O conhecimento de Deus J. I. Packer


Agora, em razão de sua presença en-tronizada à mão direita do Pai, ele



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Agora, em razão de sua presença en-tronizada à mão direita do Pai, ele intercede por nós com autoridade, isto é, ele intervém em nosso favor a fim de certificar-se de que receberemos tudo aquilo por que ele morreu. Será que agora ele nos condenará? Ele, o Mediador, que amou e se deu por nós e cuja preocupação constante no céu é que desfrutemos todos os frutos de sua redenção? A idéia é grotesca e impossível.

Mais uma vez, portanto, parece inconcebível a perda da justificação. É isso o que o cristão confuso precisa dizer a si mesmo, como procedente de Deus. Mais uma vez é o poeta Toplady quem coloca as palavras certas em nossos lábios, em um hino intitulado Confiança em Deus:

Deus é por mim! Não temo O mundo e seu furor; Minha alma tem refúgio Na graça do Senhor. De Cristo sou amado, O meu Amigo é Deus. Que raivem inimigos: Valido sou dos céus. Declaro com firmeza Que Deus comigo vai; O eterno Ser supremo É meu amante Pai. Por toda parte sempre Me cerca o seu amor; Perigo algum me afasta Do excelso Protetor. É firme esta esperança No Salvador Jesus. Por ele assegurado, Jamais me falta a luz. É nele que eu exulto, Eu, frágil pecador: Seu sangue expiatório Tem divinal Valor. Se Deus me justifica Quem me condenará? Do grande amor de Cristo Ninguém me apartará. A morte, a vida, os homens, Tristeza e tentação, Debalde esperam todos Romper esta união.

Quem pode nos separar?

4. "Quem nos separará do amor de Cristo?". O auge do pensamento de Paulo nesta quarta pergunta é que nenhuma separação do amor de Cristo jamais sobrevirá. Ele comprova a sua afirmação ao colocar diante de nós Deus, o Pai e o Filho, como nossos soberanos amparadores, e ao deixar clara a determinação do amor divino em estabelecer nosso destino.

Estudamos o amor de Deus em um capítulo anterior e não precisamos nos demorar aqui nesse assunto. O ponto crucial, para o qual a argumentação de Paulo se volta, já é bem conhecido: considerando que o amor humano, com todo seu poder em outros sentidos, não pode assegurar a realização do que realmente deseja para a pessoa amada (como multidões de apaixonados infelizes e pais com corações partidos o sabem), o amor divino é uma função da onipotência e tem como núcleo o propósito poderoso de abençoar que não pode ser contrariado.

Essa resolução soberana se refere aqui tanto ao "amor de Cristo" quanto ao "amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (v. 35,39). A dupla descrição lembra que ambos, o Pai e o Filho (juntos com o Espírito Santo, como a parte anterior do capítulo mostrou), são um só no amor aos pecadores. Lembra ainda que o amor que escolhe, perdoa e glorifica é o amor "em Cristo Jesus", amor conhecido apenas daqueles de quem Cristo Jesus é "Senhor".

O amor a que Paulo se refere é o que salva. O Novo Testamento não permite a pessoa alguma supor que este amor divino possa envolvê-la a não ser que ela tenha ido a Jesus como pecadora e tenha aprendido a dizer-lhe como Tomé: "Senhor meu e Deus meu!" (Jo 20:28). No entanto, uma vez que a pessoa tenha se entregado inteiramente ao Senhor Jesus, diz Paulo, nunca mais sentirá a incerteza do personagem dos quadrinhos que murmura à medida que despetala a margarida: "Bem-me-quer, mal-me-quer". É privilégio do cristão saber com certeza que Deus o ama constantemente e que nada poderá, em tempo algum, separá-lo desse amor ou interpor-se entre ele e a fruição final de seus frutos.

Isto é o que Paulo proclama na triunfante declaração do versículo 38 em diante, na qual se ouve o batimento cardíaco da segurança cristã: "Pois estou convencido", "persuadido", "estou bem certo", "de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor". Aqui Paulo apresenta toda a suficiência de Deus de dois modos pelo menos.

