O conhecimento de Deus J. I. Packer



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O Deus restaurador

Esta verdade tem muitas aplicações. Uma das mais surpreendentes é que Deus realmente usa nossos pecados e enganos para este fim. Ele emprega muitas vezes a disciplina educativa dos fracassos e enganos. É surpreendente ver como a Bíblia se refere ao povo de Deus que cometeu enganos e como Deus os puniu por isso.

A Abraão foi prometido um filho, mas, como tivesse de esperar por ele, perdeu a paciência e cometeu o engano de tomar o lugar da providência, gerando Ismael — e teve de esperar mais treze anos antes que Deus falasse outra vez com ele (Gn 16:16—17:1). Moisés cometeu o erro de tentar salvar seu povo agindo de acordo com sua vontade, usando sua força, matando um egípcio, insistindo em resolver os problemas particulares dos israelitas — viu-se banido por muitas décadas no meio do deserto para perder sua presunção.

Davi cometeu uma série de erros — seduziu Bate-Seba e mandou Urias para a morte, negligenciou sua família, levantou o censo de seu povo apenas para ganhar prestígio —, e em cada um desses casos foi castigado amargamente. Jonas cometeu o erro de fugir do chamado de Deus e encontrou-se no interior do grande peixe.

Poderíamos ir longe com os exemplos. Mas o que queremos destacar é que o erro humano e o conseqüente desagrado divino não foram em nenhum dos casos o fim da história. Abraão aprendeu a esperar o momento determinado por Deus. Moisés foi curado de seu convencimento (na verdade sua subseqüente falta de autoconfiança foi também quase pecaminosa! — v. Êx 4:10-14). Davi se arrependeu depois de cada um de seus erros e no final ficou mais perto de Deus que estava no começo. Jonas orou no interior da barriga do peixe e viveu para cumprir sua missão em Nínive.

Deus pode tirar proveito dos extremos de nossa loucura; pode restaurar o tempo devorado pelo gafanhoto. Dizem que quem nunca erra jamais faz coisa alguma; certamente esses homens cometeram erros, mas por meio deles Deus os ensinou a conhecer sua graça e a se apegar a ele como jamais aconteceria de outro modo. Seu problema é um sentimento de fracasso? O conhecimento de ter cometido algum horrível engano? Volte-se para Deus, sua graça res-tauradora espera por você.

A irrealidade na religião é execrável. A irrealidade é a maldição do tipo de ensino a que nos opusemos neste capítulo. Irrealidade para com Deus é uma doença devastadora do cristianismo moderno. Precisamos de Deus para ser realistas conosco e com ele. Talvez haja uma palavra para nós no famoso hino em que John Newton descreve a passagem para a realidade que estamos tentando apresentar:

Pedi ao Senhor que eu pudesse crescer Na fé, no amor, e em toda a graça, Saber mais de sua poderosa salvação E buscar com mais fervor sua face.

Esperei que em alguma hora favorável De repente ele respondesse a meu pedido E pela força constrangedora de seu amor Eliminasse meus pecados e me desse paz.

Em vez disso, ele me fez sentir O mal escondido em meu coração E deixou que as raivosas forças do inferno Assaltassem completamente minha alma.

Ainda mais, com a própria mão pareceu que ele quis agravar meu sofrimento Anulou todos os projetos que idealizei Desmanchou meu jogo e me destruiu.

"Senhor, por que isso?", clamei a tremer

"Perseguir teu verme até a morte?"

"É deste modo", disse o Senhor

"Que eu respondo aos rogos por graça e fé"

Estas provações íntimas eu uso

Para livrá-lo do orgulho e egoísmo

E quebrar teu esquema de alegria terrena

Para que possas buscar-te todo em mim.3

3l asked the Lord hat I may grow, 1779.

a suficiência de Deus


A carta de Paulo aos romanos é o ponto alto das Escrituras, não importa de qual ângulo você a observe. Lutero a chamou "o mais claro de todos os Evangelhos". "Quem a entender", escreveu Calvino, "terá seguramente uma porta aberta para a compreensão de toda a Escritura". Tyndale, em seu prefácio a Romanos, ligou os dois pensamentos, chamando Romanos "a parte principal e mais excelente do Novo Testamento, e o mais puro evangelion, isto é, as boas-novas chamadas Evangelho, e também luz e caminho para perscrutar toda a Escritura". Todas as estradas da Bíblia levam a Romanos, e todas as idéias apresentadas nas Escrituras são vistas com mais clareza nessa carta. Quando sua mensagem adentra o coração da pessoa não é possível avaliar as conseqüências.

