O conhecimento de Deus J. I. Packer



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O GRANDE SEGREDO

É estranho que a verdade da adoção tenha sido pouco apreciada na história cristã. Além de dois livros do século xrx, pouco conhecidos hoje (Robert Smith Candlish, The fatherhood of God; Robert Alexander Webb, The reformed doctrine of'adoption), não há mais títulos sobre o assunto nem houve mais deles desde a Reforma do que havia antes dela.

A compreensão de Lutero sobre a adoção foi tão forte e clara como a da justificação, mas seus discípulos se apegaram à última e nada fizeram sobre a primeira. Os ensinamentos dos puritanos sobre a vida cristã, tão fortes em outros assuntos, foram notavelmente deficientes neste ponto. Esta foi uma das razões para o surgimento de interpretações legalistas errôneas a esse respeito. Talvez os primeiros metodistas, e mais tarde outros santos metodistas, como Billy Bray, o filho do Rei, com seu inesquecível modo de se referir à oração: "Preciso falar ao Pai sobre isto", chegaram mais perto da vida filial descrita no Novo Testamento. Há certamente muito mais para dizer sobre a adoção nos dias de hoje.

Entretanto, de tudo o que estudamos neste capítulo, a mensagem imediata ao coração é certamente esta: Eu, como cristão, entendo a mim mesmo? Conheço minha identidade real? Meu destino real? Sou filho de Deus. Deus é meu Pai. O céu é meu lar. Cada dia estou mais perto dele. Meu Salvador é meu irmão. Cada cristão é meu irmão também. Diga isso muitas vezes a si mesmo: a primeira coisa de manhã e a última à noite, enquanto espera pelo ônibus e sempre que a mente estiver livre. Peça que você possa viver como quem sabe que tudo isso é total e completamente verdadeiro. É este o segredo cristão para a vida feliz? Sim, com toda a certeza; mas nós temos alguma coisa maior e mais profunda a dizer. Este é o segredo do cristão para uma vida cristã que honra a Deus, e estes são os aspectos da situação realmente importantes. Desejo que este segredo se torne totalmente seu e meu também.

Para nos ajudar a ver mais adequadamente quem e o que somos como filhos de Deus, e para que fomos chamados, aqui estão algumas perguntas mediante as quais faremos bem em nos examinar freqüentemente.


  • Entendo minha adoção? Dou a ela o valor devido? Lembro-me diariamente meus privilégios como filho de Deus?

  • Busco a segurança de minha adoção? Sinto diariamente o amor de Deus por mim?

  • Trato Deus como meu Pai celestial amando-o, obedecendo-lhe e honrando-o, buscando e recebendo sua amizade, e tentando em tudo agradá-lo, como um pai gostaria que seu filho fizesse?

  • Penso em Jesus Cristo, meu Salvador e Senhor, como meu irmão, dispensando a mim não apenas a autoridade divina, mas também simpatia divina e humana?

  • Penso diariamente em como ele está perto de mim, como ele me compreende tão completamente e quanto, sendo meu remidor, ele se interessa por mim?

  • Aprendi a odiar o que desagrada a meu Pai? Sou sensível às coisas erradas às quais ele também é sensível? Empenho-me em evitá-las para não magoá-lo?

  • Aguardo ansioso o dia futuro quando a grande família dos filhos de Deus se reunirá finalmente no céu diante do trono de Deus, seu Pai, e do Cordeiro, seu irmão e Senhor? Tenho sentido a emoção dessa esperança?

  • Amo meus irmãos cristãos com os quais convivo de tal modo que não ficarei envergonhado quando no céu eu me lembrar de meus dias?

  • Tenho orgulho de meu Pai, e de sua família à qual, por sua graça, pertenço?

  • A semelhança dessa família é visível em mim? Se não for, por quê?

Deus nos humilha, Deus nos instrui, Deus nos faz seus filhos verdadeiros.



