O conhecimento de Deus J. I. Packer


O QUE SERÁ DOS QUE REJEITAM A DEUS?



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O QUE SERÁ DOS QUE REJEITAM A DEUS?

Pense, em segundo lugar, no destino dos que rejeitam a Deus.

Os universalistas supõem que a classe de pessoas mencionadas neste título não terá sequer um membro, no final, mas a Bíblia indica o contrário. As decisões feitas nesta vida terão conseqüências eternas. "Não se deixem enganar" [como você o faria se ouvisse os universalistas] "de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá" (Gl 6:7). Os que nesta vida rejeitam a Deus serão para sempre rejeitados por ele.

O universalismo, no entanto, afirma que Judas será salvo como os demais, mas Jesus não achava que isso aconteceria. "O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito. Mas ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria não haver nascido" (Mc 14:21). Como poderia Jesus dizer estas palavras se ele esperava que Judas fosse salvo no final?

Alguns, portanto, defrontam uma eternidade de rejeição. Como podemos entender o que eles provocarão para si mesmos? Não podemos, é claro, ter uma noção adequada do inferno, assim como não fazemos idéia de como é o céu; sem dúvida é bom para nós que seja assim, mas talvez a noção mais clara que possamos formar seja aquela baseada na contemplação da cruz.

Na cruz, Deus julgou nossos pecados na pessoa de seu Filho, e Jesus suportou a retribuição de nossos erros. Olhe para a cruz e você verá como será a reação da justiça de Deus para com o pecado do ser humano. Qual a forma que tomará? Em uma palavra, separação e privação do que é bom. Na cruz, Jesus perdeu tudo o que possuíra de bom: consciência da presença e do amor do Pai, toda a consciência física, mental e espiritual de bem-estar e toda a alegria de Deus e das coisas criadas. Toda a alegria e o consolo da amizade lhe foram tirados. Em seu lugar, nada mais havia a não ser solidão, dor, consciência penosa da malícia e maldade humanas e horror da mais completa escuridão espiritual.

A dor física, embora grande (pois a crucificação permanece como a mais cruel forma de execução judicial conhecida), não passava de uma pequena parte da história. O maior sofrimento de Jesus foi mental e espiritual. O que se concentrou em menos de quatrocentos minutos foi a eternidade de agonia — agonia tal que cada minuto era uma eternidade em si mesmo, como os que já sofreram mentalmente podem bem avaliar.

Assim também, os que rejeitam a Deus enfrentam a perspectiva de perder tudo o que é bom, e o melhor modo de se ter uma idéia da morte eterna é demorar-se nesse pensamento. Na vida diária nunca notamos quanto de bom desfrutamos pela graça comum de Deus até que essas coisas nos sejam tiradas. Nunca valorizamos a saúde, a estabilidade da vida, a amizade e o respeito dos outros até que venhamos a perdê-los.

O Calvário nos mostra que no julgamento final de Deus nada daquilo a que tenhamos dado valor, ou que poderíamos valorizar, nada do que consideramos bom permanecerá conosco. É um pensamento terrível, mas a realidade, podemos estar certos, é mais terrível ainda. "Bom seria para tal homem não haver nascido". Que Deus nos ajude a aprender a lição que o espetáculo da propiciação pela substituição penal na cruz nos ensina com toda a clareza. Que possamos ser achados em Cristo com os pecados cobertos por seu sangue, no último dia.

O QUE É A PAZ?

Em terceiro lugar pense na oferta de paz de Deus.

O que o Evangelho de Deus nos oferece? Se dissermos "a paz de Deus", ninguém duvidará, mas será que todos entenderão? O uso de palavras certas não garante pensamentos corretos! Não raro a paz de Deus é interpretada como se fosse essencialmente um sentimento de tranqüilidade íntima, feliz e descuidada, brotando da certeza de que Deus nos protegerá dos golpes mais duros da vida. Entretanto essa interpretação está errada, pois, de um lado, Deus não protege seus filhos desse modo, e se alguém pensar que ele o faz deve preparar-se para um choque. Por outro lado, o que é básico e essencial para a verdadeira paz de Deus não está, de modo algum, contido nesse conceito.

A verdade que esta versão da paz de Deus está buscando (apesar de interpretá-las mal, como já dissemos) é de que ela nos traz duas coisas: força para enfrentar nossa maldade e nossas falhas, e viver com elas, e também contentamento mesmo sob "as ondas adversas da má fortuna" (para as quais o cristão dá o nome de sábia providência divina). A verdade que esta versão ignora é que o ingrediente básico da paz de Deus, sem o qual o restante não pode subsistir, é o perdão e a aceitação na aliança, isto é, a adoção na família de Deus. Entretanto, onde esta mudança de relacionamento com Deus — da hostilidade para a amizade, da ira para a plenitude do amor, da condenação para a justificação — não se realiza, o Evangelho da paz também não se estabelece.

A paz de Deus é primordialmente paz com Deus; é a situação na qual Deus, em lugar de estar contra nós, é por nós. Qualquer versão sobre a paz de Deus que

não tenha início aqui será enganosa. Uma das tristes ironias de nosso tempo é que embora os teólogos liberais e "radicais" creiam reafirmar o Evangelho para os dias de hoje, eles têm, na maioria das vezes, rejeitado as categorias de ira, culpa, condenação e inimizade de Deus. Com isso não se permitem apresentar realmente o Evangelho, pois dessa forma não podem explicar o problema básico que o Evangelho da paz soluciona.



A paz de Deus é fundamentalmente um novo relacionamento de perdão e aceitação — e a fonte da qual emana é a propiciação. Quando Jesus apareceu a seus discípulos no cenáculo, na tarde do dia de sua ressurreição, disse: '"Paz seja com vocês!' Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado" (Jo 20:19,20). Por que ele fez isto? Não foi apenas para estabelecer sua identidade, mas para lembrar sua morte propiciatória na cruz, mediante a qual fizera a paz entre seu Pai e eles. Tendo sofrido no lugar deles, como substituto, para fazer a paz por eles, vinha agora em seu poder ressurreto trazer-lhes essa paz.

"Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" 0o 1:29). É aqui neste reconhecimento que, embora por natureza tenhamos diferenças com Deus e ele conosco, Jesus fez "a paz pelo seu sangue derramado na cruz" (Cl 1:20), que o verdadeiro conhecimento da paz de Deus começa.



AS DIMENSÕES DO AMOR DIVINO

Em quarto lugar pense nas dimensões do amor de Deus.

Paulo ora para que os leitores de sua carta aos Efésios possam "juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento" (Ef 3:18,19). O toque de incoerência e paradoxo em sua linguagem reflete a idéia de Paulo de que o amor divino é inexplicavelmente grande; não obstante, ele acredita que se possa ter alguma compreensão dele. Como?

A resposta de Efésios é: considerando a propiciação em seu contexto, isto é, revendo todo o plano da graça apresentado nos dois capítulos da carta (eleição, redenção, regeneração, preservação, glorificação), cujo ponto central é o sacrifício expiatório de Cristo. Veja as referências chave à redenção e remissão de pecados, e à aproximação para junto de Deus dos que estavam separados, mediante o sangue (morte sacrificial) de Cristo (1:7, 2:13). Veja também os ensinamentos do capítulo 5 que por duas vezes apontam o sacrifício propiciatório de Cristo em nosso lugar como demonstração e medida de seu amor por nós — amor que deve ser imitado no tratamento de uns para com os outros: "e vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus" (5:2), "Maridos, ame cada' um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela" (v. 25).

O amor de Cristo era de graça, não foi despertado por nenhuma bondade em nós (cf. 2:1-5); era eterno, junto com a escolha dos pecadores para a salvação feita pelo Pai "antes da criação do mundo" (1:4); sem reservas, pois levou à mais profunda humilhação e, na verdade, ao próprio inferno no Calvário; e era soberano, pois alcançou seu objetivo: a glória final dos redimidos, sua perfeita santidade e felicidade na alegria do seu amor (cf. 5:26,27), que está agora garantida e assegurada (cf. 1:14; 2:7-10; 4:11-16,30).

Permaneçam nestas coisas, Paulo insiste, se quiserem ter uma idéia, embora pequena, da grandeza e da glória do amor divino. São estas coisas que fazem "o louvor da sua gloriosa graça" (1:6); só quem as conhece pode louvar o nome do Jeová triúno devidamente. Isto nos leva ao último ponto.



A glória de Deus

Pense, finalmente, no significado da glória de Deus.

No cenáculo, depois de Judas ter saído para trair o Mestre, Jesus disse: "Agora o Filho do homem é glorificado, e Deus é glorificado nele" (Jo 13:31). O que ele queria dizer? "Filho do homem" era o nome que dava a si mesmo como o Rei-Salvador que antes de ser entronizado deveria cumprir Isaías 53. Quando falou da glorificação presente do Filho do homem, e de Deus nele, estava pensando especificamente na morte sacrificial, no "levantamento" na cruz que Judas havia saído para apressar. Você vê a glória de Deus em sua sabedoria, seu poder, sua justiça, sua verdade e seu amor, excelsamente manifestada no Calvário, ao fazer a propiciação pelos nossos pecados? A Bíblia vê; e nos aventuramos a acrescentar que se você sentisse o verdadeiro peso do ônus e da opressão de seus pecados, você também a veria.

Nos céus, onde essas coisas serão entendidas melhor, os anjos e os seres humanos se unirão para louvar "o Cordeiro que foi morto" (Ap 5:12; 7:9-12). Aqui na terra os que pela graça foram feitos espiritualmente realistas fazem o mesmo.

Glória, glória ao nosso Rei! Mil, dez mil coroas tem! Cristo obedeceu à lei, Tudo fez para nosso bem; Cristo à vida ressurgiu; vencedor ao céu subiu.

Anjos ao redor do Rei aclamavam seu poder. Respondia a santa grei: "Sim, abrimos com prazer Os portais celestiais Ao Senhor que celebrais!"


Recebido o nosso Rei, no seu trono se assentou. Povos todos percebei Que hoje graça Sem demora procurais salvação, e em paz estais.

Reina nestes corações, faze-nos a ti fiéis. Livra-nos de tentações, guarda-nos em tuas leis; Pois nós somos da tua grei! Glória, glória a ti, ó Rei!

Estes são os hinos dos herdeiros do céu, dos que viram a "iluminação do conhecimento da glória de Deus na face [isto é, na pessoa, nos atos e realizações] de Cristo" (2Co 4:6). As alegres novas do amor redentor e da misericórdia propiciatória, que constituem o coração do Evangelho, os impelem ao louvor sem fim. Você está incluído entre eles?



Filhos de Deus
O que é um cristão? A pergunta pode ser respondida de muitas maneiras, mas a melhor resposta que conheço é que o cristão é alguém que tem Deus como Pai.

Não se pode dizer isto, porém, de todas as pessoas, sejam cristãs ou não? Com certeza não! A idéia de que todas as pessoas são filhas de Deus não é encontrada em parte alguma da Bíblia. O Antigo Testamento mostra Deus como o Pai não de todos, mas apenas de seu povo, a descendência de Abraão. "Israel é meu primeiro filho, e eu já lhe disse que deixe o meu filho ir" (Êx 4:22,23).

O Novo Testamento, embora apresente uma visão mundial, também mostra Deus não como Pai de todos os homens, mas só dos que, reco-nhecendo-se pecadores, depositam sua confiança no Senhor Jesus Cristo como seu divino Salvador e Senhor, só assim tornam-se descendência espiritual de Abraão. "Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus [...] pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa" (Gl 3:26-29).

Ser filho de Deus, portanto, não é um estado universal obtido por nascimento, mas um dom sobrenatural recebido por meio de Jesus. "Ninguém vem ao Pai" — em outras palavras, é reconhecido por Deus como filho — "a não ser por mim" 0o 14:6). O dom da filiação a Deus se torna nosso não por termos nascido, mas por meio do novo nascimento.

Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome. Os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne, nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus.

João 1:12,13

Filiação a Deus é, então, um dom da graça. Não se trata, portanto, de filiação natural, mas adotiva; é assim que o Novo Testamento explicitamente a representa. Na lei romana quando um adulto desejava um herdeiro — alguém para continuar o nome da família —, era comum a prática de adotar um adulto por filho, geralmente já com certa idade, em vez de uma criança, como é comumente feito hoje em dia.

Os apóstolos proclamam que Deus ama tanto a quem ele mesmo redimiu na cruz que os adotou como herdeiros para contemplar e compartilhar da glória na qual seu unigênito Filho já entrou. "[...] Deus enviou seu Filho [...] a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que [nós] recebêssemos a adoção de filhos" (Gl 4:4,5). Nós, isto é, os que "[ele] pre-destinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo" (Ef 1:5). "Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! [...] quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é" (1Jo 3:1,2).

Há alguns anos escrevi:

Englobamos todo o ensinamento do Novo Testamento em uma só frase se falarmos dele como a revelação da Paternidade do santo Criador. Do mesmo modo, resumimos toda a religião do Novo Testamento se a descrevemos como o conhecimento de Deus, nosso santo Pai. Se quiser julgar até que ponto uma pessoa entendeu o que é cristianismo, descubra que valor ela dá ao fato de ser filha de Deus e de ter a Deus por Pai. Se este pensamento não dominar e controlar suas orações, adoração e toda a sua atitude perante a vida, isso demonstra não ter entendido bem o cristianismo. Pois tudo o que Cristo ensinou — o que torna o Novo Testamento novo e melhor que o Antigo, tudo o que é distintamente cristão, em oposição ao judaísmo — está englobado no conhecimento da paternidade de Deus. "Pai" é o nome cristão para "Deus".1

Isto ainda me parece totalmente verdadeiro e muito importante. Nossa compreensão do cristianismo não pode ser melhor que nosso entendimento sobre a adoção. Para nos ajudar a compreendê-la melhor, escrevi este capítulo.

Para os que creêm, a revelação de que Deus é seu Pai é em certo sentido o ponto alto da Bíblia, justamente por ser como foi o passo final no processo de revelação registrado nela. Nos tempos do Antigo Testamento, como já vimos, Deus forneceu a seu povo um nome pelo qual podiam se referir a ele e chamá-lo: o nome Yahweh (Jeová, o Senhor). Por este nome, Deus se proclamou "o grande Eu Sou" — aquele que é completa e coerentemente ele mesmo. Ele é; e é por ele ser quem é que as demais coisas são o que são.

Ele é a realidade por trás de toda a realidade, a causa fundamental de todas as causas e todos os acontecimentos. O nome proclamou-o auto-existente, soberano e completamente livre de constrangimento ou da dependência de qualquer coisa fora de si mesmo. Embora Yahweh seja seu nome aliancístico, tal nome comunica a Israel o que seu Deus era em si mesmo, e não o que seria em relação a eles. Era o nome oficial do Rei de Israel, e havia alguma coisa da reserva real sobre ele. Era um nome enigmático, previsto acima de tudo para despertar humildade e temor diante do mistério do Ser divino.

Totalmente de acordo com isso, o aspecto de seu caráter que Deus salienta com mais firmeza no Antigo Testamento é sua santidade. O

1Evangelical Magazine 7, p. 19,20.

louvor dos anjos que Isaías ouviu no templo, com sua repetição enfática: "Santo, santo, é o Senhor dos Exércitos" (Is 6:3), pode ser usado como lema para resumir o tema de todo o Antigo Testamento. A idéia básica que a palavra "santo" expressa é separação. Quando Deus é declarado "santo", pensa-se em tudo o que o separa, coloca à parte e o torna diferente das criaturas: sua grandeza ("Majestade nas alturas", Hb 1:3; 8:1) e pureza ("Teus olhos são tão puros que não suportam ver o mal", Hc 1:13).

Todo o espírito da religião do Antigo Testamento era determinado pela idéia da santidade de Deus. A ênfase constante era que o ser humano, por causa de sua fraqueza como criatura e seu aviltamento como pecador, deve aprender a se humilhar e a ser reverente diante de Deus. A religião era "o temor do Senhor" — reconhecer a própria pequenez, confessar suas faltas e se humilhar diante da presença de Deus, abrigar-se agradecidamente sob sua promessa de misericórdia e procurar, acima de tudo, evitar o pecado do orgulho. Frisava-se repetidamente que devemos nos manter em seu lugar, a distância, na presença do Deus santo. Esta ênfase se sobrepunha a tudo.

Um novo relacionamento

No Novo Testamento, entretanto, descobrimos que as coisas mudaram. Deus e a religião não são menos que antes; a revelação do Antigo Testamento sobre a santidade divina e a exigência da humildade por parte do ser humano é pressuposta em toda a sua extensão. Algo, porém, foi acrescido. Um novo fator aparece. Os cristãos do Novo Testamento têm a Deus por Pai. Pai é o nome pelo qual o chamam. Pai agora é o nome da aliança — pois o pacto que o prende a seu povo permanece como uma aliança de família. Os cristãos são seus filhos e herdeiros.

A ênfase do Novo Testamento não está na dificuldade e no perigo da aproximação do Deus santo, mas na ousadia e confiança com as quais os crentes podem se aproximar dele — ousadia que brota diretamente da fé em Cristo e do conhecimento da obra salvadora: "por intermédio de quem temos livre acesso a Deus em confiança, pela fé nele [em Jesus]" (Ef 3:12). "Portanto, irmãos, temos plena confiança para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que ele nos abriu [...] aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé..." (Hb 10:19-22).

Para os que são de Cristo, Deus é um pai amoroso; eles pertencem a sua família, podem se aproximar dele sem temor e estar sempre certos de seu cuidado e interesse paternal. Esta é a mensagem central do Novo Testamento.

Quem pode compreender isto? Tenho ouvido o sério argumento de que a idéia da paternidade divina pode não significar nada para pessoas cujos pais agem de modo inapropriado, sem sabedoria nem afeição, ou ambas, e também para muitos que não tiveram a felicidade de ter um pai que os criasse. Ouvi a falha revelada do bispo Robinson2 ao falar sobre a paternidade divina em Honest to God [Honesto com Deus],3 defendida como brilhante movimento no sentido de recomendar a fé a uma geração cuja vida familiar se desintegrou quase completamente.

Isso, porém, é tolice. Em primeiro lugar, é certamente incorreto sugerir que, no campo das relações pessoais, conceitos positivos não possam ser formados por contraste, como a sugestão aqui implícita. Muitos jovens se casam com a resolução de não fazer de seu casamento um fracasso, como viram acontecer entre seus pais: este não pode ser um ideal positivo? É claro que sim. Do mesmo modo, a idéia de nosso Criador tornar-se um pai perfeito — fiel no amor e no cuidado, generoso e previdente, interessado em tudo o que fazemos, respeitando nossa individualidade, capaz de nos ensinar, sábio em dirigir, sempre à disposição, ajudando-nos a descobrir nossa maturidade, integridade e lealdade — é significativa para qualquer pessoa. Não importa se chegamos a esse pensamento dizendo: "Tive um pai maravilhoso, e vejo que Deus é semelhante, apenas muito maior" ou então: "Meu pai me desapontou em várias situações, mas Deus, louvado seja seu nome, será muito diferente", ou ainda dizendo: "Não sei o que é ter um pai na terra, mas graças a Deus agora tenho um no céu".



2John Axthur Thomas Robinson (1919-1983) foi bispo anglicano da Diocese de Woolwich (Inglaterra) e deão do Trinity College. Seu livro vendeu mais de um milhão de cópias.

3Scm Press: London, 1963.

A verdade é que todos nós temos um ideal positivo de paternidade pelo qual julgamos nossos pais e os pais dos outros. Pode-se dizer com certeza que não existe uma pessoa para quem a idéia da perfeita paternidade de Deus seja inexpressiva ou repulsiva.

Em todo o caso (e este é o segundo ponto), Deus não nos deixou às voltas com especulações sobre a natureza de sua paternidade baseadas em analogias com a paternidade humana. Ele revelou o significado completo e final deste relacionamento por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, seu próprio Filho encarnado. É de Deus que "recebe o nome toda a família nos céus e na terra" (Ef 3:15). Assim, de sua manifesta atividade como "o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo" (Ef 1:3), é que aprendemos, neste caso particular que é também um critério universal, o que significa realmente esta relação paternal de Deus com os que estão em Cristo. Deus quer que a vida dos cristãos seja o reflexo e a reprodução do relacionamento entre ele e Jesus.

Onde podemos aprender isto? Principalmente no evangelho e na primeira carta de João. No evangelho de João, a primeira bênção evangélica a ser citada é a adoção (1:12), e o auge da primeira aparição de Jesus ressurreto é a declaração de que subiria para "meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês" (20:17). O foco da primeira carta de João são os conceitos da filiação como o dom supremo do amor divino (1Jo 3:1); do amor ao Pai (2:15; ef. 5:1-3) e à irmandade de Cristo (2:9-11; 3:10-17,4:7,21) como a ética da filiação; da amizade com Deus, o Pai, como privilégio dessa filiação (2:13,23,24); da justiça e da fuga ao pecado como evidência da filiação (2:29; 3:9,10; 5:18); e da esperança de ver Jesus e ser semelhante a ele (3:3).

Nestes dois livros bíblicos podemos aprender com toda a clareza o que significava para Jesus essa paternidade e quais suas implicações para os cristãos atualmente.

De acordo com o testemunho do Senhor no evangelho de João, o relacionamento paternal de Deus com ele implicava quatro coisas.

Primeiro, paternidade implica autoridade. O Pai comanda e determina. A iniciativa exigida do Filho é a de resoluta obediência a seu desejo: "Pois desci dos céus não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou"; "[...] completando a obra que me deste para fazer"; "[...] o Filho não pode fazer de si mesmo [...]"; "A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou [...]" (Jo 6:38, 17:4; 5:19; 4:34).

Segundo, paternidade implica afeição. "Pois o Pai ama ao Filho"; "Como o Pai me amou [...] assim como tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço" (5:20; 15:9,10).

Terceiro, paternidade implica companhia. "[...] Mas eu não estou sozinho, pois meu Pai está comigo"; "Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, pois sempre faço o que lhe agrada" (16:32; 8:29).

Quarto, paternidade implica honra. Deus quer exaltar seu Filho. "Pai [...] Glorifica o teu Filho"; "O Pai [...] confiou todo o julgamento ao Filho, para que todos honrem o Filho como honram o Pai" (17:1; 5:22,23).

Tudo isso se estende aos filhos adotivos de Deus. Em Jesus Cristo, seu Senhor, por meio dele e sob ele, os filhos são governados, amados, acompanhados e honrados pelo Pai celeste. Como Jesus obedeceu a Deus, também eles devem fazê-lo. "Nisto consiste o amor de Deus" — o Deus "que o gerou" — "em obedecer aos seus mandamentos" (1Jo 5:1,3).

Assim como Deus amou seu único Filho, ele ama seus filhos adotivos. "Pois o próprio Pai os ama" (Jo 16:27). Como o Pai teve comunhão com Jesus, ele tem também conosco: "Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo" (1Jo 1:3),

Assim como Deus exaltou Jesus, também exalta seus seguidores como irmãos em uma só família. "Aquele que me servir, meu Pai o honrará"; "Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste" (Jo 12:26,17:24). Nestes termos a Bíblia nos ensina a entender a forma e a substância do relacionamento pai-filho que une o Pai e o servo de Jesus.

É necessário que se apresente agora a definição e uma análise do significado dessa adoção. Podemos extraí-la da Confissão de fé de West-. minster (cap. xii), um excelente exemplo:

A todos os que são justificados, Deus se digna fazer participantes da graça da adoção em e por seu único Filho Jesus Cristo. Por essa graça, eles são recebidos no número e gozam a liberdade e privilégios dos filhos de Deus, têm sobre si o nome dele, recebem o Espírito de adoção, têm acesso, com ousadia, ao trono da graça, e são habilitados a clamar: "Abba, Pai"; são tratados com piedade, protegidos, providos e corrigidos por ele, como por um pai; nunca, porém, abandonados, mas selados para o dia da redenção, e recebem as promessas como herdeiros da eterna salvação.4

Esta é a natureza da filiação divina conferida aos crentes, que passaremos a estudar.



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