O conhecimento de Deus J. I. Packer



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"Glória ao Pai", canta-se nas igrejas, "e ao Filho e ao Espírito Santo". Perguntamos: qual o significado disso? Louvamos a três deuses? Não, louvamos um único Deus em três pessoas.

Jeová! Pai, Espírito, Filho! Trindade oculta! Três em um!1

Este é o Deus adorado pelos cristãos — o Jeová triúno. O cerne da fé cristã em Deus é o mistério revelado da Trindade. Trinitas é uma palavra latina que significa Trindade. O cristianismo se apoia na doutrina da Trinitas, a Trindade, a tripersonalidade de Deus.

Algumas pessoas presumem que a doutrina da Trindade, justamente por inescrutável, seja uma velharia teológica perfeitamente dispensável. A prática certamente parece refletir essa idéia. O Livro de oração comum da Igreja Anglicana determina treze ocasiões durante o ano quando o Credo atanasiano, a afirmação clássica dessa doutrina, deve ser recitado em cultos públicos, mas é raro que seja usado nessas ocasiões. De forma geral, os clérigos anglicanos nunca pregam sobre a Trindade, a não ser, talvez, no Domingo da Trindade; os ministros que não fazem uso do calendário litúrgico e não observam esse domingo especial nunca falam sobre tal doutrina. O que diria o apóstolo João a respeito de nossa prática, se estivesse aqui hoje, pois de acordo com ele a doutrina da Trindade é parte essencial do Evangelho.



1Tradução das palavras iniciais da última estrofe do hino Father of heaven, escrito por Edward Cooper. A selection of psalms and hymns for public and private use (Uttoexter, Inglaterra: 1805).

Nas sentenças de abertura de seu evangelho, como vimos no último capítulo, João nos apresenta o mistério de duas pessoas distintas na unidade de Deus. Sem dúvida este é um dos pontos mais profundos da teologia, mas João nos leva diretamente a ele: "No princípio era aquele que é a Palavra. Ele está com Deus, e era Deus". A Palavra era uma pessoa em comunhão com Deus, e a Palavra era pessoal e eternamente divina. Ele era, como nos diz João, o único Filho do Pai. João define este mistério de um Deus em duas pessoas no início de seu Evangelho porque sabe ser impossível que alguém entenda as palavras e as obras de Jesus de Nazaré enquanto não apreender o fato de que Jesus é na verdade Deus, o Filho.



A TERCEIRA PESSOA

Não é apenas essa a intenção de João, porém, ao falar-nos da pluralidade de pessoas na divindade. Em sua narrativa das últimas conversas do Senhor com os discípulos, ele menciona como o Salvador, tendo explicado que lhes prepararia um lugar na casa do Pai, prometeu a dádiva de "outro Consolador" (Jo 14:16; ra).

Repare nessa expressão; ela é rica de significado. Indica uma pessoa também notável. Um Consolador— a riqueza da idéia é vista pela variedade de interpretação em diferentes traduções: "Conselheiro" (nvi), "Auxi-liador" (vfl), "Paráclito" (bj). A idéia de estímulo, apoio, assistência, cuidado e aceitação de responsabilidade pelo bem-estar alheio, tudo está implícito nessa palavra. Outro Consolador — sim, porque Jesus foi o primeiro, e a função do outro seria continuar essa parte de seu ministério. Conclui-se, portanto, que só podemos apreciar todo o significado das palavras de nosso Senhor ao se referir a "outro Consolador" quando nos recordamos de tudo o que ele mesmo fez relacionado ao amor, ao cuidado, à instrução paciente e à preocupação com o bem-estar de seus discípulos nos três anos de ministério pessoal com eles. "Ele cuidará de vocês", era o que Cristo realmente queria dizer, "do mesmo modo como eu o tenho feito". Na verdade, uma pessoa notável!

Nosso Senhor foi além, dando um nome ao novo Consolador. Ele é "o Espírito da verdade", "o Espírito Santo" (14:17,26). Este nome denota divindade. No Antigo Testamento, a Palavra de Deus e o Espírito de Deus são figuras paralelas. A Palavra de Deus é sua voz

todo-poderosa, o Espírito de Deus é seu alento todo-poderoso. Ambas as expressões se referem ao seu poder em ação. A palavra e o alento de Deus aparecem juntos na narrativa da criação. "O Espírito [alento] de Deus se movia sobre a face das águas. Disse [palavra] Deus [...] e houve [...]" (Gn 1:2,3).

"Mediante a palavra do Senhor foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro [alento] de sua boca" (Sl 33:6). João nos diz no prólogo que a Palavra divina aqui citada é uma pessoa. Nosso Senhor agora nos dá um ensinamento paralelo, com a finalidade de mostrar que o Espírito divino é também uma pessoa. E confirma seu testemunho da divindade deste Espírito pessoal chamando-o santo, como mais tarde faria com o "Pai santo" (17:11).

O evangelho de João nos mostra como Cristo relaciona a missão do Espírito com a vontade e o propósito do Pai e do Filho. Num ponto do evangelho, o apóstolo afirma que é o Pai que enviará o Espírito, como o Pai enviou o Filho (5:23,26,27). O Pai enviará o Espírito, diz nosso Senhor, "em meu nome" — isto é, como agente de Cristo, realizando sua vontade e agindo como seu representante e com sua autoridade (14:26). Assim como Jesus veio em nome do Pai (5:43) agindo como representante do Pai, falando suas palavras (12:49), fazendo sua obra (10:25, cf. 17:12) e testemunhando plenamente sobre quem representava, o Espírito viria em nome de Jesus para agir no mundo como seu agente e testemunha. O Espírito "da [para: "do lado do"] parte do Pai" (15:26), assim como anteriormente o Filho veio "do [para] Pai" (16:27). Tendo enviado seu Filho eterno para o mundo, o Pai agora o leva à glória e envia o Espírito para ficar em seu lugar.

Mas este é apenas um modo de ver o assunto. Em outro ponto, João menciona que o Filho enviará o Espírito "da parte do Pai" (15:26). Assim como o Pai enviou o Filho ao mundo, também o Filho enviará o Espírito (16:7). O Espírito é enviado pelo Filho e pelo Pai. Desse modo temos as seguintes formas de relacionamento:



  1. O Filho está sujeito ao Pai, pois foi enviado pelo Pai em seu (do Pai) nome.

  2. O Espírito está sujeito ao Pai, pois o Espírito foi enviado pelo Pai em nome do Filho.

  3. O Espírito está sujeito ao Filho e ao Pai, pois é enviado tanto por um como por outro. (Compare com 20:22: "E com isso, soprou sobre eles e disse: 'Recebam o Espírito Santo'".)

João assim registra a revelação do Senhor sobre o mistério da Trindade: três pessoas e um Deus, o Filho realiza a vontade do Pai, e o Espírito a vontade do Pai e do Filho. O aspecto ressaltado aqui é que o Espírito, que vem aos discípulos de Cristo "para estar com vocês para sempre" (14:16), vem para exercer o ministério de consolação em lugar de Cristo. Se antes o ministério de Cristo, o Consolador, era importante, o ministério do Espírito Santo, o Consolador, dificilmente será menos importante. Se a obra realizada por Cristo foi importante para a Igreja, também o é a obra do Espírito.
Divino, mas ignorado

Essa impressão, entretanto, não transparece por meio da leitura da história da Igreja, tampouco observando a Igreja de hoje.

É surpreendente ver como o ensino bíblico a respeito da segunda e da terceira pessoas é tratado de modo diferente. A pessoa e a obra de Cristo têm sido, e continuam sendo, assunto de constante debate na Igreja; todavia, a pessoa e a obra do Espírito Santo são constantemente ignoradas. A doutrina do Espírito Santo é a Cinderela das doutrinas cristãs. Poucos parecem estar interessados nela. Muitos livros excelentes já foram escritos sobre a pessoa e a obra de Cristo, mas o número de livros sobre o Espírito Santo que valem a pena ser lidos pode ser contado praticamente nos dedos de uma das mãos. Os cristãos não têm dúvidas a respeito do que Cristo realizou; sabem que ele redimiu a humanidade por meio de sua morte sacrificial, embora possam divergir entre si a respeito de tudo o que esteja envolvido nela. No entanto, o cristão comum está completamente no escuro acerca da atuação do Espírito Santo.

Alguns falam sobre o Espírito de Cristo como se estivessem falando do Espírito do Natal — como uma vaga pressão cultural que desperta a bondade e a religiosidade. Alguns pensam no Espírito como o inspirador de convicções morais dos descrentes, como Ghandi, ou do misticismo teosó-

fico de Rudolf Steiner. Mas muitos, talvez, não pensam de modo algum no Espírito Santo nem têm nenhuma idéia do que ele faz. Estão praticamente na mesma posição dos discípulos que Paulo encontrou em Éfeso:"... nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo" (At 19:2).

É absurdo o pouco interesse e conhecimento sobre o Espírito Santo demonstrado por quem professa tanta preocupação a respeito de Cristo. Os cristãos estão cientes da diferença que faria em suas vidas se, por acaso, nunca houvesse acontecido a encarnação ou a expiação. Sabem que então estariam perdidos, pois não existiria nenhum Salvador. Mas muitos cristãos não têm realmente idéia da diferença que faria no mundo a ausência do Espírito Santo. Não sabem de que modo isso os poderia afetar ou à Igreja.

Realmente alguma coisa está faltando aqui. Como podemos justificar a negligência com relação ao ministério do agente enviado por Cristo? Não é uma grande impostura dizer que honramos a Cristo quando ignoramos, e deste modo desonramos, quem Cristo nos enviou como seu representante, para tomar seu lugar e cuidar de nós como ele o faria? Será que não devemos nos concentrar mais no estudo do Espírito Santo do que temos feito até aqui?

A IMPORTÂNCIA DA OBRA DO ESPÍRITO

Mas a obra do Espírito Santo é realmente importante?

Importante! E tão importante que se não fosse pela ação do Espírito Santo não haveria Evangelho, nem fé, nem Igreja e nem cristianismo no mundo.

Em primeiro lugar: sem o Espírito Santo não haveria Evangelho nem Novo Testamento.

Quando Cristo deixou o mundo, entregou sua causa aos discípulos. Deu-lhes a responsabilidade de ir e fazer discípulos em todas as nações, "E vocês também testemunharão", disse-lhes no cenáculo 0o 15:27). "E serão minhas testemunhas [...] até aos confins da terra" foram suas palavras de despedida no monte das Oliveiras antes da ascensão (At 1:8). Esta foi a tarefa que lhes confiou, mas que tipo de testemunhas seriam? Não tinham sido bons alunos; conseqüentemente não conseguiam entendê-lo, e não compreenderam seus ensinamentos durante seu ministério na terra; como poderiam esperar melhorar agora, depois de sua partida? Não era certo que eles logo estariam misturando a verdade do Evangelho com uma série de equívocos bem-intencionados, e seu testemunho seria rapidamente reduzido a uma confusão distorcida e deturpada, embora possuíssem boa vontade?

A resposta a essa pergunta é negativa, porque Cristo enviou o Espírito Santo para lhes ensinar todas as verdades, livrando-os de erros, recor-dando-lhes as coisas aprendidas e revelando-lhes o restante do que o Senhor queria ensinar. "[...] o Conselheiro [...] lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse" 0o 14:26). "Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que tiver ouvido" — isto é, o Espírito lhes esclareceria a eles tudo o que Cristo lhe dissesse, do mesmo modo como Cristo lhes mostrara as coisas que o Pai queria que ele transmitisse (v. Jo 12:49; 17:8,14) — "e lhes anunciará o que está por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido" (16:12-14). Deste modo "ele testemunhará a meu respeito" — a vocês, meus discípulos, a quem o enviarei — "e" — equipados e capacitados pela sua atuação — "vocês também testemunharão [...]" (15:26,27).

A promessa consistia em que, ensinados pelo Espírito, esses primeiros discípulos seriam capacitados como porta-vozes de Cristo. À semelhança dos profetas que no Antigo Testamento começavam seus sermões com as palavras "Assim diz o Senhor Jeová", no Novo Testamento os apóstolos poderiam, com igual autoridade, afirmar em seus ensinamentos orais ou escritos "Assim diz o Senhor Jesus Cristo".

E foi o que aconteceu. O Espírito veio sobre os discípulos e testemunhou-lhes de Cristo e sua salvação de acordo com a promessa feita. Referindo-se às glórias desta salvação ("o que Deus preparou para aqueles que o amam"), Paulo escreve:

... Deus o revelou a nós por meio do Espírito [...] porém [...] recebemos [...] o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente. Delas também falamos [e ele poderia ter acrescentado escrevemos] não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito.

ICoríntios 2:9-13

O Espírito testificou aos apóstolos revelando-lhes toda a verdade e inspirando-os a transmiti-la com toda a fidelidade. Por essa razão temos o Evangelho e o Novo Testamento. Mas o mundo não teria os dois sem o Espírito Santo.

E isto não é tudo. Em segundo lugar, sem o Espírito Santo não haveria fé, nem novo nascimento — em resumo, não haveria cristãos.

A luz do Evangelho brilha, mas "O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes" (2Co 4:4), e o cego não reage ao estímulo da luz. Como Cristo explicou a Nicodemos: "Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo" (Jo 3:3; cf. v. 5). Falando por si mesmo e por seus discípulos a Nicodemos e a toda classe de pessoas religiosas não-regeneradas, à qual Nicodemos pertencia, Cristo continuou explicando que a conseqüência inevitável da não-regeneração é a descrença: "[...] vocês não aceitam nosso testemunho" (v. 11). O Evangelho não produziu neles convicção alguma; a incredulidade os mantinha irredutíveis. O que aconteceu então? Devemos concluir que é perda de tempo pregar o Evangelho, e que a evangelização deve ser riscada como um empreendimento sem esperança, fadado ao fracasso? Não, porque o Espírito habita com a Igreja para dar testemunho de Cristo. Aos apóstolos, como já vimos, ele se manifestou revelando e inspirando. Aos outros homens, durante séculos, ele se manifesta iluminando, abrindo os olhos vendados, restaurando a visão espiritual, capacitando os pecadores a perceber que o Evangelho é realmente a verdade divina, as Escrituras são a Palavra de Deus e Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus. "Quando ele [o Espírito] vier", o Senhor prometeu, "convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo" (16:8).

Não devemos pensar que podemos provar a verdade do cristianismo por meio de nossos argumentos; ninguém, a não ser o Espírito Santo, pela própria obra poderosa de renovação do coração endurecido, pode provar essa verdade. É prerrogativa soberana do Espírito Santo de Cristo convencer a consciência das pessoas sobre a verdade do Evangelho de Cristo; e a testemunha humana de Cristo deve aprender a basear sua esperança de sucesso não em brilhantes apresentações da verdade pelo ser humano, mas na poderosa demonstração da verdade pelo Espírito.

Paulo mostra o caminho. "Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria [...] A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana e sim no poder de Deus" (1Co 2:1-5). Os homens crêem quando o Evangelho é pregado porque o Espírito se manifesta desse modo. Mas sem o Espírito não haveria um só cristão no mundo.
A RESPOSTA APROPRIADA

Honramos o Espírito Santo ao reconhecer sua obra e confiar nela? Ou o desprezamos ao ignorar essa atuação e assim desonrar não só o Espírito, mas o Senhor que o enviou?



Com relação à fé: Reconhecemos a autoridade da Bíblia, o Antigo Testamento profético e o Novo Testamento apostólico que ele inspirou? Nós o lemos e ouvimos com a reverência e receptividade devidas à Palavra de Deus? Se não o fazemos, desonramos o Espírito Santo.

Com relação à vida: Aplicamos a autoridade da Bíblia e vivemos por ela, sem nos importar com o que possam dizer contra ela, reconhecendo que a Palavra de Deus tem propósito, não pode deixar de ser verdadeira e que ele manterá sua palavra? Se não o fazemos, desonramos o Espírito Santo, que nos deu a Bíblia.

Com relação ao testemunho: Lembramo-nos de que apenas o Espírito Santo pelo seu testemunho pode tornar autêntico o nosso? Esperamos que ele o faça e confiamos que ele o fará, demonstrando realmente nossa confiança, como Paulo o fez, abstendo-nos de demonstrações de sabedoria humana? Se não agirmos assim, desonraremos o Espírito Santo. Podemos ter alguma dúvida de que a atual esterilidade na vida da Igreja é o julgamento de Deus sobre nós pelo modo como temos desonrado o Espírito Santo? E, neste caso, que esperança podemos ter de sua remoção, até que aprendamos a louvar o Espírito Santo em nossos pensamentos, nossas orações e na prática? "Ele testemunhará..."

"Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas."

Parte II

Contemple

O Seu Deus



O Deus imutável
Aprendemos que a Bíblia é a Palavra de Deus — lâmpada para nossos pés e luz para o caminho. Aprendemos que nela encontraremos o conhecimento de Deus e sua vontade para nossa vida. Cremos nisso tudo, pois o que dizem é verdade. Tomamos então da Bíblia e começamos a sua leitura. Lemos constante e conscientemente, pois estamos ansiosos, queremos realmente conhecer a Deus.

Mas, à medida que lemos, ficamos mais e mais confusos. Embora fascinados, não nos alimentamos. Nossa leitura não nos ajuda, ficamos espantados e, para dizer a verdade, às vezes deprimidos. Descobrimo-nos questionando se vale a pena prosseguir com a leitura da Bíblia.



Dois mundos distintos

Qual é o problema? Bem, basicamente é este: A leitura da Bíblia nos introduz em um mundo bastante novo para nós — o do Oriente Próximo como ele era há milhares anos, primitivo e bárbaro, agrícola e sem mecanização. Nesse mundo se desenrola a ação da história bíblica. Nele encontramos Abraão, Moisés, Davi e os demais personagens e observamos como Deus lida com eles. Ouvimos os profetas denunciar a idolatria e ameaçar com a condenação do pecado. Vemos o Homem da Galiléia operar milagres, discutir com os judeus, morrer pelos pecadores, ressuscitar da morte e subir ao céu. Lemos as cartas dos mestres cristãos dirigidas contra erros estranhos que, tanto quanto sabemos, não existem hoje.

O interesse sentido é intenso, mas tudo nos parece muito distante. Tudo pertence àquele mundo, não a este; e sentimos como se olhássemos de fora para dentro do mundo bíblico. Somos simples espectadores, nada mais. Pensamos: "Sim, Deus fez tudo isso naquela época, e foi maravilhoso para o povo envolvido na história, mas como isso pode nos afetar hoje? Não vivemos no mesmo mundo. Como pode o registro das palavras e ações de Deus nos tempos bíblicos, a narrativa de seu trato com Abraão, Moisés, Davi e os outros, nos ajudar, a nós que vivemos no século xxi?".

Não podemos ver nenhum ponto de ligação entre esses dois mundos, e por isso somos tomados pelo pensamento recorrente de que o que lemos na Bíblia não se aplica a nós. E, como acontece muitas vezes, quando os fatos são emocionantes e gloriosos, a sensação de estar excluídos deles nos deprime consideravelmente.

Muitos leitores da Bíblia vivenciam tal sentimento, mas nem todos sabem como enfrentá-lo. Alguns cristãos parecem se conformar em seguir adiante, crendo realmente no registro bíblico, mas não procuram nem esperam para si tal intimidade e relação direta com Deus, como os homens da Bíblia tiveram. Tal atitude, muito comum hoje, é na verdade a confissão da incapacidade de ver uma solução para o problema.

Entretanto, como esse sentimento de distância da experiência bíblica de Deus pode ser superada? Muitas coisas poderiam ser ditas, mas o ponto crucial é que esse sentimento de distância é uma ilusão oriunda da busca, em lugar errado, da ligação entre nossa situação e a de vários personagens da Bíblia. É verdade que, em termos de espaço, tempo e cultura, tanto eles como a época histórica à qual pertencem estão bem distantes de nós. Mas a ligação entre eles e nós não se encontra nesse nível.

A ligação é o próprio Deus. Pois o Deus que eles tiveram é o mesmo Deus de hoje. Para deixar essa idéia mais precisa, podemos dizer que se trata exatamente do mesmo Deus, pois Deus não muda de modo algum. Assim, o que devemos salientar a fim de perder o sentimento de que há um abismo intransponível entre a posição dos personagens bíblicos e as pessoas de nosso tempo é a verdade da imutabilidade de Deus.

Não são dois deuses distintos

Deus não muda. Vamos ampliar este pensamento.

1. A vida de Deus não muda. Ele é "desde a antigüidade" (Sl 93:2) "o rei eterno" 0r 10:10), "incorruptível" (Rm 1:23; ra), "o único que é imortal" (1Tm 6:16). "Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus" (Si 90:2). A terra e o céu, diz o salmista, "perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Como roupas tu os trocarás e serão jogados fora. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim" (Sl 102:26,27); "eu sou o primeiro", diz Deus, "e sou o último" (Is 48:12).

As coisas criadas têm começo e fim, mas isso não se aplica ao Criador. A resposta que se deve dar à pergunta feita por uma criança: "Quem fez Deus?" é simplesmente que Deus não teve de ser feito, pois sempre existiu. Ele existe para sempre e é sempre o mesmo. Deus não envelhece, sua vida não aumenta nem diminui. Ele não ganha novas forças nem perde a que possui. Não amadurece nem se desenvolve. Ele não se torna mais forte nem mais fraco, nem mais sábio à medida que o tempo passa. "Ele não pode mudar para melhor", escreveu Arthur W. Pink1, "pois já é perfeito; e sendo perfeito não pode mudar para pior"2. A diferença primordial e fundamental entre o Criador e suas criaturas é que elas são



1Estudioso da Bíblia, nascido na Inglaterra (1886-1952). Foi pastor de algumas igrejas nos Estados Unidos e depois se transferiu para o ministério de ensino bíblico, tornando-se também escritor. Criou a revista chamada Studies in the Scriptures e escreveu artigos para ela até sua morte. Era um apreciador da teologia puritana, e pregava seus valores.

2The attributes of God, http://www.pbministries.org/books/pink/Attributes/attrib_07.htm. Publicado em português com o título Os atributos de Deus (São Paulo: pes).

mutáveis e sua natureza admite mudança, ao passo que Deus é imutável e nunca pode deixar de ser o que é. Isso é expresso no hino:

Crescemos e nos desenvolvemos como folhas na árvore, Murchamos e perecemos — mas nada muda a ti.3

Tal é o poder da própria "vida indissolúvel" (Hb 7:16) de Deus.



2. O caráter de Deus não muda. Tensão, choque ou lobotomia podem alterar o caráter de uma pessoa, mas nada altera o caráter de Deus. No curso da vida humana, os gostos, a perspectiva e o temperamento podem mudar radicalmente. Alguém gentil, equilibrado, pode se tornar amargo e irritadiço. Uma pessoa de bom gênio pode se tornar cínica e insensível. Mas com o Criador nada disso acontece. Ele nunca se torna menos verdadeiro, misericordioso, justo ou melhor do que sempre foi. O caráter de Deus é hoje, e sempre será, exatamente como era nos tempos bíblicos.

É instrutivo neste ponto trazer à lembrança as duas vezes em que Deus revelou seu "nome" no livro de Êxodo. O "nome" de Deus revelado é, por certo, mais que apenas uma etiqueta, trata-se da revelação do que ele é relativamente ao ser humano.

Em Êxodo 3 lemos como Deus anunciou seu nome a Moisés: "Eu sou o que Sou" (v. 14), expressão da qual Yahweh (Jeová, o Senhor) é na verdade uma forma resumida (v. 15). Esse "nome" não descreve a Deus, declara apenas sua existência e eterna imutabilidade; uma lembrança à humanidade de que ele tem vida em si mesmo e de que o que ele é agora será eternamente. Em Êxodo 34, entretanto, lemos como Deus "proclamou o seu nome: o Senhor" a Moisés relacionando as várias facetas de seu caráter santo, "Senhor, Senhor Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado. Contudo,

3Palavras retiradas do terceiro verso do hino Immortal, invisible, God only wise, de Walter C. Smith (Hymns of Christ and the Christian life, 1876).

não deixa de punir o culpado; castiga os filhos e os netos pelo pecado de seus pais, até a terceira e a quarta gerações" (v. 6 e 7).

Esta proclamação complementa a de Êxodo 3 — ao dizer-nos o que Yahweh é de fato — e esta complementa aquela ao expressar que Deus é para sempre o que naquele momento, há três mil anos, afirmou ser a Moisés. O caráter moral de Deus é imutável. Assim Tiago, numa passagem que trata da bondade e santidade de Deus, sua generosidade para com os homens e hostilidade para com o pecado, menciona a Deus como aquele "em quem não pode existir variação ou sombra de mudança" (Tg 1:17; ra).

3. A verdade de Deus não muda. As pessoas às vezes falam coisas que não querem dizer de fato apenas porque não conhecem a própria mente. Do mesmo modo, porque sua visão muda, não raro descobrem a incapacidade de sustentar o que disseram no passado. Todos nós às vezes temos de anular nossas palavras porque deixaram de expressar o que realmente pensamos; temos de engolir as palavras porque a realidade dos fatos as nega.

O discurso do ser humano é instável, mas isso não acontece com as palavras de Deus. Elas permanecem para sempre como expressões permanentemente válidas de sua mente e de seu pensamento. Nenhuma situação o induz a anular suas palavras; nenhuma mudança de opinião lhe requer correção de idéias. Isaías escreve: "Toda a carne é erva [...] seca-se a erva [...] mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente" (Is 40:6; ra). Do mesmo modo o salmista diz: "A tua palavra, Senhor, para sempre está firmada nos céus" (Si 119:89) e "[...] todos os teus mandamentos são verdadeiros [...] tu os estabeleceste para sempre" (v. 151,152). A palavra traduzida por "verdadeiros" no último versículo apresenta a idéia de estabilidade.

Ao ler a Bíblia, precisamos lembrar, portanto, que Deus ainda cumpre todas as promessas, ordens, declarações de propósitos e palavras de admoestação endereçadas aos cristãos do Novo Testamento. Elas não são relíquias de eras passadas, mas a revelação eternamente válida da mente divina para seu povo, em todas as gerações, enquanto este mundo existir. Assim como o Senhor mesmo disse "A Escritura não pode falhar" (Jo 10:35; ra), nada pode anular a verdade eterna de Deus.


4. Os caminhos de Deus não mudam. Deus lida com os pecadores como fazia na história bíblica. Ele ainda mostra sua liberdade e poder de distingui-los, agindo de modo que alguns ouçam o Evangelho enquanto outros não. Leva alguns a ouvi-lo e a se arrependerem, deixando outros na incredulidade. Ao agir assim, ensina aos santos que ele não deve misericórdia a ninguém e que é apenas por sua graça, e não por esforço deles, que os santos encontraram a vida.

Deus abençoa aqueles a quem dirige seu amor de modo que se tornam humildes, para que toda a glória possa ser apenas sua. Ele odeia os pecados de seu povo, e usa todo o tipo de sofrimento e dor, quer internos quer externos, para desviar da transigência e da desobediência o coração das pessoas. Ele busca a convivência com seu povo e envia-lhe tanto alegrias como tristezas a fim de que deixem de amar a outras coisas para se ligarem inteiramente a ele.

Deus ensina o cristão a valorizar os dons prometidos, fazendo-o esperar por eles e obrigando-o a orar com insistência para obtê-los, antes que ele os conceda. Assim, lemos nos registros da Bíblia sobre como Deus lidou com seu povo, e ainda atua. Seus objetivos e atos permanecem constantes. Nunca, em tempo algum, ele age em desacordo com seu caráter. Os caminhos do ser humano, sabemos, são pateticamente inconstantes, mas não são assim os de Deus.

5. Os propósitos de Deus não mudam. "Aquele que é a glória de Israel não mente nem se arrepende", declarou Samuel, "pois não é homem para se arrepender" (1Sm 15:29). Balaão dissera o mesmo: "Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa. Acaso ele fala, e deixa de agir? Acaso promete, e deixa de cumprir?" (Nm 23:19).

Arrepender significa rever uma opinião e mudar o plano de ação. Deus nunca faz isso; ele não precisa, pois seus planos são baseados no conhecimento e controle completos de todas as coisas no passado, presente e futuro, de modo que não pode haver emergências nem desenvolvimentos inesperados que o tomem de surpresa: "Uma de duas coisas levam a pessoa mudar de idéia e a rever seus planos: falta de precaução ao antecipar todos os acontecimentos ou falta de precaução ao executá-los. Mas por ser Deus tanto onisciente como onipotente nunca precisa rever seus decretos" (Arthur W. Pink).4 "Mas os planos do Senhor permanecem para sempre, os propósitos do seu coração, por todas as gerações" (Sl 33:11).

O que Deus executa no tempo ele já planejara desde a eternidade, e tudo o que planejou na eternidade realiza no tempo. Tudo o que, em sua Palavra, ele se comprometeu a realizar será infalivelmente consumado. Lemos, portanto, sobre a "natureza imutável do seu propósito", que levará à alegria completa da herança prometida, e sobre o juramento imutável pelo qual confirmou seu desígnio a Abraão, o arquétipo do cristão, tanto para a segurança deste como para a nossa também (Hb 6:17). Isso acontece com todos os planos anunciados por Deus. Eles não mudam. Parte alguma de seu plano eterno jamais mudará.

É verdade que existem alguns textos (Gn 6:6; ISm 15:11; 2Sm 24:16; Jn 3:10; Jl 2:13) que falam sobre o arrependimento de Deus. A referência em cada caso é sobre a anulação do tratamento prévio dispensado a certos homens, como conseqüência da reação deles a esse tratamento. Mas não há insinuação de que essa reação não tenha sido prevista, nem que Deus tenha sido tomado de surpresa, e que ela não estivesse estabelecida em seu plano eterno. Não há mudança alguma em seu propósito eterno quando ele começa a agir em relação a uma pessoa de maneira diferente.

6. O Filho de Deus não muda. Jesus Cristo "é o mesmo ontem, hoje e para sempre" (Hb 13:8), e seu toque ainda possui o antigo poder. Ainda permanece a verdade de que "ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus, pois vive sempre para

4The attributes of God, http://www.pbministries.org/books/pink/Attributes/attrib_07.htm>.

interceder por eles" (Hb 7:25). Jesus nunca muda. Este fato é forte consolação para todo o povo de Deus.




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