Tu, NOSSO GUIA
Para muitos cristãos, a direção é um problema crônico. Por quê? Não porque duvidem de que a direção divina seja um fato, mas porque têm certeza disso. Sabem que Deus pode guiar, e prometeu guiar a todo cristão. Livros, amigos, oradores públicos lhes contam como a direção divina tem operado na vida de outras pessoas O temor, portanto, não é de que não haja essa direção para eles, mas que possam perdê-la por causa de alguma falta cometida. Quando cantam:

Guia-me, ó grande Jeová Peregrino por esta terra seca Sou fraco, mas tu és forte Sustém-me com tua mão poderosa Pão da Vida Alimenta-me agora e sempre!1

... não duvidam de que Deus possa guiar e proteger como pedem. Mas continuam ansiosos porque não têm certeza da própria receptividade à direção oferecida por Deus.

1Primeiro verso do hino galés Arglwydd, arwain trwy'r anialwch, 1745.

Nem todos, entretanto, foram tão longe. Nos dias de hoje, como notamos muitas vezes, o conhecimento de Deus tem sido obscurecido — transformado na realidade em ignorância — pelas distorções de nossas idéias sobre Deus. Assim, a realidade da lei, voz, independência, moral e bondade divinas, e até mesmo de sua personalidade, tem sido questionada não só fora da Igreja, mas dentro dela também. Com isso, muitos tiveram dificuldade de crer que a direção divina exista realmente. Como pode ser isso, se Deus não é o tipo de ser que pode ou que deseja dá-la? E isso é o que, de um modo ou de outro, todas essas sugestões implicam. Vale a pena, portanto, recordar neste instante algumas das verdades básicas indicativas da direção divina.



Deus tem um pLano

A crença na realidade da direção divina se baseia em dois fatos fundamentais: primeiro, a realidade do plano de Deus para nós; segundo, a capacidade de Deus de se comunicar conosco. Sobre estes dois fatos a Bíblia tem muito que dizer.

Será que Deus tem um plano para cada indivíduo? Na verdade ele tem. Ele formou um "plano eterno" (lit., "um plano de séculos"), "na plenitude dos tempos" segundo o propósito "daquele que faz todas as coisas, segundo o propósito da sua vontade" (Ef 3:11; 1:10,11). Ele possuía um plano para a libertação de seu povo da escravidão do Egito quando o guiou através do mar, e do deserto mediante uma coluna de nuvem de dia e de fogo à noite. Ele deu continuidade a seu plano, libertando o povo do exílio na Babilônia, ao colocar Ciro no trono: "o Senhor despertou o coração de Ciro" (Ed 1:1) para enviar os judeus de volta à sua terra para a reconstrução do templo.

Seu plano é perceptível na vida de Jesus (v. Lc 18:31; 22:22). Sua obra na terra era cumprir a vontade do Pai (Jo 4:34; Hb 10:7,9). Deus tinha um plano para Paulo (At 21:14; 22:14; 26:16-19; 1Tm 1:16). Em cinco de suas cartas, Paulo fala de si mesmo como um apóstolo "pela vontade de Deus". O Senhor tem um plano para cada um de seus filhos.

Será que Deus pode transmitir a nós esse plano? Certamente que sim. Assim como o ser humano é um animal comunicativo, seu criador também é um Deus comunicativo. Ele guiou Jesus e Paulo. O livro de Atos relata em diversos trechos minúcias dessa direção (Filipe enviado ao deserto para se encontrar com o etíope, 8:26,29; Pedro avisado para aceitar o convite de Cornélio, 10:19,20; a igreja de Antioquia encarregada de mandar Paulo e Barnabé como missionários, 13:2; Paulo e Silas chamados à Europa, 16:6-10; Paulo instruído a avançar com seu ministério em Corinto, 18:9,10).

Embora a direção por meio de sonhos, visões e mensagens verbais diretas deva ser julgada como exceção e não como regra, mesmo para os apóstolos e seus contemporâneos, ainda assim esses acontecimentos mostram que Deus não tem dificuldade alguma em fazer sua vontade conhecida a seus servos.

As Escrituras, além disso, contêm promessas explícitas da direção divina por meio das quais podemos conhecer os planos de Deus para nós. "Eu o instruirei e o ensinarei no caminho que você deve seguir; eu o aconselharei e cuidarei de você", disse Deus a Davi (Sl 32:8). Isaías 58:11 registra a certeza de que, se o povo se arrepender e obedecer, "O Senhor o guiará constantemente". A direção é o tema principal do salmo 25, onde lemos: "Bom e justo é o Senhor; por isso mostra o caminho aos pecadores. Conduz os humildes na justiça e lhes ensinas o seu caminho [...] Quem é o homem que teme o Senhor? Ele o instruirá no caminho que deve seguir" (v. 8,9,12). Assim também em Provérbios 3:6: "Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas".

