O conhecimento de Deus J. I. Packer


Deus interage com seu povo



Baixar 1.07 Mb.
Página8/22
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   22

Deus interage com seu povo

As biografias contidas na Bíblia nos ajudarão aqui. Não há ilustrações mais claras da sabedoria divina organizando a vida humana que as encontradas nas narrativas das Escrituras. Tome, por exemplo, a vida de Abraão. Ele era capaz de trapacear vil e repetidamente, chegando a pôr em risco a castidade de sua mulher (Gn 12:10,20). Vemos assim claramente que ele, por natureza, era um homem de pouca coragem moral e excessivamente preocupado com a segurança pessoal (Gn 12:12,13; 20:11). Era também sensível à pressão; por insistência da esposa teve um filho com a escrava Hagar, e quando Sara reagiu com recriminações histéricas contra o orgulho de Hagar por sua gravidez, deixou que a expulsasse de casa (v. 16).

Evidentemente, pois, Abraão não era por natureza um homem de princípios fortes, e seu senso de responsabilidade era um tanto deficiente. Deus, porém, trata com sabedoria dessa figura negligente e pouco heróica de modo tal que ele não apenas cumpriu fielmente seu papel no palco da história da Igreja, como habitante pioneiro de Canaã, o primeiro a receber a aliança de Deus (v. 17) e pai de Isaque, a criança-milagre como também se transformou em um novo homem.

A maior necessidade de Abraão era aprender na prática a viver na presença de Deus, associando a ele todos os acontecimentos da vida e vendo unicamente a ele como Comandante, Defensor e Galardoador. Esta foi a grande lição que Deus, com sabedoria, lhe ensinou: "Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa)!" (15:1); "Eu sou o Deus todo-poderoso, ande segundo a minha vontade e seja íntegro" (17:1). Vezes sem conta Deus confrontou Abraão até levá-lo ao ponto em que seu coração pudesse dizer como o salmista: "A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto de ti [...] Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre" (Sl 73:25,26).

À medida que a narrativa prossegue vemos na vida de Abraão os resultados desse aprendizado. A velha fraqueza ainda aparece de vez em quando, mas a seu lado emerge uma nova nobreza e independência, o resultado do hábito desenvolvido por Abraão de andar com confiança na vontade divina revelada, confiando e esperando nele, curvando-se a sua providência e obedecendo-lhe mesmo quando suas ordens parecessem estranhas e pouco convencionais. Abraão se transformou de alguém mundano em um homem de Deus.

Desse modo, ao responder ao chamado divino, deixando sua casa e viajando por terras que seus descendentes possuirão (Gn 12:7) — repare que ele mesmo não possuía nada da terra de Canaã além de seu túmulo (Gn 25:9-10) —, observamos nele uma nova humildade quando se recusa a invocar seus direitos sobre os do sobrinho Ló (Gn 13:8,9). Percebe-se também uma nova coragem, quando se decide a ir salvar Ló com apenas 318 homens, contra as forças combinadas de quatro reis (14:14).

Vemos uma nova dignidade quando se recusa a ficar com o saque obtido, para que não parecesse que sua riqueza vinha do rei de Sodoma, e não do Deus Altíssimo (14:22,23). Observa-se também uma nova paciência quando ele espera durante 25 anos, desde os 75 até os 100 anos de idade, pelo nascimento do herdeiro prometido (Gn 12:4; 21:5).

Vemos como ele se tornou um homem de oração, um intercessor persistente, oprimido pela consciência da responsabilidade pelo bem-estar alheio perante Deus (Gn 18:23-32). Vemo-lo, afinal, completamente devotado à vontade de Deus, e tão confiante na sabedoria divina, que de boa vontade se dispõe a obedecer à ordem de Deus para matar o próprio filho, o herdeiro tão esperado (Gn 22). Quão sabiamente ensinou Deus sua lição! E como Abraão a aprendeu bem!

Jacó, neto de Abraão, precisou de um tratamento diferente. Jacó era o filho querido e teimoso de sua mãe, abençoado (ou amaldiçoado) com todos os instintos oportunistas e amorais de negociante agressivo. Deus, em sua sabedoria, planejara que Jacó, apesar de ser o filho mais novo, deveria ter a bênção e os direitos do primogênito (28:13-15); planejara também que Jacó deveria casar-se com Lia e Raquel, suas primas, e tornar-se o pai dos doze patriarcas, a quem a promessa seria transmitida (Gn 48,49).

Deus, porém, em sua sabedoria, resolvera também instilar nele a verdadeira religião. Toda a atitude de Jacó era a de um descrente, e precisava mudar. Jacó precisava deixar de confiar na habilidade própria para depender de Deus. Precisava também sentir aversão pela inescrupulosa hipocrisia que lhe era tão natural. Era necessário, portanto, que Jacó sentisse a própria fraqueza e tolice, sendo levado a uma falta de confiança tão completa em si mesmo que deixaria de tentar explorar os outros. Sua autoconfiança devia ser totalmente destruída. Com paciente sabedoria (por sempre esperar pela hora oportuna) Deus levou Jacó até o ponto em que pudesse gravar-lhe na alma, de modo indelével e decisivo, o sentimento de desamparo impotente. É instrutivo rever os passos de Deus.

Em primeiro lugar, por cerca de vinte anos, Deus permitiu que Jacó agisse livremente, tecendo uma complexa teia de falsidade e suas inevitáveis conseqüências — desconfiança mútua, amizades transformadas em inimizades e o isolamento do impostor. As conseqüências da astúcia de Jacó foram a maldição divina sobre ele. Quando Jacó roubou a bênção e o direito de primogenitura de Esaú (Gn 25:29-34; 27:1-40), este (naturalmente) virou-se contra Jacó, que precisou deixar sua casa às pressas. Foi para a casa de seu tio Labão, tão matreiro quanto o próprio Jacó. Labão explorou a posição de Jacó e o enganou para casar-se não apenas com sua linda filha, a quem Jacó queria, mas também com a outra, feia e de olhos fracos, para quem de outro modo seria difícil encontrar um bom marido (Gn 29:15-30).

A experiência de Jacó com Labão foi bem amarga, e Deus a usou para lhe mostrar o sentimento de ser enganado — algo que Jacó precisava aprender se algum dia tivesse de abandonar seu antigo modo de vida. Jacó, porém, ainda não estava curado. Sua reação imediata foi pagar na mesma moeda. Ele manipulou tão astutamente o rebanho de ovelhas do tio, com tanto lucro para si e prejuízo para Labão, que este ficou furioso. Jacó sentiu ser mais prudente partir com sua família para Canaã antes que viesse alguma represália (Gn 30:25—31:55). Deus, que até então havia suportado a desonestidade de Jacó sem censura, incentivou-o a ir (Gn 31:3, 11-13; cf. 32:1,2,9,10), pois ele sabia o que iria fazer antes do final da viagem. Quando Jacó partiu, Labão o perseguiu e tornou perfeitamente claro que nunca mais queria Jacó de volta (Gn 31).

Quando a caravana de Jacó alcançou a fronteira do território de Esaú, Jacó enviou ao irmão uma mensagem polida contando-lhe de sua chegada. As notícias recebidas, porém, fizeram-no pensar que Esaú avançava em sua direção com um exército armado, para vingar-se da bênção roubada vinte anos antes. Jacó ficou completamente desesperado.

Chegara a hora de Deus intervir. Naquela noite, enquanto Jacó estava sozinho às margens do rio Jaboque, Deus o encontrou (Gn 32:24-30). Foram horas de conflito espiritual desesperador e angustiante, e, como pareceu a Jacó, físico também. Jacó agarrou-se a Deus; ele queria uma bênção, uma certeza do favor e da proteção divina nessa crise, mas não conseguiu o que buscava. Ao contrário, tinha cada vez mais vivida a consciência do próprio estado, completo desamparo; e, sem Deus, totalmente sem esperança. Jacó sentiu naquela ocasião o peso total de seu procedimento cínico e inescrupuloso, que lhe estava sendo retribuído. Até aquele momento ele se mostrara autoconfiante, acreditando ser mais que capaz de enfrentar sozinho tudo o que lhe acontecesse. Agora, porém, sentia sua completa incapacidade para resolver as coisas e compreendeu claramente que jamais voltaria a confiar em si mesmo para cuidar da própria vida e criar o próprio destino. Nunca mais ousaria tentar viver de acordo com sua vontade.

Para que isso ficasse bem claro a Jacó, enquanto lutavam, Deus o aleijou (Gn 32:25), deslocando-lhe a coxa, como lembrete perpétuo, na carne, da própria fraqueza espiritual e da necessidade da dependência constante de Deus. Pelo resto de sua vida ele teria de andar apoiado em uma bengala.

Jacó abominou a si mesmo. Pela primeira vez e de todo o coração descobriu-se a odiar, realmente odiar, sua famigerada astúcia. Ela havia colocado Esaú contra ele (com toda a razão!), sem falar em Labão; e agora, parecia, levara Deus a não desejar mais abençoá-lo: "Deixe-me ir...", disse aquele com quem lutava; parece que Deus pensava abandoná-lo. Jacó, porém, o segurou com firmeza: "Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes" (Gn 32:26).

E, então, finalmente, Deus pronunciou a bênção, pois Jacó estava agora fraco, desamparado, humilde e dependente o bastante para ser abençoado. "Ele me abateu a força no caminho", disse o salmista (Sl 102:23; ra). Foi justamente isso o que Deus fez com Jacó.

Não restara nenhuma partícula de autoconfiança em Jacó, quando Deus terminou sua obra nele. A natureza da luta de Jacó com Deus e o motivo de ter "vencido" (Gn 32:28) foi simplesmente seu apego a Deus, enquanto este o enfraquecia e fazia surgir nele o espírito de submissão e autodesconfiança. Jacó desejava tanto a bênção de Deus, que se agarrou a ele durante toda a dolorosa humilhação, até cair o suficiente para que Deus o levantasse, dando-lhe paz e assegurando-lhe que não mais precisava temer Esaú.

É claro que Jacó não se tornou modelo de santo da noite para o dia, ele não foi totalmente correto com Esaú no dia seguinte (Gn 33:14-17), mas, em princípio, Deus ganhara sua luta com Jacó, e para o bem. Jacó nunca mais voltou a seus antigos hábitos. Mancando, aprendeu a lição. A sabedoria de Deus realizara sua obra.

Outro exemplo em Gênesis: José. Os irmãos do jovem José o venderam como escravo para o Egito. Traído pela maldosa esposa de Potifar, foi preso, embora depois tivesse sido elevado a cargos de grande importância. Com que propósito Deus em sua sabedoria planejou isso? No que concerne a José pessoalmente a resposta é encontrada no salmo 105:19: "até [...] a palavra do Senhor confirmar o que dissera".

José estava sendo testado, refinado e amadurecido. Durante o período em que foi escravo e, depois, na prisão, estava sendo ensinado a conservar-se submisso a Deus, alegre e bondoso em circunstâncias difíceis, e a esperar pacientemente no Senhor. Deus muitas vezes usa experiências dolorosas para ensinar essas lições. No que concerne ao povo de Deus, o próprio José respondeu nossa pergunta ao revelar sua identidade aos irmãos atônitos: "Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes a vida com grande livramento. Assim, não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus" (Gn 45:7,8).

A teologia de José era tão firme quanto profundo seu amor. Mais uma vez somos confrontados com a sabedoria divina dirigindo os acontecimentos da vida com duplo propósito: santificação pessoal e cumprimento de seu ministério na vida do povo de Deus. Na vida de José, Abraão e Jacó vemos esse duplo propósito triunfantemente cumprido.



NOSSO SOFRIMENTO DESCONCERTANTE

Estas coisas foram escritas para ensinar-nos, pois a mesma sabedoria que ordenou os caminhos trilhados pelos santos de Deus nos tempos bíblicos ainda dirige a vida do cristão de hoje. Não devemos, portanto, ficar muito abatidos quando coisas inesperadas, perturbadoras e desestimu-lantes nos acontecem. Qual o sentido delas? Bem, significam simplesmente que Deus, em sua sabedoria, quer que cheguemos ao ponto que ainda não alcançamos, e está cuidando para que isso se realize.

Deus talvez queira fortalecer-nos a paciência, o bom humor, a compaixão, a humildade ou a mansidão, dando-nos nesse momento alguns exercícios extras para praticarmos essas graças em situações especialmente difíceis. Talvez ele tenha novas lições sobre abnegação e autodesconfiança para nos ensinar. Talvez ele queira anular em nós algumas formas de orgulho e convencimento não percebidas, ou complacência e ilusões. Talvez seu propósito seja simplesmente nos chamar para mais perto dele, em comunhão; pois muitas vezes acontece, como todos os santos bem o sabem, que a comunhão com o Pai e com o Filho é mais vivida e doce, e a alegria cristã é maior quando a cruz é mais pesada. (Lembre-se de Samuel Rutherford!) Ou talvez Deus esteja nos preparando para alguma forma de atividade de que até o presente não tínhamos noção.

Paulo viu parte das razões das próprias aflições no fato de que Deus "nos consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações" (2Co 1:4). Até o Senhor Jesus "aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu", e assim foi "aperfeiçoado" para o sumo sacerdócio no ministério de simpatia e auxílio para com seus discípulos tão atribulados (Hb 5:8,9). Significa que, se por um lado ele pode nos sustentar e tornar-nos mais que vitoriosos em todas as dificuldades e problemas, de outro não devemos nos surpreender se ele nos chamar para seguir-lhe os passos e nos preparar para o serviço aos outros por meio de experiências dolorosas absolutamente imerecidas. "Ele conhece os caminhos que toma",1 mesmo que no presente nós não os conheçamos.



Podemos ficar realmente atônitos com as coisas que nos acontecem, mas Deus sabe exatamente o que faz e o que está por trás de suas ações, ao lidar com nossos problemas. Sempre, e em tudo, ele é sábio. Veremos isso algum dia, embora não o possamos ver agora (Jó, no céu, sabe as razões de suas aflições, embora não pudesse conhecê-las em vida). No entanto, não devemos hesitar em confiar em sua sabedoria, mesmo quando ele nos deixa na ignorância.

Como poderemos enfrentar essas situações desconcertantes e difíceis, no entanto, se agora não podemos ver nelas o propósito de Deus? Primeiramente, aceitando-as como vindas de Deus e perguntando-nos que reações o Evangelho de Deus requer de nós. Em segundo lugar, buscando a face de Deus especialmente acerca delas.

Se tomarmos essas duas atitudes, nunca nos veremos completamente no escuro a respeito do propósito de Deus quanto a nossas dificuldades. Seremos sempre capazes de pelo menos ver nelas tanta finalidade como Paulo pôde entrever no espinho na carne (qualquer que fosse). O apóstolo afirma que o espinho veio-lhe como "um mensageiro de Sata-nás" tentando-o a ter maus pensamentos a respeito de Deus. Ele resistiu

1Frase do segundo verso do hino In heavenly love abiding, escrito por Anna L. Waring, Hymns and meditations, 1850.

a essa tentação e buscou a face de Cristo por três vezes pedindo que o espinho lhe fosse removido. A única resposta que obteve foi: "A minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza".

Ao refletir sobre isso, Paulo percebeu finalmente por que tinha sido tão afligido: era para mantê-lo humilde, "para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações". Esse raciocínio e a palavra de Cristo foram suficientes para ele, e nada mais procurou. Esta foi sua atitude final: "Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim" (2Co 12:7-9).

Essa atitude de Paulo é um exemplo para nós. Tenham as tribulações do cristão o propósito ou não de provê-lo para o serviço futuro, elas terão pelo menos a mesma finalidade do espinho na carne de Paulo: nos foram enviadas para que nos tornemos e nos mantenhamos humildes, e para nos dar nova oportunidade de demonstrar o poder de Cristo na vida mortal. Será que precisamos saber mais que isso sobre elas? Não será isto suficiente para nos convencer de que a sabedoria divina está nelas? Assim que Paulo percebeu que seus problemas foram enviados para poder glorificar a Cristo, ele os aceitou como sabiamente ordenados e regozijou-se com eles. Que Deus nos ajude para que em todas as dificuldades possamos agir da mesma maneira.




A SABEDORIA DE DEUS E A NOSSA


Quando os antigos teólogos reformados se referiam aos atributos divinos, costumavam classificá-los em dois grupos: incomunicáveis e comunicáveis.

No primeiro grupo colocavam as qualidades insignes da transcendência divina e mostravam a grande diferença existente entre ele e nós, suas criaturas. A lista comum era: independência (existência própria e auto-suficiência); imutabilidade (completamente livre de qualquer mudança, total constância de ação); infinitude (livre de todos os limites de tempo e espaço, isto é, eternidade e onipresença); simplicidade (não há nele nenhum elemento conflitante, pois, diferentemente dos homens, ele não é levado por pensamentos e desejos divergentes). Os teólogos denominaram estas qualidades incomunicáveis porque são características únicas de Deus, e o ser humano, justamente por ser humano, não pode partilhar de nenhuma delas.

No segundo grupo os teólogos reuniram qualidades como espiritualidade, liberdade e onipotência divinas a seus atributos morais — bondade, verdade, santidade, justiça etc. Qual foi o princípio dessa classificação? Foi o seguinte: Quando Deus fez o homem comunicou-lhe qualidades correspondentes a todas essas. É isso o que a Bíblia diz quando conta que Deus fez o homem a sua imagem (Gn 1:26) — isto é, que Deus fez o homem um ser espiritual, livre, agente moral responsável com poder de escolha e de ação, capaz de ter comunhão com ele e lhe corresponder, sendo por natureza bom, verdadeiro, santo, reto (Ec 7:29), em uma palavra, piedoso.

As qualidades morais pertencentes à imagem divina foram perdidas na Queda; a imagem de Deus no homem tem sido universalmente desfigurada, pois toda a humanidade, de um modo ou de outro, desvia-se para a impiedade. A Bíblia, porém, diz que agora, cumprindo seu plano de redenção, Deus age nos cristãos para reparar-lhes a imagem arruinada, transmitindo-lhes novamente essas qualidades. É esse o significado das Escrituras quando dizem que os cristãos são renovados à imagem de Cristo (2Co 3:18) e de Deus (Cl 3:10).

Entre os atributos comunicáveis, os teólogos incluíram a sabedoria. Assim como Deus é sábio em si mesmo, ele concede sabedoria aos seres humanos. A Bíblia fala bastante a respeito do dom divino da sabedoria. Os primeiros nove capítulos de Provérbios são uma exortação única e constante à busca desse dom. "O conselho da sabedoria é: Procure obter sabedoria; use tudo o que você possui para adquirir entendimento [...] Apegue-se à instrução, não a abandone; guarde-a bem, pois dela depende a sua vida" (Pv 4:7,13). A sabedoria é personificada e fala em causa própria:

Como é feliz o homem que me ouve, vigiando diariamente à minha porta, esperando junto às portas da minha casa. Pois todo aquele que me encontra, encontra a vida e recebe o favor do Senhor. Mas aquele que de mim se afasta a si mesmo se agride; todos os que me odeiam amam a morte.

Provérbios 8:34-36

Como uma hospedeira, a sabedoria convida os necessitados ao banquete: "Venham todos os inexperientes!" (Pv 9:4). A ênfase total está na pronta disposição de Deus de conceder sabedoria (representada aqui como a prontidão da sabedoria em se dar) a todos que quiserem esse dom e tomarem as providências necessárias para obtê-lo. Ênfase semelhante aparece no Novo Testamento. A sabedoria é requerida dos cristãos: "Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem, que não seja como insensatos, mas como sábios [...] Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor" (Ef 5:15,17), "Sejam sábios no procedimento para com os de fora [...]" (Cl 4:5). São feitas orações para que lhes seja concedida a sabedoria para que "... sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria [...] (Cl 1:9). Tiago, em nome de Deus, faz a promessa: "Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus [...] e lhe será concedida" (Tg 1:5).

Onde se pode obter sabedoria? Que passos são necessários para que uma pessoa tome posse desse dom? De acordo com as Escrituras há dois pré-requisitos.

1. Precisamos aprender a reverenciar a Deus. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (SI 111:10; Pv 9:10; cf. Jó 28:28; Pv 1:7; 15:33). Não teremos em nós a sabedoria divina enquanto não nos tornarmos humildes e ensináveis, nos prostrarmos em temor diante da santidade e soberania de Deus ("Deus grande e temível"; Ne 1:5; cf. 4:14; 9:32; Dt 7:21; 10:17; Sl 99:3; Jr 20:11), reconhecermos nossa pequenez, abandonarmos nossos pensamentos e nos dispormos a ter a mente sacudida. É lamentável que muitos cristãos passem a vida inteira com uma disposição de espírito tão orgulhosa e soberba que jamais chegam a receber a sabedoria de Deus. Por isso a Bíblia diz: "[...] a sabedoria está com os humildes" (Pv 11:2).

2. Precisamos aprender a receber a palavra de Deus. A sabedoria é divinamente forjada naqueles que se concentram na revelação divina, e apenas neles. "Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus inimigos", diz o salmista, "Tenho mais discernimento que todos os meus mestres". Por quê? "Pois medito nos teus testemunhos" (Sl 119:98,99).

Paulo assim admoesta os colossenses: "Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo [...] com toda a sabedoria [...]" (Cl 3:16). Como podemos nós, pessoas do século xxi, fazer isso? Impregnando-nos das Escrituras, que, como Paulo disse a Timóteo (e ele tinha em mente apenas o Antigo Testamento!), são "capazes de torná-lo sábio para a salvação", pela fé em Cristo e para tornar perfeito o homem de Deus "para toda boa obra" (2Tm 3:15-17).

Mais uma vez, é temerário que muitas pessoas hoje alegadamente cristãs nunca aprenderão a sabedoria por falhar em atender suficientemente à Palavra escrita de Deus. O lecionário do Livro de oração comum de Cran-mer1 (que todos os anglicanos devem seguir) indica a leitura do Antigo Testamento uma vez por ano e a do Novo Testamento duas. O puritano William Gouge2 lia regularmente quinze capítulos por dia. O falecido ar-quidiácono anglicano Thomas C. Hammond costumava ler a Bíblia toda uma vez por trimestre. Quanto tempo faz que você leu a Bíblia inteira? Você gasta diariamente com a Bíblia tanto tempo quanto com os jornais? Como alguns de nós somos tolos! — e permaneceremos assim pelo resto da vida simplesmente porque não nos preocupamos com o que deve ser feito para receber o dom divino gratuito da sabedoria.

O QUE A SABEDORIA NÃO É

Que tipo de coisa é, afinal, o dom da sabedoria de Deus? Que efeito produz em uma pessoa?

Muitos se enganam neste ponto. Podemos tornar bem clara a natureza deste erro usando uma ilustração. Se você ficar em pé no fim da plataforma de uma estação, observará o movimento constante de locomotivas e

1Thomas Cranmer (1489-1556), arquidiácono de Taunton, foi favorável ao divórcio do rei Henrique viii. Em 1533, foi indicado para arcebispo da Cantuária. Sempre será lembrado como o responsável pela primeira edição do Livro de oração comum, em 1549. Envolvido em assuntos políticos do reino, acusado de sedição e traição, foi aprisionado na torre de Londres. Sua vida e morte estão pautadas por declarações e retratações. Morreu queimado por ordem da coroa inglesa.

2William Gouge (1575-1653) foi ordenado ministro aos 32 anos e pastoreou a mesma congregação durante quarenta anos. Escritor e mestre renomado, foi indicado em 1643, por voto do Parlamento, para participar da Assembléia de Westminster.


trens. Se você gostar de ferrovias, ficará fascinado. Entretanto você poderá apenas ter uma idéia geral e superficial dos planos gerais que determinam esses movimentos (o programa de operação estabelecido na tabela de horários, modificada, se necessário, de minuto em minuto de acordo com o movimento real dos trens).

Se, entretanto, você tiver o privilégio de ser levado por algum chefe para dentro da cabine de comando, poderá observar em uma grande parede o diagrama de toda a linha férrea por cerca de oito quilômetros de distância dos dois lados da estação, com pequeninas luzes móveis ou paradas nos diferentes trilhos para mostrar ao sinaleiro apenas com o olhar onde cada máquina ou trem se encontra. Você poderá observar imediatamente a situação geral pelos olhos dos homens que a controlam; verá no diagrama por que um trem recebeu um sinal de parada, outro foi desviado dos trilhos normais e outro, ainda, estacionou temporariamente em uma linha lateral. O porquê de todos esses movimentos torna-se claro uma vez que se possa observar a situação geral.

O erro comumente cometido, porém, é supor que esta seja uma ilustração do que Deus faz quando nos dá sabedoria: em outras palavras, supor que o dom da sabedoria consiste em uma visão mais profunda do significado e propósito providenciais dos acontecimentos que se desenrolam ao nosso redor. A capacidade de ver por que Deus agiu de tal modo em determinado caso, e o que fará a seguir.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   22


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal