O conhecimento de Deus J. I. Packer



Baixar 1.07 Mb.
Página9/22
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   22

As pessoas pensam que se estivessem realmente andando junto a Deus, de modo que ele lhes concedesse livremente a sabedoria, estariam, por assim dizer, na cabine de comando. Descobririam o propósito real de tudo o que lhes acontece e lhes ficaria claro em todos os momentos como Deus age para que todas as coisas aconteçam para o bem. Tais pessoas gastam muito tempo debruçadas sobre o livro da providência, imaginando por que Deus permitiu a ocorrência disto ou daquilo; se deveriam tomar isso como sinal para deixar de fazer alguma coisa e começar a agir de outro modo, ou o que devem deduzir disso tudo. Se no final ficam frustradas, tomam isso como falta de espiritualidade.

Os cristãos que sofrem de depressão física, mental ou espiritual (note, são três coisas diferentes!) podem ficar quase loucos com este tipo de indagação -inútil. Porque na realidade é inútil, não tenha nenhuma dúvida a respeito. É verdade que quando Deus nos dirige pela aplicação de princípios, poderá em alguma ocasião confirmar tal direção por providências incomuns reconhecidas imediatamente como sinais comproba-tórios. Mas isto é bem diferente de tentar extrair uma mensagem sobre os propósitos secretos de Deus mediante todas as coisas incomuns que nos possam acontecer. Assim, em lugar de o dom da sabedoria consistir no poder para fazer isso, o que ele de fato pressupõe é nossa incapacidade consciente para fazê-lo, como veremos a seguir.



Realismo necessário

Perguntamos mais uma vez: Com que finalidade Deus nos outorga sabedoria? Que espécie de dom é esse?

Se me permitem usar outra ilustração sobre transporte, é como aprender a dirigir. O que interessa quando se dirige é velocidade, reação apropriada aos estímulos e firmeza de julgamento a respeito da oportunidade oferecida pela situação. Você não fica se perguntando por que a estrada deveria ser estreita ou cheia de curvas justamente naquele lugar, nem por que aquele caminhão deveria estar estacionado onde está, nem por que a senhora (ou o cavalheiro) na frente dirige como se fosse o dono da estrada. Você apenas tenta ver e tomar a atitude certa na situação apresentada. O efeito da sabedoria divina é capacitar-nos a fazer exatamente a mesma coisa nas situações reais da vida diária.

Para dirigir bem, você deve ficar atento para perceber com exatidão o que está a sua frente. Para viver sabiamente, você precisa ter uma visão clara e real da vida como ela é de fato. A sabedoria não combina com ilusões confortadoras, falsos sentimentos nem com o uso de óculos cor-de-rosa. A maioria de nós vive no mundo dos sonhos, com a cabeça nas nuvens e os pés fora do chão; nunca vemos o mundo e nossa vida nele como são de fato. Essa irrealidade arraigada e pecaminosa é uma das razões de haver tão pouca sabedoria entre nós, mesmo entre os mais conservadores e ortodoxos. É preciso mais que sã doutrina para nos curar da irrealidade.

Há, entretanto, um livro na Bíblia expressamente indicado para nos tornar realistas: o livro de Eclesiastes. Devemos prestar mais atenção a sua mensagem do que normalmente o fazemos. Vejamos agora, por um momento, qual é essa mensagem.

0 ensino de Eclesiastes

"Eclesiastes" (título grego correspondente ao hebraico qohelet) significa simplesmente "o pregador". O livro é um sermão, com um texto ("Que grande inutilidade! [...]" 1:2; 12:8), exposição de seu tema (caps.

1 a 10) e uma aplicação (11:1—12:7). Muitas das exposições são autobiográficas. Qohelet se identifica como o "filho de Davi, rei em Jerusalém" (1:1). Não devemos nos preocupar se isso quer dizer que o próprio Salomão era o pregador, ou que o pregador pôs seu sermão nas palavras de Salomão como um artifício didático — como estudiosos tão conservadores como Hengstenberg3 e Edward J. Young4 têm argumentado. O sermão é certamente salomônico no sentido de que ensina lições que Salomão teve oportunidades singulares para aprender.

