O conhecimento de Deus J. I. Packer



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Quem é esta criança?

Os evangelhos de Mateus e de Lucas contam com pormenores como o Filho de Deus veio ao mundo. Ele nasceu do lado de fora de um pequeno hotel, em uma aldeia pouco conhecida da Judéia, nos grandes dias do



1Ministro anglicano (1707-1788). Compositor de mais de seis mil hinos. Juntamente com seu irmão John, foram os fundadores de um movimento na Igreja da Inglaterra que daria origem, posteriormente, à Igreja Metodista. Muito conhecido em seu tempo por suas pregações, que o povo denominava "trovão e relâmpago".

Império Romano. Quando contamos essa história Natal após Natal, em geral a embelezamos, mas na realidade ela é rude e cruel. A razão de Jesus ter nascido fora do hotel é que ele estava lotado. Ninguém ofereceu uma cama para a mulher que estava prestes a dar à luz, de modo que ela teve seu nenê no estábulo e o deitou em uma manjedoura. A história é contada sem paixão e sem comentários, mas nenhum leitor atento deixa de se arrepiar com a imagem desumana e degradante.

Não é, entretanto, para tirar lições de moral que essa história foi registrada pelos evangelistas. Para eles o ponto principal não está nas circunstâncias do nascimento (a não ser como cumprimento da profecia, que seria em Belém; cf. Mt 2:1-6), mas em destacar a identidade da criança. A esse respeito o Novo Testamento revela dois pensamentos. Já os citamos, agora vamos estudá-los mais detalhadamente.

1. O bebê nascido em Belém era Deus. Mais precisamente e usando a linguagem bíblica, ele era o Filho de Deus, ou, como a teologia cristã normalmente diz, Deus, o Filho. Note: o Filho, não um Filho, como João se refere quatro vezes nos três primeiros capítulos de seu evangelho, a fim de que seus leitores entendam perfeitamente a singularidade de Jesus. Ele era o Filho unigênito de Deus (v. Jo 1:14,18; 3:16,18). De acordo com isso, a Igreja cristã confessa: "Creio em Deus Pai [...] e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor".2

Os apologistas cristãos às vezes se referem à afirmação de que Jesus é o unigênito Filho de Deus como se fosse a resposta final e total a todas as questões sobre sua identidade. Mas isso dificilmente se dá, pois a própria expressão suscita diversas perguntas e pode ser facilmente mal-in-terpretada. A afirmação "Jesus é o Filho de Deus" realmente evidencia a

2Estas palavras do Credo apostólico são proferidas em todos os cultos dominicais de várias denominações protestantes, como a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (Hinário luterano, Porto Alegre: Concórdia, 1994, 7. ed. p. 20, 38), a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Livro de oração comum, p. 60), a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (Manual do culto, São Paulo: Pendão Real, s/d, p. 34), a Igreja Evangélica Reformada no Brasil (Hinãrio: hinos, salmos, confissões, formas, Jongbloed (Holanda): Comissão de Música da IER, 1998, p. 775) e também nas perguntas aos batizandos do Manual do culto da Igreja Presbiteriana do Brasil (São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 11).

existência de dois deuses? O cristianismo é então politeísta como acusam judeus e muçulmanos? Ou a expressão "Filho de Deus" significa que Jesus, embora destacado entre as criaturas, não era divino no mesmo sentido que o Pai?

Nos dias da Igreja primitiva, os arianos defenderam essa idéia, e atualmente unicistas, testemunhas de Jeová, cristadelfos e outros ainda a adotam. Ela está certa? O que a Bíblia quer dizer quando chama Jesus de Filho de Deus?

Estas questões têm confundido algumas pessoas, mas o Novo Testamento na verdade não nos deixa dúvidas quan-

to à resposta. Elas foram levantadas e simultaneamente resolvidas pelo apóstolo João no prólogo de seu evangelho. Parece-nos que ele estava se dirigindo a leitores tanto de formação judaica quanto grega. Ele escreveu, como diz, a fim de que "creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenham vida em seu nome" (Jo 20:31).

Em todo seu evangelho, ele apresenta Jesus como o Filho de Deus. Entretanto, João sabia que a expressão "Filho de Deus" estava corrompida por associações errôneas na mente de seus leitores. A teologia judaica fazia uso dela como título para o esperado Messias (humano). A mitologia grega fala de muitos "filhos dos deuses", super-homens nascidos da união de alguma divindade com seres humanos. Em nenhum caso a expressão revelava a idéia de um Deus pessoal. Na verdade essa idéia era completamente excluída em ambas as concepções.

João queria certificar-se de que ao falar sobre Jesus como o Filho de Deus não seria mal-interpretado, ou seja, que dessem tais sentidos a suas palavras. Ele queria tornar bem claro desde o início que a filiação assumida por Jesus e consignada pelos cristãos era precisamente um caso de divindade pessoal, e nada menos que isso. Daí a razão de seu famoso prólogo (Jo 1:1-18), que é lido anualmente pela Igreja da Inglaterra como mensagem do dia de Natal, e ela está correta ao proceder



assim. Em nenhum lugar do Novo Testamento a natureza e o significado da filiação divina de Jesus são tão claramente explicados como aqui.

Veja com que cuidado e decisão João expõe seu tema. Ele não usa o termo Filho logo nas sentenças iniciais; ao contrário, fala antes da Palavra. Não haveria perigo de mal-entendido, pois os conhecedores do Antigo Testamento logo se lembrariam da referência. A Palavra de Deus no Antigo Testamento é sua expressão criativa, seu poder em ação no cumprimento de seus propósitos.

O Antigo Testamento descreve o pronunciamento de Deus, a real afirmação de seu propósito, como tendo força em si mesma para realizar o que havia proposto. Gênesis 1 relata como na criação "Disse Deus: 'Haja' [...] e houve [...]" (Gn 1:3). "Mediante a palavra do Senhor foram feitos os céus [...]. Pois ele falou, e tudo se fez" (SI 33:6,9). A Palavra de Deus é, portanto, Deus em ação.

João retoma essa ilustração e prossegue revelando-nos sete aspectos da Palavra divina:



  1. " No princípio era aquele que é a Palavra" (v. 1a). Aqui está mostrada a eternidade da Palavra. Ele não teve começo quando as outras coisas começaram; ele era.

  2. "Ele estava com Deus" (v. 1b). Aqui a Palavra tem personalidade. O poder que cumpre os propósitos de Deus procede de um ser pessoal, que está em relacionamento eterno de amizade viva com Deus (este é o significado da frase).

3- "... e era Deus" (v. 1b). Aqui está a divindade da Palavra. Embora pessoalmente distinto do Pai, ele não é criatura; é divino como o Pai. O mistério com que nos confrontamos neste versículo é o da distinção de pessoas na unidade de Deus.

4. "E todas as coisas foram feitas por intermédio dele" (v. 3). Eis a Palavra criando. Ele foi o agente do Pai em todos os atos da criação. Toda a criação foi feita por meio dele. (Aqui, incidentalmente,está mais uma prova de que ele, o agente, assim como o Pai, não pertencem à classe das coisas criadas.)



  1. "Nele estava a vida" (v. 4a). Vemos nesta frase a Palavra animando. Não há vida física na criação a não ser por meio dele. A Bíblia responde aqui a questão da origem e da continuidade da vida em todas as suas formas: a vida é dada e mantida pela Palavra. As coisas criadas não têm vida em si mesmas, mas na Palavra, a segunda pessoa da Divindade.

  2. "... e esta era a luz dos homens" (v. 4b). Aqui a Palavra revela. Concedendo vida, ele também dá luz. Equivale a dizer que todo ser humano recebe intimações de Deus apenas pelo fato de estar vivo em seu mundo, e isso, não menos que o fato de viver, é decorrência da ação da Palavra.

  3. "Aquele que é a Palavra tornou-se carne" (v. 14). Aqui está a encarnação da Palavra. O bebê na manjedoura em Belém não era outro senão a Palavra eterna de Deus.

E agora, tendo nos mostrado quem e o que a Palavra é — uma pessoa divina, autor de todas as coisas —, João faz uma identificação. A Palavra, ele nos diz, foi revelada pela encarnação, para ser o Filho de Deus. "Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai" (v. 14b). Essa identificação é confirmada no versículo 18, "O Deus Unigênito, que está junto do Pai". Assim João estabelece o ponto que desejava esclarecer completamente, o que queria dizer ao referir-se a Jesus como Filho de Deus. O Filho de Deus é a Palavra de Deus; vemos o que a Palavra é, e assim vemos o que o Filho é. Esta é a mensagem do prólogo.

Portanto, quando a Bíblia proclama Jesus como Filho de Deus, a afirmação é tomada como asserção de sua divindade pessoal. A mensagem do Natal se baseia no fato surpreendente de que o menino na manjedoura era Deus.

Mas isto é só a metade da história.
2. O bebê nascido em Belém era Deus feito homem. A Palavra se fez carne: uma criança, humana e real. Ele não deixou de ser Deus; não era menos Deus do que havia sido antes, mas passou a ser homem. Ele não era Deus com menos elementos de divindade, mas Deus e mais tudo o que havia tornado seu ao assumir a forma humana. O criador do homem sentia agora o que era ser homem. Ele que criou um anjo que se tornou o Diabo assumia

agora um estado no qual podia ser tentado — na verdade, não podia evitar ser tentado — pelo Diabo! A perfeição de sua vida humana só seria alcançada por meio do conflito com o Diabo. A epístola aos He-breus, elevando os olhos para sua glória ascendente, extrai grande conforto desse fato.

Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os apectos [...] Porque tendo em vista o que ele mesmo sofreu quando tentado, ele é capaz de socorrer aqueles que também estão sendo tentados. [...] Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.

Hebreus 2:17,18; 4:15,16

O mistério da encarnação é impenetrável. Não podemos explicá-lo, apenas formulá-lo. Talvez nunca tenha sido expresso melhor que nas palavras do Credo atanasiano: "... nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e homem; [...] Deus perfeito e Homem perfeito [...] Ainda que é Deus e Homem, nem por isso são dois, mas um único Cristo. Um só, não pela transformação da divindade em humanidade, mas mediante a recepção da humanidade na divindade".3

Nossa mente não pode ir além disto. O que vemos na manjedoura é, nas palavras de Charles Wesley: "Nosso Deus reduzido ao tamanho de um palmo Incompreensivelmente fez-se homem".

Incompreensivelmente. Seremos sábios se nos lembrarmos disto para evitar a especulação e adorar com alegria.

Nascido para morrer

O que devemos pensar sobre a encarnação? O Novo Testamento não nos incentiva a quebrar a cabeça com os problemas físicos e psicológicos que surgem, mas apenas a adorar a Deus pelo amor demonstrado. Foi um ato de grande condescendência e auto-humilhação. "Pois ele, que por natureza sempre foi Deus", escreveu Paulo, "não se apegou a seus privilégios como alguém igual a Deus, mas despiu-se de todas as vantagens, consentindo em ser escravo por natureza e nascer como homem. E visto claramente como ser humano, humilhou a si mesmo, levando uma vida de inteira obediência até a morte, e morte como a de um criminoso qualquer" (Fp 2:6-8; cph). E tudo isso para nossa salvação.

Os teólogos às vezes brincam com a idéia de que a encarnação foi planejada originária e basicamente com vistas ao aperfeiçoamento da ordem criada, e que seu significado redentor foi, por assim dizer, uma decisão divina posterior. No entanto, como James Denney4 corretamente insistiu: "O Novo Testamento nada fala de uma encarnação não relacionada com o sacrifício [...] Não é Belém, mas o Calvário o foco da revelação, e qualquer interpretação do cristianismo que ignore ou negue este fato o deturpa completamente e o desvia do foco".5

O significado crucial do berço de Belém reside na seqüência de passos que levaram o Filho de Deus à cruz do Calvário, e não podemos

3Hinário luterano, Porto Alegre: Concórdia, 7. ed., 1994, p. 89.

4Professor (1856-1917) e um proeminente estudioso do Novo Testamento. Teólogo da Igreja Unida Livre da Escócia.

5The death of Christ, 1902, p. 235.

compreender este fato até que o vejamos em seu contexto. Portanto, o texto-chave do Novo Testamento para interpretar a encarnação não é a declaração de João 1:14 "Aquele que é a Palavra tornou-se e viveu entre nós", mas a afirmação mais abrangente encontrada em 2Coríntios 8:9: "Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos".

Aqui se declara não apenas o fato da encarnação, mas também seu significado; o ato do Filho de Deus de assumir a forma humana nos é apresentado de modo a mostrar como sempre deveríamos vê-lo — não simplesmente como uma maravilha da natureza, mas, sim, uma maravilha da graça.

Feito menor que Deus?

Aqui, entretanto, devemos fazer uma pausa e considerar um uso diferente que alguns fazem de certos textos de Paulo já citados. Em Fili-penses 2:7, a expressão traduzida por Phillips (na cph) "despiu-se de todas as vantagens" significa literalmente "esvaziou-se". Será que isto, junto com a declaração de 2Coríntios 8:9 de que Jesus "se fez pobre", não lança alguma luz sobre a própria natureza da encarnação? Não estará implícita aí certa redução da divindade do Filho ao se tornar homem?

Esta é a chamada teoria da kenôsis, pois esta palavra em grego significa "esvaziar". A idéia por trás disso é que para assumir totalmente a forma humana, o Filho precisou renunciar a algumas de suas qualidades divinas, do contrário não poderia ter participado da experiência de estar limitado no tempo, espaço, conhecimento, consciência, que são essenciais à verdadeira vida humana.

Essa teoria foi formulada de diferentes maneiras. Alguns argumentam que o Filho abriu mão apenas de seus atributos metafísicos (onipotência, onipresença, onisciência), retendo os "morais" (justiça, santidade, verdade, amor); outros afirmam que ao se tornar homem renunciou a todos os poderes especificamente divinos e a sua autoconsciência da divindade, embora, no decurso da vida terrena, ele a tenha retomado.

Na Inglaterra, a teoria da kenôsis foi esboçada pelo bispo Gore6 em 1889, para explicar por que nosso Senhor ignorava o que os críticos ilustres do século xix pensavam saber a respeito do Antigo Testamento. A tese de Gore preconizava que ao se tornar homem o Filho desistira de seu conhecimento divino de todos os assuntos, embora mantivesse a infalibilidade divina plena em assuntos morais. Com relação a fatos históricos, entretanto, ele estava limitado às idéias correntes dos judeus, aceitando-as sem questionamento, desconhecendo que nem sempre estavam certas. Daí seu tratamento do Antigo Testamento como verbalmente inspirado e completamente verdadeiro, e o fato de ter atribuído o Pentateuco a Moisés e o salmo 110 a Davi, pontos que Gore julgava insustentáveis. Muitos concordam com Gore neste ponto, procurando uma justificativa para rejeitar a opinião de Cristo sobre o Antigo Testamento.

Mas a teoria da kenôsis não conseguia manter-se. Em primeiro lugar, por tratar-se de uma especulação à qual os textos citados não dão base alguma. Quando Paulo falou do Filho se esvaziando e se tornando pobre, o que ele tinha em mente, como podemos perceber pelo contexto de cada caso, não é desprezo pelos poderes e atributos divinos, mas a glória e a dignidade divinas: "[...] a glória que eu tinha contigo, antes que o mundo existisse", como o próprio Cristo afirmou em sua grande oração sacerdotal (Jo 17:5). As traduções de Phillips, a Autorizada e a nvi de Filipenses 2:7 são interpretações corretas do significado atribuído por Paulo. Não há base bíblica para a idéia de o Filho ter se despojado de qualquer aspecto de sua divindade.

Essa teoria origina também grandes e insolúveis problemas. Como podemos dizer que o homem Cristo Jesus era completamente Deus se lhe faltavam alguns atributos da divindade? Como podemos dizer que ele revelou perfeitamente o Pai se alguns dos poderes e atributos paternos não estavam nele? Mais ainda, se, como a teoria supõe, a verdadeira humanidade na terra era incompatível com a divindade não-reduzida,

6Charles Gore (1853-1932) foi ministro da Igreja da Inglaterra e bispo das dioceses de Worcester (1902-1905), Birmingham (1905-1911) e Oxford (1911-1919).

provavelmente a mesma coisa deve acontecer no céu, deduzindo-se que "o homem na glória" perdeu parte de seus poderes divinos por toda a eternidade. Se, como diz o n° 2 dos Trinta e nove artigos de religião anglicanos: "[As Naturezas] Divina e Humana se reuniram em uma Pessoa, para nunca mais se separarem",7 parece que nesta teoria é inegável a idéia de que a divindade do Filho perdeu alguns atributos irrecuperáveis na encarnação.

No Novo Testamento, porém, parece clara e enfática a onisciência, a onipresença e a onipotência do Cristo ressurreto (Mt 28:18,20; Jo 21:17; Ef 4:10). Mas se, em vista disto, os defensores da teoria da kenôsis poderiam negar a incompatibilidade destes atributos com a verdadeira humanidade no céu, que razão poderão apresentar para crer na existência dessa incompatibilidade na terra?

Ainda mais, o uso que Gore faz da teoria para justificar os erros atribuídos a parte dos ensinamentos de Cristo, enquanto mantém a autoridade divina no restante, não é possível. Cristo declarou em termos compreensíveis e categóricos que todos seus ensinamentos provinham de Deus: ele não era mais que o mensageiro do Pai. "O meu ensino não vem de mim mesmo. Vem daquele que me enviou", "mas falo exatamente o que o Pai me ensinou", "mas o Pai que me enviou me ordenou o que dizer e o que falar [...] Portanto, o que digo é exatamente o que o Pai me mandou dizer" (Jo 7:16; 8:28; 12:49,50). Ele se declarou porta-voz: "lhes falei a verdade que ouvi de Deus" (Jo 8:40).

Em face dessas afirmações, só dois caminhos se abrem: ou aceitamos

e atribuímos total autoridade divina a tudo o que Jesus ensinou, incluindo suas declarações de inspiração e autoridade do Antigo Testamento, ou as rejeitamos e discutimos a autoridade divina de seus ensinamentos em todos os sentidos. Se Gore quisesse realmente manter a autoridade dos ensinamentos morais e espirituais de Jesus, ele não deveria ter questionado a veracidade de seus ensinamentos sobre o Antigo Testamento. Se, entretanto, ele estava realmente determinado a discordar de Jesus sobre o Antigo Testamento, deveria ter sido coerente e percebido que se os ensinamentos de Jesus não podem ser aceitos como foram apresentados, não temos obrigação de concordar com Jesus a respeito de qualquer outra coisa.
7 Livro de oração comum, Porto Alegre: Igreja Episcopal do Brasil, 1950, p. 603.

Se a teoria da kenôsis for usada com propósito semelhante ao de Gore, esclarece até demais: ela prova que Jesus, tendo renunciado ao conhecimento divino, era falível em todos os pontos e que, ao afirmar serem seus ensinamentos provenientes de Deus, estava enganando tanto a si mesmo como a nós. Se vamos manter a autoridade divina de Jesus como mestre, de acordo com suas afirmações, devemos rejeitar a teoria de kenôsis, ou pelo menos rejeitar esta sua aplicação.

Na realidade, as próprias narrativas do Evangelho apresentam evidências contra a teoria da kenôsis. É verdade que o conhecimento de Jesus tanto sobre assuntos humanos como divinos era, às vezes, limitado. Ocasionalmente ele pedia alguma informação — "Quem tocou em meu manto?", "Quantos pães vocês têm?" (Mc 5:30; 6:38). Ele declara ignorar o dia marcado para a sua volta tanto quanto seus anjos (Mc 13:32). Mas outras vezes mostrou conhecimento sobrenatural. Ele sabia do passado sombrio da mulher samaritana (Jo 4:15). Sabia que quando Pedro fosse pescar, o primeiro peixe que pegasse teria uma moeda na boca (Mt 17:27). Sabia, sem que ninguém lhe dissesse, que Lázaro estava morto 0o 11:11-13).

Do mesmo modo, de vez em quando Jesus demonstra sua força sobrenatural ao realizar milagres, curando, alimentando e ressuscitando mortos. A impressão que se tem de Jesus nos evangelhos não é de abandono completo do poder e do conhecimento divinos, mas da utilização ininterrupta de ambos, podendo passar muito tempo sem fazer uso deles. Em outras palavras, a impressão que se tem não é tanto de redução da divindade, mas de capacidades divinas contidas.

O que podemos pensar desse retraimento? Em termos da verdade freqüentemente apresentada, em particular no evangelho de João, podemos pensar certamente na submissão completa do Filho à vontade do Pai. Parte da revelação do mistério da divindade é que as três pessoas permanecem em uma relação mutuamente estabelecida. O Filho aparece nos evangelhos não como uma pessoa divina independente, mas como alguém dependente, que pensa e age apenas sob a direção do Pai. "O Filho não pode fazer nada de si mesmo", "Por mim mesmo, nada posso fazer" (Jo 5:19,30). "Pois desci dos céus, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou" (Jo 6:38). "[...] nada faço por mim mesmo [...] sempre faço o que lhe agrada" (Jo 8:28,29).

É da natureza da segunda pessoa da Trindade reconhecer a autoridade da primeira e submeter-se de boa vontade a ela. É por isso que ele se declara Filho, e a primeira pessoa seu pai. Embora co-igual ao Pai em eternidade, poder e glória, é natural que ele faça a parte de Filho, e encontre prazer em cumprir a vontade do Pai. Do mesmo modo é natural à primeira pessoa da Trindade planejar e iniciar as obras da divindade e à terceira pessoa partir do Pai e do Filho para realizar a ordem conjunta. Assim, a obediência do Deus-homem ao Pai enquanto estava na Terra não era um relacionamento novo ocasionado pela encarnação, mas a continuação, no tempo, do relacionamento eterno entre o Filho e o Pai no céu. No céu como na terra, o Filho era completamente dependente da vontade do Pai.

Se isto é correto, então tudo fica explicado. Tanto as ações como o conhecimento do Deus-homem não eram independentes. Assim como não fez tudo o que podia ter feito, porque certas coisas não eram da vontade do Pai (Mt 26:53,54), ele conscientemente não sabia tudo o que deveria saber, mas apenas o que seu Pai queria que soubesse. Seu conhecimento, assim como todas suas atividades, estava ligado à vontade do Pai. Portanto, o motivo de desconhecer (por exemplo) a data de sua volta não era o fato de ele ter desistido do poder de saber todas as coisas na encarnação, mas porque o Pai não queria que ele tivesse esse conhecimento enquanto permanecesse na terra, antes da Paixão.

Calvino estava certo ao comentar Marcos 13:32 da seguinte maneira: "até que ele tivesse cumprido cabalmente sua missão (de mediador), essa informação não lhe foi dada, mas ele a recebeu depois da ressurreição".8 Assim, a limitação do conhecimento de Jesus deve ser explicada não em termos da forma da encarnação,

mas com referência à vontade do Pai para o Filho enquanto este se achasse na terra. Concluímos, portanto, que assim como há alguns fatos nos evangelhos que contradizem a teoria da kenôsis, não há neles fatos que não sejam explicados mais claramente sem ela.



Ele se tornou pobre

Percebemos agora o significado para o Filho de Deus de esvaziar-se e tornar-se pobre. Significa deixar de lado a glória (a kenôsis real); o retraimento voluntá-

rio do poder; a aceitação de dificuldades, isolamento, maus-tratos, malig-nidade, incompreensão; e finalmente a morte, envolvendo uma agonia tão grande — mais espiritual que física —, que sua mente quase entrou em colapso ao prospectá-la (v. Lc 12:50 e a narrativa do Getsêmani). Isso significou o amor mais sublime já sentido pelos indignos seres humanos, que puderam tornar-se ricos por meio da pobreza dele.

A mensagem do Natal anuncia a esperança para a humanidade arruinada — esperança de perdão, de paz com Deus, de glória — porque, pela vontade do Pai, Jesus Cristo tornou-se pobre e nasceu em um está-bulo, para que trinta anos depois pudesse ser levantado na cruz. Esta é a mais bela mensagem que o mundo já ouviu ou ouvirá.

Falamos muito sobre o "espírito do Natal", mas raramente com um significado maior que contentamento em termos de relações familiares. Mas o que dissemos torna claro que essa expressão tem na realidade um significado muito mais rico. Devia significar a reprodução na vida humana da disposição daquele que por amor a nós tornou-se pobre no primeiro Natal. O próprio espírito natalino devia caracterizar o cristão o ano inteiro.

8Commentary on Matthew, Mark and Luke, <http://www.ccel.org/ccel/calvin/ calcom33.ii.xix.html>.

É para nós vergonha e desonra que muitos cristãos hoje — serei mais específico: tantos cristãos fundamentalistas e ortodoxos — vaguem por este mundo no espírito do sacerdote e do levita da parábola do Senhor, vendo a seu redor as necessidades dos homens, mas (depois de um desejo piedoso e talvez de uma oração, pedindo que Deus supra as necessidades dessas pessoas) desviam os olhos e passam, sem parar, para o outro lado. Este não é o espírito do Natal. Não é também o espírito dos cristãos — e há muitos assim — cuja ambição na vida parece limitada a construir um belo lar de classe média, fazendo agradáveis amizades com cristãos de sua classe, criando os filhos nos corretos moldes cristãos de seu grupo e deixando que indivíduos das subclasses da comunidade, cristãos ou não, avancem sozinhos na vida.

O espírito natalino não resplandece no cristão esnobe, pois é o espírito das pessoas que, como seu Mestre, vivem inteiramente dedicadas ao princípio de se tornar pobres — gastando e sendo gastos — para enriquecer o próximo, dedicando tempo, esforço, cuidados e interesses para fazer o bem aos outros — e não apenas para seus amigos — conforme a necessidade do momento.

São poucos os que demonstram esse espírito na essência. Se Deus, por misericórdia, nos avivar, uma das coisas que ele fará será trabalhar esse espírito em nosso coração e em nossa vida. Se quisermos um despertamento espiritual em nós mesmos, uma das primeiras providências seria procurar cultivar esse espírito. "Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos" (2Co 8:9). "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus" (Fp 2:5). "Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando dilatares o coração" (Sl 119:32; tb).





Ele dará testemunho

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