio e essência da redenção? Porque, diz Paulo, Deus o estabeleceu como propiciação. A realidade e a possibilidade da redenção brotam dessa iniciativa divina.

Amar uns aos outros, diz João, é o fator comum na família dos filhos de Deus. Quem não ama os cristãos não pertence evidentemente à família, pois "Deus é amor" e concede a todos que o conhecem a natureza predisposta ao amor (1Jo 4:7,8). "Deus é amor", no entanto, é uma fórmula muito vaga. Como podemos ter uma idéia clara do amor que Deus produzirá em nós?

"Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele" (v. 9). E isto não foi feito porque Deus reconheceu alguma devoção real

6John Murray, The atonement, p. 15.

de nossa parte, de modo algum. "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que" — em uma situação na qual não o amávamos e não havia nada em nós que o levasse a fazer outra coisa senão nos destruir e arruinar por causa de nossa inveterada descrença — "ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (v. 10). Por esta iniciativa divina, diz João, se fazem conhecidos o significado e a medida do amor que devemos imitar.

O testemunho dos dois apóstolos sobre a iniciativa de Deus na propiciação não poderia ser mais claro.

2. A propiciação foi realizada pela morte de Jesus Cristo. O "sangue", como já nos referimos anteriormente, é uma palavra que indica a morte violenta infligida a um animal por ocasião do sacrifício da Antiga Aliança. O próprio Deus instituiu esses sacrifícios por sua ordem. Em Levítico 17:11, disse: porque "a vida da carne está no sangue, e eu o dei a vocês para fazerem propiciação por si mesmos no altar; é o sangue que faz propiciação pela vida".

Quando Paulo nos diz que Deus preparou Jesus para ser a propiciação "pelo seu sangue". Sua idéia central é que não foi a vida de Jesus, seus pensamentos, sua perfeição moral nem sua fidelidade ao Pai em si mesmas que extinguiram a ira de Deus e conseqüentemente nos redimiram da morte, mas o derramamento do sangue de Cristo na morte. Ao lado dos outros escritores do Novo Testamento, Paulo sempre aponta a morte de Jesus como a expiação, e a explica em termos de substituição representativa, o inocente tomando o lugar do culpado, sob o machado da retribuição judicial.

Podemos citar duas passagens para ilustrar isso. "Cristo nos redimiu da maldição da Lei." Como? "[...] se tornou maldição em nosso lugar" (Gl 3:13). Cristo levou a maldição da lei que estava dirigida a nós para que não recaísse sobre nós. Isto é substituição representativa.

"Um morreu por todos" e por meio da morte de Jesus, Deus estava "reconciliando consigo o mundo". O que essa reconciliação envolve? "... não levando em conta os pecados dos homens", mas fazendo com que em Cristo "nos tornássemos justiça de Deus", isto é, aceitos como justos por Deus. Como foi possível essa não-imputação? Atribuindo nossas transgressões a outro, para que assumisse as dívidas. "Deus tornou-se pecado por nós, aquele que não tinha pecado". Parece então que foi como um sacrifício pelos pecadores, suportando a pena de morte em lugar deles, que "um morreu por todos" (2Co 5:14,18-21). Isto é substituição representativa.

A substituição representativa, como meio e modo de expiação, foi ensinada de forma típica pelo sistema de sacrifícios do Antigo Testamento dado por Deus. Ali, o animal perfeito que deveria ser oferecido pelo pecado era inicialmente constituído representante, pelo ato de o pecador colocar a mão sobre a cabeça do animal, identificando-o assim consigo e a si próprio com ele (Lv 4:4,24,29,33). A seguir, o animal era morto como substituto de quem o oferecia; o sangue era espargido "perante o Senhor" e aplicado em um ou nos dois lados do altar no santuário (Lv 4:6,7,17,18,25,30) como um sinal de que tinha sido efetuada a expiação, afastando a ira e restaurando a comunhão.

