O conhecimento de Deus J. I. Packer



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Não há respostas simples

Entretanto, não se deve concluir que a orientação certa signifique um caminho livre de problemas. Aqui está outra causa de perplexidade para muitos cristãos. Eles seguem um caminho que parece ser indicado por Deus e, como, por conseqüência direta disso, encontram uma série de novos problemas que de outro modo não teriam surgido: isolamento, crítica, abandono pelos amigos, frustrações de todo tipo. Imediatamente ficam ansiosos. Lembram-se do profeta Jonas, que, ao ser enviado para o leste para pregar em Nínive, tomou um navio que ia para o norte, para Társis, "fugiu da presença do Senhor" (Jn 1:3) e foi alcançado por uma tempestade, humilhado diante dos descrentes, atirado ao mar e engolido por um grande peixe para que voltasse a sua responsabilidade. Será que a presente experiência do lado rude da vida (perguntam a si mesmos) é um sinal divino dizendo-lhes que estão como Jonas, fora da rota, seguindo o próprio caminho em vez do determinado por Deus? Talvez seja, e a pessoa sábia aproveitará a ocasião para verificar com todo o cuidado sua direção original.



Os problemas devem sempre ser encarados como avisos para avaliar a própria conduta. Eles não são necessariamente sinal de que se está fora

da rota, pois a Bíblia em geral declara: "O justo passa por muitas adversidades" (Sl 34:19). Ela ensina que seguir a direção divina regularmente leva a dificuldades e aflições das quais de outro modo se poderia escapar. Há muitos exemplos. Deus guiou Israel por meio de uma coluna de nuvem que ia adiante deles (Êx 13:21,22), no entanto o caminho pelo qual os levou envolveu-os na travessia espantosa e enervante do mar Vermelho, longos dias sem água e sem carne "por todo aquele imenso e terrível deserto" (Dt 1:19), e em batalhas sangrentas com Amaleque, Seom e Ogue (Êx 17:8; Nm 21:21-23), e podemos entender, se não desculpar, a constante reclamação de Israel (v. Êx 14:10-12; 16:3; Nm 11:4; 14:2,3; 20:2-5; 21:4,5).

Além disso, os discípulos de Jesus foram duas vezes apanhados à noite pela tempestade no mar da Galiléia (Mc 4:37; 6:48), e em ambas a razão de eles estarem lá foi obediência à ordem de Jesus (Mc 4:35; 6:45).

Também o apóstolo Paulo atravessou a Grécia "concluindo", pelo seu sonho com um homem da Macedônia, "que Deus nos tinha chamado para lhes pregar o evangelho" (At 16:10) e não demorou muito para que fosse preso em Filipos. Mais tarde ele "decidiu no seu espírito ir a Jerusalém" (19:21) e contou aos anciãos de Éfeso a quem encontrou no caminho: "Agora, compelido pelo Espírito, estou indo para Jerusalém, sem saber o que me acontecerá ali. Só sei que, em todas as cidades, o Espírito Santo me avisa que prisões e sofrimentos me esperam" (20:22,23). Foi exatamente o que aconteceu: Paulo encontrou tribulações em grande escala ao seguir a direção divina.

Mas isso não é tudo. Como exemplo final e a prova de que seguir a direção de Deus traz dificuldades, preste atenção à vida do próprio Senhor Jesus. Nenhuma vida humana foi tão completamente guiada por Deus e nenhum ser humano jamais se enquadrou tão bem na descrição do "homem de dores". A direção divina afastou Jesus de sua família e de seus conterrâneos, levou-o a conflitos com todos os líderes nacionais, religiosos e civis, e finalmente à traição, prisão e cruz. O que mais pode o cristão esperar enquanto permanece na vontade de Deus? "O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor [...] Se o dono da casa foi chamado Belzebu, quanto mais os membros da sua família!" (Mt 10:24,25).

