O continente Grupal enquanto Contentor do Terror Sem Nome



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O Continente Grupal enquanto Contentor do Terror Sem Nome



João Paulo Ribeiro

O Continente Grupal enquanto Contentor

do Terror Sem Nome
João Paulo Ribeiro

Psicólogo Clínico. Psicodramatista e Membro Aderente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo, Equipa de Pedopsiquiatria da Unidade Autónoma de Psiquiatria do Hospital de Vila Franca de Xira

Endereço: Rua Bernardim Ribeiro, n.º 57, R/C Esq., 1150-069, Lisboa

Contacto telefónico: 96 5094588

Correio Eletrónico: ribeiro.joaopaulo@gmail.com
Resumo

Tendo em conta os conceitos de Wilfred Bion sobre os fenómenos grupais, as contribuições prestadas pela escola Francesa ao estudo dos grupos e a nossa própria experiência enquanto psicoterapeuta psicanalítico de grupo (psicodrama psicanalítico), propomos abordar o grupo como continente do terror sem nome. Partimos do princípio que a grupalidade intrínseca ao homem tem por intuito conter o terror sem nome da solidão desamparada, e está na base da capacidade de pensar e sonhar. Propomos pois abordar o grupo, externo e interno, enquanto lugar de desintoxição das angústias catastróficas do terror sem nome, e, consequentemente, o lugar onde as identificações, fantasias, projecções e desejos podem encaminhar o indivíduo para as suas realizações. Consideramos que o continente grupal pode ser determinante para estabelecer relações seguras e confiáveis, a partir das quais é gradualmente possível sonhar, assumir os sonhos e desejá-los.



Palavras-chave: Contenção, Desejo, Grupo, Grupalidade, Psicoterapias de Grupo, Sonho.
Abstract:

Based on the concepts of Wilfred Bion about the group phenomena, the contributions made by the French school to the study of groups and our own experience as a psychoanalytic group psychotherapist (psychoanalytic psychodrama), we propose to address the group as a continent of unnamed terror. We assume that groupality of the human being seeks to contain unnamed terror of loneliness helpless, and enables the ability to think and dream. We propose therefore to approach the group, external and internal, as a place of detoxification of catastrophic anxieties of unnamed terror, and, consequently, a place where the identifications, fantasies, projections and desires can refer the individual for their achievements. We consider the group continent may be important to establish secure and reliable relations, from whom it is gradually possible to dream, take the dreams and desire them.



Keywords: Containment, Desire, Dream, Group, Group Psychotherapies.
1. Psicoterapia Grupal enquanto Grupo de Trabalho

Wilfred Bion (1961/1970) definiu um tipo de funcionamento grupal que denominou de grupo de trabalho (“Work Group”), cuja principal característica é adesão ao princípio da realidade e a métodos racionais para cumprir os seus fins. Como afirma Bion:



Todo o grupo, por causal que seja, encontra-se para ‘fazer’ algo; nesta actividade, de acordo com as capacidades do indivíduo, eles cooperam. A cooperação é voluntária e depende, em certo grau, da habilidade refinada do indivíduo. A participação nesta actividade só é possível a indivíduos com (...) uma capacidade de experiência que lhes permitiu desenvolver-se mentalmente. Uma vez que esta actividade acha-se ligada a uma tarefa, ela se encontra relacionada com a realidade, seus métodos são racionais e, dessa maneira, embora de forma embrionária, é científica. Suas características são semelhantes aquelas atribuídas por Freud (1911) ao ego. Chamei de Grupo de Trabalho esta faceta da actividade mental num grupo. O termo abrange apenas a actividade mental de um tipo particular, não as pessoas que se entregam a ela. (Bion, 1961/1970, p. 131)
Para se constituir um grupo de trabalho, é necessário que os indivíduos que compõem o grupo possam atingir um estado de maturação emocional no qual as emoções são mentalizadas.

Assim, um grupo só pode adquirir o “funcionamento de grupo de trabalho (Bion, 1961/1970) quando os seus membros se submetem à cooperação e estão disponíveis a aprender tendo por base o princípio da realidade, a aprender com a experiência (Bion, 1962/1991).

A função do grupo de trabalho consiste, pois, em pensar as emoções para que estas percam a sua irracionalidade e possam traduzir-se em comportamentos adaptados à realidade.

Num grupo psicoterapêutico, a função do grupo de trabalho é a psicoterapia. Neste contexto, a contenção e a significação emocional possibilitam que o “grupo de trabalho interno do individuo adopte um funcionamento psíquico baseado na “aprendizagem pela experiência” (Bion, 1962/1991??)



2. Contenção das Ansiedades Catastróficas

Isto requer tolerar a frustração e a dor mental associada, e, em consequência, impedir os movimentos projectivos de evacuação do sofrimento insuportável. Com a contenção da dor mental, a experiência emocional passa a ter um sentido para o indivíduo, sendo esse sentido integrado no mundo emocional do indivíduo.

Bion (1962/1994) referiu que a contenção da dor emocional e da ansiedade a esta associada decorre no âmbito da relação “continente-conteúdo”, tendo considerado o berço desse modelo a relação mãe-bebé. Segundo ele, o continente acolhe os conteúdos projectados (ansiedade) devolvendo-os em estado de menor ansiedade, como conteúdos mentalmente suportáveis para o sujeito.

3. Grupo Psicoterapêutico como Lugar de Contenção

Como ocorre com a relação dual, o grupo terapêutico também pode funcionar como um continente das ansiedades projectadas no campo dinâmico grupal.

Na linguagem de Bion, um seio que permite a contenção do terror sem nome (Bion, 1962/1994) da ansiedade catastrófica e a efectivação da função alfa (ibidem). Uma “rêverie” (Bion, 1962/1991), que, tal como a origem francesa da palavra revela – “rêve” = sonho – (Zimerman, 1995), seja uma consequência da mãe-grupo estar em estado de “sonho”, a captar o que se passa com o seu filho/irmão de grupo-paciente, através da intuição empática.

O “ser-sonhado” torna-se um “ser-sonhador”, ou seja, um ser que, em estado de sonho activo através da intuição empática (internalização da “rêverie”), é capaz de imaginar as necessidades e desejos, do outro e as suas próprias. No grupo, esta “rêverie” permite ser-se imaginado empaticamente (entendido) e compreender o outro, imaginando-o.

O grupo psicoterapêutico é um continente com características específicas, que variam de acordo com o tipo de psicoterapia grupal e o “setting” a este associado.

De um modo geral, existem dois tipos de contenção, a contenção da equipa terapêutica, na sua função parental de cuidadores – “objecto combinado” (Meltzer, 1973/1979), e a contenção fraterna dos colegas-irmãos de grupo. Essas contenções têm conteúdos simbólicos diferentes: enquanto a primeira está fundamentalmente associada à relação filho-pais e indivíduo-figuras de referência/modelos, a segunda relaciona-se sobretudo com a relação com os pares. Isto potencia e enriquece o campo terapêutico grupal enquanto “espaço-continente”.

A contenção grupal somente é possível devido à identificação que se estabelece entre os membros do grupo, como resultado da “ressonância fantasmática (Kaës, 1999/2003) que ocorre entre todos eles.

Para que a vinculação grupal seja efectivada é necessário, pelo menos nos momentos mais conturbados do individuo integrado num grupo, o que Didier Anzieu (1976/1995) denominou de ilusão grupal, um estado emocional do grupo, ou “mentalidade grupal” (Bion, 1961/1970), no qual os indivíduos crêem nas capacidades do grupo em satisfazer todas as necessidades individuais e colectivas.


4. Dramatização enquanto Espaço de Contenção do Terror sem Nome

No caso da psicoterapia de grupo que praticamos, o psicodrama psicanalítico, a contenção não é efectuada unicamente com o recurso à palavra, sendo também realizada durante a etapa da dramatização.

A dramatização é a etapa do psicodrama que possibilita ao paciente uma experiência vivencial dos seus conflitos, reactualizados, revividos e, assim sendo, com a possibilidade de serem resignificados e transformados (Soeiro, 1976/1995). Esta experiência vivencial pode ser extremamente importante, na medida que pode ser reparadora, podendo possibilitar a revivência e a vivência de emoções ainda não vividas.

Uma das experiências emocionais que podem ser revividas são as experiências de contenção da dor mental, e consequente aquisição da capacidade de pensar a dor e as emoções associadas, por intermédio de um “aparelho psíquico grupal” (Kaës, 1976) que se encontre a funcionar enquanto “função alfa e continente transformador”.

A dramatização permite a revivência das experiências emocionais da fase pré-verbal que fazem parte do reportório emocional do sujeito, ao ser-lhe possível abolir, temporariamente, a palavra.

Assim, as experiências que estão relacionadas com ansiedades catastróficas não-toleradas, ou difíceis de tolerar, podem ser contidas através da contenção física do grupo (um “corpo-continente”, que pode ser o abraço grupal, efectuado pelo grupo ou por um dos seus elementos), dando azo a que, numa fase seguinte, essas emoções possam ser pensadas, já com recurso à palavra, ainda na dramatização, ou depois dela, na etapa final da sessão (comentários/partilhas).



5. Técnicas Psicodramáticas de Contenção

Enquanto ferramenta psicoterapêutica, o psicodrama é dotado de técnicas facilitadoras da contenção emocional, tais como o uso de objectos intermediários, a técnica da realização simbólica e, como acima referimos, diversas dramatizações em que se utiliza o corpo como contentor – “a contenção físico-emocional”.


5.1 Objecto Intermediário

Este tipo de objecto pode ser usado quando a comunicação com o protagonista é extremamente difícil. Jaime Rojas-Bermúdez (1966/1980) encara o objecto intermediário como um instrumento de comunicação capaz de actuar terapeuticamente sobre o protagonista, sem fomentar estados de desconforto ou alarme. Este objecto caracteriza-se por uma existência concreta, maleabilidade, capacidade comunicativa e adaptabilidade às necessidades do indivíduo, permitindo uma relação íntima e a identificabilidade pelo reconhecimento automático. Para Rojas-Bermúdez, o objecto intermediário “(…permite restabelecer a comunicação perturbada…)” (Rojas-Bermúdez, 1966/1980, p.170), num ambiente emocional seguro, podendo, por conseguinte, actuar como um objecto contentor.


5.2 Realização Simbólica

Trata-se de uma técnica que se utiliza quando a representação directa de um conflito pode ser muito difícil para o protagonista. Consiste em dramatizar-se uma situação na qual o conflito do protagonista está representado simbolicamente, de modo a diminuir a sua tensão e resistência psicoterapêutica. As dramatizações possíveis são variadas e dependem da abordagem clínica, da criatividade e da experiência psicoterapêutica do director (ibidem). De acordo com Carlos Amaral Dias (1993), através da “metaforização psicodramática”- estabelecimento de um vínculo entre a situação dramatizada e o conflito representado nessa situação -, permite a significação de acontecimentos que ainda não tinham sido significados, e, assim sendo, a contenção e a devolução transformadora das angústias do paciente. (Ribeiro e Correia, 2016)


5.3 Técnicas de Expressão Corporal

Como se sabe, existem inúmeras técnicas corporo-expressivas facilitadoras da contenção emocional que podem ser usadas em psicodrama.



6. Grupalidade e Contenção

No grupo, a condição gregária inerente à espécie humana - para Bion (1961/1970) a sua “grupalidade - está sempre presente, como factor de sobrevivência emocional e lugar de construção conjunta do mundo onírico dos sonhos.

Este “instinto gregário inato” (Trotter, 1916), resultante da fragilidade biológica da espécie humana, desencadeia a necessidade de vinculação biopsicossocial precoce, sem a qual não seria possível sobreviver, física e emocionalmente.

Todavia, a ansiedade catastrófica nunca desaparece do campo emocional do sujeito, sendo revivida sempre que ocorre uma experiência emocional de desamparo.



7. No Lugar do Desemparo o Sonho Amparado: O Crescimento

O grupo desempenha, pois, um papel crucial na contenção do “terror sem nome da solidão desamparada”, que está na base da capacidade de pensar, imaginar, ser e sonhar, isto é, crescer.

Com efeito, o grupo, externo e interno, é um lugar de desintoxição das angústias não-significadas, e um lugar onde as identificações, fantasias e desejos podem encaminhar o indivíduo para as suas realizações.

Em diversos pacientes temos constatado que o continente grupal foi crucial para estabelecer relações seguras e confiáveis, a partir das quais foi sendo gradualmente possível sonhar, assumir os sonhos e desejá-los.



Bibliografia
Anzieu, D. (1976). Le Travail Psychanalytique Dans Les Groupes. (Ed.) Dunod, Paris:França.

Bion, W.R. (1961/1970). Experiências com Grupos. (Ed.) Imago Editora (2ª Ed.), Rio de Janeiro: Brasil.

Bion, W.R. (1962/1991). O Aprender com a Experiência. (Ed.) Imago Editora, Rio de Janeiro: Brasil.

Bion, W.R. (1962/1994). Uma Teoria sobre o Pensar. In: Estudos Psicanalíticos Revisados. (Ed.) Imago Editora, Rio de Janeiro: Brasil.

Dias, C.A. (1993). Palcos do Imaginário: Textos Psicodramáticos. (ed.) Fenda, Lisboa: Portugal.

Kaës, R. (1976). L’Appareil Psychique Groupal. (Ed.) Dunod, Paris:França.

Kaës, R. (1999/2003). As Teorias Psicanalíticas do Grupo. (Ed.) Climepsi Editores, Lisboa: Portugal

Meltzer, D. (1973/1979). Os Estados Sexuais da Mente. Ed.) Imago Editora, Rio de Janeiro: Brasil.

Soeiro, A.C. (1976/1995). Psicodrama e Psicoterapia. (Ed.) Ágora, (2ª Ed.), São Paulo: Brasil.

Trotter, W. (1916). Instincts of the Herd in Peace and War. (Ed.) Fischer Unwin, London: UK.

Ribeiro, J.P. & Correia, A.M. (2016). Psicodrama e Musicoterapia: A Complementaridade da Expressão Emocional, Manuscrito submetido a publicação.

Rojas-Bermúdez, J.G. (1966/1980). Introdução ao Psicodrama. (Ed.) Editora Mestre Jou (3ª ed.), São Paulo: Brasil.



Zirmerman, D. (1995). Bion, da Teoria à Prática. (Ed.) Artes Médicas, Porto Alegre: Brasil.

Revista Online – Nova Série – Ano 2016



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