Anualmente, no Dia da Expiação, eram usados dois bodes: um era morto do modo habitual como oferta pelo pecado, e o outro, depois que o sacerdote lhe impunha as mãos sobre a cabeça, colocando os pecados de Israel "sobre a cabeça" do animal, pela confissão que ali era feita, era mandado embora para levar "consigo todas as iniqüidades deles para um lugar solitário" (Lv 16:21,22). Esse ritual duplo ensinava uma só lição: que pelo sacrifício do substituto representativo, a ira de Deus é afastada e os pecados são retirados da vista, para nunca mais atrapalhar nosso relacionamento com Deus. O segundo bode (bode expiatório) ilustra o que, em termos de tipo, foi realizado pela morte do primeiro bode. Esses rituais são a base direta dos ensinamentos de Paulo sobre a propiciação: ela é o cumprimento do modelo de sacrifício do Antigo Testamento que ele proclama.



3. A propiciação manifesta a justiça de Deus. Paulo diz que longe de originar dúvidas sobre a moralidade dos meios que Deus usa para lidar com o pecado, a realidade da propiciação estabelece essa moralidade — explicitamente planejada para isso. Deus propôs seu Filho para propiciar a ira do Pai, "demonstrando a sua justiça [...] a fim de ser justo e justifica-dor daquele que tem fé em Jesus" (Rm 3:25,26). O ponto de Paulo é que o espetáculo público da propiciação na cruz foi uma manifestação não apenas do perdão misericordioso da parte de Deus, mas da justiça como base para esse perdão.

Tal manifestação era necessária, diz Paulo, "demonstrando a sua justiça [...] Em sua tolerância [Deus], havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos". O ponto aqui é que embora os homens tenham sido, desde tempos imemoriais, tão maus quanto Romanos 1 descreve, Deus em nenhum tempo, desde o dilúvio, tomou a resolução de tratar publicamente a humanidade como ela merece. Embora desde o dilúvio as pessoas não tenham sido melhores que seus pais, Deus não reagiu a sua impenitência, impiedade e desobediência às leis por nenhum ato público de providência desfavorável. Em vez disso, ele "mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu, e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e um coração cheio de alegria" (At 14:17).

Esta "remissão" dos pecados sob "a paciência" não era na verdade perdão, apenas uma dilação do julgamento; contudo, uma dúvida se apresenta. Se, como acontece, as pessoas praticam o mal, e o "Juiz de toda a terra" continua a beneficiá-las, pode ele estar tão interessado na moralidade e piedade, na distinção entre o certo e o errado na vida de suas criaturas, como parecia estar anteriormente, e como a perfeita justiça exige? Na verdade, se ele permite que os pecadores continuem impunes, não estará ele mesmo carecendo da perfeição em seu ofício de juiz do mundo?

Paulo já respondeu à segunda parte desta questão com a sua doutrina do "dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento" em Romanos 2:1-16. Aqui ele responde à primeira parte dizendo, com efeito, que, longe de Deus estar desinteressado das questões morais e da justa exigência de retribuição pelo erro, ele está tão consciente disso que não perdoaria os pecadores — na verdade, creio que Paulo ousadamente diria não pode — nem absolveria os ímpios a não ser com base na justiça manifestada pela punição. Nossos pecados foram punidos; a roda do castigo foi virada, o julgamento pela impiedade foi realizado, mas sobre Jesus, o Cordeiro de Deus, que tomou o nosso lugar. Deste modo, Deus é justo e justificador dos que crêem em Jesus, "o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação" (4:25).

Assim a justiça de Deus, o juiz, que é tão vividamente estabelecida na primeira parte da carta de Paulo, é vista outra vez na doutrina de Paulo sobre como a ira divina foi anulada. É vital para sua argumentação mostrar que as verdades, tanto sobre a salvação como sobre a condenação, manifestam a justiça eqüitativa, essencial e inerente ao caráter divino. Em cada caso, na salvação dos que são salvos e na condenação dos que se perdem, é feita a retribuição e o castigo é infligido. Deus é justo e a justiça se cumpre.

A morte de Cristo

O que dissemos até agora pode ser resumido do seguinte modo: O Evangelho nos fala que nosso Criador se tornou nosso Redentor; anuncia que o Filho de Deus tornou-se homem "por nossa causa e para nossa salvação"7 e morreu na cruz para nos salvar da condenação eterna. A descrição básica da morte salvadora de Cristo, na Bíblia, é como uma propiciação, isto é, como aquilo que anula a ira de Deus contra nós ocultando de seus olhos nossos pecados. A ira de Deus é sua justiça reagindo contra a injustiça; ela mostra em si a justiça punitiva. Jesus Cristo, porém, nos protege do pesadelo da expectativa da justiça punitiva ao tornar-se nosso substituto, em obediência à vontade de seu Pai e recebendo em nosso lugar o salário do nosso pecado.