No Novo Testamento aparece a mesma expectativa de direção. A oração de Paulo pelos colossenses: "que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual", e a oração de Epafras: "para que continuem firmes em toda a vontade de Deus" (Cl 1:9; 4:12), mostram claramente que Deus está pronto e desejoso de tornar conhecida a sua vontade.

Sabedoria nas Escrituras sempre significa conhecimento do curso de uma ação que agradará a Deus e assegurará a vida; daí a promessa de Tiago 1:5: "Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida", que é na realidade uma promessa de direção. "Mas transformem-se pela renovação da sua mente", aconselha Paulo, "para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12:2).

Outras partes da verdade bíblica aparecem aqui para confirmar a confiança na direção de Deus. Primeiro, os cristãos são filhos de Deus; e se os pais humanos têm responsabilidade de dar orientação a seus filhos em assuntos cuja ignorância e incapacidade seriam perigosos, não devemos duvidar de que o mesmo se aplica na família de Deus. "Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!" (Mt 7:11).

Mais uma vez as Escrituras são a Palavra de Deus "útil" (lemos) "para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra" (2Tm 3:16,17). "Ensino" significa instrução compreensível em doutrina e ética, a obra e a vontade de Deus. "Repreensão" e "instrução na justiça" significam a aplicação dessa instrução em nossa vida desordenada. O resultado prometido é: "plenamente preparado para toda boa obra", ou seja, uma vida dedicada a seguir a vontade de Deus.

Mais uma vez os cristãos têm um Instrutor permanente, o Espírito Santo: "Mas vocês têm uma unção que procede do Santo [...] a unção que receberam dele permanece em vocês [...] que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas" (1Jo 2:20,27). Dúvida quanto à possibilidade de direção seria um insulto quanto à fidelidade do Espírito Santo ao seu ministério. É notável que em Atos 8:29, 10:19, 13:2, 16:6 e mais surpreendente ainda no decreto do concilio de Jerusalém — "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" (15:28) — a direção seja especificamente atribuída ao Espírito.



Deus, além disso, busca sua glória em nossa vida, e ele é glorificado em nós quando obedecemos a sua vontade. Segue-se então que, como meios para os próprios fins, ele deve estar pronto a nos ensinar seu caminho, a fim de que possamos andar nele. O salmo 119 ressalta a confiança na disposição de Deus para ensinar quem deseja obedecer. No salmo 23:3, Davi proclama a realidade da direção de Deus para a própria glória: "Guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome".

Poderíamos continuar assim, mas a idéia já foi suficientemente estabelecida. É impossível duvidar de que a direção seja uma realidade planejada e prometida a todos os filhos de Deus. Os cristãos que a perdem mostram apenas que não a procuraram como deviam. É certo, portanto, cada um preocupar-se com sua receptividade à direção e estudar como buscá-la.



Como receber orientação

Cristãos sinceros à procura de orientação muitas vezes se enganam a esse respeito. Por que isso acontece? Geralmente é porque seu conceito da natureza e do método da direção divina esteja errado. Procuram por uma ilusão enganosa; desprezam a direção pronta, à mão, e se entregam a toda sorte de fantasias. O erro básico é pensar que a direção é basicamente uma inspiração íntima do Espírito Santo sem a participação da Palavra escrita. Esta idéia, que é tão velha quanto os falsos profetas do Antigo Testamento e tão nova quanto o Grupo de Oxford e o Rearma-mento Moral,2 é um canteiro no qual podem crescer todas as formas de fanatismos e insensatez.



2Também denominado buchmanismo, é um movimento internacional fundado pelo Grupo de Oxford, liderado por Frank N. D. Buchman (um proeminente evangelista americano) na década de 1920. Designa também o título de um livro: Moral rearmament: The battle for peace [Rearmamento moral. A batalha pela paz], de 1938. O movimento tem raízes cristãs, mas se tornou uma rede informal de pessoas de religiões diferentes. Sua fundamentação são os "Quatro Absolutos" (honestidade, pureza, altruísmo e amor), encorajando seus adeptos ao engajamento em questões políticas e sociais. Em 2001, o nome do movimento foi mudado para Iniciatives of Change [Iniciativas para mudar].

Como pode cometer tal engano o cristão atento? O que parece acontecer é o seguinte: eles ouvem a palavra direção e pensam imediatamente em um tipo particular de "direção para problemas", à qual talvez os livros que tenham lido e os testemunhos que ouviram façam constantes alusões. É o tipo de problema relacionado com o que poderíamos chamar "escolhas vocacionais" — escolha entre opções divergentes, todas parecendo perfeitamente boas e legais. Por exemplo: devo casar ou não? Devo casar com tal pessoa ou não? Devemos pensar em ter mais um filho? Devo entrar para esta igreja ou para aquela? Devo servir a Deus na minha terra ou em outro lugar? Que profissão devo seguir? Qual dos empregos oferecidos devo aceitar? Será que estou no ramo certo de trabalho? Que direito tem esta pessoa, ou causa, sobre minhas preocupações, atividades, energia ou generosidade? Que apelo para o meu serviço voluntário deve ter prioridade? — e assim por diante.

Já que as "escolhas vocacionais" moldam tão decisivamente nossa vida e significam tanto no que se refere à alegria ou à tristeza, é claro que pensamos muito nelas, e é certo fazê-lo. Mas o que não é certo é chegar à conclusão de que, em última análise, toda a orientação sobre problemas é apenas desse tipo. Aqui, ao que parece, está a raiz do engano.

Dois aspectos da direção divina, no caso de "escolhas vocacionais", são característicos. Ambos surgem da natureza da situação. Primeiro, esses problemas não podem ser resolvidos pela aplicação direta do ensinamento bíblico. Tudo o que se pode fazer é procurar nas Escrituras as possibilidades legais entre as opções elegíveis. (Nenhum texto bíblico, por exemplo, disse ao autor deste livro para pedir em casamento a senhora que é hoje sua esposa, ou para ser ordenado, ou para começar seu ministério na Inglaterra, ou para comprar seu carro grande e velho).

Segundo, justamente porque as Escrituras não podem determinar diretamente uma escolha, o fator inspiração e inclinação dado por Deus, pelo qual uma pessoa se compromete a um tipo de responsabilidade em detrimento de outra e sente-se em paz quando o contempla, torna-se decisivo.

A base do engano que estamos querendo determinar é presumir primeiramente que toda a direção para problemas apresenta estas duas características e, segundo, que a vida deve ser encarada como um campo no qual este tipo de direção deve ser buscado.

As conseqüências desse engano entre cristãos sinceros têm sido tão cômicas quanto trágicas. A idéia de que a voz interior do Espírito dirige e decide tudo soa muito atraente, pois parece exaltar o ministério do Espírito e promete maior intimidade com Deus. Na prática, porém, essa busca da superespiritualidade leva apenas à confusão frenética ou à conduta disparatada.

Hannah Whitall Smith, uma senhora quacre muito perspicaz e criteriosa, percebeu muito disto e comentou a respeito em seus "escritos

sobre o fanatismo".3 Nesses trabalhos ela conta a respeito de uma mulher que todas as manhãs, tendo consagrado o dia ao Senhor assim que acordava, "pedia que ele lhe dissesse se devia levantar da cama ou não", e não se mexia até que "a voz" a mandasse vestir-se. "À medida que ia se vestindo perguntava ao Senhor se deveria pôr aquela peça de roupa, e muitas vezes o Senhor a dizia que pusesse o sapato direito e não calçasse o esquerdo; às vezes devia calçar os dois pés de meia e nenhum sapato; outras vezes os dois pés de sapato sem meias, e assim ela fazia com todas as peças do vestuário...".

Há também a história da inválida que, quando sua hospedeira a visitou e por distração deixou algum dinheiro no cria-do-mudo, teve "a impressão" de que o Senhor a incentivara a ficar com o dinheiro a fim de ilustrar a verdade do texto "todas as coisas são suas". Ela escondeu a quantia debaixo do travesseiro, mentindo quando a hospedeira voltou a sua procura, e acabou sendo expulsa como ladra.

Encontramos também uma "senhora muito fina, já passada da meia-idade",

3Edição póstuma de Ray Strachey, primeiro como Religious fanaticism [Fanatismo religioso], 1928, e mais tarde com o título Group movements of the past and experiments in guidance [Movimento de grupos do passado e experiências com a direção], 1934.

que explicou que "houve ocasiões quando, a fim de ajudar os meus amigos a receber o batismo do Espírito Santo, senti-me claramente guiada pelo Senhor a levá-los comigo à cama, onde deitávamos de costas um para o outro sem usar nenhuma roupa".4 Estas histórias patéticas são lamentavelmente típicas do que acontece quando se desconhece o fundamento da direção divina.



O que esse tipo de conduta mostra é falta de compreensão da prática fundamental e racional do Criador para guiar criaturas racionais: por meio do entendimento e da aplicação racional da Palavra escrita. Este tipo de direção é essencial, tanto por limitar a área em que a direção "vocacional" é necessária e oferecida como porque somente os sintonizados com ela, e que mostram atitudes básicas corretas, estarão aptos a reconhecer a direção "vocacional" quando é fornecida. Ao aceitar os impulsos imorais e pouco razoáveis como inspirações do Espírito Santo, os amigos da sra. Smith se esqueceram de que a modéstia e decência no vestir, o respeito pela propriedade e o reconhecimento de que a sensualidade não é espiritual já faziam parte das exigências das Escrituras (lTm 2:9; 1Pe 4:15; Ef 4:19-22).

O modo certo de honrar o Espírito Santo como nosso guia, entretanto, é honrar as Sagradas Escrituras, seu instrumento para nos guiar. A direção fundamental dada por Deus para moldar nossa vida — isto é, insuflando convicções básicas, atitudes, idéias e valores sob os quais devemos viver — não se trata de indução interior desvinculada da Palavra, mas da pressão exercida na consciência pela representação do caráter e da vontade de Deus na Palavra, que o Espírito nos ilumina para que entendamos e apliquemos à vida.

A forma básica da direção divina, portanto, é a apresentação de ideais positivos como guias para a vida. "Seja o tipo de pessoa que Jesus era", "busque esta virtude, e esta outra, ou ainda esta e pratique ao máximo"; "reconheçam suas responsabilidades — maridos, para com suas esposas; esposas, para com seus maridos; pais, para com seus filhos; todos vocês, para com seus amigos cristãos e para com todos os seus semelhantes;

4Group movements, p. 184,245,198.

conheçam-nos e procurem constantemente forças para suportá-los". É assim que Deus nos guia através da Bíblia, como qualquer pessoa que estude os Salmos, Provérbios, os Profetas, o sermão do Monte e a parte ética das cartas logo descobrirá. "Afasta-te do mal e faça o bem" (Sl 34:14; 37:27); esta é a estrada ao longo da qual a Bíblia nos guia, e todas as admoestações são feitas com a intenção de nos manter nela. Deve-se notar que a menção a serem "guiados pelo Espírito" em Romanos 8:14 não se refere a "vozes" interiores ou coisas desse tipo, mas a mortificar o pecado conhecido e não viver pelo poder da carne!

Apenas dentro dos limites desta direção Deus nos incita interiormente em assuntos de decisão "vocacional". Assim, nunca espere ser orientado para se casar com um descrente ou fugir com uma pessoa casada enquanto existirem 1Coríntios 7:39 e o sétimo mandamento. O autor conheceu casos em que a direção divina foi responsabilizada por esses dois tipos de ação. As inclinações íntimas estavam sem dúvida alguma presentes; mas elas, com toda a certeza, não foram do Espírito de Deus, pois estavam contra a Palavra. O Espírito dirige dentro dos limites estabelecidos pela Palavra, não além deles. "Ele me guia nos caminhos da justiça", e em nenhum outro.

Seis armadilhas comuns

Mesmo com os conceitos corretos sobre a direção em geral, é fácil errar, particularmente em escolhas "vocacionais". Nenhuma área da vida demonstra mais claramente a fragilidade da natureza humana, mesmo a dos já regenerados. A obra de Deus nesses casos consiste em inclinar primeiro nosso julgamento, depois todo o nosso ser ao curso que, entre todas as alternativas, ele determinou ser o mais adequado para nós, para a, sua glória e para benefício de outros por nosso intermédio. O Espírito, porém, pode ser sufocado e podemos facilmente agir de modo a interromper completamente essa direção. Vale a pena relacionar algumas dessas armadilhas.