"Que grande inutilidade! diz o mestre. Que grande inutilidade! Nada faz sentido." Com que espírito e com que propósito o pregador anuncia este texto? Trata-se da confissão de um cínico amargurado, "um velho homem do mundo, egoísta e calejado que nada encontrou no final além de triste desilusão" (W. H. Elliot) e que agora procura compartilhar



3Ernst Wilhelm Hengstenberg (1802-1869). Ministro e teólogo luterano de origem alemã. Devotado principalmente ao estudo da filosofia e da filologia, fez diversas traduções de obras clássicas para o alemão. Posteriormente, passou a estudar a Bíblia e licenciou-se em teologia pela Universidade de Berlim, dedicando-se a protestar contra toda forma de racionalismo, principalmente a respeito da crítica do Antigo Testamento.

4Edward J. Young (1907-1968) foi um destacado estudioso do Antigo Testamento. Lecionou no Westminster Theological Seminary na Filadélfia (eua) e se tornou o principal acadêmico na área de hebraico. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores defensores da inerrância bíblica.

conosco a idéia sobre o pouco valor e torpeza da vida? Ou está nos falando como evangelista, tentando fazer que os descrentes compreendam que é impossível encontrar a felicidade "debaixo do sol", longe de Deus? Nenhuma das duas é a resposta, embora a segunda sugestão não esteja tão longe do objetivo quanto a primeira.

O autor fala como um professor maduro que transmite ao jovem aluno os frutos de sua longa experiência e reflexão (11:9; 12:1,12). Ele quer levar este jovem crente à verdadeira sabedoria e protegê-lo para que não caia no engano da "cabine de comando". Aparentemente o jovem (como muitos depois dele) estava inclinado a confundir sabedoria com grande conhecimento e a supor que sabedoria se adquire pelo estudo contínuo (12:12). Ele afirma claramente que a sabedoria, quando adquirida, o levaria a conhecer as razões das diversas atitudes de Deus no curso normal da providência.

O que o pregador quer mostrar ao jovem é que a base real da sabedoria é o reconhecimento sincero de que o curso do mundo é enigmático, que muitos acontecimentos são inexplicáveis e muitas das ocorrências "debaixo do sol" não têm nenhum sinal exterior de uma ordem racional e moral para elas.

Como o próprio sermão demonstra, o texto é planejado como advertência contra a equivocada busca do entendimento, pois apresenta a conclusão desanimadora a que deve afinal chegar essa busca, se for feita com sinceridade e realismo. Podemos formular a mensagem do sermão como segue:

Veja (diz o pregador) em que tipo de mundo vivemos. Tire seus óculos cor-de-rosa, esfregue os olhos e olhe bem e longamente. O que você vê? Vê o cenário da vida determinado por ciclos periódicos na natureza que parecem não ter propósito (1:4-7). Vê sua forma fixada por tempos e circunstâncias sobre as quais não temos controle algum (3:1-8; 9:11,12). Vê a morte chegando para todos, mais cedo ou mais tarde, e sua vinda não tem relação alguma com nenhum merecimento (7:15; 8:8). Os homens morrem como os animais (3:19,20), tanto os bons como os maus, tanto os sábios como os ignorantes (2:14,16; 9:2,3). Você vê o mal crescendo desmedidamente (3:16; 4:1; 5:8; 8:11; 9:3), os ímpios prosperando, mas não os justos (8:14).

Ao ver tudo isso, você percebe como a disposição que Deus dá aos acontecimentos é inescrutável; por mais que queira entender, você não consegue (3:11; 7:13,14; 8:17; 11:5). Quanto maior for seu esforço para entender o propósito divino na decorrência normal dos acontecimentos, mais obcecado e oprimido ficará com a aparente falta de propósito de tudo, e mais tentado ficará ao concluir que a vida na verdade não tem razão de ser.

Entretanto, uma vez que você tenha concluído que não há de fato explicação aparente para nada, que "proveito" — valor, lucro, sinal, propósito — poderá encontrar então em qualquer esforço construtivo (1:3; 2:11,22; 3:9; 5:16)? Se a vida é sem sentido, também não possui valor algum. Nesse caso, qual a vantagem de trabalhar para criar coisas, desenvolver um negócio, ganhar dinheiro e até mesmo buscar a sabedoria se nada disso trará algum benefício (2:15,16,22,23; 5:11)? Se apenas o tornará motivo de inveja (4:4). Se você não poderá levar nenhuma dessas coisas consigo (2:18-21; 4:8; 5:15,16), e o que deixar aqui provavelmente será mal dirigido depois de sua partida (2:19). Que vantagem há, portanto, em suar e trabalhar tanto? Não deve todo o trabalho do ser humano ser julgado "inútil (frustração, vazio)" e equivalente a "correr atrás do vento" (1:14)? — atividade que não tem nenhum valor em si mesma nem para nós?