Romanos: livro de riquezas

O que você procura na Bíblia? O homem sábio tem os olhos abertos para diversas coisas, e Romanos é supremo em todas.

É doutrina — verdade sobre Deus, ensinada por Deus — que você está buscando? Caso seja, descobrirá que Romanos apresenta todos os temas integrados: Deus, ser humano, pecado, lei, julgamento, fé, obras, graça, criação, redenção, justificação, santificação, o plano da salvação, eleição, reprovação, a pessoa e a obra de Cristo, a obra do Espírito, a esperança cristã, a natureza da Igreja, o lugar dos judeus e dos gentios no propósito divino, a filosofia da Igreja e a história universal, o significado e a mensagem do Antigo Testamento, o significado do batismo, os princípios de piedade e ética, os deveres do cidadão cristão etc!

Entretanto, a pessoa sábia também lê a Bíblia como o livro da vida, mostrando mediante exposição e exemplo que significa servir a Deus e não servi-lo, encontrá-lo e perdê-lo na experiência humana real. O que Romanos tem para oferecer aqui? A resposta é: a mais completa representação da vida de pecado e da vida de graça, e a mais profunda análise da estrada da fé apresentada pela Bíblia (sobre o pecado, v. caps. 1 a 3; 5 a 7; 9; sobre a graça, 3 a 15; sobre a fé, 4,10 e 14).

Outro modo de ler a Bíblia, muito recomendado atualmente por professores, é tê-la como livro da igreja, que expressa a fé concedida por Deus e a compreensão recíproca existente na comunhão dos fiéis. Deste ponto de vista, Romanos, justamente por ser a declaração clássica do Evangelho pelo qual a Igreja vive, é também a narrativa clássica da identidade da Igreja. O que é a Igreja? É a verdadeira semente do fiel Abraão, judeus e não-judeus, escolhidos por Deus, justificados pela fé e libertados do pecado para a nova vida de retidão pessoal e ministério mútuo. É a família do Pai celestial amoroso vivendo na esperança de herdar toda sua fortuna. É a comunidade da ressurreição, na qual os poderes da morte histórica de Cristo e sua presente vida celestial já agem. Em nenhum outro lugar isto é apresentado tão completamente como em Romanos.

A pessoa sábia também lê a Bíblia como carta pessoal de Deus a cada filho espiritual e, portanto, destinada a ele como para os outros. Leia Romanos desse modo e você descobrirá que essa carta tem uma força ímpar para sondar e tratar de coisas tão arraigadas em você que normalmente não se lembra delas: hábitos e atitudes pecaminosos; instinto para a hipocrisia; farisaísmo natural e autoconfiança; descrença constante; frivolidade moral e superficialidade no arrependimento; indiferença, mundanismo, timidez, desânimo; convencimento espiritual e insensibilidade.

Você também descobrirá que esta carta perturbadora tem o poder sem par de despertar alegria, segurança, ousadia, liberdade e espírito ardoroso que Deus requer e dá a quem o ama. Diz-se de Jonathan Edwards que sua doutrina era aplicação e que sua aplicação era doutrina. Romanos é exatamente assim.

Escreveu Tyndale:

Nenhum homem pode verdadeiramente lê-la com demasiada freqüência ou estudá-la muito bem, pois quanto mais é estudada mais fácil se torna e quanto mais profundamente forem buscadas, as coisas mais preciosas são encontradas nela, tão grande é o tesouro espiritual que jaz escondido aí [...] Por esse motivo todos os homens, sem exceção, devem exercitar-se diligentemente neste ponto e gravá-lo (lembrar) dia e noite continuamente até que todos estejam completamente acostumados com ele.

Entretanto, nem todos os cristãos apreciam a magnificência de Romanos, e há razão para isso. Alguém que tocasse o topo do monte Everest em um helicóptero (se é que isso pode acontecer) não sentiria naquele momento nada parecido com o que Hillary e Tensing sentiram quando estiveram naquele lugar depois de ter subido a montanha. Do mesmo modo, o impacto de Romanos sobre você vai depender dos acontecimentos anteriores.

