O conhecimento de Deus J. I. Packer



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Compreenda isto, diz Paulo; firme-se nisso, deixe que essa certeza tenha impacto sobre você em relação ao que enfrenta nesse exato momento; ao conhecer a Deus como seu soberano protetor, irrevogavelmente comprometido com você pela aliança da graça, você encontrará tanto a libertação do medo quanto novas forças para a luta.

Nada de bom é negado

2. "Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?". A idéia expressa por Paulo nesta segunda pergunta é que nenhuma coisa boa finalmente nos será negada. Ele confirma essa idéia mostrando-nos a suficiência de Deus como nosso soberano benfeitor e a firmeza de sua obra redentora por nós.

Três comentários reforçarão o argumento de Paulo.

Note, primeiro, o que Paulo infere sobre o preço de nossa redenção: "não poupou seu próprio Filho". Para nos salvar Deus foi ao máximo. O que

5Terceiro verso do hino Inspirer and hearer of prayer, 1774.

mais ele poderia nos dar? Que mais tinha para dar? Não podemos saber quanto o Calvário custou para o Pai, assim como não podemos calcular o que Jesus sentiu ao provar o castigo por nossos pecados. "Não podemos saber, não podemos contar as dores que ele sofreu."6 Entretanto podemos dizer que se a medida do amor é o que ele proporciona, então nunca houve amor como o demonstrado por Deus aos pecadores no Calvário, nem qualquer outra dádiva de amor feita a nós custará tanto para Deus. Assim, se Deus já mostrou seu amor por nós quando, apesar de pecadores, Cristo morreu em nosso lugar (5:8), é de crer que, no mínimo, ele prossiga e nos dê além disso "todas as coisas". Muitos cristãos conhecem o temível sentimento de que Deus não tem mais nada para lhes dar além do que já receberam, mas o olhar atento para o Calvário desfará esse sentimento.

Isso não é tudo. Em segundo lugar, observe o que Paulo fala sobre a eficácia de nossa redenção. Deus, ele diz, "o entregou por todos nós" — e este fato é em si mesmo a garantia de que "todas as coisas" nos serão dadas, porque nos virão como resultado direto da morte de Cristo. Acabamos de falar que a grandeza da dádiva divina na cruz torna suas doações posteriores (se é que essas palavras são permitidas) naturais e prováveis. Entretanto, o que precisamos observar agora é a unidade do propósito salvífico de Deus ao tornar essas doações necessárias e, portanto, certas.

Neste ponto, o conceito sobre a cruz do Novo Testamento envolve mais do que se imagina. É indiscutível que os escritores apostólicos apresentam a morte de Cristo como fundamento e penhor da oferta de perdão feita por Deus, e recebemos esse perdão mediante o arrependimento e a fé em Cristo. Isso significa, porém, que da mesma forma que um revólver carregado é apenas potencialmente perigoso, já que é necessário puxar o gatilho para ser disparado, também a morte de Cristo resultou apenas na possibilidade da salvação, sendo obrigatório o exercício da fé por parte do homem para dispará-la, tornando-a real?

6Frase do segundo verso do hino There is a green Hill far away, de Cecil F. Alexander, Hymns for little children, 1848.

Se assim for, então não é estritamente a morte de Cristo que nos salva, não mais do que o fato de carregar o revólver o fará atirar: no sentido exato da palavra, nós nos salvamos mediante nossa fé; e, pelo que sabemos, a morte de Cristo poderia não ter salvo ninguém, se nenhuma pessoa cresse no Evangelho. Mas não é assim que o Novo Testamento vê isso. A idéia apresentada por ele é que a morte de Cristo realmente salvou a "todos nós" — todos, quer dizer, os que Deus já havia conhecido de antemão, chamou, justificou e no tempo determinado glorificará. Nossa fé, que do ponto de vista humano é o meio da salvação, para Deus é parte da salvação, e é tão direta e completamente dom divino como o são o perdão e a paz dos quais a fé se apossa.

Do ponto de vista psicológico, a fé é um ato que parte de nós, mas a verdade teológica a esse respeito é que se trata da obra de Deus em nós: tanto a fé quanto o novo relacionamento com Deus, como crentes, e todos os dons divinos desfrutados nesse relacionamento nos foram do mesmo modo assegurados pela morte de Cristo na cruz. A cruz não foi um fato isolado; ao contrário foi o ponto focai do plano eterno de Deus para salvar seus eleitos. Ela assegura e garante em primeiro lugar o chamado (o ato de levar a fé à mente, por meio do Evangelho, e ao coração, através do Espírito Santo), depois a justificação e finalmente a glorificação para todas as pessoas pelas quais Cristo morreu específica e pessoalmente.

Agora vemos por que o grego desses versículos nos diz literalmente: como não nos dará também com ele todas as coisas? É simplesmente impossível para ele não fazê-lo, pois Cristo e "todas as coisas" são um conjunto, partes do dom singular da vida eterna e da glória. A dádiva de Cristo a nós, para remover "a barreira do pecado" pelo sacrifício da substituição, abriu efetivamente a porta para que o restante nos seja dado. O propósito divino, salvífico, desde a eleição eterna até a glória final, é um só. É vital, tanto para nosso entendimento como para nossa segurança, que não percamos de vista os laços que unem suas várias partes e estágios. E isso nos leva ao próximo ponto.

Note, em terceiro lugar, que Paulo fala sobre as conseqüências de nossa redenção. Ele diz que Deus com Cristo nos dará "todas as coisas". O que isto abrange? Chamado, justificação e glorificação (que no v. 30 inclui todos os acontecimentos, desde o novo nascimento até a ressurreição do corpo) já mencionados, assim como as muitas facetas do ministério do Espírito Santo apresentadas por todo o capítulo 8 de Romanos. Aqui há na verdade muita riqueza, que poderia ser incrementada com base em outras partes das Escrituras.

Poderíamos, por exemplo, citar a garantia do Senhor de que quando os discípulos buscam primeiro "o Reino de Deus e a sua justiça, [...] todas essas coisas [suas necessidades materiais] lhes serão acrescentadas" (Mt 6:33) — uma verdade surpreendente confirmada por ele ao dizer: "Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos, por causa de mim e do evangelho, deixará de receber cem vezes mais, já no tempo presente, casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, e com eles perseguição [!]; e, na era futura, a vida eterna" (Mc 10:29,30).

Ou poderíamos nos demorar no pensamento de que "todas as coisas" significam tudo o que há de bom, não o que nós podemos pensar, mas o que Deus pode, à medida que a sabedoria infinita e o poder guiam sua generosidade.

Entretanto, chegaremos mais perto da idéia de Paulo se entendermos esta frase como motivada, da mesma forma que o "pois" do versículo 1, pelo tipo especial de lógica pastoral de Paulo, que contraria por antecipação as inferências errôneas de seus leitores. A conclusão errada que ele contraria no versículo 1 (e veremos que no v. 33 ele também o faz) era que os pecados de fraqueza do cristão podem interromper a aceitação do cristão por Deus. A conclusão errônea de que seguir a Cristo significa a perda de bens de valor, sem nenhuma compensação correspondente é aqui retratada, pois se isto fosse verdade, assemelharia o discipulado cristão aos partidários de Oliver Cromwell no livro 1066 and all that [1066 e todo o resto]:7 "corretos, mas repulsivos".

A garantia de Paulo de que com Cristo Deus nos dará "todas as coisas" corrige essa conclusão por antecipação, pois proclama a suficiência de Deus, nosso soberano benfeitor, cuja conduta para com seus servos não deixa base para nenhum sentimento ou temor de verdadeiro empobrecimento pessoal em qualquer estágio. Vamos falar mais sobre isso.

O cristão, como Israel no Sinai, enfrenta a ordem exclusiva do primeiro mandamento. Deus disse a Israel: "Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão. Não terás outros deuses além de mim" (Êx 20:2,3). Este mandamento, como todo o Decálogo, foi expresso na forma negativa porque se tratava de uma convocação para cessar o antigo modo de vida e fomentar o novo começo. A razão para isso foi o politeísmo egípcio, bem conhecido dos israelitas e dos cananeus, que seria enfrentado a seguir.

O politeísmo — adoração de muitos deuses — era universal no antigo oriente próximo. A idéia básica era a limitação do poder de uma divindade por outra. O deus do milho, ou da fertilidade, por exemplo, jamais poderia exercer as funções do deus da tempestade ou dos mares. A ação auxiliadora de um deus que habitasse em um santuário particular, gruta sagrada ou árvore limitava-se apenas à região onde estava; em outros lugares outros deuses eram soberanos. Portanto, não era suficiente adorar apenas um deus; era preciso, tanto quanto possível, estar em bons termos com todos eles ou incorrer na má vontade constante dos deuses negligenciados, com a conseqüente perda das boas dádivas possivelmente concedidas por eles.

Foi a pressão dessas idéias que anos depois tornou tão forte a tentação dos israelitas de adorar "outros deuses". Não há dúvida de que no Egito eles haviam aceitado o politeísmo, independentemente do grau de reverência aos deuses egípcios. Todavia, o primeiro mandamento tocou exatamente nesse modo de pensar e de agir. "Não terás outros deuses além de mim".



7Livro escrito por Walter Carruthers Sellar e Robert Julian Yeatman (publicado por Methuen & Company em 1930).

Observe agora como Deus se conduz quanto à questão de dividir a fidelidade entre ele e os "outros deuses". Ele expressou essa realidade perante Israel não em termos de teologia, mas de lealdade; um assunto não apenas da mente, mas do coração.

Em outras partes das Escrituras, especialmente em Salmos e Isaías, nós o encontramos falando explicitamente a seu povo sobre a loucura da adoração de deuses pagãos, pois, na realidade, eles não são deuses. Aqui, porém, ele não menciona esse ponto. Por enquanto ele deixa em aberto a questão da existência ou não de outros deuses. Ele não decretou o primeiro mandamento para decidir este assunto, mas para resolver a questão da lealdade. Deus não diz: "Não existem outros deuses além de mim para serem adorados", mas simplesmente: "Não tenha outros deuses além de mim". Baseia sua exigência no fato de ser o Deus deles, que os tirou do Egito. É como se dissesse: "Ao salvar vocês do faraó e de seus exércitos 'com forte mão e braço estendido', por sinais e maravilhas, pela Páscoa e pela travessia do mar Vermelho, dei-lhes um exemplo do que posso fazer por vocês, e mostrei de modo bastante claro que em qualquer lugar e tempo, contra qualquer inimigo, sob qualquer privação, posso protegê-los, cuidar de vocês e dar-lhes tudo o que constitui a verdadeira vida. Vocês não precisam de outro deus a não ser de mim. Portanto, não devem me trair buscando outro deus, devem servir apenas a mim e a ninguém mais".

Em outras palavras, no primeiro mandamento, Deus disse a Israel que o servisse exclusivamente, não apenas porque lhe devessem isso, mas também por ser ele digno de toda a confiança. Deviam se curvar diante de sua absoluta autoridade com base na confiança em sua suficiência total. É evidente que ambas as coisas precisam estar juntas, pois eles dificilmente o serviriam de todo o coração se, ao excluir os outros deuses, duvidassem da suficiência de Deus para suprir suas necessidades.

Agora, se você é cristão, sabe que também está sendo chamado a agir do mesmo modo. Deus não poupou seu Filho, mas o entregou por sua causa. Cristo ama você e se entregou para livrá-lo da escravidão do pecado do Egito espiritual e de Satanás. Jesus Cristo lhe apresenta o primeiro mandamento na forma positiva: "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento" (Mt 22:37,38). A exigência se apóia em seu direito de Criador e Redentor, e não se pode escapar dela.

Você conhece, como discípulo, o estilo de vida ao qual foi chamado por Cristo. Seu exemplo e ensinamento nos evangelhos (sem seguir mais adiante no livro de Deus) tornam a idéia perfeitamente clara. Você é chamado a viver como peregrino neste mundo, um simples residente temporário, viajando com pouca bagagem e desejoso, segundo o direcionamento de Cristo, de fazer o que o moço rico não quis: deixar as riquezas materiais e a segurança proporcionada por elas e conviver com a possibilidade de empobrecimento e perda de bens. Tendo seu tesouro no céu, você não precisa pensar em tesouros terrenos, nem na vida de alto padrão —Jesus pode lhe pedir a renúncia de ambos. Você é chamado a seguir a Cristo, carregando sua cruz.

O que isso quer dizer? Bem, as únicas pessoas no mundo antigo que carregavam cruzes eram criminosos condenados a caminho da execução. Eles, como o Senhor Jesus, eram obrigados a carregar a cruz sobre a qual seriam executados. Assim, o que Cristo quis dizer é que você deve assumir a posição de tal pessoa no sentido de renunciar a todas as expectativas sociais futuras e aprender a tomar como naturais o desprezo de seus companheiros e o olhar de desdém e aversão como se você fosse um estranho. É possível que muitas vezes você seja tratado desse modo por causa da lealdade ao Senhor Jesus Cristo.

Você é também chamado a ser uma pessoa mansa, nem sempre lutando por seus direitos, nem preocupado em reaver o que lhe pertence, nem entristecido por maus-tratos e desprezos (embora, se você for sensível, estas coisas possam feri-lo). Em vez disso, deve simplesmente entregar seus problemas a Deus e deixar que ele o defenda se e quando ele achar conveniente. Sua atitude para com seus companheiros bons e maus, agradáveis e desagradáveis, tanto cristãos como descrentes, deve ser a do bom samaritano para com o judeu na estrada, e isto quer dizer que seus olhos devem estar abertos para as necessidades espirituais e materiais dos outros. Seu coração deve estar pronto para cuidar das almas necessitadas quando as encontrar; sua mente precisa estar alerta para planejar o melhor modo de ajudá-las e sua vontade deve estar firmada contra a armadilha (na qual somos especialistas) de "transferir responsabilidades", livrando-nos de situações difíceis em que se impõe a ajuda mediante sacrifício.

Nada disso, evidentemente, é estranho a qualquer de nós. Sabemos que Cristo nos chama para esse estilo de vida, muitas vezes pregamos e falamos sobre ele, mas será que o vivemos realmente? Bem, veja as igrejas. Observe a falta de ministros e de missionários, especialmente de homens; observe a riqueza material nos lares cristãos; o problema de se angariar fundos para as sociedades cristãs; a presteza dos cristãos em todos os níveis de vida em reclamar de seu salário; a falta de preocupação com os idosos e solitários, ou mesmo com qualquer pessoa fora do círculo dos "verdadeiros crentes".

Somos bem diferentes dos cristãos do Novo Testamento. Nossa vida é estática e convencional, a deles não era. A idéia de "primeiro a segurança" não era obstáculo em seus empreendimentos, como acontece em nossos dias. Por viver o Evangelho de modo exuberante, não-convencional e desinibido, eles viraram o mundo de cabeça para baixo; mas nós, cristãos do século xxi, não podemos ser acusados de fazer algo semelhante. Por que somos tão diferentes? Por que comparados com eles parecemos apenas meios cristãos? De onde vêm o nervosismo, o medo, que não aceitam riscos e que tanto prejudicam o discipulado? Por que não estamos livres do medo e da ansiedade de modo a nos permitir seguir a Cristo em todos os sentidos?

Uma razão parece ser a de que, em nosso íntimo, tememos as conseqüências advindas de uma vida totalmente cristã. Esquivamo-nos da responsabilidade por outras pessoas por medo de não ter forças suficientes para suportá-las. Esquivamo-nos de aceitar certo estilo de vida que despreza a segurança material porque tememos o fracasso. Esquivamo-nos de ser mansos por temermos ser pisados, feridos se não nos mantiver-mos altivos, terminando a vida em meio a fracassos e desventuras. Esquivamo-nos de romper com as convenções sociais a fim de servirmos a Cristo, pois tememos que nossa estrutura de vida sofra um colapso, deixando-nos sem nenhum ponto de apoio.

São esses temores semiconscientes, essa ameaça de insegurança, em vez de outra recusa deliberada de enfrentar o custo de seguir a Cristo, que nos fazem recuar. Sentimos que os riscos do discipulado total são grandes demais para aceitá-los. Em outras palavras, não estamos certos da suficiência de Deus para suprir as necessidades dos que se lançam, de todo o coração, no mar profundo da vida não-convencional em obediência ao chamado de Cristo. Portanto, sentimo-nos obrigados a quebrar um pouquinho o primeiro mandamento, tirando parte de nosso tempo e de nossa energia do serviço a Deus para servir às riquezas. Isto, no fundo, pode ser o que está errado conosco. Temos medo de aceitar totalmente a autoridade de Deus por causa de nossa secreta incerteza quanto à sua suficiência para cuidar de nós.

Vamos agora dar o nome certo às coisas. O nome do jogo que estamos praticando é incredulidade, e a afirmação de Paulo: "Ele nos dará todas as coisas" permanece como um desafio para nós. O apóstolo nos diz que não devemos temer nenhuma perda nem empobrecimento irreparável; se Deus nos nega alguma coisa é apenas para dar outras que ele tem em mente. Será que aceitamos o conceito de que a vida de alguém consiste, pelo menos em parte, nas coisas que ele possui?

Isto apenas alimenta o descontentamento e bloqueia as bênçãos, pois a expressão "todas as coisas" de Paulo não significa excesso de bens materiais. A paixão por eles deve ser extirpada a fim de que "todas as coisas" possam tomar seu lugar. Essa expressão está relacionada com o conhecimento e com a alegria de Deus, e a nada mais. O significado de "ele nos dará todas as coisas" pode ser este: um dia veremos que nada — literalmente nada — que possa aumentar nossa eterna felicidade nos foi negado e que nada — literalmente nada — que possa reduzir essa felicidade nos foi tirado. Que maior garantia queremos?

Ainda assim, quando se fala em auto-renúncia inabalável a serviço de Cristo, estremecemos. Por quê? Por falta de fé, pura e simplesmente.

Tememos que Deus não tenha força ou sabedoria para cumprir o propósito estabelecido? Mas foi ele quem fez o mundo, quem o governa e quem ordena tudo o que acontece, desde o curso seguido pelo faraó e por Nabucodonosor até a queda de um pardal. Tememos que ele vacile e em seu propósito, e que — a exemplo de pessoas boas com boas intenções que às vezes falham com seus amigos — ele também possa falhar em cumprir suas boas intenções para conosco? Paulo, porém, afirma que "Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam" (Rm 8:28). Quem é você para imaginar-se a primeira exceção, a primeira pessoa a ver Deus vacilar e deixar de cumprir sua palavra? Você não percebe que desonra a Deus com tais temores?

Você duvida de sua constância, supondo de que ele tenha "aparecido", "evoluído" ou "morrido" no intervalo entre os tempos bíblicos e o nosso (todas essas idéias foram exploradas nos tempos modernos), e que agora ele não é mais o mesmo Deus santo da Bíblia? Entretanto, ela afirma: "Eu, o Senhor, não mudo" e "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre" (Ml 3:6; Hb 13:8).

Você tem evitado uma vida de riscos e custos para a qual sabe, no íntimo, que Deus o chamou? Não se detenha mais. Seu Deus é fiel e suficiente. Você nunca precisará de nada além do que ele pode dar, e seu suprimento, quer material quer espiritual, será sempre o bastante para o presente. O Senhor "não recusa nenhum bem aos que vivem com integridade" (Sl 84:11). "Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele mesmo lhes providenciará um escape, para que o possam suportar" (1Co 10:13). "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2Co 12:9). Pense nessas coisas e deixe que seus pensamentos afastem as dificuldades para servir ao Mestre.


Quem nos acusará?

3. "Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará?" (v. 33,34). A idéia expressa por Paulo na terceira questão é que nenhuma acusação poderá jamais nos deserdar. Ele a justifica apontando a suficiência de Deus como nosso soberano campeão e a determinação de seu veredicto justificador sobre nós.

Paulo escreveu os dois versículos anteriores para contrabalançar o medo que os cristãos têm da oposição e privação entre as pessoas; ele escreve este versículo contra o medo da rejeição divina. Há dois tipos de consciência doentia, a não suficientemente consciente do pecado e as sem idéia do perdão; e é a este segundo tipo que Paulo agora se dirige. Ele sabe com que facilidade a consciência de um cristão que esteja sob pressão pode se tornar mórbida; particularmente ao ler Romanos 7:24,25, o cristão é confrontado com a realidade do pecado e do fracasso contínuos.

Paulo sabe da impossibilidade da esperança cristã de alegrar o coração de alguém enquanto permanecem dúvidas a respeito de sua segurança como crente justificado. Assim, no estágio seguinte de sua descrição sobre "estas coisas", o apóstolo fala diretamente do medo (ao qual cristão nenhum é estranho) de que a presente justificação seja apenas provisória e que possa um dia ser perdida devido às imperfeições de nossa vida cristã.

Paulo em nenhum momento nega que os cristãos caiam e errem, às vezes gravemente, nem questiona o fato (como todo cristão verdadeiro sabe, e como suas palavras em Romanos 7 revelam) de que, depois de se tornar cristão, a lembrança dos pecados cometidos é muito mais dolorosa que qualquer recordação de um lapso moral, embora grave, antes dessa época. Entretanto, ele nega enfaticamente que qualquer erro possa agora prejudicar nossa situação de justificados. A razão, diz ele, é simples: ninguém está em posição de rever o veredicto divino. "Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus?" As palavras de Paulo reforçam o ponto de muitos modos.

Primeiro, ele traz à lembrança a graça da eleição divina. "Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus?" Lembre-se, diz Paulo, de que os que Deus justificou agora foram escolhidos desde a eternidade para a salvação final e, se sua justificação fosse em qualquer tempo revogada, o plano de Deus para eles seria inteiramente desfeito. Portanto, a perda da justificação é inconcebível.

Segundo, Paulo traz à lembrança a soberania do julgamento. "É Deus quem os justifica. Quem os condenará?" Se é Deus, Criador e Juiz de todos, quem pronuncia a sentença — isto é, quem declara que você está de acordo com sua lei e com ele mesmo, e não está mais condenado à morte por seus pecados, mas foi aceito em Cristo — e se Deus assim sentenciou apesar de conhecer todos seus erros, justificando-o explicitamente com base na compreensão clara de que você não era justo, mas ímpio (cf. Rm 4:5), então ninguém jamais poderá duvidar do veredicto, nem mesmo o próprio "acusador dos nossos irmãos" (Ap 12:10).

Ninguém pode alterar a decisão de Deus sem sua aquiescência. Há apenas um Juiz! Ninguém pode apresentar novas evidências de sua de-pravação que façam Deus mudar de idéia. Ele o justificou (por assim dizer) de olhos abertos. Ele conhecia o pior sobre você quando o aceitou por amor de Jesus; e o veredicto apresentado então era, e é, final.

No mundo bíblico, o julgamento era uma prerrogativa real, e esperava-se que o juiz real, sobre quem pesavam todos os poderes reunidos do legislativo, judiciário e executivo, uma vez determinados os direitos da pessoa, agisse no sentido de que ela os obtivesse. Assim o rei tornava-se o herói e protetor de quem havia perdoado no tribunal. Esta é a base dos pensamentos de Paulo neste ponto: o Senhor soberano que o absolveu tomará as medidas necessárias para manter a situação em que o colocou e para que você possa fruir dela inteiramente. Assim, perder o perdão é inconcebível.

Terceiro, Paulo lembra a eficácia da mediação de Cristo. É melhor que o texto com referência a Cristo seja lido como uma pergunta: "Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós?" Tudo o que Paulo diz serve para mostrar que a idéia de Cristo nos condenando é absurda. Ele morreu para nos salvar da condenação, levando a culpa de nossos pecados em nosso lugar. Ele ressuscitou e foi exaltado "como Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados" (At 5:31).




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