De acordo com todos os padrões humanos de avaliação, a cruz foi um desperdício — desperdício da vida jovem, do profeta influente, do líder em potencial. Sabemos o segredo de seu significado e alcance apenas pelas declarações do próprio Deus. Do mesmo modo, a vida cristã dirigida pode parecer desperdício — como no caso de Paulo, passando anos na prisão porque seguiu a direção divina para ir a Jerusalém, quando poderia estar todo o tempo evangelizando a Europa. Deus também não nos diz a razão das frustrações e perdas que são parte e parcela da vida dirigida.

A experiência de Elisabeth Elliot, viúva e biógrafa de seu marido missionário martirizado, ilustra vivamente isto. Confiante na direção divina, ela foi a uma tribo do Equador para converter a língua deles na forma escrita a fim de que a Bíblia pudesse ser traduzida. A única pessoa que poderia ou que queria ajudá-la era um cristão que falava espanhol e que vivia com a tribo, mas depois de um mês ele foi assassinado durante uma briga. Ela continuou lutando quase sem nenhum auxílio durante mais oito meses. Então mudou para outro campo deixando todo seu arquivo de material lingüístico com os colegas para que podessem dar continuidade ao trabalho de onde ela havia parado. Quinze dias depois ela soube que o arquivo fora roubado. Não havia nenhuma cópia, todo seu trabalho estava perdido. Este, em termos humanos, era o fim da história. Ela comenta:

Eu tive simplesmente de me curvar sabendo que Deus era seu intérprete [...] Devemos permitir que Deus faça o que quer fazer. E se você imagina saber qual é a vontade de Deus para sua vida e está ansioso por cumpri-la, provavelmente estará fadado a um rude despertar, porque ninguém sabe qual é a vontade de Deus para toda sua vida.6

É isso mesmo. Cedo ou tarde, a direção divina, que nos leva das trevas para a luz, também nos levará da luz para a escuridão. Isto faz parte do caminho da cruz.

Quando erramos o caminho

Se eu descobrisse ter entrado com meu carro em um pântano, deveria saber que tinha saído da estrada. No entanto, esse conhecimento não seria de muito conforto se tivesse, então, de ficar ali parado vendo o carro afundar e sumir: o mal estava feito, sem conserto. Será que a mesma coisa acontece quando o cristão descobre ter perdido a direção divina e toma o caminho errado? O dano será irrevogável? Deverá permanecer fora da estrada para sempre? Graças a Deus, não. Nosso Deus não apenas restaura, mas incorpora nossos erros e nossas tolices ao seu plano e tira proveito deles.



6Eternity, janeiro de 1969, p. 18.

Isso faz parte da maravilha de sua graciosa soberania. "Vou compensá-los pelos anos de colheitas que os gafanhotos destruíram [...] Vocês comerão até ficarem satisfeitos, e louvarão o nome do Senhor, o seu Deus, que fez maravilhas em favor de vocês" (Jl 2:25,26). O Jesus que restaurou a Pedro depois da traição e corrigiu seu curso mais de uma vez depois disso (At 10; Gl 2:11-14) é nosso Salvador hoje e não mudou. Deus não só faz a ira do ser humano transformar-se em louvor, como também as desventuras do cristão.

Recebi uma carta de um ministro que se sentiu obrigado a deixar sua congregação e também sua denominação, e que agora, como Abraão, segue sem saber para onde. Na carta ele cita um hino de Charles Wesley sobre a soberania e a segurança da direção divina. Esta é a nota com a qual concluiremos.

A direção, como todos os atos de bênção, sob a dispensação da graça, é um ato soberano. Deus não nos guia apenas para nos mostrar o caminho que devemos trilhar. Ele quer nos guiar também no sentido mais fundamental de assegurar que, aconteça o que acontecer, quaisquer que sejam os erros cometidos, chegaremos seguros ao lar. Haverá, sem dúvida, escorregadelas e desvios, mas os braços eternos estão por baixo, seremos alcançados, salvos e restaurados. Esta é a promessa divina; isto mostra quanto ele é bom.

Parece então que o contexto exato para discutir a direção é o da confiança em Deus, que não nos deixará arruinar a alma. Nossa preocupação, portanto, neste debate deve ser mais em relação a sua glória que a nossa segurança — pois esta já está determinada. A falta autoconfiança, embora nos mantenha humildes, não deve ofuscar a alegria com a qual nos inclinamos ao "Senhor Protetor" — nosso fiel Deus da aliança. Aqui está o verso de Wesley:
Capitão dos exércitos de Israel e Guia

de todos os que buscam a mansão celestial,

Debaixo de Tua sombra nós ficamos,

A nuvem do Teu amor protetor,

Nossa força, tua graça; nossa lei, tua Palavra;

Nosso objetivo, a glória do Senhor.7

Eis aqui a conclusão do assunto nas palavras de Joseph Hart:8

É Jesus o primeiro e o último, Cujo espírito nos guiará ao lar com segurança; Nós o louvamos por tudo o que passou, E confiamos nele por tudo o que há de vir.9



7Captain of Israel's lost, Short hymns, 1762.

8Joseph Hart (1712-1768), pregador e compositor de hinos de origem inglesa.

9Verso do hino "How good is the God we adore", Hymns composed on various subjects. 1759.

Estas provações íntimas


Um certo tipo de ministério do Evangelho é cruel. Ele não quer sê-lo, mas é. Sua finalidade é exaltar a graça, mas acontece exatamente o oposto. Reduz o problema do pecado e perde o contato com o propósito divino. O efeito é duplo: primeiro, descreve a graça como inferior ao que é na realidade; segundo, deixa as pessoas com um Evangelho não suficientemente grande para poder satisfazer a todas suas necessidades. Isaías certa vez comparou a falta de recursos adequados com uma cama curta e um cobertor estreito (Is 28:20) — receita certa para o desconforto, o descontentamento duradouro e a possibilidade de contrair uma doença séria.

No campo espiritual, este tipo de ministério expõe todos os que o aceitam seriamente a uma infelicidade semelhante. Seu predomínio é um grande obstáculo para o conhecimento de Deus e o crescimento na graça nos dias de hoje. Esperamos ser úteis a algumas pessoas por esta exposição e pela tentativa de mostrar onde estão as falhas.

Que tipo de ministério é esse? A primeira coisa a dizer é que, por mais triste que pareça, trata-se de um ministério evangélico. Sua base é a aceitação da Bíblia como Palavra de Deus e suas promessas como garantia divina. Seus temas normais são a justificação pela fé por meio da cruz, o novo nascimento por meio do Espírito e a nova vida no poder da ressurreição de Cristo. Seu objetivo é levar as pessoas ao novo nascimento, conduzindo-as depois à experiência mais completa possível da vida ressurreta. É, em todos os sentidos, o ministério do Evangelho. Seus erros não são os de quem se desvia da mensagem central evangélica. São erros aos quais apenas um ministério do Evangelho poderia ser exposto. Isto deve ficar bem claro desde o início.

Se é um ministério evangélico doutrinariamente sólido, então o que pode estar errado com ele? Como pode alguma coisa estar seriamente errada quando sua mensagem e seus objetivos são tão bíblicos? A resposta é que o ministério totalmente preocupado com verdades evangélicas ainda pode estar errado por dar a essas verdades uma aplicação incorreta. As Escrituras estão cheias de verdade para curar almas, como uma farmácia tem um bom estoque de remédios para os males do corpo, mas em ambos os casos a aplicação errada daquilo que, usado corretamente, serve para curar terá um efeito desastroso. Se em vez de passar iodo você o beber, o efeito será o inverso da cura! As doutrinas do novo nascimento e da nova vida também podem ser mal aplicadas, com resultados infelizes. É isso o que acontece no caso que estamos discutindo, como veremos adiante.



Doutrinas mal-aplicadas

O tipo de ministério que temos em mente começa enfatizando, em um contexto evangelístico, a diferença que faz o fato

de tornar-se cristão. Isso não nos trará apenas o perdão dos pecados, paz de consciência, relacionamento com Deus como Pai, mas significa também que, pelo poder do Espírito, seremos capazes de vencer os pecados que antes nos dominavam. A luz e a direção dadas por Deus nos capacitarão a descobrir um caminho em meio aos problemas de direção, satisfação pessoal, relações pessoais, desejos do coração e outras coisas semelhantes, que até então não tínhamos conseguido vencer.

Agora, colocadas desse modo, em termos gerais, estas importantes declarações são bíblicas e verdadeiras, graças a Deus elas são! No entanto, é possível dar-se tanta ênfase a elas e negligenciar de tal modo o lado difícil da vida cristã — a punição diária, a guerra sem fim contra o pecado e Satanás, os momentos de trevas — que se pode dar a impressão que a vida cristã normal é um perfeito mar de rosas, uma situação em que tudo no jardim é sempre belo e não existe problema algum — ou, se houver, devem apenas ser levados ao trono da graça, e desaparecerão imediatamente. Isto sugere que, uma vez que nos tornemos cristãos, o mundo, a carne e o demônio não causarão dificuldades sérias. As circunstâncias e os relacionamentos pessoais não serão problemáticos, nem teremos problemas conosco. Tais sugestões são prejudiciais porque são falsas.

É claro que também pode ser dada uma impressão igualmente errada de outro modo. Você pode dar excessiva ênfase ao lado difícil da vida cristã e desprezar o lado luminoso, dando a impressão de que a vida cristã é na maior parte do tempo triste e escura — um inferno na terra com a esperança do céu futuro! Não há dúvida de que essa impressão tem sido passada muitas vezes, nem de que o ministério aqui examinado seja, em parte, uma reação contra isso. No entanto, deve-se dizer que entre os dois erros extremos, o primeiro é pior, na proporção exata de que falsas esperanças são males maiores que falsos temores. O segundo erro, pela graça de Deus, levará apenas à agradável surpresa da descoberta de que o crente passa tanto por alegrias como por tristezas. O primeiro, no entanto, que apresenta a vida cristã como livre de qualquer problema, está fadado a levar, mais cedo ou mais tarde, a uma triste desilusão.

Nossa afirmação é que, a fim de apelar para o desejo humano, o tipo de ministério examinado permite-se, neste ponto, prometer mais do que Deus se comprometeu a fazer neste mundo. Isto, afirmamos, é a primeira característica que o distingue como cruel, pois alcança resultados por meio de falsas esperanças. A crueldade aqui não é certamente maliciosa, mas fruto de uma bondade irresponsável. O pregador quer ganhar seus ouvintes para Cristo, portanto, enfeita a vida cristã fazendo-a parecer a mais alegre e despreocupada possível a fim de encantá-los. A ausência, porém, de um motivo ruim e a presença de um bom de modo algum reduz o mal produzido pelo exagero.

Os ministros bem sabem o que acontece: enquanto alguns ouvintes obstinados que já ouviram esse tipo de coisa não darão muita atenção a tais promessas, uns poucos à procura ansiosa da verdade acreditarão em suas palavras. Nesta base se convertem, têm a experiência do novo nascimento e prosseguem alegremente pela nova vida, cheios da alegre certeza de terem deixado para trás todas as antigas mágoas e dores de cabeça.

Depois de algum tempo descobrirão que na realidade não é assim, pois continuam a experimentar problemas referentes a temperamento, relações pessoais, desejos e tentações constantes, às vezes até com maior intensidade. Deus não tornou as coisas mais fáceis para eles; ao contrário, tudo piorou. Dificuldades com a esposa, ou marido, com os parentes ou com os filhos, com os colegas e vizinhos continuam a existir. As tentações e os maus hábitos aparentemente desaparecidos para sempre com a experiência da conversão reaparecem.

Quando as primeiras ondas de alegria os envolveram durante as primeiras semanas da experiência cristã, sentiram realmente que todos os problemas se resolveram, mas agora vêem que não foi assim e que a prometida vida cristã livre de problemas não se materializou. As frustrações anteriores à conversão ameaçam abater-se novamente sobre eles. Que devem pensar?

A verdade aqui é que o Deus de quem se disse: "Como pastor ele cuida de seu rebanho, com o braço ajunta os cordeiros" (Is 40:11) é muito gentil com os cristãos recém-convertidos, como o são as mães com seus bebezinhos. Muitas vezes o começo da carreira cristã é marcado por grande alegria emocional, atos providenciais marcantes, notáveis respostas a orações e frutos imediatos dos primeiros testemunhos; assim Deus os estimula e estabelece "na vida". Mas à medida que se tornam mais fortes e mais capazes de suportar as coisas, ele os exercita em uma escola mais rígida. Por meio da pressão de influências opostas e desestimulantes, ele os expõe aos testes que estão capacitados a suportar — não mais do que isso (v. a promessa de 1Co 10:13), nem menos (v. a admoestação em At 14:22). Desse modo Deus edifica nosso caráter, fortalece nossa fé e nos prepara para ajudar a outros. Assim ele cristaliza nosso senso de valores e glorifica a si mesmo em nossa vida, fazendo sua força perfeita em nossa fraqueza.

Não há nada, portanto, anormal no aumento do número de tentações, conflitos e pressões à medida que o cristão anda com Deus. Na verdade alguma coisa estará errada se isso não acontecer. Entretanto, o cristão a quem disseram não haver sombras nem problemas na vida cristã normal, à medida que experiências de ineficiência e imperfeição se acumulam em sua vida, só pode concluir que ele deve ter saído da normalidade. "Alguma coisa está errada", diz, "não está funcionando mais!" E sua indagação será: que devo fazer para que "funcione" de novo?

O REMÉDIO ERRADO

O segundo aspecto cruel desse ministério que temos em mente surge a partir deste ponto. Tendo criado dependência, pois é isso que acontece, ao levar pessoas recém-convertidas a se referir a todas as experiências de frustração e perplexidade como sinais de um cristianismo abaixo do padrão, agora provoca mais escravidão mediante uma solução semelhante a uma camisa-de-força, pela qual se propõe a acabar com essas experiências.

Esse recurso insiste em diagnosticar a "luta", comparada a "fracasso", como negligência causada pela falha em manter a "consagração" e a "fé". A princípio (sugere) o convertido estava totalmente vencido pelo novo Salvador; daí a razão de sua alegria, mas desde então foi ficando mais frio ou descuidado, ou comprometeu, de algum modo, sua obediência, ou deixou de sustentar em todos os momentos a confiança no Senhor Jesus, daí a razão de suas experiências atuais.

A solução, portanto, é descobrir, confessar e esquecer seu afastamento, reconsagrar-se a Cristo e manter diariamente essa consagração, adquirir o hábito de levar a Cristo todos os problemas e tentações que surgirem para que ele os solucione. Se assim fizer (afirmam) ele se encontrará mais uma vez no topo do mundo, tanto no sentido teológico como no metafórico.

É verdade que se o cristão se torna descuidado diante de Deus e volta para os caminhos do pecado, sua alegria interior e o sossego do coração diminuem, e uma sensação de descontentamento virá a marcá-lo cada vez mais. Os que por meio da união com Cristo estão "mortos para o pecado" (Rm 6:1) — isto é, afastados dele como o princípio que lhes rege a vida — não podem encontrar no pecado nem mesmo aquele prazer limitado que tinham antes de nascer de novo. Nem podem permitir-se trilhar caminhos errados sem que ponham em perigo seu privilégio de desfrutar dos favores divinos — Deus fará que isso aconteça!

Por causa da sua cobiça perversa fiquei indignado e o feri; fiquei irado e escondi o meu rosto. Mas ele continuou extraviado, seguindo os caminhos que escolheu.

Isaías 57:17

É assim que Deus reage quando seus filhos seguem caminhos errados. Os apóstatas não-regenerados são alegres, mas os cristãos que se desviam são sempre miseráveis. Assim o cristão que se descobre perguntando:

Onde está a bênção que conheci Quando vi o Senhor pela primeira vez?1

deve certamente perguntar a si mesmo, antes de tudo, se tem havido o particular desejo de

pecados que te fazem lamentar E te retiram de meu coração.2

1Segundo verso do hino O for a closer walk with God, composto por William Cowper, in Conyer's Collection of psalms and hymns, 1772. 2Quarto verso do mesmo hino.

Se assim for, a solução apresentada acima é correta, pelo menos em termos gerais.

Talvez não seja este o caso, afinal, e mais cedo ou mais tarde cada cristão vai perceber isso. A verdade aparecerá: Deus está agora provando seus filhos — seus filhos consagrados, nos caminhos da santidade adulta como fez com Jó, com alguns salmistas e com os leitores da carta aos hebreus, expondo-os a fortes ataques do mundo, da carne e do Diabo para que seus poderes de resistência aumentassem e seu caráter como povo de Deus se tornasse mais forte. Como dissemos acima, todos os filhos de Deus sofrem esse tratamento — é parte da "disciplina do Senhor" (Hb 12:5; ecoando Jó 5:17; Pv 3:11) —, ao qual ele sujeita todos os filhos amados.

Se é isto o que acontece com o cristão perplexo, então a solução proposta é desastrosa. Pois o que ela faz? Ela sentencia os cristãos devotos ao trabalho árduo e monótono de procurar todos os dias por fracassos inexistentes na consagração, na crença de que, somente se encontrarem algumas falhas para confessar e abandonar, poderão ter de novo a experiência da infância espiritual que Deus quer que eles agora deixem para trás.

Assim, essa proposta não apenas resulta em regressão e irrealidade espiritual, como os coloca em dificuldade com Deus, que os tirou da euforia da infância espiritual, com seus risos e passividade satisfeita, precisamente a fim de levá-los a uma experiência mais adulta e madura. Os pais gostam de bebês, mas ficam tristes, e isso é o mínimo, se seus filhos crescidos quiserem ser bebês outra vez, e hesitam em deixá-los voltar aos hábitos infantis. O mesmo acontece com o Pai celestial. Ele nos quer crescidos em Cristo, e não permanentemente bebês. Entretanto, o ensinamento que temos em vista aqui nos coloca contra Deus neste ponto e apresenta a volta à infância como bem supremo.

Mais uma vez, isto é crueldade, do mesmo modo como era crueldade o antigo costume japonês de atar os pés das meninas forçando-os a uma deformação permanente. O fato de ter sido realizado por uma questão de bondade não faz nenhuma diferença. O mínimo que poderá acontecer quando se aceita a solução proposta será a interrupção do desenvolvimento espiritual — o surgimento de um tipo de adultos evangélicos infantis, sorridentes, irresponsáveis e egoístas. Os piores efeitos entre os crentes sinceros e honestos surgirão na forma de introspecção mórbida, histeria, perturbação mental e perda da fé, pelo menos na forma evangélica.



Perder a graça de vista

O que está basicamente errado com este ensinamento? Está sujeito a críticas sob muitos aspectos. Ele falha na compreensão do ensinamento do Novo Testamento sobre a santificação e a luta cristã. Não compreende o significado do crescimento na graça. Não entende a operação do pecado interior. Confunde a vida cristã na terra com a do céu. Tem uma concepção errada da psicologia da obediência cristã (atividade impulsionada pelo Espírito, não passividade impulsionada pelo Espírito). A crítica básica, porém, deve ser certamente não levar em conta o método e o propósito da graça. Tentaremos explicar isto.



O que é graça? No Novo Testamento graça significa o amor de Deus que age em favor das pessoas merecedoras exatamente do oposto. Graça significa Deus movendo céus e terras para salvar pecadores que não poderiam erguer um dedo sequer para salvar-se. Graça significa Deus enviando seu único Filho para descer ao inferno na cruz, para que os culpados pudessem ser reconciliados com Deus e recebidos no céu. "Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2Co 5:21).

O Novo Testamento reconhece tanto o desejo da graça como a obra da graça. O primeiro é o plano eterno de Deus para salvar; o segundo é a "boa obra" (Fp 1:6) de Deus em nós, pela qual ele chama os homens à vida de comunhão com Cristo (1Co 1:9), ressuscita-o da morte para a vida (Ef 2:1-6), sela-o como sua propriedade pelo dom do Espírito (Ef 1:13), transforma-o à imagem de Cristo (3:18) e finalmente ressuscitará seu corpo em glória (Rm 8:30; 1Co 15:47-54).

Há alguns anos foi moda entre os estudiosos protestantes dizer que graça significa a atitude amorosa de Deus, distinta de sua obra de amor. Essa distinção, entretanto, não é bíblica. Veja, por exemplo, em 1Coríntios 15:10: "mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi inútil; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo", a palavra graça denota claramente o amor de Deus agindo em Paulo, fazendo dele primeiro cristão, e depois ministro.

Qual é o propósito da graça? Primeiramente restaurar nossa comunhão com Deus. Quando Deus lança o fundamento deste relacionamento restaurado, pelo perdão de nossos pecados ao confiarmos em seu Filho, o faz para que a partir desse momento nós e ele possamos viver em comunhão. Ao renovar nossa natureza, Deus tenciona nos capacitar e, na realidade, nos levar ao exercício do amor, da confiança, da alegria, da esperança e da obediência concentrada nele — atos que, de nossa parte, compõem a realidade da comunhão com Deus, que se faz constantemente conhecido a nós. Este é o objetivo da obra da graça — conhecimento de Deus mais profundo e comunhão mais constante com ele. A graça é Deus conduzindo os pecadores cada vez para mais perto de si.

Como Deus, pela graça, executa esse propósito? Não é nos escudando dos ataques do mundo, da carne e do Diabo, nem nos protegendo das circunstâncias cansativas e frustrantes, nem ainda amparando-nos contra os problemas criados por nosso temperamento e psicologia. Ao contrário, ele nos faz ao expor-nos a todas essas coisas, para que nos convençamos de nossa incapacidade e assim levar-nos a nos agarrar a ele mais firmemente. Esta é a razão principal, de acordo com nosso ponto de vista, pela qual Deus enche nossa vida com problemas e perplexidades de toda sorte — é para ter certeza de que aprenderemos a confiar plenamente nele.

A razão de a Bíblia reiterar que Deus é rocha forte, amparo firme, refúgio e auxílio para o fraco é que Deus passa muito de seu tempo trazendo-nos à lembrança nossa fraqueza, tanto mental quanto moral, e que não devemos ousar por nós mesmos descobrir ou seguir o caminho certo. Quando andamos por uma estrada clara sentimo-nos muito bem e, se alguém nos toma o braço para nos ajudar, certamente nos livraremos dele com impaciência. Entretanto, se, ao contrário, estivermos no escuro, num caminho ruim, no meio de uma tempestade, com as forças se esgotando, e alguém nos pegar o braço para nos ajudar, nos apoiaremos nele, agradecidos.

Deus quer que sintamos o caminho da vida áspero e cheio de perplexidades para aprender a nos apoiar nele. Portanto, ele toma as providências para nos despojar de nossa autoconfiança, a fim de confiarmos nele — na frase clássica da Bíblia para o segredo da vida da pessoa temente a Deus: "espera no Senhor".



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