O contributo das religiões para a paz



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O CONTRIBUTO DAS RELIGIÕES PARA A PAZ

Nos dias 23 e 24 de Junho passado realizou-se, em Lisboa, Portugal, o III Colóquio Internacional, organizado pela Comissão da Liberdade Religiosa, subordinado ao tema: O contributo das religiões para a paz.

A Comissão da Liberdade Religiosa «é um órgão independente, de consulta da Assembleia da República e do Governo», prevista na Lei da Liberdade Religiosa (LLR) de 2001, aprovada pela Assembleia da República. «Tem atribuições no âmbito da protecção da liberdade religiosa, de controlo da aplicação, desenvolvimento e revisão da Lei da Liberdade Religiosa, de pronúncia sobre as matérias relacionadas com a mesma lei e, em geral, com o direito das confissões religiosas em Portugal. A Comissão tem igualmente atribuições no âmbito do estudo e investigação científica das igrejas, comunidades e movimentos religiosos em Portugal» (art. 2º da LLR). Os membros são onze, havendo dois representantes da Conferência Episcopal: os Professores Doutores José Eduardo Borges de Pinho e Pe Manuel Saturino da Costa Gomes.

Três foram as temáticas principais: Os contributos das Religiões para a paz; A liberdade religiosa no mundo actual; Crentes e não crentes face à laicidade. Inúmeros foram os convidados das Religiões e confissões religiosas que proferiram as suas reflexões: Igreja Católica, Hinduismo, Judaísmo, Aliança Evangélica Europeia, Islamismo, Budismo, Igreja Ortodoxa Grega em França, Baha’is. Duas organizações – A Ajuda à Igreja que sofre e a Comunidade de S.Egídio – estiveram também presentes e deram o seu testemunho e reflexão. Outros oradores eram agnósticos e sem Religião.

A sessão de abertura contou com a presença do Dr. Mário Soares, ex-Presidente da República e Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, Dr. António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, D.José da Cruz Policarpo, Cardeal-Patrirca de Lisboa, Dr. Alberto Costa, Ministro da Justiça, Engº José Sócrates, Primeiro Ministro. Na sessão de encerramento, o Dr. Mário Soares e o Ministro da Justiça.

Das intervenções havidas vários foram os aspectos focados, que não temos oportunidade de enunciar na totalidade. Em primeiro lugar, o papel relevante e incontornável na vida da humanidade, como factor integrador de realização pessoal e comunitária. Se houve guerras religiosas no passado, não foi só por culpa das religiões mas também por causa da interferência da política. Mais do que ninguém, as religiões conhecem o íntimo da pessoa e ajudam-na no seu crescimento humano, espiritual e moral. Uma religião que não contribua para a paz não é verdadeira religião!

Depois, foi acentuado que o fenómeno religioso não pode ser ignorado e escamoteado, ele é parte integrante da sociedade e da vida dos homens de todos os tempos. Referindo-se ao conceito de laicidade, as opiniões convergem para que o Estado fomente e incentive a liberdade religiosa, sem ser protector desta ou daquela religião, mas não se tornando anti-religioso ou contra as Religiões. Ele não é crente e anti-crente, não é portador de uma doutrina teológica e moral. O Estado laico é o oposto ao Estado teocrático, ao Estado regalista e paternalista. Citando um documento da Conferência Episcopal (15 Maio 2000), foi dito que o Estado é laico, mas a sociedade é plural a nível religioso: «O Estado e a sua actuação têm a sociedade como referência e razão de ser. Ora, esta não é laica, porque é plural no aspecto religioso; no nosso caso português, uma maioria significativa da população tem a Igreja Católica como referência confessional. A prática da laicidade do Estado não deve supor a laicidade da sociedade». Isto é, o Estado não pode menosprezar as religiões e confissões, sob pena de estar a faltar à sua missão. Proibir a ostentação de símbolos religiosos não será a melhor maneira de apoiar os sentimentos e atitudes religiosas, a não ser que eles sejam portadores de violência, racismo e intolerância.

O Cardeal Patriarca de Lisboa que fez um discurso na abertura, a convite do Dr.Mário Soares, teceu considerações várias sobre a religião e a sua repercussão nas sociedades hodiernas. Lembrou que falta fazer um estudo comparado das religiões no nosso país e que os próprios crentes, incluindo os da Igreja Católica, conhecem pouco dos seu património religioso-doutrinal. Há que formar mais as pessoas, dar mais instrução nas escolas com programas adequados, eliminar os preconceitos anti-religiosos e anticlericais. Afirmou que «todas as grandes religiões, pelo menos as que eu conheço um bocadinho, afirmam no seu ideal, na sua doutrina, o ideal da paz, mas o seu contributo real para a paz depende não apenas da palavra que proclamam mas da fidelidade em pôr em prática os valores que defendem».

A necessidade de esclarecer mais as mentes sobre as religiões foi também reforçada pelo Professor Doutor António Reis, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano-Maçonaria Portuguesa, que está de acordo que haja uma cadeira sobre a história das Religiões nas escolas, não excluindo todavia o ensino da Educação Moral e Religiosa Católica ou de outra Confissão. Este Professor considerou que o «analfabetismo religioso é tanto mais preocupante quanto é certo que a nossa sociedade é cada vez mais multicultural e que conhecer o outro é essencial para conviver em tolerância».

Este Colóquio foi uma ocasião de debate, de encontro, de diálogo e também de oração. No final dos trabalhos do dia 24, e já fora do programa, vários participantes deslocaram-se à baixa de Lisboa, mais propriamente frente à igreja de S.Domingos, local onde se realizou a matança dos judeus em 1506, e perante o monumento evocativo, o Grão Rabino René Samuel Sirat, Vice-presidente da Conferência de Rabinos Europeus, recitou a oração de kadish, invocando as bênçãos de Deus e evocando as vítimas desse massacre.

Pe Doutor M.Saturino C. Gomes

Membro da Comissão da Liberdade Religiosa









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