A lei operante aqui é que quanto mais você explora outras partes da Bíblia, quanto mais exercitado nos problemas intelectuais e morais de ser cristão, quanto mais tenha sentido o peso da fraqueza e a força da fidelidade na vida cristã, mais verá Romanos falando a você. João Crisóstomo1

1Crisóstomo significa "boca de ouro" (347-407). Bispo de Constantinopla reverenciado como um dos quatro grandes doutores da Igreja. Monge dedicado e eloqüente pregador, adepto da interpretação histórico-gramatical das Escrituras, Crisóstomo enfatizava a reverência no culto divino. Foi exilado e encarcerado por seu desafio às autoridades romanas.

fazia que essa carta fosse lida em voz alta para ele uma vez por semana; você e eu podíamos fazer muito mais que isso.

Agora, assim como Romanos é o ponto alto da Bíblia, o capítulo 8 é o ponto alto de Romanos. Nas palavras do comentarista puritano Edward Elton:

[O capítulo 8 de Romanos é] como um favo de mel, bem cheio da doçura do céu e de conforto para a alma... Nossos conceitos sobre o consolo são apenas sonhos, até que tenhamos uma idéia verdadeira sobre o amor de Deus por nós em Cristo Jesus, despejado e derramado amplamente em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado, e enche o coração com uma alegria gloriosa e indescritível, fazendo-nos mais que vencedores [...] E onde encontrar esta base para o consolo mais ampla e vigorosamente interpretada se não neste capítulo?2

O consolo é claramente usado aqui no velho e forte sentido de algo encorajador e animador, não no sentido moderno de algo que tranqüiliza e debilita. A busca do "consolo", no sentido moderno, é auto-indulgente, sentimental e irreal, e a religião do "vou à igreja para obter consolo" não é cristianismo; Elton, porém, fala da certeza cristã, que é algo diferente.

Mais uma vez, porém, o princípio do Everest tem aplicação neste ponto. Você não penetrará no segredo de Romanos 8 estudando apenas este capítulo. O caminho para Romanos 8 é através dos capítulos 1 a 7, e o impacto de Romanos 8 sobre você refletirá quanto lhe custou aceitar o que foi dito nos capítulos anteriores. Somente se você aceitar a si mesmo como pecador perdido e sem salvação (caps. 1 a 3) e, como Abraão, confiar na divina promessa que parece boa demais para ser verdade no seu caso, a promessa de aceitação, porque Jesus, o cabeça da aliança, morreu e ressuscitou (caps. 4 e 5); somente se, como nova criatura em Cristo, você se entregou à total santidade e então descobriu em si que a carne está em luta com o espírito, de modo que você vive em contradição, nunca alcançando totalmente os seus bons propósitos,



2Dedicatória de The triumph of a true Christian described.

nem evitando todo o mal ao qual renunciou (caps. 6 e 7), apenas se, acima de tudo, "perdas e cruzes" recaírem sobre você (doenças, tensões, acidentes, choques, desapontamentos, maus-tratos — v. cap. 8:18-23,35-39), só então Romanos 8 revelará sua imensa riqueza e tornará conhecido seu grande poder.

Em Romanos 8 vemos Paulo reafirmar de forma bastante ampliada o que já dissera em Romanos 5:1-11. Normalmente ele não é repetitivo; por que, então, voltou ao assunto aqui? Por que afinal ele escreveu Romanos 8? A resposta mais curta, e não tão tola quanto parece, é esta: porque escreveu Romanos 7! Em Romanos 7:7 ele levantou a questão: a lei é pecado? A resposta que devia dar era: não; mas a lei é uma fonte de pecado, pois na realidade fomenta o que proíbe, e assim desperta o impulso para desobedecer, de modo que

quanto mais a pessoa se dispõe a obedecer à lei, mais a transgride.

Para mostrar isto de modo rápido e vivido, Paulo descreveu sua experiência nesse assunto. Falou como antes de ser cristão "o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou" (v. 11); e ele foi adiante (v. 14-25), fazendo uma revisão do presente no qual, embora cristão e apóstolo: "tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo [...] tenho prazer na Lei de Deus, mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros" (v. 18,22,23).