Primeiro, Deus é suficiente como nosso protetor. Nada "será capaz de nos separar do amor de Deus" porque o amor de Deus nos segura firme. Os cristãos "mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação" (1Pe 1:5). O poder de Deus os mantém na crença e firmes pela fé. Sua fé não falhará enquanto Deus a sustentar. Você não é bastante forte para apostatar enquanto Deus estiver determinado a segurá-lo.

Em segundo lugar, então, Deus é suficiente como nosso objetivo. Os relacionamentos amorosos do ser humano — entre filhos e pais, de esposo e esposa, ou entre amigos — são fins em si mesmos, tendo valor e alegria próprios. O mesmo acontece com o conhecimento do Deus que nos ama, do Deus cujo amor é visto em Jesus. Paulo escreveu:

Considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo [...] Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos [...] mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus [...] esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

Filipenses 3:8-14

O propósito de nossa comunhão com Deus em Cristo é o aperfeiçoamento desta comunhão. Como poderia ser diferente quando se trata de uma comunhão de amor? Assim, Deus é suficiente em mais este sentido, pois conhecendo-o nos satisfaremos por completo, sem precisar de coisa alguma nem desejar nada além disso.

Mais uma vez Paulo se opõe ao medo — desta vez, do desconhecido, quer em termos de sofrimento sem precedentes (v. 35), de um futuro horrendo (" nem o futuro"), quer de forças cósmicas que não podemos medir nem dominar {altura e profundidade, no versículo 39, são termos astrológicos para designar forças cósmicas misteriosas). O ponto focai do medo é o efeito que essas coisas possam ter na comunhão da pessoa com Deus, superando tanto a fé quanto a razão, destruindo desse modo a sanidade e a salvação.

Em uma época como a nossa (não muito diferente da de Paulo neste aspecto!), os cristãos, especialmente os mais imaginativos, conhecem um pouco desse medo. É a versão cristã da Angst existencialista ante a perspectiva da destruição pessoal. Entretanto, diz Paulo, precisamos combater esse medo, pois a idéia é irreal. Nada, literalmente nada, pode nos separar do amor de Deus, "Em todas estas cousas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (v. 37).

Quando Paulo e Silas estavam presos no cárcere de Filipos, sentiram-se tão exultantes que à meia-noite começaram a cantar, e é assim que reage quem conhece o amor soberano de Deus quando se encontra em situações aflitivas. Mais uma vez é o poeta, em um hino chamado Confiança em Cristo, que encontra palavras para expressar tudo o que isso envolve:

Em ti confio, ó Cristo!

Morreste em meu lugar

Teu sangue precioso,

Na cruz a derramar.

Agora os meus pecados cobertos já estão

E gozo em tua morte perfeita redenção.

Justiça e santidade me dás aqui, Senhor;

Delícias e entendimento desfruto, em teu amor.

Aqui achei descanso, conforto em tua cruz,

E a minha vida inteira repousa em ti, Jesus.

Contigo lá na glória, Senhor, habitarei;

Teu rosto, face a face, feliz contemplarei.

E, junto ao coro de anjos, teu nome e teu louvor

Celebrarei contente, Jesus, meu Salvador!

Aprender a conhecer a Deus em Cristo

Chegamos ao ponto culminante de nosso livro. Propusemo-nos a saber o significado de conhecer a Deus. Descobrimos que o Deus que está "lá" para que o conheçamos é o Deus da Bíblia, o Deus dos romanos, o Deus revelado em Jesus, o Triúno do ensinamento cristão histórico. Concluímos que conhecê-lo começa com o saber a seu respeito, e assim estudamos seu caráter e atitudes revelados, e chegamos a conhecer algo de sua bondade e severidade, e de sua ira e graça. À medida que assim fazíamos, aprendemos a nos reavaliar como criaturas caídas, não fortes e auto-suficientes como supúnhamos ser, mas fracas, tolas e na verdade más, não nos dirigindo para a Utopia mas para o inferno, se a graça não interviesse.