É a esta conclusão pessimista, diz o pregador, que a expectativa otimista de descobrir o propósito divino em todas as coisas finalmente o levará (1:17,18). E é claro que ele está certo, pois o mundo em que vivemos é por sinal o tipo de lugar descrito. O Deus que rege tudo se esconde. Raramente este mundo se parece com um lugar dirigido pela Providência benevolente. Raramente parece haver um poder racional por trás dele. Repetidas vezes o que é sem valor sobrevive enquanto o valoroso perece. Seja realista, diz o pregador, enfrente os fatos, veja a vida como ela é. Você não terá a verdadeira sabedoria enquanto nãc fizer isso.

Muitos de nós precisamos dessa admoestação. Não apenas o nossc conceito é o da "cabine de comando" a respeito da sabedoria, come sentimos que para a honra de Deus (e também, embora não digamos isso, por causa de nossa reputação de cristãos espirituais) é necessário afirmar que já estamos, por assim dizer, na cabine de comando, aqui e agora, desfrutando das informações internas de como e por que Deus age de tal e tal maneira. Esta confortadora pretensão se torna parte de nós. Temos a certeza da capacitação divina para entender todas as suas atitudes para conosco e para com os que nos rodeiam, e nos sentimoí seguros de ser capazes de ver rapidamente as razões para tudo o que nos possa acontecer no futuro.

Então alguma coisa inexplicável e muito dolorosa nos acontece, e nossa alegre ilusão de participar do conselho secreto de Deus é abalada. Nosso orgulho é ferido, sentimos o desprezo divino, e a menos que neste ponto nos arrependamos e humilhemos completamente de nossa antiga presunção, toda nossa vida espiritual futura pode ser arruinada.

Entre os sete pecados capitais da tradição medieval estava a preguiça {acedia) — um estado de apatia espiritual obstinada e sem alegria. Há muito disso nos círculos cristãos modernos. Os sintomas são inércia espiritual pessoal combinada com crítica cínica sobre as igrejas e ressentimentos desdenhosos pela iniciativa e empreendimento de outros cristãos

Atrás dessa condição mórbida e mortal não raro encontramos o orgulho ferido de alguém que pensou saber tudo a respeito de como Deus age e precisou aprender sobre sua ignorância por meio de uma experiência amarga e surpreendente. Isto é o que acontece quando não se dá atenção à mensagem de Eclesiastes. A verdade é que o Deus sábio, para manter-nos humildes e nos ensinar a andar pela fé, escondeu de nós quase tudo o que gostaríamos de saber a respeito do propósito providencial que ele realiza nas igrejas e em nossa vida.

Assim como você não conhece o caminho do vento, nem como o corpo é formado no ventre de uma mulher, também não pode compreender as obras de Deus, o Criador de todas as coisas (11:5).
Mas, nesse caso, o que é sabedoria? O pregador nos ajudou a ver o que ela não é. Será que nos dará alguma orientação sobre o que é? Na verdade ele pelo menos nos dá um esboço: "Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos" (12:13). Confie nele e obedeça-lhe, respeite-o e adore-o, seja humilde diante dele e nunca diga mais que o necessário e que pretende cumprir quando ora diante dele (5:1-7). Faça o bem (3:12); lembre-se de que Deus algum dia lhe pedirá contas (11:9; 12:14). Evite então, mesmo em segredo, coisas das quais se envergonhará quando vierem à luz, no dia do juízo divino (12:14).

Viva no presente, e desfrute completamente sua condição (7:14; 9:7; 11:9); as alegrias de agora são boas dádivas divinas. Embora Eclesiastes condene a frivolidade (7:4-6), está claro que ele não se atém à superespiritualidade que é excessivamente orgulhosa ou "piedosa" para rir ou se alegrar. Busque a graça para realizar corretamente qualquer coisa que a vida lhe ofereça (9:10) e tenha prazer nesse trabalho (2:24; 3:12; 5:18; 8:15). Deixe os resultados por conta de Deus; deixe a avaliação com ele; sua parte é usar todo o bom senso e criatividade a seu comando para explorar as oportunidades apresentadas (11:1-6).