Desse modo foi feita a justiça e os pecados de todos que serão perdoados foram julgados e punidos na pessoa de Deus, o Filho, e é nessa base que o perdão é oferecido a nós os pecadores. O amor redentor e a

7Expressão retirada do Credo...

justiça punitiva juntaram as mãos, por assim dizer, no Calvário, pois lá Deus se mostrou "justo e justificador dos que crêem em Jesus".

Você entende isso? Se a resposta for afirmativa, você agora está adentrando o coração do Evangelho cristão. Nenhuma versão dessa mensagem penetra tão profundamente como a que declara ser o pecado a raiz de todos os problemas do ser humano diante de Deus, o que provoca a ira de Deus e a providência básica que ele tomou para que o ser humano fosse propiciado, o que traz a paz em lugar da ira. Algumas versões do Evangelho, na verdade, são passíveis de culpa porque nunca atingiram esse nível.

Todos já ouvimos falar do Evangelho apresentado como resposta triun-fante de Deus aos problemas humanos — problemas do homem em relação a si mesmo, com o seu próximo e com o seu ambiente. Bem, não há dúvida de que o Evangelho realmente nos traga soluções para esses problemas, mas ele o faz resolvendo um problema bem mais profundo, o mais profundo para o ser humano: o relacionamento com o Criador. A menos que tornemos claro que a solução dos primeiros problemas depende da solução deste último, representaremos mal a mensagem e seremos falsas testemunhas de Deus, pois a meia-verdade apresentada como completa torna-se falsidade. Nenhum leitor do Novo Testamento pode deixar de perceber o fato de que ele mostra tudo a respeito de nossos problemas — medo, covardia moral, doenças do corpo e da mente, solidão, insegurança, desesperança, desespero, crueldade, abuso de poder e muitos mais. Porém, do mesmo modo, nenhum leitor do Novo Testamento pode deixar de perceber que ele também resolve todos esses problemas de um modo ou de outro, dentro do problema fundamental do pecado contra Deus.

No Novo Testamento, o pecado não é, em primeiro lugar, erro nem fracasso social, mas rebelião, desafio, afastamento e conseqüentemente culpa diante de Deus, o Criador. O pecado, diz o Novo Testamento, é o mal básico do qual precisamos ser libertados e o motivo que levou Cristo a morrer para nos salvar. Tudo o que aconteceu de errado na vida humana é, em última análise, devido ao pecado. Nossa condição presente — permanecer no erro em relação a nós mesmos e ao nosso próximo — não pode ser sanada enquanto não formos retos diante de Deus.

Não temos espaço aqui para demonstrar que os temas do pecado, da propiciação e do perdão formam a estrutura básica do Evangelho do Novo Testamento, mas se nossos leitores quiserem ler Romanos 1 a 5, Gálatas 3, Efésios 1 e 2, Hebreus 8 a 10, 1João 1 a 3 e os sermões em Atos, penso que descobrirão que na realidade não há lugar para dúvida alguma sobre este ponto. Se for feita uma indagação baseada no fato de a palavra propiciação aparecer apenas quatro vezes no Novo Testamento, a resposta deve ser que a idéia de propiciação aparece constantemente.

Às vezes a morte de Cristo é descrita como reconciliação, ou pacificação depois do ódio e da guerra (Rm 5:10; 2Co 5:18; Cl 1:20); às vezes é descrita como redenção ou pagamento pelo resgate do perigo e do cativeiro (Rm 3:24; Gl 3:13; 4:5; 1Pe 1:18; Ap 5:9); às vezes é apresentada como sacrifício (Ef 5:2; Hb 9:1-10:8); o ato de dar-se a si mesmo (Gl 1:4; 2:20; 1Tm 2:6); levar o pecado (Jo 1:29; 1Pe 2:24; Hb 9:28) e derramamento de sangue (Mc 14:24; Hb 9:14; Ap 1:5). Todas essas idéias estão ligadas ao ato de apagar o pecado e restaurar um relacionamento sem empecilhos entre o ser humano e Deus, como se poderá ver nos textos mencionados. Todos eles mostram, como fundo, a ameaça da condenação divina que a morte de Jesus evitou. Em outras palavras, essas são muitas das figuras e ilustrações da realidade da propiciação, vista de diversos ângulos. Trata-se de argumentação falsa e superficial imaginar, como muitos estudiosos infelizmente fazem, que essa variedade de linguagem necessariamente implica a variação de conceito.

Outro ponto deve ser agora estabelecido. A propiciação não só nos leva ao coração do Evangelho do Novo Testamento, como nos coloca em posição de vantagem, de onde podemos observar o interior de muitas outras coisas. Quando você está no topo de uma montanha, consegue ver toda a região circunvizinha e tem uma visão muito mais ampla do que se estivesse em outro ponto da área.

Isso também acontece, quando você se coloca no topo da verdade da propiciação. Consegue ver toda a Bíblia em perspectiva e está em posição de avaliar os assuntos vitais que não podem ser propriamente compreendidos em outros termos. Cinco deles serão analisados a seguir: a força motriz na vida de Jesus, o destino dos que rejeitam a Deus, o presente da paz de Deus, as dimensões do amor divino e o significado da glória divina. Não há dúvida de que esses assuntos são de vital importância no cristianismo. Eles só podem ser entendidos à luz da verdade sobre a propiciação, e isso, creio, não pode ser negado.

A FORÇA MOTRIZ NA VIDA DE JESUS

Pense primeiro na força motriz na vida de Jesus.

Se você se sentar por uma hora e ler todo o evangelho de Marcos (um exercício muito proveitoso; sugerimos que o faça aqui e agora), terá uma impressão de Jesus que inclui pelo menos quatro aspectos.

A impressão básica será a de um homem de ação: um homem sempre em movimento, sempre mudando as situações e precipitando os acontecimentos, operando milagres, chamando os discípulos e ensinando-lhes o trabalho a ser feito, destruindo o erro que passava por verdade e a irreligião que passava por piedade; e finalmente caminhando firme e atento para a traição, condenação e crucificação — a seqüência singular de anormalidades que, de modo estranho, sentimos que ele mesmo controlava todo o tempo.

Outra impressão que você teria era a de um homem que se sabia uma pessoa divina (Filho de Deus) cumprindo um papel messiânico (Filho do Homem). Marcos deixa bem claro que quanto mais Jesus se dava aos discípulos maior e mais impressionante era para eles o enigma, quanto mais se achegavam a Jesus, menos o entendiam. Isto soa paradoxal, mas era estritamente a verdade. À medida que se aprofundava a convivência com ele, os discípulos tinham um contato cada vez maior com a compreensão que Jesus tinha de si mesmo como Deus e Salvador, e isto era algo que os confundia profundamente.

Jesus, no entanto, tinha plena consciência dessa dupla autoridade, confirmada pela voz do Pai vinda do céu durante o batismo e a transfiguração (Mc 1:11; 9:7). De um lado, temos de pensar aqui na espantosa naturalidade com que ele assumia absoluta autoridade em tudo o que dizia e fazia (v. 1:22-27; 14:27-33). De outro lado, temos de pensar em sua resposta à pergunta dupla feita pelo sumo sacerdote por ocasião de seu julgamento: "Você é o Cristo [Messias, o Rei-Salvador de Deus], o Filho do Deus Bendito?" [uma pessoa divina e sobrenatural?], ao que Jesus respondeu categoricamente: "Sou" (14:61,62).

Partindo disto, a impressão que você terá é a de Alguém cuja missão messiânica estava centralizada em sua morte — Alguém consciente e decididamente preparado para morrer desse modo muito antes de que a idéia do Messias sofredor ocorresse a alguém. Pelo menos quatro vezes depois de Pedro haver declarado, em Cesaréia de Filipe, que Jesus era o Cristo este predisse sua morte e ressurreição, embora os discípulos não entendessem o sentido de suas palavras (8:31; cf. v. 34; 9:9,31; 10:33,34). Jesus referiu-se outras vezes a sua morte como um fato realmente certo (12:8; 14:18,24), um fato predito nas Escrituras (14:21,49) e que conquistaria para muitos um novo e importante relacionamento com Deus: "... o Filho do homem veio [...] para [...] dar a sua vida em resgate por muitos" (10:45), "Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos" (14:24).

A última impressão que você terá é a de Alguém para quem esta experiência de morte era a mais temida provação. No Getsêmani "começou a ficar aflito e angustiado. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal...'" (14:33,34). A sinceridade de sua oração (para a qual "prostrou-se" em vez de ajoelhar-se ou permanecer de pé) era sinal de sua repulsa íntima e da desolação sentida ao contemplar o que ia acontecer. Jamais saberemos quão forte foi sua tentação de dizer "amém" depois de "Afasta de mim este cálice" em lugar de "não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres" (14:36). Depois, na cruz, com seu grito de desamparo "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" (15:35), Jesus deu testemunho de que a escuridão interior era comparável à exterior.

Como poderíamos explicar a crença de Jesus na necessidade de sua morte? Como poderíamos explicar que foi a convicção de que precisava morrer que o instigou durante todo seu ministério, como os quatro evangelhos testificam? E como poderíamos explicar também o fato de que mártires como Estêvão enfrentaram a morte com alegria, e até mesmo Sócrates, um filósofo pagão, bebeu sua cicuta e morreu sem tremor, enquanto Jesus, o Servo perfeito de Deus, que jamais havia mostrado o mínimo temor do homem, da dor ou da perda, manifestasse no Getsêmani o que parecia ser pânico, e na cruz declarou estar abandonado por Deus? "Nenhum homem temeu tanto a morte como este", comentou Lutero. Por quê? Qual o significado disto?

Os que vêem a morte de Jesus como nada mais que um trágico acidente — sem nenhuma diferença da morte de outros homens bons, condenados injustamente — de modo algum poderão explicar esses fatos. O único caminho que lhes resta, de acordo com seus princípios, é supor que Jesus tinha em si um traço tímido e mórbido que de tempos em tempos o traía, primeiro despertando nele a vontade de morrer para depois oprimi-lo com pânico e desespero quando a morte se aproximava.

Jesus, porém, ressuscitou da morte, e no poder de sua vida ressurreta ainda mostrou a seus discípulos que sua morte tinha sido necessária (Lc 24:26,27). Esta assim chamada explicação parece tão insensata quanto dolorosa. Entretanto, os que negam a verdade da expiação não têm nenhuma explicação melhor a oferecer.

Se, no entanto, relacionarmos o fato em questão com o ensinamento apostólico sobre a propiciação, tudo se torna perfeitamente claro. "Não poderíamos afirmar", pergunta James Denney, "que essas experiências de temor da morte e da deserção estejam ligadas ao fato de que em sua morte e na agonia no jardim, mediante a qual ele aceitou a morte como um cálice que seu Pai lhe deu para beber, Jesus estava tomando sobre si o peso dos pecados do mundo, consentindo em ser, como realmente foi, contado entre os transgressores?".8

8The death of Christ, 1911, p. 46.

Se tivessem feito esta pergunta a Paulo ou a João, não há dúvida sobre o que eles teriam respondido. Foi por ter sido feito pecado e recebido a condenação divina pelo pecado que Jesus tremeu no jardim. Na realidade, foi por ter recebido essa condenação que ele afirmou estar desamparado por Deus na cruz. A força motriz na vida de Jesus foi a decisão de ser "obediente até a morte, e morte de cruz" (Fp 2:8). Portanto o pavor sem igual de sua morte está no fato de ter provado no Calvário a ira de Deus que nos era devida, fazendo-se propiciação pelos nossos pecados.

Séculos antes, Isaías havia declarado: "nós o consideramos [...] por Deus atingido e afligido [...] ele foi transpassado por causa das nossas transgressões [...], e o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós [...] por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado [...] foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer [...] tenha feito da vida dele uma oferta pela culpa..." (Is 53:4-10).

Ó Cristo, que peso terrível curvou tua fronte!

Que peso foi jogado sobre ti;

Tomaste o lugar do pecador,

Suportaste todo o mal por mim.

Levado como vítima, teu sangue foi derramado,

Agora já não há castigo para mim.

O Santo escondeu sua face;

Ó Cristo, escondeu-a de ti;

Por um pouco as trevas envolveram tua alma,

A escuridão devida a mim.

Mas agora aquela face de graça radiante

Brilha continuamente, iluminando a mim.9

Demoramo-nos neste ponto por sua importância na compreensão dos fatos básicos do cristianismo. As próximas seções serão mais curtas.



9Este hino foi composto por Anne R. Cousin (data desconhecida). <http:// www.cyberhymnal.org/htm/o/c/ocwbubth.htm>


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