O conhecimento de Deus J. I. Packer



Baixar 1.07 Mb.
Página7/22
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   22

Devemos ser como eles

Onde está então o sentimento de distância e de diferença entre os cristãos dos tempos bíblicos e nós? Foi eliminado. Baseado em quê? Na imutabilidade divina. Amizade com ele, confiança em suas palavras, vida pela fé, permanência nas promessas de Deus, são essencialmente as mesmas verdades para nós hoje como o foram para os cristãos do Antigo ou do Novo Testamento. Esse pensamento nos traz conforto à medida que enfrentamos as perplexidades de cada dia; no meio de tantas mudanças e incertezas da vida neste novo milênio, Deus e seu Cristo permanência os mesmos — poderosos para salvar.

Mas esse pensamento também traz um desafio penetrante. Se nosso Deus é o mesmo Deus dos cristãos do Novo Testamento, como podemos justificar nossa satisfação com uma experiência de comunhão com ele em um plano de conduta cristã tão inferior ao deles? Se Deus é o mesmo, esta é uma questão que nenhum de nós pode sofismar.

A MAJESTADE DE DEUS


A palavra majestade vera do latim e significa grandeza. Quando atribuímos majestade a alguém, reconhecemos-lhe a grandeza e expressa-mos-lhe nosso respeito por isso; daí o tratamento de "sua majestade" a reis e rainhas.

Na Bíblia a palavra majestade é usada para expressar a idéia da grandeza de Deus, nosso Criador e Senhor: "O Senhor reina! vestiu-se de majestade; [...] O teu trono está firme desde a antigüidade; tu existes desde a antigüidade" (Sl 93:1,2); "Proclamarão o glorioso esplendor da tua majestade, e meditarei nas maravilhas que fazes" (Sl 145:5). Pedro, recordando sua visão da glória real de Cristo na transfiguração, disse: "nós fomos testemunhas oculares da sua majestade" (2Pe 1:16).

Em Hebreus, a expressão majestade é usada duas vezes substituindo a palavra Deus: Cristo, ao ascender, sentou-se "à direita da Majestade nas alturas", "à direita do trono da Majestade nos céus" (Hb 1:3; 8:1). Quando a palavra majestade é aplicada a Deus, declara-lhe sua grandeza e convida-nos à adoração. O mesmo acontece quando a Bíblia afirma que Deus está nas alturas e no céu: a idéia aqui expressa não é que Deus esteja distante de nós, no espaço, mas que ele está muito acima de nós em grandeza e, portanto, deve ser adorado. "Grande é o Senhor, e digno de todo louvor" (Sl 48:1); "Pois o Senhor é o grande Deus, o grande Rei [...] Venham! Adoremos prostrados e ajoelhemos" (Sl 95:3,6). O instinto cristão de confiança e adoração é muito estimulado pelo conhecimento da grandeza de Deus.

É, no entanto, exatamente esse conhecimento que falta em grande escala aos cristãos modernos; e essa é a razão de nossa fé tão frágil e nossa adoração tão débil. Somos filhos do nosso tempo e, embora acalentemos grandes idéias sobre o ser humano, via de regra temos poucas idéias sobre Deus. Quando alguém na igreja, sem pensar nas pessoas das ruas, usa a palavra Deus, raramente pensa no conceito da majestade divina. O best-seller Your God is too small [Seu Deus é pequeno demais]1 tem um título bem atual. Estamos em pólos diferentes em relação a nossos ancestrais evangélicos, embora usemos as mesmas palavras em nossa confissão de fé.

Quando começamos a ler Lutero,2 Edwards3 ou Whitefield,4 e ainda que aceitemos a mesma doutrina, em pouco tempo nos surpreenderemos pensando se realmente temos alguma familiaridade com o Deus poderoso conhecido por eles tão intimamente.

Hoje se dá grande ênfase à idéia de que Deus é pessoal, mas esta verdade é de tal modo enunciada que nos deixa a impressão de que ele é uma pessoa como nós — fraca, inconveniente, ineficaz e um pouco

1John Bertram Phillips, New York: Macmillan, 1961.

2Martinho Lutero (1483-1546) foi monge agostiniano, doutor em teologia e professor da Universidade de Wittenberg. Protestou contra a venda de indulgências para financiar a construção da Basílica de São Pedro em Roma, fixando um documento que continha 95 teses contra essa prática. Posteriormente excomungado pelo papa, queimou a Bula de excomunhão em praça pública, rompendo definitivamente com a Igreja Católica. Além de prolífico escritor, contribuiu para a uniformização da língua alemã ao publicar inicialmente o Novo Testamento e, mais tarde, a Bíblia toda nesse idioma.

3Jonathan Edwards (1703-1758). Teólogo e filósofo americano, foi presidente do Prince-ton College. É considerado ainda hoje a mente mais brilhante do cenário religioso dos Estados Unidos. Ministro congregacional, foi uma das principais figuras durante o Grande Despertamento. Suas pregações eram impactantes. Um dos sermões mais característicos de sua teologia e aplicação bíblica é Pecadores nas mãos de um Deus irado.

4George Whitefield (1714-1770) foi um pregador inglês que participou do Grande Despertamento nos Estados Unidos e do avivamento religioso de sua pátria. Era membro do Clube Santo, criado pelos irmãos Wesley. Ordenado pela Igreja da Inglaterra, foi posteriormente excluído dos púlpitos anglicanos devido a seu fervor religioso, passando a pregar ao ar livre. Foi um dos maiores contribuidores para a criação do posteriormente denominado movimento metodista.

patética. Mas não é esse o Deus da Bíblia! Nossa vida pessoal é finita, limitada em todas as direções: espaço, tempo, conhecimento e poder. Deus, porém, não tem limites. Ele é eterno, infinito e todo-poderoso. Ele nos tem nas mãos; mas nós nunca o temos em nossas. Semelhantemente a nós, ele é pessoal; mas, diferentemente de nós, ele é grande. Em todas as constantes evidências bíblicas sobre o interesse pessoal de Deus por seu povo, e da bondade, do carinho, da simpatia, da paciência e da terna compaixão demonstrada para com esse povo, as escrituras não nos deixam perder de vista a majestade e o ilimitado domínio de Deus sobre todas as criaturas.

Pessoal e majestoso

Para ilustrar esse ponto não precisamos ir além dos capítulos iniciais de Gênesis. Desde o começo da história bíblica, por meio da sabedoria da inspiração divina, a narrativa é feita de modo a inculcar em nós a dupla verdade: o Deus a quem somos apresentados é pessoal e majestoso.

Em nenhum outro lugar da Bíblia a natureza pessoal de Deus é expressa de modo tão vivido. Ele delibera consigo: "Façamos" (Gn 1:26). Ele conduz os animais até Adão para que este os nomeie (22:19). Ele passeia pelo jardim chamando por Adão (3:8). Ele faz perguntas às pessoas (3:11; 4:9; 16:8). Desce do céu para ver o que as pessoas estão fazendo (11:5; 18:20). Fica tão desgostoso com a fraqueza do ser humano que se arrepende de havê-lo feito (6:6).

Representações de Deus como estas são necessárias para nos trazer à mente o fato de que o Deus com o qual comungamos não é um mero princípio cósmico, impessoal e indiferente, mas uma Pessoa que vive, pensa, sente, age, aprova o bem, desaprova o mal e está o tempo todo interessado em suas criaturas.

Não vamos, porém, deduzir por essas passagens que o conhecimento e o poder de Deus sejam limitados, ou que ele está normalmente ausente, desconhecendo o que ocorre no mundo, a não ser quando vem especialmente para investigar. Esses mesmos capítulos destroem tais idéias ao nos defrontar com a grandeza de Deus, tão vivida quanto sua personalidade.

O Deus do Gênesis é o Criador que trouxe ordem ao caos, criou vida mediante sua palavra, fez Adão do pó da terra e Eva de sua costela (caps. 1 e 2). Ele é o Senhor de tudo o que criou. Amaldiçoou a terra e sujeitou a humanidade à morte física, mudando desse modo seu mundo original perfeito e ordenado (3:17). Inundou a terra como castigo, destruindo toda a vida, menos os que estavam na arca (caps. 6 a 8). Confundiu a linguagem das pessoas e espalhou os construtores de Babel (11:7). Destruiu Sodoma e Gomorra (aparentemente) por uma erupção vulcânica (19:24). Abraão o chamou com exatidão de "Juiz de toda a terra" (18:25), e corretamente adotou o nome dado a Deus por Melquisedeque: "Deus Altíssimo, Criador dos céus e da terra" (14:19-22).

Deus está presente em todos os lugares e observa tudo: o assassinato perpetrado por Caim (4:9), a corrupção da humanidade (6:5), a penúria de Hagar (16:7). Com razão Hagar o chamou El Roi— "o Deus que vê", e chamou a seu filho Ismael — "Deus ouve", pois Deus na verdade vê e ouve, e nada lhe escapa. Ele mesmo se denomina El Shaddai, "Deus Altíssimo", e todas suas ações ilustram a onipotência proclamada por seu nome. Ele prometeu a Abraão e a sua mulher um filho quando já tinham noventa anos, e repreendeu Sara por sua incrédula e

injustificada risada: "Existe alguma coisa impossível para o Senhor?" (18:14). Não é apenas em momentos isolados que Deus controla os acontecimentos. Toda a história está sob sua influência. A prova disso está sua predição detalhada do extraordinário destino que ele se propôs a realizar com a descendência de Abraão (12:1-3; 13:14-17; 15:13-21 etc). Em poucas palavras, assim é a majestade de Deus, de acordo com os primeiros capítulos de Gênesis.


Ilimitado

Como podemos formar uma idéia correta da grandeza de Deus? A Bíblia nos ensina que devemos tomar duas atitudes: a primeira é remover de nosso conceito de Deus limites que o tornariam pequeno. A segunda é compará-lo com poderes e forças que consideramos grandes.

Como exemplo do que está envolvido no primeiro passo, veja o salmo 139, no qual seu autor medita sobre a infinita e ilimitada natureza da presença, do conhecimento e do poder de Deus em relação ao ser humano. Estamos sempre na presença de Deus, diz o salmista. Você pode romper relações com as pessoas, mas jamais poderá fugir de seu Criador: "Tu me cercas, por trás e pela frente [...] Para onde poderei eu escapar do teu Espírito? Para onde poderei fugir da tua presença?". Se subir ao céu, se descer ao inferno (isto é, ao fundo da terra), ou se fugir para o fim do mundo, ainda assim não poderei escapar da presença de Deus — "lá estás" (v. 5-10). Nem a escuridão, que me esconde da vista humana, poderá me proteger do olhar divino (v. 11,12).

Como não há limites para sua presença comigo, tampouco há limites para seu conhecimento a meu respeito. Assim como nunca estou SÓ, também nunca deixo de ser notado: "Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto (todas as minhas ações e movimentos); de longe percebes os meus pensamentos (tudo o que se passa em minha mente) [...] todos os meus caminhos são bem conhecidos por ti (todos os meus hábitos, planos, idéias, desejos e a minha vida até agora). Antes mesmo que a palavra me chegue à língua (falada ou pensada), tu já a conheces inteiramente, Senhor" (v. 1-4).

Posso ocultar dos homens meu coração, meu passado e meus planos para o futuro, mas de Deus não posso esconder nada. Posso falar de tal modo que as pessoas ao meu redor formem uma idéia bem diferente do que sou na realidade, mas nada que eu diga ou faça pode enganar a Deus. Ele vê através de toda minha reserva e pretensão. Ele me conhece como sou realmente, melhor até que eu mesmo.

Um Deus de cuja presença e exame eu pudesse me esquivar seria uma divindade comum e pequena. Mas o Deus verdadeiro é grande e terrível justamente porque está sempre comigo e seus olhos estão sempre sobre mim. Viver torna-se uma questão impressionante quando se percebe que se passa todos os momentos da vida sob o olhar e na companhia do Criador onisciente e onipresente.

Isso, entretanto, não é tudo. O Deus que tudo vê é também poderoso, a fonte do poder que me foi revelado pela admirável complexidade de meu corpo, criado por ele. Diante desta realidade a meditação do salmis-ta se transforma em adoração: "Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas!" (v. 14).

Aqui, está, portanto, o primeiro passo para apreender a grandeza de Deus: compreender como sua sabedoria, sua presença e seu poder são ilimitados. Muitas outras passagens das Escrituras ensinam a mesma lição, especialmente Jó 38 a 41, capítulos nos quais o próprio Deus se vale da declaração de Eliú: "Deus está cercado de tremenda majestade" (37:22; ra), e coloca diante de Jó uma impressionante exposição de sua sabedoria e de seu poder na natureza. O Senhor então pergunta a Jó se ele pode igualar tal "majestade" (40:10) e o convence de que, se não lhe é possível fazê-lo, também não deveria atrever-se a buscar falhas em como Deus conduz seu problema, que também supera sua compreensão. Mas não podemos nos demorar mais neste ponto.



O INCOMPARÁVEL

Como exemplo do que está envolvido no segundo passo, vejamos o texto de Isaías 40:12 e os versículos seguintes. Aqui Deus fala a pessoas cuja disposição equipara-se à de muitos cristãos de hoje — desanimados, amedrontados, intimamente desapontados. Pessoas que por muito tempo lutam contra a maré de dificuldades. Pessoas que deixaram de crer que a causa de Cristo poderá prosperar outra vez. Agora veja como Deus, por meio de seu profeta, argumenta com eles.

Veja as obras que eu tenho feito, ele diz. Você poderia fazê-las? Alguém poderia? "Quem mediu as águas na concha da mão, ou com o palmo definiu os limites dos céus? Quem jamais calculou o peso da terra, ou pesou os montes na balança e as colinas nos seus pratos?" (v. 12). Você é bastante sábio e poderoso para fazer coisas como essas? Mas eu, Deus, o sou, ou não teria de modo algum feito este mundo. Eis o seu Deus!

Agora observe as nações, o profeta continua: as grandes forças nacionais à mercê de quem vocês acham que estão. Assíria, Egito, Babilônia — vocês têm medo dessas nações e se preocupam porque seus exércitos e recursos excedem muito ao que vocês possuem. Considerem, porém, como Deus se coloca em relação a essas forças poderosas tão temidas por vocês: "Na verdade as nações são como a gota que sobra do balde; para ele são como o pó que resta na balança [...] Diante dele todas as nações são como nada; para ele são sem valor e menos que nada" (v. 15,17). Vocês tremem diante das nações porque são muito mais fracos que elas, mas Deus é tão maior que as nações que elas não são nada para ele. Eis o seu Deus!

Agora observe o mundo. Considere seu tamanho, sua variedade e complexidade; pense nos mais de seis bilhões que o povoam e no vasto céu acima. Que figuras insignificantes você e eu somos em comparação ao planeta onde vivemos! Entretanto, que é todo este planeta em comparação com Deus? "Ele se assenta no seu trono, acima da cúpula da terra, cujos habitantes são pequenos como gafanhotos. Ele estende os céus como um forro, e os arma como uma tenda para neles habitar" (v. 22). O mundo nos faz pequenos, mas Deus torna o mundo pequeno. O mundo é o escabelo sobre o qual ele senta com segurança. Ele é maior que o mundo e tudo o que nele há; assim toda a fervilhante atividade de seus mais de seis bilhões de apressados habitantes não perturba mais que o chilreio e os pulos dos gafanhotos nos afetam durante o verão. Eis o seu Deus!

Veja agora em quarto lugar as grandes personalidades do mundo — os governantes cujas leis e políticas determinam o bem-estar de milhões; os pretensos dominadores do mundo, os ditadores e os construtores de impérios que têm em si o poder de lançar o mundo todo em guerra. Pense em Senaqueribe e Nabucodonosor; pense em Alexandre, Napo-leão, Hitler. Pense nos líderes atuais. Você supõe que são essas grandes personalidades que determinam, de fato, o andamento do mundo? Pense outra vez, pois Deus é maior que todos os grandes homens do mundo: "Ele aniquila os príncipes e reduz a nada os juizes deste mundo" (v. 23), ele é, como diz a versão inglesa do Livro de oração comum, "o único governador dos príncipes". Eis o seu Deus!

Mas ainda não terminamos. Observe, finalmente, as estrelas. Uma das experiências mais impressionantes que a humanidade conhece é observar as estrelas, sozinho, em uma noite clara. Nada proporciona maior sensação de algo remoto e distante; nada mais nos faz sentir tão fortemente a própria pequenez e insignificância. Nós, que vivemos na era espacial, podemos acrescentar esta experiência universal ao conhecimento científico dos atuais fatores envolvidos — milhões de estrelas, bilhões de anos-luz de distância. Nossas idéias vacilam, nossa imaginação não pode compreender. Ao tentar conceber a insondável profundidade do espaço, ficamos mentalmente estarrecidos e confusos.

Mas o que é isto para Deus? "Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelos nomes. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer!" (v. 26). Deus mostra as estrelas; ele as colocou no espaço; é seu Criador e Senhor; elas estão em suas mãos, sujeitas a sua vontade. Tal é seu poder e sua majestade. Eis o seu Deus!



Nossa resposta à majestade

Deixemos agora que Isaías nos fale da doutrina da majestade divina fazendo-nos as três perguntas que ele, em nome de Deus, fez aos israelitas desiludidos e abatidos.

1. '"Com quem vocês me vão comparar? Quem se assemelha a mim?', pergunta o Santo" (v. 25). Esta pergunta reprova idéias erradas a respeito de Deus. "Suas idéias a respeito de Deus são muito humanas", disse Lutero a Erasmo. Aqui muitos de nós nos desviamos. Nossos pensamentos a respeito de Deus não são suficientemente grandes; deixamos de reconhecer a realidade de seu poder e de sua sabedoria ilimitados. Como somos finitos e fracos, pensamos que, em alguns pontos, Deus também o seja, e achamos difícil crer de modo diferente. Pensamos em um Deus muito semelhante a nós. Corrija este engano, diz Deus; aprenda a reconhecer a majestade total de nosso incomparável Deus e Salvador.


  1. "Por que você reclama, ó Jacó, e por que se queixa, ó Israel: 'O Senhor não se interessa pela minha situação; o meu Deus não considera a minha causa?'" (v. 27). Esta pergunta censura os pensamentos errados a respeito de nós mesmos. Deus não nos abandonou, como jamais abandona ninguém a quem tenha dedicado seu amor; nem Cristo, o Bom Pastor, jamais perde a direção do rebanho. É falso e irreverente acusar a Deus de esquecer, desprezar ou perder interesse pela situação e pelas necessidades de seu povo. Se você tem se resignado com a idéia de que Deus o abandonou, busque a graça para se sentir envergonhado. Tal pessimismo derivado da incredulidade desonra profundamente nosso grande Deus e Salvador.

  2. "Será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto" (v. 28). Esta pergunta repreende nossa morosidade em crer na majestade de Deus. Ele nos humilhará por causa de nossa descrença. "Qual é o problema?", ele pergunta, "será que você está pensando que eu, o Criador, estou velho e cansado? Ninguém jamais lhe contou a verdade sobre mim?".

Muitos de nós merecemos esta censura. Como somos lentos em crer em Deus como Deus, soberano que tudo vê e é poderoso! Como fazemos pouco da majestade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo! Muitos de nós precisamos "colocar toda a esperança no Senhor", meditando sobre sua majestade até renovarmos nossas forças, gravando estas coisas no coração.



Deus é sábio
O que a Bíblia quer dizer ao afirmar que Deus é sábio? Nas Escrituras a sabedoria é uma qualidade tanto moral quanto intelectual, é mais que simples inteligência ou conhecimento, mais que esperteza ou astúcia. Para ser realmente sábio, no sentido bíblico, a inteligência e a habilidade de uma pessoa devem ser usadas para um fim útil. A sabedoria é o poder para ver e a propensão para escolher o alvo melhor e mais elevado, aliada aos meios corretos para atingi-la.

A sabedoria, na realidade, é o lado prático da bondade moral e, por isso, é encontrada em plenitude somente em Deus. Só ele é natural, inteira e invariavelmente sábio. "Sua sabedoria sempre a postos", diz com toda a verdade o hino sacro. Deus é sábio em tudo o que fez. A sabedoria, como diziam os antigos teólogos, é sua essência, assim como também o são poder, verdade, bondade — elementos que formam seu caráter.



Sabedoria: humana e divina

A sabedoria humana pode ser frustrada por fatores circunstanciais que fogem ao controle do homem sábio. Aitofel, o conselheiro desleal de Davi, deu um sábio conselho quando insistiu com Absalão para acabar de uma vez com Davi, antes que este se recuperasse do primeiro choque causado pela revolta do filho. Absalão, porém, tolamente seguiu outro caminho, e Aitofel, irritado e com o orgulho ferido, prevendo sem dúvida o sufocamento da revolta e incapaz de perdoar-se por ter sido tão tolo a ponto de se juntar a ela, foi para casa em desespero e se matou (2Sm 17).

A sabedoria de Deus, entretanto, não pode ser frustrada como aconteceu com o "eficiente conselho" (v. 14) de Aitofel, pois está unida à onipotência. Tanto o poder quanto a sabedoria são essência de Deus. A onisciência governando a onipotência, o poder infinito dirigido pela sabedoria também infinita, assim é basicamente a descrição do caráter divino na Bíblia: "Sua sabedoria é profunda, seu poder é imenso" (Jó 9:4); "Deus é quem tem sabedoria e poder" (12:13); "[...] grande é em força e sabedoria" (36:5; sbtb); "Tão grande é o seu poder [...] sua sabedoria é insondável" (Is 40:26,28); "[...] a sabedoria e o poder a ele pertencem" (Dn 2:20).

Essa mesma associação aparece no Novo Testamento: "Ora, àquele que tem poder para confirmá-los pelo meu evangelho [...] ao único Deus sábio [...]" (Rm 16:25,27). A sabedoria sem o poder seria patética, inútil; o poder sem a sabedoria seria meramente assustador; mas em Deus a sabedoria ilimitada e o poder infinito estão unidos, e isso o torna completamente digno de nossa mais total confiança.

A poderosa sabedoria de Deus está sempre ativa e jamais falha. Todas as obras de sua criação, providência e graça demonstram isso, e enquanto não virmos nelas sua sabedoria não teremos uma avaliação caneta. Não poderemos, entretanto, reconhecer a sabedoria de Deus a menos que conheçamos com que finalidade ele age. Muitos erram neste ponto. Entendem mal o que a Bíblia diz ao afirmar que Deus é amor (v. 1Jo 4:8-10). Pensam que ele planeja uma vida livre de problemas para todos, independentemente de sua condição moral e espiritual. Por isso concluem que qualquer situação dolorosa ou difícil (doença, acidente, dano, perda de trabalho, sofrimento de alguém querido) aponta uma falha na sabedoria ou no poder de Deus, ou ainda em ambos, ou que Deus não existe.

Essa avaliação acerca do propósito de Deus, porém, é um completo engano. A sabedoria divina não é, e nunca foi, prometida a fim de manter feliz este mundo caído ou confortar a impiedade. Nem mesmo aos cristãos foi prometida uma vida fácil, e sim o contrário. Ele tem outros objetivos para a vida neste mundo do que simplesmente torná-la fácil para todos.

O que Deus pretende, então? Qual é seu objetivo? O que ele almeja? Ao nos criar, seu propósito era que deveríamos amá-lo e honrá-lo, louvando-o pela complexidade maravilhosamente ordenada de seu mundo, usando-o de acordo com sua vontade, e assim desfrutar tanto do mundo quanto de Deus.

Embora o ser humano tenha caído, Deus não abandonou seu propósito inicial. Ele ainda planeja que uma grande multidão venha a amá-lo e honrá-lo. Seu objetivo supremo é levá-la a um estado em que o agrade inteiramente e o louve adequadamente, uma condição na qual Deus seja tudo para ela e juntos se regozijem continuamente na fruição do amor mútuo — as pessoas se regozijando no amor salvífico de Deus dedicado a elas por toda a eternidade, e Deus se regozijando no amor correspondido pela humanidade, manifestado nela por meio da graça mediante o Evangelho.

Esta será a glória de Deus, e a nossa glória também, em todos os sentidos expressos por esta palavra. Isso, porém, só será totalmente realizado no mundo futuro, no contexto da transformação de toda a ordem criada. Enquanto isso, entretanto, Deus trabalha continuamente para sua realização. Seus objetivos imediatos são conduzir cada homem e mulher a um relacionamento de fé, esperança e amor consigo, livrando-o do pecado e mostrando-lhe na vida o poder de sua graça, defendendo seu povo contra as forças do mal e espalhando por todo o mundo o Evangelho mediante o qual ele salva.

Para o cumprimento de cada parte desse propósito, o Senhor Jesus Cristo é fundamental, pois Deus fez dele não só o Salvador dos pecadores, em quem as pessoas devem confiar, como também o Senhor da Igreja, a quem devem obedecer. Vimos como a sabedoria divina foi manifestada na encarnação e na cruz de Cristo; acrescentaremos agora que é à luz desse complexo propósito delineado que veremos a sabedoria de Deus em seu trato com o ser humano.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   22


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal