O conhecimento de Deus J. I. Packer



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Ser conhecido

Portanto, o que importa realmente, em última análise, não é o fato de que conheço a Deus, mas uma idéia muito mais ampla está subentendida — o fato de que ele me conhece. Estou gravado nas palmas de sua mão, e nunca estou longe de seu pensamento. Todo o meu conhecimento dele depende de sua iniciativa contínua de me conhecer. Eu o conheço porque ele me conheceu primeiro e continua a fazê-lo. Ele me conhece como amigo — alguém que me ama muito e cujos olhos e atenção jamais se afastam de mim. Por nenhum momento seu cuidado me faltará.

Estamos falando de um conhecimento significativo. Há um conforto indescritível — o tipo de conforto que nos estimula, seja dito, e não debilita — em saber que Deus está constantemente atento a mim com amor, e velando por mim para meu benefício. Há um alívio tremendo em saber que seu amor é profundamente realista. Cada ponto baseia-se no conhecimento prévio do que há de pior sobre mim, de modo que agora nada pode desapontá-lo a meu respeito — como acontece muitas vezes comigo, pois estou sempre me desiludindo sobre mim mesmo —, nem extinguir sua determinação de me abençoar.

Há, certamente, grande motivo de humilhação em pensar que ele vê tudo o que há de errado em mim que outros não vêem (e isto me alegra!), e que ele vê mais corrupção do que eu mesmo vejo em mim (o que, em sã consciência, é bastante). Há, entretanto, igualmente um grande incentivo para adorar e amar a Deus porque, por alguma razão inson-dável, ele me quer por amigo, e quer ser meu amigo, pois entregou seu Filho para morrer por mim a fim de cumprir esse propósito.

Não podemos desenvolver essas idéias aqui, mas sua simples menção já basta para mostrar como é importante saber não apenas que conhecemos a Deus, mas que ele nos conhece.

o único e verdadeiro Deus


O que a palavra idolatria lhe sugere? Selvagens prostrados diante de um poste-ídolo? Estátuas com faces cruéis nos templos hinduístas? Danças religiosas dos sacerdotes de Baal ao redor do altar levantado por Elias? Tudo isto clara e certamente é idolatria, mas precisamos pensar na existência de formas bem mais sutis de idolatria.

Veja o segundo mandamento. Ele diz "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso..." (Êx 20:4,5). Sobre o que este mandamento está falando?

Se ele estivesse isolado, seria natural supor sua referência à adoração de imagens de outros deuses além de Jeová — os ídolos da Babilônia, por exemplo, que Isaías ridicularizou (Is 44:9; 46:1), ou o paganismo do mundo greco-romano dos tempos de Paulo, sobre os quais ele escreveu em Romanos 1:23-25: "e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes, e répteis [...] Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador...".

Em seu contexto, porém, é pouco provável que o segundo mandamento esteja se referindo a este tipo de idolatria, pois se assim fosse só repetiria o pensamento do primeiro mandamento sem lhe acrescentar nada.

Assim, tomamos o segundo mandamento — como tem sido sempre feito — como indicativo do seguinte princípio (citando Charles Hodge): "... a idolatria consiste não só no culto a falsos deuses, mas também no culto ao verdadeiro Deus através de imagens".1

Na aplicação cristã isto quer dizer que não devemos fazer uso na adoração de nenhuma representação visual ou pictó-rica do Deus triúno, nem das pessoas da

Trindade. O mandamento não se refere ao objeto de nossa adoração, mas à maneira como esta é feita; nenhuma estátua ou figura daquele que adoramos deve ser usada como auxílio à adoração.

O PERIGO DAS IMAGENS

À primeira vista parece estranho que tal proibição esteja colocada entre os dez princípios básicos da religião bíblica, pois não vemos, de imediato, muita razão para isso. Que mal pode haver, perguntamos, se o adorador rodear-se de estátuas e quadros se eles o ajudam a elevar o coração a Deus?

Acostumamo-nos a tratar o tema sobre se tais objetos devem ser usados ou não, como uma questão de temperamento e gosto pessoal. Sabemos que muitas pessoas possuem crucifixos e figuras de Cristo no quarto. Dizem que olhar para esses objetos ajuda-as a focalizar os pensamentos em Cristo. Sabemos que muitas pessoas se julgam capazes de adorar com mais liberdade e facilidade em igrejas cheias desses ornamentos que em igrejas sem eles.

Bem, que há de errado nisso? Que mal esses objetos podem causar? Se as pessoas os acham realmente úteis, que mais há para dizer? Que propósito há em proibi-los? Diante dessa perplexidade, alguém poderá sugerir que o segundo mandamento se aplica apenas a representações imorais ou degradantes de Deus, tiradas dos cultos pagãos, e a nada



1Teologia sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1 239.

mais. Mas as palavras do mandamento eliminam tal suposição. Deus diz categoricamente: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem" para ser usada em adoração.

Essa afirmação categórica proíbe não apenas o uso de figuras e estátuas representando Deus como animal, mas também o uso de figuras e imagens que o representam como a mais elevada criatura que conhecemos — o homem. Proíbe também o uso de figuras e imagens de Jesus Cristo como homem, embora o próprio Jesus tenha sido e permaneça homem. Toda figura ou imagem é necessariamente produzida à "semelhança" do homem ideal, como o imaginamos, e portanto está sob a proibição imposta pelo mandamento.

Ao longo da história, os cristãos têm divergido a respeito da proibição do segundo mandamento, de vetar o uso de figuras de Jesus com propósitos didáticos e instrutivos (por exemplo, na escola dominical). Embora a questão não seja fácil de resolver, não há dúvida de que o segundo mandamento nos obriga a dissociar a adoração tanto pública como particular de qualquer figura ou estátua de Jesus, como de qualquer representação de seu Pai.

Neste caso, que razão há afinal para essa proibição tão ampla? Pela ênfase dada ao próprio mandamento com as assustadoras sanções ligadas a ele (proclamando o zelo de Deus, punindo com severidade os transgressores), supõe-se que deve ser de importância crucial. Mas será realmente?

A resposta é sim. A Bíblia mostra que a glória de Deus e o bem espiritual do homem estão diretamente ligados ao mandamento. Duas linhas de pensamento se nos apresentam e juntas poderão explicar amplamente por que este mandamento deve ser tão enfaticamente destacado. Estas linhas de pensamento não se referem ao auxílio real ou alegado das imagens, mas à verdade delas. São as seguintes:



1. As imagens desonram a Deus, pois obscurecem sua glória. A semelhança das coisas celestes (sol, lua, estrelas), terrestres (homens, animais, pássaros, insetos) e marítimas (peixes, mamíferos, crustáceos) não corresponde exatamente à semelhança de seu Criador. "A verdadeira imagem de Deus", escreveu Calvino, "não é encontrada em nenhuma parte do mundo; conseqüentemente [...] sua glória é profanada, e sua verdade corrompida pela mentira, sempre que ele nos é apresentado de forma visível [...]. Portanto, projetar qualquer imagem de Deus é por si só irreverência, porque mediante essa corrupção sua majestade é adulterada, e ele é representado de modo diferente da realidade".2

O ponto aqui não é apenas que a imagem representa Deus com corpo e membros, o que na realidade ele não tem. Se fosse apenas esta a base da objeção às imagens, as representações de Cristo não seriam erradas, mas a realidade é muito mais profunda. O cerne da objeção às figuras e imagens está no fato de ocultar inevitável e quase totalmente a verdade sobre a natureza pessoal e o caráter do Ser divino representado.

Para ilustrar: Aarão fez um bezerro de ouro (isto é, a imagem de um boi). Com a intenção de manter um símbolo visível de Jeová, o Deus poderoso que havia tirado Israel do Egito. Não há dúvida de que a intenção era honrar a Deus, criando um símbolo de sua grande força.

Entretanto não é difícil ver que esse símbolo é um insulto a Deus, pois que idéia de seu caráter moral, justiça, bondade e paciência poderia ser depreendida da observação de sua imagem retratada por um boi? A imagem de Aarão escondeu a glória de Jeová.

De modo semelhante, as impressões exteriores geradas pelo crucifixo obscu-recem a glória de Cristo, pois ofuscam sua divindade, a vitória na cruz e a realidade do Reino. Ele aponta apenas a fraqueza humana, porém esconde sua

força divina; representa a exatidão da dor, mas não mostra a realidade de sua alegria e força.

Em ambos os casos o símbolo perde valor pelo que deixa de transmitir. O mesmo acontece com as outras representações visuais da divindade.

2João Calvino, Harmony of the law, v. 2, http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom04.iii.i.i.html.

Não importa o que pensemos a respeito da arte religiosa do ponto de vista cultural, não devemos olhar para as representações divinas à procura de sua glória e de estímulo à adoração, pois na verdade sua glória jamais é encontrada nesses quadros. Por isso Deus acrescentou sobre si no segundo mandamento a referência "zeloso" e vingador de quem não lhe obedece, pois o "ciúme" de Deus, na Bíblia, é seu zelo em manter a própria glória, posta em jogo quando imagens são usadas na adoração.

Em Isaías 40:18, depois de haver declarado vivamente a grandeza incomensurável de Deus, a Escritura pergunta: "Com quem vocês compararão Deus? Como poderão representá-lo?". A indagação não espera resposta, apenas o silêncio reservado. Seu propósito é lembrar o absurdo e a impiedade de pensar que a imagem modelada necessariamente à semelhança de alguma criatura possa ter paridade com o Criador.

Esta não é a única razão pela qual somos proibidos de usar imagens na adoração.



2. As imagens enganam os homens ao projetar idéias falsas a respeito de Deus. A representação inadequada perverte nossos pensamentos sobre Deus e nos incute na mente erros de todos os tipos sobre seu caráter e sua vontade.

Ao representar a imagem de Deus na forma de bezerro, Aarão levou os israelitas a pensar nele como um Ser que podia ser adorado por meio de devassidão frenética. Conseqüentemente, a "festa dedicada ao Senhor" organizada por Aarão (Êx 32:5) transformou-se em orgia vergonhosa. Ainda mais, a história provou com fatos que o uso do crucifixo como auxílio à oração levou o povo a equiparar a devoção com a meditação sobre os sofrimentos corporais de Cristo. Isso os tornou mórbidos em relação ao valor espiritual da dor física, impedindo-os de conhecer o Salvador ressurreto.

Estes exemplos mostram como as imagens falsificaram a verdade divina na mente humana. Do ponto de vista psicológico é correto afirmar que, se os pensamentos estiverem constantemente focalizados na imagem ou figura do ser a quem as orações são dirigidas, você pensará nele e orará a ele conforme a representação da imagem. Assim, neste sentido você estará "se curvando" e "adorando" sua imagem. A medida que essa imagem falha em representar a verdade sobre Deus, você também deixará de adorá-lo em verdade. Esta é a razão pela qual Deus proíbe o uso de imagens e figuras como auxílio à adoração.

Imagens esculpidas e imagens mentais

A compreensão de que imagens e figuras de Deus afetam nossos pensamentos sobre ele sinaliza um campo mais avançado da aplicabilidade da proibição do segundo mandamento. Ele tanto nos proíbe de fazer imagens de Deus como de criá-las mentalmente. Imaginar pode ser uma infração tão real do segundo mandamento quanto idealizá-lo mediante o trabalho manual.

Ouvimos muitas vezes expressões como esta: "Eu gosto de pensar em Deus como o grande Arquiteto (Matemático, Artista)". "Eu não penso em Deus como juiz: gosto depensar nele simplesmente como Pai". Sabemos por experiência como essas expressões servem de prelúdio à negação de algum ensinamento bíblico a respeito de Deus. É necessário afirmar com a maior ênfase possível que quem se considera livre para pensar em Deus como gosta infringe o segundo mandamento. Na melhor das hipóteses, pode pensar em Deus apenas como homem — talvez o homem ideal ou um super-homem —, mas Deus não é igual a nenhum tipo humano. Embora tenhamos sido feitos a sua imagem, não podemos pensar em Deus de acordo com ela. Pensar em Deus desse modo é mostrar ignorância a respeito dele, e não conhecimento.

Toda teologia especulativa, baseada em arrazoados filosóficos e não na revelação bíblica, erra nesse ponto. Paulo nos conta onde termina esse tipo de teologia: "[...] o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana" (1Co 1:21b). Seguir a imaginação de alguém no campo da teologia é o modo de manter-se ignorante a respeito de Deus e tornar-se idólatra — o ídolo neste caso seria a falsa imagem mental de Deus criada pela especulação e imaginação humanas.

Tendo em vista este fato, o propósito positivo do segundo mandamento torna-se claro. Negativamente, é uma exortação à adoração e à prática religiosa que desonram a Deus e falsificam sua verdade. Positivamente, ele nos convoca a reconhecer que Deus, o Criador, é transcendente, misterioso e inescrutável, além do alcance de qualquer conjectura filosófica. Daí a convocação para nos humilharmos, ouvi-lo e aprender dele; assim, ele mesmo nos ensinará como é e como devemos pensar sobre ele.

"Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês", ele nos diz, "nem os seus caminhos são os meus caminhos [...] Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos" (Is 55:8,9). Paulo fala do mesmo modo: "Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor?" (Rm 11:33,34).

Deus não é parecido conosco. Sua sabedoria, seus objetivos, sua escala de valores e seu modo de proceder diferem tanto do nosso que não temos possibilidade de comparar nossos caminhos com os dele nem inferi-los pela analogia do homem ideal. Não podemos conhecê-lo a menos que ele se pronuncie e nos fale sobre si mesmo.

Na realidade, ele tem falado. Falou aos profetas e apóstolos — e por meio deles — e tem falado nas palavras e atos de seu Filho. Mediante sua revelação, disponível nas Sagradas Escrituras, podemos formar a noção verdadeira sobre Deus; sem essa revelação jamais conseguiríamos. Parece, portanto, que a força positiva do segundo mandamento está na exigência de formar nossos conceitos so-

bre Deus com base em sua santa Palavra, e em nada mais.

Pelo modo como foi enunciado, parece claro ser este o impulso positivo do mandamento. Tendo proibido a produção e a adoração de imagens, Deus se declarou "zeloso" ao punir não apenas os adoradores de imagens, mas todos os que o "odeiam", isto é, quem desobedece a seus mandamentos de forma geral.

Pelo contexto, seria natural e esperada a ameaça apenas aos idólatras; por que então a ameaça divina é generalizada? Certamente é para percebermos que quem faz imagens e as utiliza na adoração inevitavelmente extrai delas sua teologia, incluindo a negligência de todos os pontos da vontade de Deus revelada.

A mente que admite imagens não aprendeu ainda a amar e a ouvir a Palavra de Deus. Quem espera ser guiado a Deus por imagens feitas pelos homens, materiais ou mentais, por certo não leva a sério como deveria nenhuma parte de sua revelação.

Em Deuteronômio 4, o próprio Moisés interpreta a proibição de imagens na adoração exatamente desse modo, contrapondo a fabricação de imagens à atenção aos mandamentos e à palavra de Deus, como se ambas fossem mutuamente excludentes. Ele lembra ao povo que, embora tivessem visto sinais da presença divina no Sinai, não contemplaram nenhuma representação visível do próprio Deus, apenas ouviram sua palavra. Moisés os exorta a continuar vivendo como se estivessem ao pé da montanha, com a própria palavra de Deus ecoando-lhes nos ouvidos para dirigi-los, e sem nenhuma suposta imagem de Deus para distraí-los.

A idéia é clara. Deus não lhes apresentou nenhum símbolo visível de si mesmo, mas falou com eles; portanto, agora eles não deveriam procurar símbolos visíveis de Deus, mas simplesmente obedecer a sua Palavra. Caso se diga que Moisés estava com medo de que os israelitas tomassem emprestados modelos de imagens das nações idólatras a sua volta, nossa resposta é sem dúvida positiva. Este é exatamente o ponto: todas as imagens de Deus feitas pelos homens, sejam esculpidas ou mentais, são realmente emprestadas do mundo ímpio e pecador, e com certeza não estão de acordo com a santa Palavra do próprio Deus. Fazer uma imagem dele é buscar inspiração em recursos humanos e não em Deus; este é realmente o erro da produção de imagens.