Ao descrever isso, sua reação brotou espontaneamente: "Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?" (v. 24). A pergunta era apenas de retórica, pois ele sabia que um dia teria total livramento do pecado por meio de Cristo pela "redenção do nosso corpo" (8:23), mas no presente, como continuou falando, teria de suportar a amarga experiência de ser incapaz de alcançar a perfeição procurada, porque a lei que a exigia — a lei na qual, como homem regenerado, ele se deleitava (v. 22) — era impotente para levá-lo até ela. "De modo que, com a mente, eu próprio (isto é, no meu íntimo, o meu "eu" real) sou escravo da Lei (ordens) de Deus; mas, com a carne, da lei (princípio) do pecado" (7:25).

Paulo apresentou sua opinião e agora faz uma pausa. O que ele fez? Apresentou a seus leitores o que a lei diz a respeito dele mesmo, e desse modo leva-os a se lembrarem das declarações dessa mesma lei sobre eles. A lei não fala de privilégios nem de realizações, apenas de fracasso e culpa. Para os cristãos sensíveis, cientes de quanto Deus odeia o pecado, ser diagnosticado pela lei é, portanto, uma experiência desagradável e deprimente.

Escrever esses versículos obscureceu a alegria de Paulo, e como um bom pastor, sempre pensando no efeito de suas palavras, ele sabia que a leitura delas espalharia a melancolia. Ele, porém, não achava certo deixar os cristãos romanos contemplando o lado triste de suas experiências, sentindo como se estivessem novamente debaixo da lei. Ao contrário, ele acha necessário lembrar-lhes, de uma vez por todas, que o decisivo não é o que a lei diz sobre eles, mas o que o Evangelho diz.

Assim, por uma lógica tanto evangélica como pastoral — evangélica porque o Evangelho dá a última palavra; pastoral porque os pastores devem sempre ser "cooperadores para que tenham alegria" (2Co 1:24) —, Paulo agora retoma o tema da segurança cristã e o desenvolve o mais vigorosamente possível desde a "não-condenação" no começo até a "não-separação" no fim.

Romanos 8 não "tira os cristãos de Romanos 7" no sentido de apresentar uma possibilidade presente de não mais haver em nós imperfeições descobertas pela lei. Este foi o ponto salientado por Alexander Whyte3 quando falou a sua congregação: "Vocês não sairão do capítulo 7 de Romanos enquanto eu for seu ministro", e esse ponto é verdadeiro. Entretanto, no sentido de levar os cristãos à segurança dada por Deus no Evangelho e ensiná-los a se regozijar "na graça soberana sobre o pecado", como antídoto à desgraça de ser medido pela lei, Romanos 8 "tira totalmente os cristãos de Romanos 7".

O que Romanos 8 contém? Podemos dividi-lo em duas partes de tamanho desigual. Os primeiros treze versículos falam da suficiência da graça de Deus para tratar de uma série completa de categorias — a culpa e o poder do pecado (v. 1-9); a realidade da morte (v. 6-13), o terror de ser confrontado com a santidade divina (v. 15); fraqueza e desespero em face do sofrimento (v. 17-25); entorpecimento na oração (v. 26); a sensação de que a vida é sem sentido e sem esperança (v. 28-30).

Paulo apresenta sua opinião discorrendo longamente sobre os quatro dons divinos dados a todos que pela fé estão em "Cristo Jesus". O primeiro é justiça: "nenhuma condenação" (v. 1); o segundo é o Espírito Santo (v. 4-27); o terceiro é filiação — adoção na família divina da qual o Senhor Jesus é o primogênito (v. 14-17,29); o quarto é segurança, agora e na eternidade (v. 28-30). Este dote conjunto — um status, mais a dinâmica, a identidade e um salvo-conduto — é mais que suficiente para amparar o cristão independentemente do problema.

Então nos versículos 31 a 39, Paulo chama a atenção de seus leitores para que reajam ao que ele disse: "Que diremos, pois, diante dessas coisas?" (v. 31), e continua a expor a reação dele (que deveria também ser a nossa). À medida que ele o faz, seu tema muda ligeiramente e torna-se a suficiência do Deus da graça. O interesse passa do dom para o Doador, da idéia de libertação do pecado para a de Deus sendo para cada cristão o mesmo que foi para Abraão — "Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa!" (Gn 15:1).

Se os versículos 1 a 30 dizem: "Tu me diriges com o teu conselho, e depois me receberás com honras", então os versículos 31 a 39 dizem: "A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti. O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre" (Sl 73:24-26). É esta reação que exploraremos a seguir.

A APLICAÇÃO DAS DOUTRINAS

"Que diremos, pois, diante dessas coisas?" O nós aqui não é o plural de majestade, nem o literário; o Novo Testamento não conhece nenhum desses recursos. É na verdade uma fórmula inclusiva, exortativa, da pregação cristã, que quer dizer: "Eu, e espero que você e todos os crentes conosco". A idéia por trás de "O que diremos?" é: "Eu sei o que vou dizer, você concorda comigo?"

Pedindo resposta a seus leitores, Paulo os conclama primeiro a pensar. Ele quer que resolvam com ele como "essas coisas" influem na presente situação — em outras palavras, apliquem o fato a si mesmos. Embora não os conheça pessoalmente (nem nós que o lemos no século xxi), Paulo sabe que o que determina sua situação são dois fatores comuns a todos os cristãos verdadeiros em qualquer lugar e em qualquer tempo. O primeiro é o compromisso com toda a justiça. Romanos 8:31-39 admite que seus leitores estão sujeitos a Deus como "escravos da justiça" (6:18), e procuram executar a vontade de Deus sem meias medidas.

O segundo fator é a exposição a todas as pressões. Romanos 8:31-39 fala de dificuldades materiais e hostilidades humanas como coisas comuns para os cristãos, somos "nós", e não apenas Paulo, que enfrentamos "tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez (maior privação), ou perigo, ou espada" (v. 35). Como Paulo havia ensinado aos convertidos de sua primeira viagem missionária: "É necessário que passemos por muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus" (At 14:22). Muitas tribulações (não todas) podem talvez ser evitadas no momento (não para sempre), ajustando nossa vela espiritual, mas Paulo sabe que as pessoas dispostas ao que os puritanos chamavam "obediência universal" têm de nadar constantemente contra as correntes deste mundo e sempre estão sendo levados a sentir isso.

Assim Paulo imagina seus leitores; e nós nos reconhecemos em seu espelho. Nele se vê refletido o cristão preocupado com a lembrança de um lapso moral; o cristão cuja integridade o fez perder um amigo ou um trabalho; os pais cristãos desapontados com os filhos; a mulher cristã se adaptando à mudança; o cristão sentindo-se um estranho em casa ou no trabalho por causa de sua fé; a pessoa magoada pela morte de alguém que desejava ver vivo ou pelo prolongamento da vida de um parente senil ou pelo sofrimento de um filho que deveria ter sido abreviado; o cristão sentindo que Deus não cuida dele ou que a vida deveria ser menos difícil, e muitas coisas mais. Entretanto, são exatamente pessoas assim, em outras palavras, pessoas como nós, que Paulo está desafiando: "Que diremos (nós), pois, diante dessas coisas?". Pense, pense, pense!

O que Paulo deseja que nos aconteça? Ele quer que usufruamos nossas posses (para usar uma frase um tanto batida). As posses não usufruídas não são, como às vezes se pensa, técnicas de impecabilidade, mas a paz, a esperança e a alegria no amor de Deus, privilégios do cristão. Paulo sabe que o "pensamento emocional" debaixo das pressões da vida, isto é, a racionalização das reações, prejudica essas posses, daí o seu pedido para reagir, agora não contra aquelas coisas, mas contra "estas coisas" apresentadas nos versículos 1 a 30.



"Pense no que você sabe sobre Deus por meio do Evangelho", diz Paulo, "e aplique isso". Oponha-se mentalmente a suas emoções, argumente consigo procurando afastar-se da tristeza que elas espalham; desmascare a incredulidade que elas alimentavam; domine-se, fale consigo, esforce-se para tirar os olhos dos problemas e fixe-os no Deus do Evangelho, deixe que o pensamento evangélico corrija o pensamento emocional. Deste modo (segundo Paulo) o Espírito Santo que habita em nós, e nos assegura de nossa filiação e herança (v. 15), nos levará ao ponto em que a última conclusão triunfante de Paulo — "Pois estou convencido de que nem morte nem vida [...] nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (v. 38,39) — extrairá de nós a resposta: "E a mim também! Aleluia!", pois nesta resposta, como Paulo sabe, está o segredo da experiência dos "mais que vencedores", que é a vitória que vence o mundo e o céu dos cristãos na terra.