Primeiro, indisposição para pensar. É a falsa piedade, o supernaturalis-mo de um tipo pernicioso e prejudicial, que exige impressões interiores, sem nenhuma base racional, e evita atender à freqüente recomendação bíblica para refletir. Deus nos fez seres reflexivos e ele nos guia a mente quando resolvemos as coisas em sua presença — e de nenhum outro modo. "Quem dera fossem sábios [...] e compreendessem ..." (Dt 32:29).

Segundo, indisposição para pensar adiante e pesar as conseqüências de longo prazo das alternativas no curso de uma ação. "Pensar adiante" é parte da regra divina para a vida, tão boa quanto a humana para as práticas de trânsito. Não raro vemos apenas o que é sábio e certo (e o que é tolo e errado) quando consideramos os resultados a longo prazo. "Quem dera fossem sábios [...] e compreendessem qual será o seu fim!" (Dt 32:29).

Terceiro, indisposição para aceitar conselhos. As Escrituras enfatizam essa necessidade: "O caminho do insensato parece-lhe justo, mas o sábio ouve os conselhos" (Pv 12:15). É sinal de imaturidade e de presunção dispensar os conselhos ao se tomar uma decisão importante. Há sempre alguém que conhece a Bíblia, a natureza humana e nossas habilidades e limitações mais que nós mesmos, e ainda que não possamos aceitar seu conselho, alguma coisa boa tiraremos se pesarmos com cuidado o que disser.

Quarto, indisposição para suspeitar de nós mesmos. Não gostamos de ser realistas a nosso respeito e não nos conhecemos bem. Podemos reconhecer racionalizações nos outros e não percebê-las em nós. "Emoções" com base egoísta, escapista, auto-indulgente, auto-engrandecedora devem ser detectadas e desconsideradas, e não tomadas erroneamente como direção. Isto é particularmente verdadeiro a respeito das emoções sexuais ou sexualmente condicionadas. Como escreveu certo biólogo e teólogo:

A alegria e a sensação geral de bem-estar que muitas vezes (mas não sempre) sentimos quando "amamos" podem, com a maior facilidade, silenciar a consciência e inibir o pensamento crítico. Quantas vezes as pessoas dizem "sentir-se levadas" ao casamento (e provavelmente dirão "o Senhor me guiou tão claramente") quando sua descrição é apenas um estado particular recente de equilíbrio endócrino que os torna extremamente sanguíneos e felizes.5

Precisamos nos perguntar por que "sentimos" que uma determinada atitude é certa e nos obrigar a dar as razões disso. Seremos sábios se expusermos o caso diante de mais alguém, em cujo julgamento confiamos, para que avalie nossas razões. Precisamos também orar. "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno" (Sl 139:23,24).

Quinto, indisposição para descontar o magnetismo pessoal. Os que não estão profundamente conscientes do orgulho e do engano em si mesmos nem sempre conseguem percebê-los nos outros. De tempos em tempos, isso tem levado pessoas bem-intencionadas, mas iludidas, com talento para a dramatização, a conquistar um alarmante domínio sobre a mente e a consciência de outros que se rendem ao seu encanto e deixam de julgá-las pelos padrões comuns. Ainda que uma pessoa talentosa e atraente reconheça o perigo e tente evitá-lo, nem sempre consegue impedir que cristãos o tratem como a um anjo, ou um profeta, aceitando suas palavras como direção para si mesmos e seguindo cegamente sua liderança.

Não é assim, contudo, que Deus nos guia. Na verdade, pessoas de destaque não estão necessariamente errados, mas também não estão necessariamente certas! Tanto elas como suas idéias devem ser respeitadas, mas não veneradas. "Mas ponham à prova todas as cousas e fiquem com o que é bom" (1Ts 5:21).

Sexto, indisposição para esperar. "Espera no Senhor" é um refrão constante nos salmos e uma palavra necessária, pois Deus muitas vezes nos deixa esperando. Ele não tem tanta pressa quanto nós e não é seu costume dar mais esclarecimentos sobre o futuro do que precisamos para agir no presente, ou nos guiar em mais de um passo de cada vez. Quando em dúvida, não faça nada, continue esperando em Deus. Quando houver necessidade de ação, a luz virá.

5O. R. Barclay, Guidance, p. 29.



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