Vimos também que conhecer a Deus envolve um relacionamento pessoal mediante o qual você se entrega a Deus com base na promessa feita por ele de se dar a você. Conhecer a Deus significa pedir sua misericórdia e descansar na promessa de perdoar os pecadores por amor de Jesus. Ainda mais, significa tornar-se discípulo de Jesus, o Salvador vivo que está "lá" hoje, chamando a si os necessitados como fez na Galiléia nos dias de sua vida na terra.

Conhecer a Deus, em outras palavras, envolve fé — assentimento, consentimento, compromisso —, e a fé se expressa em oração e obediência. "A melhor medida da vida espiritual", disse Oswald Chambers, "não é o êxtase, mas a obediência". O bom rei Josias "defendeu a causa do pobre e do necessitado [...] Não é isso que significa conhecer-me?', declara o Senhor" (Jr 22:16).

Agora, com base em todas as afirmações anteriores, finalmente aprendemos que a pessoa que conhece a Deus será mais que vitoriosa, e viverá em Romanos 8, exultando com Paulo na suficiência divina. E aqui temos de parar, pois isto é o máximo que a pessoa pode atingir no conhecimento de Deus deste lado da glória.

Aonde tudo isto nos leva? Exatamente ao centro da religião bíblica. Chegamos ao ponto em que a oração e a profissão de fé feitas por Davi no salmo 16 podem tornar-se nossas:

Protege-me, ó Deus, pois em ti me refugio. Ao Senhor declaro: 'Tu és o meu Senhor; não tenho bem nenhum além de ti' [...] Senhor, tu és a minha porção e o meu cálice [...] Bendirei o Senhor, que me aconselha [...] Sempre tenho o Senhor diante de mim. Com ele à minha direita, não serei abalado. Por isso o meu coração se alegra e no íntimo exulto [...] Tu me farás conhecer a vereda da vida, a alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita.

Podemos dizer então com Habacuque diante da ruína econômica ou outra privação qualquer: "Mesmo não florescendo a figueira, e não havendo uvas nas videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral, nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação. O Senhor, o Soberano, é a minha força" (Hc 3:17-19). Feliz é o homem que pode dizer conscientemente estas coisas!

Mais uma vez, chegamos ao ponto onde podemos aprender a verdade nas descrições da vida cristã em termos de "vitória" e "Jesus satisfaz". Usada de maneira simples, essa linguagem pode ser mal-interpretada, pois a "vitória" não é ainda o fim da guerra, nem a fé no Deus triúno pode ser reduzida à "jesuslatria". Entretanto, essas expressões são preciosas, pois mostram a ligação entre o conhecimento de Deus, de um lado, e o cumprimento humano, de outro. Quando falamos sobre a suficiência de Deus, este é o vínculo que queremos realçar, e este vínculo é a essência do cristianismo. Quem conhece a Deus em Cristo descobriu o segredo da verdadeira liberdade e da verdadeira humanidade. No entanto, seria preciso outro livro para falar sobre isso!

Finalmente: atingimos o ponto onde podemos e devemos estabelecer as prioridades de nossa vida. Por meio das atuais publicações cristãs você pode pensar que a coisa mais importante no mundo para qualquer cristão real ou potencial é a união da igreja, o testemunho social, o diálogo com outros cristãos e com religiões diferentes, refutar este ou aquele "ismo", desenvolver uma filosofia e uma cultura cristãs, ou qualquer outra coisa que você queira. No entanto, este nosso estudo faz a concentração nessas idéias parecer uma conspiração gigantesca no que diz respeito à falta de direção. É claro que não é isso; os assuntos são reais e devem ser tratados em seus devidos lugares. Entretanto, ao prestar atenção neles, é trágico observar que muitas pessoas hoje se desviem do que era, é, e sempre será a mais alta prioridade de todo ser humano: aprender a conhecer a Deus em Cristo.



"A teu respeito diz o meu coração: Busque a minha face! A tua face, Senhor, buscarei" (Sl 27:8). Se este livro levar algum de seus leitores a se identificar mais de perto com o salmista, ele não terá sido escrito em vão.



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