"Que diremos, pois, diante dessas coisas?" A resposta-modelo de Paulo consiste em quatro idéias, cada uma focalizada em outra pergunta. (As perguntas afinal fazem as pessoas pensar!) "Se Deus é por nós, quem será contra nós? [...] como não nos dará juntamente com ele (Cristo), e de graça, todas as coisas? [...] Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus?" (v. 31-33). A palavra-chave nas três primeiras perguntas é: por (grego, hyper, "em lugar de"): "Deus é por nós [...] seu próprio Filho [...] entregou por todos nós [...] Cristo [...] intercede por nós" (v. 31-34). O quarto pensamento é a conclusão dos três juntos: nada "poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor". Estudaremos cada uma dessas idéias em ordem.



Se Deus é por nós

1. "Se Deus é por nós, quem será contra nós?". A idéia é que nenhuma oposição poderá nos esmagar. Para expressar isso Paulo coloca diante de nós a suficiência de Deus como nosso soberano protetor e a determinação de sua aliança de compromisso conosco.

"Se Deus é por nós..." Quem é Deus? Paulo fala do Deus da Bíblia e do Evangelho, o Senhor Yahweh; "Senhor, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6), aquele a quem "o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido" (Jo 1:18). Este é o Deus que falou e anunciou sua soberania: "Eu sou Deus, e não há nenhum outro; eu sou Deus, e não há nenhum como eu. Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo o que me agrada" (Is 46:9,10).

Este é o Deus que mostrou sua soberania tirando Abraão de Ur, Israel do cativeiro do Egito e mais tarde da Babilônia, e Jesus do túmulo; e que mostra a mesma soberania todas as vezes que levanta um pecador da morte espiritual para a vida. Este é o Deus de Romanos, o Deus cuja ira se manifesta "contra toda impiedade e injustiça dos homens" (1:18), mas que, no entanto, "demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (5:8).

Este é o Deus que chama, justifica e glorifica aqueles que desde a eternidade "predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho" (8:29). Este é o Deus do primeiro dos 39 artigos de religião (anglicanos):4 o "único Deus, vivo e verdadeiro, eterno [...] de infinito poder, sabedoria e bondade; o Criador e Conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis". Este é (devo acrescentar) o Deus cujos caminhos temos estudado neste livro.

"Se Deus" — este Deus — é por nós — o que significa isto? As palavras por nós afirmam a aliança de compromisso. O objetivo da graça, como já vimos, é criar uma relação de amor entre Deus e os que crêem, o tipo de relacionamento para o qual fomos criados, e o laço de comunhão pelo qual Deus se une a nós é sua aliança. Ele impõe isso unilateralmente pela promessa e pela ordem. Vemo-lo fazendo isso quando fala a Abraão em Gênesis 17: "Eu sou o Deus todo-poderoso [...] estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência [...] para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes [...] guarde a minha aliança" (v. 1,7,9).

Gálatas 3 e 4 mostram que todos os que colocam sua fé em Cristo, quer gentios quer judeus, são incorporados por meio de Cristo à descendência de Abraão, que faz parte da aliança. Uma vez estabelecida, o concerto permanece, pois Deus cuida para que assim seja. Como Pai, Esposo e Rei (estes são os modelos de relacionamento humano em que seu relacionamento de aliança é apresentado), Deus é fiel a sua promessa e a seu propósito. A promessa em si mesma — de ser "seu Deus""ser o teu Deus" — é ampla, pois, quando revelada, prova conter em si todas as "grandiosas e preciosas promessas" (2Pe 1:4) com as quais Deus se comprometeu a suprir nossas necessidades. Este relacionamento de aliança é a base de toda a religião bíblica: quando os adoradores dizem "meu Deus" e Deus diz "meu povo" está sendo utilizada a linguagem da aliança, como também na expressão "Deus é por nós”.

O que se proclama aqui é a garantia divina de nos sustentar e proteger quando as pessoas e as circunstâncias nos ameaçam; cuidar de nós durante todo o tempo de nossa peregrinação na terra e levar-nos afinal para o regozijo total de si mesmo, não importa quantos obstáculos apareçam, no presente, estar no caminho que nos leva até lá. Esta simples afirmação "Deus é por nós" é na realidade uma das mais ricas e valiosas da Bíblia.

O que significa para mim o fato de poder dizer: "Deus está a meu favor"? A resposta é encontrada no salmo 56, em que a declaração "Deus está a meu favor" (v. 9) é a mola propulsora. O salmista foi colocado contra a parede: "Os meus inimigos pressionam-me sem parar; muitos atacam-me arrogantemente" (v. 2). No entanto, o conhecimento de que Deus está a seu lado traz uma nota de triunfo a sua oração. Em primeiro lugar, assegura-lhe que Deus não o esqueceu ou fez pouco caso de suas necessidades: "Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre (para preservar!); acaso não estão anotadas em teu livro (permanentemente registradas)?" (v. 8).

Segundo, dá-lhe a confiança de que "Os meus inimigos retrocederão, quando eu clamar por socorro" (v. 9). Terceiro, oferece a base para a confiança "que vence o pânico". "Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti [...] em Deus eu confio, e não temerei. Que poderá fazer-me o simples mortal?" (v. 3,4).

O que quer que a "carne" ou o "homem", como está no versículo 11, possa fazer ao salmista exteriormente, por assim dizer, no mais profundo sentido não poderá tocá-lo, pois sua vida real é a vida interior de comunhão com o Deus amoroso, e o Deus que o ama, não importa o que aconteça, lhe preservará a vida.

O salmo 56 também ajuda a responder à pergunta: Quem são as pessoas ("nós") favorecidas por Deus ("por")? O salmista apresenta três qualidades que em conjunto identificam o verdadeiro crente. Primeiro ele louva, e o que ele louva é a palavra de Deus (v. 4,10) — isto é, ele observa a revelação de Deus e o adora nela e de acordo com ela, em lugar de abandonar-se a suas descontroladas fantasias teológicas. Segundo, ele ora, e o desejo que impulsiona sua oração é a comunhão com Deus como objetivo e finalidade da vida "para que eu ande diante de Deus" (v. 13). Terceiro, ele paga — paga seus votos de fidelidade e gratidão (v. 12). A pessoa que louva, ora, agradece e é fiel tem em si as marcas do filho de Deus.

Qual foi, então, o propósito de Paulo ao fazer essa pergunta? Ele se opunha ao medo — o medo que o cristão tímido tem das forças agregadas contra si, as forças, por assim dizer, dele, dela ou deles. Paulo sabe que há sempre algumas pessoas, ou grupos delas, cuja ridicularização, desagrado ou hostilidade o cristão se sente incapaz de enfrentar. Paulo sabe que cedo ou tarde isso se torna um problema para todos os cristãos, mesmo para os que, antes da conversão, não se importavam com o que os outros pensassem ou dissessem a seu respeito. Ele sabe quão inibidor ou desolador esse medo pode ser. Mas ele também sabe a resposta para isso.

Pense, diz Paulo. Deus é por você, e você sabe o que isso significa. Agora veja quem está contra você, faça uma comparação entre os dois lados (note que a tradução "quem pode estar contra nós" é errada, e não atinge a idéia de Paulo; o que ele pede é a revisão realista da oposição humana e demoníaca, não a pretensão romântica de sua não-existência. A oposição é uma realidade: o cristão que não tem consciência dessa oposição precisa cuidar-se, pois está em perigo. Essa irrealidade não é exigência para o discipulado cristão, mas, ao contrário, evidência de fracasso).

Você "os" teme? Paulo pergunta. Não precisa mais temer, assim como Moisés já não precisava ter medo do faraó depois de Deus lhe haver dito: "Eu estarei com você" (Êx 3:12). Paulo adverte seus leitores para que façam o tipo de cálculo feito por Ezequias: "Não tenham medo nem desanimem por causa do rei da Assíria e do seu enorme exército, pois conosco está um poder maior do que o que está com ele [.-..] conosco está o Senhor, o nosso Deus, para nos ajudar e para travar as nossas guerras" (2Cr 32:7,8).

Augustus M. Toplady, que é o poeta da segurança cristã, como Isaac Watts é o poeta da soberania de Deus e Charles Wesley o da nova criação, expressa do seguinte modo a idéia da pergunta de Paulo:
Eu tenho um protetor soberano

Invisível, porém sempre ao meu alcance

Imutavelmente fiel para salvar

Poderoso para dirigir e ordenar.

Ele sorri e meu conforto aumenta

Sua graça como o orvalho cairá e muralhas de salvação rodearão a alma que ele se alegra em defender.5




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