Olhando para o verdadeiro Deus

A questão suscitada por esta linha de pensamento é: Até que ponto estamos guardando o segundo mandamento? Por certo não temos imagens de bezerros em nossas igrejas e talvez nem crucifixos em casa (embora possamos ter alguma figura de Cristo na parede — sobre a qual deveríamos pensar com cuidado redobrado). No entanto, mas temos certeza de que o Deus que adoramos é o Deus da Bíblia, o Jeová triúno? Adoramos o único e verdadeiro Deus? Ou nossa concepção dele demonstra a realidade de não crermos no Deus do cristianismo, mas em outra divindade professada por muçulmanos, judeus ou testemunhas de Jeová?

Você talvez se pergunte: Como posso saber? Bem, o teste é este: O Deus da Bíblia falou através de seu Filho. A luz do conhecimento de sua glória nos é dada na face de Jesus Cristo. Será que olho habitualmente para a pessoa e para a obra do Senhor Jesus Cristo como a revelação da verdade final sobre a natureza e a graça de Deus? Vejo todos os propósitos de Deus centralizados nele?

Se fui capacitado para ver isto e, na mente e no coração, ir até o Calvário e apropriar-me da solução nele encontrada, então posso saber que realmente adoro o Deus verdadeiro, que ele é o meu Deus e que já desfruto a vida eterna de acordo com a definição do próprio Senhor: "Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3).



Nota adicional (1993)

Ao longo dos anos tenho recebido ininterruptamente cartas afirmando que meu argumento sobre o uso de imagens com propósitos devocio-nais ou didáticos foi exagerado. Será?

Três objeções foram levantadas contra ele. Primeira, a adoração a Deus requer tanto a expressão estética mediante artes visuais quanto a expressão moral cristã por meio do amor familiar e do amor ao próximo. Segunda, a imaginação é parte da natureza humana criada por Deus e deve ser santificada e manifestada em vez de estigmatizada e suprimida em nossa comunhão com o Criador. Terceira, imagens (crucifixos, ícones, estátuas, quadros de Jesus) aumentam a devoção, que de outra forma seria enfraquecida.

O princípio da primeira objeção está correto, mas precisa ser aplicado com exatidão. A arte simbólica pode servir à adoração sob várias formas, mas o segundo mandamento proíbe todas as representações da imagem de Deus. Se pinturas, desenhos e estátuas de Jesus — o Filho encarnado — sempre foram considerados símbolos da perfeição humana pelas culturas que os produziram (pele branca para os anglo-saxões, pele negra para os africanos e pele amarela para os asiáticos ou o que quer que seja), em vez da aparência real de Jesus, não haveria problema. Entretanto, crianças e adultos mais simples podem considerá-los reais. Portanto, em minha opinião, seria prudente evitá-los.

O princípio da segunda objeção também está correto, mas a maneira bíblica de aplicá-lo é restringir nossa imaginação visual e verbal à apreciação da história e do maravilhamento diante dos atos divinos. Isso acontece nos Profetas, Salmos e no livro do Apocalipse, que não desafiam o segundo mandamento pela criação de imagens simbólicas ou aparentemente representativas de Deus.

Com relação à terceira objeção, o problema é que tão logo as imagens sejam tratadas como representações e não como símbolos, elas começam a corromper a devoção que pretendiam estimular. Dada a dificuldade de escapar dessa armadilha, a sabedoria aconselha a proceder da forma melhor e mais segura, isto é, não usá-las. Não vale a pena correr alguns riscos.





Deus encarnado
Não é de admirar que pessoas ponderadas achem difícil crer no Evangelho de Jesus Cristo, pois as realidades ali apresentadas ultrapassam o entendimento humano. Entretanto é triste ver que muitos tornam a fé mais difícil do que ela é, encontrando problemas nos lugares errados.

Tome, por exemplo, a expiação. Muitos encontram dificuldade nesse ponto e questionam: Como podemos crer que a morte de Jesus de Nazaré — um homem morrendo na cruz romana — tira os pecados do mundo? Como pode essa morte ter qualquer ligação com o perdão divino para nossos pecados hoje?

Considere ainda a ressurreição, que para muitos é uma pedra de tropeço. Eles perguntam: Como podemos crer que Jesus ressuscitou fisicamente da morte? Na verdade, é difícil negar que o túmulo estava vazio — mas certamente a dificuldade em crer que Jesus se levantou dele em um corpo incorruptível é ainda maior. Não será mais fácil acreditar na teoria de ressurreição temporária depois de um desmaio ou do roubo do corpo, em vez de na doutrina cristã da ressurreição?

Veja também o nascimento virginal, largamente negado pelos protestantes dos últimos dois séculos. As pessoas perguntam: como pode alguém crer em tal anomalia biológica?

E os milagres do Evangelho? Muitos acham neles uma fonte de dificuldades. Tendo como certo que Jesus realizou curas (é difícil duvidar que ele as tenha feito devido as evidencias, e de qualquer modo a historia conhece outros curandeiros), como é possível crer que ele tenha andado sobre as águas, alimentado cinco mil pessoas ou ressuscitado mortos? Histórias como essas são realmente inacreditáveis. Com estes e outros problemas similares muitas pessoas à margem da fé estão hoje profundamente perplexas.

O MAIOR MISTÉRIO

Na verdade, a dificuldade real, o mistério supremo com o qual o Evangelho nos confronta, não se encontra aqui afinal. Não está na mensagem da expiação da Sexta-feira Santa, nem na mensagem da ressurreição da Páscoa, mas no Natal com a encarnação de Deus. A afirmativa cristã realmente estonteante é que Jesus de Nazaré é Deus feito homem, que a segunda pessoa da Trindade tornou-se o "segundo homem" (ICo 15:47), determinando o destino humano, e o segundo representante da raça humana, e que ele tomou a forma humana sem perder a divindade, de modo que Jesus de Nazaré era tão verdadeira e totalmente divino quanto humano.

Aqui há dois mistérios pelo preço de um — a pluralidade de pessoas na unidade de Deus e a união da divindade e da humanidade na pessoa de Jesus. É aqui, no acontecimento do primeiro Natal, que jaz a mais profunda e impenetrável revelação do cristianismo. "A Palavra tornou-se carne" (Jo 1:14); Deus tornou-se homem; o Filho divino transformou-se num judeu; o Todo-Poderoso apareceu na terra como um bebê indefeso, incapaz de outra coisa qualquer além de ficar deitado, olhar, mexer-se e emitir sons. Alguém que precisou ser alimentado, trocado e ensinado a falar como qualquer criança.

Não houve ilusão nem embuste nisto. A infância do Filho de Deus foi real. Quanto mais se pensa sobre isso, mais surpreendente se torna. Nenhuma ficção é tão fantástica quanto a verdade da encarnação.

Esta é a verdadeira pedra de tropeço do cristianismo. É nela que fracassam judeus, muçulmanos, unitaristas, testemunhas de Jeová e muitos outros que se sentem desconfortáveis com as dificuldades mencionadas (nascimento virginal, milagres, expiação e ressurreição). Por causa da descrença, ou pelo menos da crença errada a respeito da encarnação, é que geralmente surgem dificuldades em outros pontos da história do Evangelho. Mas no momento em que a encarnação é compreendida, as outras dificuldades desaparecem.

Se Jesus tivesse sido apenas um homem piedoso e notável, seria imensamente difícil crer nós relatos do Novo Testamento sobre sua vida e obra. Mas se Jesus era a pessoa mencionada na Palavra eterna, o agente do Pai na criação, "por quem criou igualmente os mundos" (Hb 1:2; tb), não é de admirar que novos atos de força criadora marcassem sua vinda a este mundo, sua vida aqui e sua partida. Não é estranho que ele, o autor da vida se levante da morte. Se ele era realmente o Filho de Deus, é mais surpreendente sua morte que a ressurreição. "Todo este mistério! Morre o Imortal", escreveu Charles Wesley;1 mas não há mistério comparável na ressurreição do Imortal.

Se o imortal Filho de Deus realmente se submeteu à prova da morte, não é estranho que ela signifique salvação para a raça condenada. Uma vez que tenhamos certeza da divindade de Jesus, torna-se pouco razoável achar dificuldades em qualquer desses pontos, pois todas as peças se encaixam perfeitamente. A encarnação é em si mesma um mistério impenetrável, mas dá sentido a todo o conteúdo do Novo Testamento.



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