O contributo do Islão para a promoção da paz



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O contributo do Islão para a promoção da paz
Faranaz Keshavjee *
Janus 2008

Num mundo imensamente conturbado, onde a violência, os conflitos sociais e políticos e as ameaças são constantes e inquietantes para a maioria dos povos do mundo, sendo essas legitimadas por um discurso religioso chamado “islâmico”, urge repensar alguns aspectos importantes e apontar caminhos para a resolução pacífica da concórdia e harmonia à escala mundial.

Partindo do pressuposto factual de que o Islão não é uma realidade monolítica, nem cultural nem socialmente e que as sociedades muçulmanas são um mundo vasto, diverso, plural e heterogéneo do ponto de vista das suas comunidades de interpretação e portanto, de expressões religiosas e culturais, há no entanto duas áreas fundamentais onde podem revelar-se úteis e participativas enquanto sociedades que contribuem para a construção da paz, da harmonia e do desenvolvimento.

Uma das áreas em que devem intervir com alguma celeridade é a do desenvolvimento da vida intelectual dos seus povos, de forma a que o mundo muçulmano possa voltar ao seu lugar de direito enquanto parte da civilização mundial, e a outra é a da identificação das assimetrias sociais e económicas que servem, na maior parte dos casos, como impulsores do descontentamento e do desespero que estão na raiz de muitos problemas de violência que nascem em suas casas e que se voltam contra os seus vizinhos e contra o mundo em geral, e utilizar essa identificação das causas como elementos para o diálogo e a construção do desenvolvimento numa plataforma de discussão dos interesses comuns ao resto das nações humanas.

É importante notar todavia, que muito dos atrasos na vida intelectual e no desenvolvimento social de muitas sociedades muçulmanas são consequência de sucessivas colonizações e exploração de países do mundo “ocidental”, e de uma gestão parcial e desigual das riquezas mundiais. Os países do Médio Oriente, tais como o Egipto, o Iraque, Israel, Palestina, Arábia Saudita e o Irão; o Subcontinente asiático onde hoje encontramos países como o Paquistão, o Afeganistão, e outros, assim como os países africanos de maioria populacional muçulmana, tais como a Argélia, a Somália, Marrocos e outros, foram sucessivamente passando de mãos principalmente entre os europeus, americanos e também os soviéticos, nalguns casos, embora estes últimos tivessem deixado um legado cultural e intelectual mais equilibrado entre os povos, mas sempre na perspectiva de exploração de recursos de riquezas locais e subaproveitamento ou exploração de recursos humanos nativos. O período que se seguiu a esse em muitos países foi o da “islamização” dos Estados e da adopção de modelos legislativos desenquadrados e descontextualizados das necessidades e desafios colocados pelo mundo moderno, nas áreas dos direitos humanos, das ciências sociais e humanas e das ciências positivistas. Apesar desta realidade, os conflitos actuais, mais do que pretextos para recordar este passado recente penoso e subdesenvolvido, sugerem que se passe das lamentações e discursos de vitimização para outros de optimismo, confiança e colaboração entre povos, muçulmanos e não-muçulmanos, para a criação de infra-estruturas e condições essenciais para o desenvolvimento e participação em culturas de paz, segurança e bem-estar social e económico.

O desenvolvimento intelectual da ummah

O discurso sobre um Islão monolítico, homogéneo e hegemónico não é exclusivo das vozes ocidentais, que há muito deixaram de se informar e de conhecer uma civilização que está na raiz e nos contornos do mundo civilizacional moderno. Também entre muitos muçulmanos essa visão monolítica e normativa é largamente partilhada. Com efeito, todos os muçulmanos que aparentemente não caibam dentro dessa normatividade religiosa tendem a ser colocados na categoria da heresia desvirtuando o nome Islão. A história contudo, das sociedades muçulmanas não foi sempre assim, nem teria que ser, pois o Alcorão defende justamente a pluralidade da sua interpretação entre os fiéis que se entregam neste caminho da fé em Deus. Esta pode ser uma das causas por que as comunidades muçulmanas têm tido alguma dificuldade em conviver pacificamente entre si.

Este pluralismo, diversidade, e sobretudo, o conhecimento do Islão e das expressões civilizacionais que foi tomando, ultrapassam portanto a dimensão da teologia, porque o Islão não se resume a esta, mas a um conjunto de expressões civilizacionais, na pintura, arquitectura, no teatro, na música, nas letras, ou na dança, que ganham forma e relevo variado de acordo com as civilizações com as quais se mistura. É este pluralismo e expressões civilizacionais que precisam de ser conhecidos de todos nós, e dos muçulmanos em particular.

Se nalguns Estados de teocracias muçulmanas o Islão é ensinado na perspectiva de doutrinamento e de valorização de uma imagem do passado, adoptando uma tradição de pensamento absolutista e obscurantista, projectando essa imagem monolítica e ainda por cima, apresentando visões do mundo que opõem o Islão à modernidade, nos países onde os muçulmanos são minoria, ou não se ensina de todo o Islão como parte da história civilizacional, ou então, as imagens que povoam o parco conhecimento sobre os muçulmanos são sempre construídas em função do saber enviesado e distorcido dos media ou das imagens românticas ou avassaladoras, de mouras lindas e “infiéis” invasores, respectivamente. Urge também, por isso, reformar o processo educativo e de socialização e corrigir a forma como se aprende sobre os outros na nossa sociedade.

De um lado como do outro da sociedade humana, muçulmanos e não muçulmanos precisam de fazer um considerável esforço na forma como se conhecem e reflectir sobre os perigos da ignorância; dos muçulmanos sobre si próprios e dos não muçulmanos sobre esses. Os muçulmanos devem estar sensíveis às condições de alteração do mundo moderno e devem procurar beneficiar dos frutos materiais e intelectuais da modernidade, sem que sintam que a sua herança moral, cultural ou espiritual fica em risco. Por outro lado, os restantes parceiros deste processo de integração e de entendimento, devem também esforçar-se por criar as condições necessárias para o conhecimento, a informação e entendimento sobre as minorias que cada vez mais são parte de realidades sociais modernas, e promover políticas de pluralismo e de oportunidade de participação da sociedade civil, recordando as diferenças, não para segregar ou alienar os grupos sociais, mas para recuperar desses mesmos grupos o que de único e particularmente positivo possa ser aproveitado. Os riscos desta ignorância são, com efeito, a causa de um grande vazio no entendimento entre povos, e são acima de tudo, a causa fundamental dos conflitos culturais que hoje tanto se discutem.

A participação dialogante nas assembleias da paz e da segurança internacionais

Se a ignorância e o desconhecimento podem provocar o medo e, consequentemente, a desconfiança e relações conflituais entre grupo humanos, a escassez de recursos materiais, a pobreza, a miséria, a insegurança, e a falta de esperança, podem servir de ingredientes fundamentais para a explosão das rebeliões, da violência e da destruição.

Por muito esforço que se gaste na argumentação de que a violência, o terrorismo, e os conflitos do mundo moderno são de natureza teológica, a verdade é que em contextos sociais onde reinam a miséria, a insegurança e o desespero, coadjuvados pela pobreza de mente e da capacidade intelectual, encontramos os factores mais essenciais para o despoletar de conflitos, rupturas e violência de toda a sorte.

Estes sinais e expressões que por toda a parte nos deixam inquietos e inseguros não deveriam servir para produzir juízos apressados e generalizações totalmente erradas, mas para “tocar com o dedo na ferida” e tratar os males do mundo moderno. E o grande mal do mundo moderno não é o de um conflito de religiões, como seria mais facilmente explicável e desejável, portanto. Embora o discurso bíblico, todo ele, tenha na origem uma antropologia da violência própria de um tempo e da realidade contextual e imaginária desse mesmo tempo, e só assim deva ser lido e analisado, a verdade é que a fonte do mal do mundo moderno, as causas da violência e conflitos a que hoje assistimos são de natureza fundamentalmente política. Elas têm que ver com a distribuição desigual da riqueza e dos recursos materiais entre as nações humanas. Este factor, complementado com a incapacidade de gestão dos assuntos da terra pelos próprios nativos, ou por exploração alheia do seu destino, ou porque se perdeu a corrida no processo de formação e educação básica para que os nativos possam assegurar o rumo seguro do seu país e do seu povo, são elementos que promovem os mais variados tipos de violência.

O combate à pobreza e a promoção de meios para o desenvolvimento social, intelectual e económico são as batalhas que devemos assumir frontalmente para a construção da paz entre as nações humanas. E neste sentido, os muçulmanos deverão empenhar-se, enquanto entidades privadas, como colaborantes dos governos locais, e das nações unidas, para um diálogo de acções concretas e projectáveis no espaço e no tempo das necessidades contempladas como básicas para uma vida condigna. Neste sentido recordo duas figuras do mundo muçulmano que têm encetado esforços neste sentido, os Aga Khan III e IV. O primeiro, recordado por Adriano Moreira, em Fevereiro deste ano, enquanto um dos membros fundadores da Sociedade das Nações, e presidente da Assembleia, que discursou sobre a forma de estabelecer o império indesafiável da paz no mundo, e o segundo, o Aga Khan IV que recordo, em 2000, aquando da grande conferência organizada pela Comunidade de Santo Egídio e a Fundação Mário Soares, que reuniu líderes de mais de 30 organizações religiosas internacionais, escolheu falar sobre a paz no contexto africano. Como líder muçulmano da segunda maior comunidade xiita do mundo, o Aga Khan enfatizou neste encontro alguns aspectos interessantes e que podem servir como conclusão a esta reflexão sobre o contributo das correntes islâmicas para a promoção da paz no mundo. Embora se deva contextualizar a sua reflexão na realidade de África, o desafio que coloca do ponto de vista ético em todo o trabalho institucional que vai promovendo pelo mundo em desenvolvimento, os princípios orientadores são sempre os mesmos, ou seja, de uma perspectiva do mundo estável, seguro e movido pela esperança, onde a fé deve servir não para receber mas para se rejubilar no acto da dádiva. Para este líder muçulmano,

A paz nas próximas décadas só se pode alcançar quando se entender, valorizar e construir sobre a natureza pluralista da sociedade humana. Quaisquer diferenças devem ser resolvidas através da tolerância, através do entendimento, através da compaixão, através do perdão, através da generosidade”.



Informação complementar
excerto do discurso de sua alteza o príncipe aga khan iv na conferência internacional

enabling environment for afghanistan development,

Londres, 31 de Janeiro 2006
“A nossa experiência no Afeganistão, assim como nos vizinhos Tajiquistão e Paquistão, é a de que o desenvolvimento só é possível quando a comunidade se encontra envolvida no processo, desde o povo mais comum, e quando lhes são dadas as condições e os meios para que possam tomar a responsabilidade sobre o seu próprio futuro.

Isto significa capacitar as instituições da sociedade civil assim como esvaziar a fonte da iniciativa individual que tem sido característica do espírito afegão durante séculos.

É, portanto, crítico que o governo do Afeganistão crie as estruturas legais e fiscais apropriadas, as condições regulamentadoras, e as instituições democráticas estáveis – por outras palavras, que crie o ambiente possibilitador – que encoraje e que apoie a confiança e o crescimento da iniciativa privada, e que facilite o desenvolvimento de parcerias público-privadas.

Propomo-nos assim trabalhar com o governo do Afeganistão, e concertados com uma vasta variedade de depositários, apoiar o desenvolvimento e a mantenção de um ambiente possibilitador.

Sou um firme crente na ideia de que uma vez que as condições possibilitadoras estejam no seu devido lugar, a iniciativa privada e as organizações da sociedade civil poderão trabalhar com sucesso, com os governos, em direcção ao alcance da nossa visão comum para o Afeganistão.”

* Faranaz Keshavjee

Licenciada em Antropologia Social. Mestre em Psicologia Social pelo ISCTE e em Estudos Islâmicos e Humanidades pelo Institute of Ismaili Studies - IIS Londres. Candidata a Doutoramento pela Universidade de Cambridge. Docente do Mestrado em Ciências das Religiões na Universidade Lusófona. Autora de artigos de opinião no PÚBLICO. Colaboradora no curso de Teologia da Universidade Católica.






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