Esse é o caminho da sabedoria — sem dúvida um dos aspectos da vida de fé. Qual é a base da sabedoria, o que a sustenta? A convicção de que o inescrutável Deus da providência é o sábio e gracioso Deus da criação e da redenção. Podemos estar seguros de que o Deus criador deste mundo tão complexo e maravilhosamente ordenado, que tirou seu povo do Egito e mais tarde o redimiu do poder do pecado e de Satanás, sabe o que está fazendo, mesmo que no momento mantenha a mão oculta. Podemos confiar e nos regozijar nele, mesmo quando não pudermos discernir seus caminhos. Assim o caminho do pregador para a sabedoria se resume no que foi expresso por Richard Baxter:

Ó santos, que aqui labutais, Adorai vosso Rei celestial! Enquanto adiante avançais,

Cantai algum hino jovial!

Tomai o que ele vos dá,

E ao Senhor louvor prestai,

No dia do bem e do "ai"

A quem eterna vida há!

O FRUTO DA SABEDORIA

Essa é então a sabedoria com a qual Deus nos torna sábios. Quando a analisamos, vemos ainda mais a sabedoria do Deus que a concede. Dissemos que a sabedoria consiste em saber escolher os melhores meios para atingir os melhores fins. A ação de Deus dando-nos a sabedoria é o modo por ele escolhido para restaurar e aperfeiçoar o relacionamento entre ele mesmo e o ser humano, que para isso foi criado. Para que ele nos dá essa sabedoria? Como já vimos, não compartilhamos seus conhecimentos. Trata-se da disposição para confessar sua sabedoria, apegarmo-nos a ele e viver para ele à luz de sua palavra em meio às dificuldades.

Assim, o resultado do dom da sabedoria é tornar-nos mais humildes, mais alegres, mais piedosos, mais rápidos em compreender-lhe a vontade, mais resolutos em realizá-la e menos preocupados (não menos sensíveis, mas menos confusos) do que ficamos nas situações dolorosas e obscuras que enfrentamos neste mundo pecaminoso. O Novo Testamento nos fala que o fruto da sabedoria é a semelhança com Cristo: paz, humildade e amor (Tg 3:17), e a raiz disso é a fé em Cristo (1Co 3:8; 2Tm 3:15) como manifestação da sabedoria divina (1Co 1:24,30).

Dessa forma, o tipo de sabedoria que Deus espera conceder a quem lhe pedir é a sabedoria que nos une a ele, que encontrará expressão no espírito de fé e na vida de felicidade.

Procuremos então tornar nossa busca por sabedoria na procura por essas coisas, e não frustremos o sábio propósito de Deus negligenciando a fé e a fidelidade a fim de procurar um tipo de conhecimento que não nos será dado neste mundo.

A TUA PALAVRA É A VERDADE


Dois fatos sobre o Jeová triúno são sugeridos, senão realmente afirmados, em todas as passagens bíblicas. Primeiro: ele é rei — monarca absoluto do universo, determinando todas suas ocorrências, realizando sua vontade em tudo o que acontece nele. Segundo: ele fala — proferindo palavras que expressam sua vontade a fim de que esta seja realizada.

O primeiro tema sobre o governo de Deus foi abordado em capítulos anteriores. É o segundo tema, a palavra de Deus, que nos interessa agora. O estudo deste tema aumentará nossa compreensão do primeiro, pois assim como as relações de Deus com seu mundo devem ser entendidas em termos de sua soberania, esta deve ser entendida em termos do que a Bíblia nos diz a respeito de sua palavra.

No curso normal dos acontecimentos, governantes absolutos, como todos os reis do mundo antigo, falavam regularmente em dois níveis e por duas razões. Por um lado decretavam normas e leis que definiam diretamente o ambiente — judicial, fiscal e cultural — no qual seus súditos deveriam viver dali em diante. Por outro lado, faziam discursos públicos, a fim de estabelecer, tanto quanto possível, uma ligação pessoal entre eles e seus súditos e extrair deles apoio e cooperação máximos para todas as realizações.

A Bíblia apresenta a palavra de Deus como tendo um caráter duplo semelhante a esse. Deus é o rei; nós, suas criaturas, somos seus súditos. Sua palavra se refere tanto às coisas que nos rodeiam como diretamente a nós; Deus fala para determinar nosso ambiente e para atrair-nos mente e o coração.

Na primeira associação, a esfera da criação e da providência, a palavra de Deus toma a forma de uma ordem soberana: "façamos...". Na última conexão, a esfera na qual a palavra de Deus nos é endereçada pessoalmente, a palavra toma a forma da torah real (a palavra hebraica traduzida por lei em nosso Antigo Testamento, que na realidade implica instrução — em todas suas múltiplas formas). A torah de Deus, o rei, apresenta um caráter triplo: parte dela é lei (no sentido restrito de ordens
ou proibições, com as sanções incluídas); outra parte é promessa (favorável ou desfavorável, condicional ou incondicional); outra ainda é testemunho (informações dadas por Deus sobre si mesmo e sobre as pessoas — seus respectivos atos, objetivos, naturezas e perspectivas).

A palavra que Deus nos dirige diretamente (semelhante à fala real, mas com muito mais valor) é instrumento não apenas de governo mas também de comunhão, pois, embora Deus seja o grande rei, não é seu desejo viver distante dos súditos. Ao contrário, ele nos criou com a intenção de podermos andar juntos para sempre em um relacionamento amistoso, que só pode existir quando as partes envolvidas se conhecem mutuamente.



Deus, nosso Criador, sabe tudo a nosso respeito antes que digamos qualquer coisa (Sl 139:1-4), mas nós nada poderemos saber a seu respeito a menos que ele nos diga. Aqui está, por conseguinte, outra razão para Deus falar conosco: não apenas para nos levar a fazer o que ele deseja, mas para poder conhecê-lo e assim amá-lo. Deus, portanto, nos envia sua palavra tanto em caráter informativo como invitatório. Ela vem não só para persuadir, mas também para instruir; ela não apenas nos fez ver o que Deus tem feito e ainda faz, mas também nos chama à comunhão pessoal com o Senhor, que nos ama.
O Deus que fala

Encontramos a palavra de Deus em suas várias relações nos três primeiros capítulos da Bíblia. Veja primeiro a história da criação, em Gênesis 1.

Parte do propósito desse capítulo é nos assegurar de que cada item que nos rodeia foi colocado ali por Deus. O primeiro versículo apresenta o tema exposto no resto do capítulo — "No princípio Deus criou os céus e a terra". O segundo versículo apresenta a circuntância dos acontecimentos de modo a mostrar uma análise detalhada da ação de Deus. Tratava-se de uma situação em que a terra era vazia, sem vida, escura e totalmente coberta de água. Então o versículo 3 nos diz como Deus falou no meio desse caos e esterilidade.

"Disse Deus: 'Haja luz'", e o que aconteceu? Imediatamente "houve luz". Mais sete vezes (v. 6,9,11,14,20,24,26) a palavra criadora de Deus "haja..." foi pronunciada, e passo a passo as coisas começaram a ser feitas e ordenadas. Dia e noite (v. 5), céu e mar (v. 6), mar e terra (v. 9) foram separados. Vegetação (v. 12), corpos celestes (v. 14), peixes e aves (v. 20), insetos e animais (v. 24) e finalmente o ser humano (v. 26) apareceram. Tudo foi feito pela palavra de Deus (Sl 33:6, 9; Hb 11:3; 2Pe 3:5).

A história, porém, atinge agora outro estágio. Deus fala com o homem e com a mulher que ele fizera. "Deus [...] lhes disse [...]" (v. 28). Aqui Deus se dirige diretamente aos seres humanos, e assim começou a amizade entre Deus e eles. Note as mudanças que vão ocorrendo nas ordens de Deus ao ser humano na história. A primeira palavra de Deus a Adão e a Eva foi de comando, convocando-os a cumprir a vocação da humanidade de dirigir a ordem criada. "Sejam férteis [...] Dominem [...]" v. 28). Segue depois uma palavra de testemunho ("Eis [...]" v. 29) em que Deus explica que toda vegetação, colheita e frutos foram feitos para alimentar pessoas e animais. Encontramos, a seguir, uma proibição com a devida penalidade: "mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá" (2:17).

Finalmente, depois da queda, Deus se aproxima de Adão e Eva e lhes fala outra vez, e agora suas palavras são de promessa, favorável e desfavorável. Se, de um lado, diz que a semente da mulher esmagará a cabeça da serpente, de outro determina o sofrimento de Eva no parto, o trabalho frustrante de Adão e a morte certa para ambos (3:15-19).

Aqui, no ritmo destes três curtos capítulos, vemos a palavra de Deus em todas as relações que ela mantém com o mundo e com o ser humano. De um lado, determina as circunstâncias e o ambiente do homem, de outro ordena que o homem obedeça, solicita-lhe a confiança e abre-lhe a mente do Criador. No resto da Bíblia vemos muitas novas ordenanças de Deus, mas nenhuma outra categoria de relacionamento entre a palavra de Deus e suas criaturas. Em vez disso, a apresentação da palavra de Deus em Gênesis 1 a 3 é reiterada e confirmada.

Portanto, a Bíblia inteira declara que todas as circunstâncias e todos os acontecimentos no mundo são determinados pela palavra de Deus, o Criador onipotente: "Haja...". As Escrituras descrevem tudo o que acontece como cumprimento da palavra de Deus, desde alterações climáticas (Sl 147:15-18; 148:8) até a ascensão e o declínio das nações. O fato de que a palavra divina realmente determina os eventos mundiais foi a primeira lição que Deus ensinou a Jeremias quando o chamou para profeta: "Veja! Eu hoje dou a você autoridade sobre as nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e plantar" (Jr 1:10).

Mas como poderia ser isso? O chamado de Jeremias não era para que ele se tornasse diplomata ou alguém poderoso, mas para ser profeta, o mensageiro de Deus (v. 7). Como poderia um homem sem nenhuma posição oficial, cujo único trabalho seria falar, ser descrito como juiz das nações indicado por Deus? Apenas por ter na boca a palavra de Deus (v. 9). Todas as palavras que Deus lhe deu sobre o destino das nações seriam certamente cumpridas. Para que isso ficasse bem fixado na mente de Jeremias, Deus lhe proporcionou a primeira visão: '"O que você vê, Jeremias?' Vejo o ramo de uma amendoeira (shaqed) [...] Você viu bem: pois estou vigiando (shoqed) para que a minha palavra se cumpra'" (Jr 1:11,12).

Por meio de Isaías, Deus proclamou a mesma verdade desta forma: "Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para eles sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer [...] assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo..." (Is 55:10,11). A Bíblia toda mantém a afirmação de que a palavra de Deus é seu instrumento executivo em todos os assuntos humanos. A respeito dele e de ninguém mais, é verdade que o que ele diz acontece. Na verdade, é a palavra de Deus que governa o mundo e que determina nosso destino.

A Bíblia coerentemente apresenta a palavra de Deus vindo a nós das três maneiras como foi expressa no jardim do Éden. Às vezes nos chega como lei — no Sinai, em diversos sermões dos profetas, em muitos ensinamentos de Cristo, na ordem evangélica para o arrependimento (At 17:30) e para crer no Senhor Jesus Cristo (1Jo 3:23). Às vezes ela vem como promessa — como na promessa da posteridade e na aliança feita com Abraão (Gn 15:5; 17:1-8), a promessa de redenção no Egito (Êx 3:7-10), a promessa do Messias (Is 9:6,7; 11:1,2) e do Reino de Deus (Dn 2:44; 7:14) e no Novo Testamento promessas da justificação, ressurreição e glorificação para os cristãos.

Às vezes ela vem mais uma vez como testemunho — a instrução divina a respeito dos fatos da fé e dos princípios da piedade na forma de narração histórica, argumento teológico, salmo e sabedoria. O fato de o chamado da palavra de Deus ser para nós absoluto é sempre ressaltado: devemos receber a palavra, confiar nela e obedecer-lhe porque é a palavra de Deus, o Rei. A essência da impiedade é a obstinação orgulhosa deste "povo ímpio, que se recusa a ouvir as minhas palavras" (Jr 13:10). A marca da verdadeira humildade e piedade está em que a pessoa "treme diante da minha palavra" (Is 66:2).




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   22


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal