O coraçÃo não tem cor: trabalhando a diversidade étnico-racial na perspectiva do letramento



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O CORAÇÃO NÃO TEM COR: TRABALHANDO A DIVERSIDADE ÉTNICO-RACIAL NA PERSPECTIVA DO LETRAMENTO

Déborah Oliveira Sanarelli Chagas¹, Helenice Barros de Aquino¹, Elizangela Florentina Rodrigues², Regiane Müller Freiberger³


¹Acadêmicas do Curso de Pedagogia, Universidade de Rio Verde – UniRV

deborahsanarelli@gmail.com; heleniceaquino@gmail.com
² Coordenadora Pedagógica da Escola Municipal de Ensino Fundamental de Tempo Integral – EMEFTI Prof. Waldy Emrich Portilho

elizangelaafj@gmail.com

³ Orientadora, Docente da Faculdade de Pedagogia da Universidade de Rio Verde – UniRV

regiane.mestre@yahoo.com.br

Resumo: Este trabalho visa relatar a experiência de um grupo de bolsistas do PIBID vinculado à Faculdade de Pedagogia da UniRV – Universidade de Rio Verde - Goiás, desenvolvida em uma das escolas parceiras, a Escola Municipal de Ensino Fundamental de Tempo Integral – EMEFTI Prof. Waldyr Emrich Portilho, envolvendo o planejamento e a execução do projeto Criação de Grupos de Expressão Étnico Raciais. A partir da constatação da dificuldade em aceitar as diferenças físicas, especialmente em relação à cor da pele, manifestada pelos próprios alunos da escola parceira, surgiu a proposta de se trabalhar com o tema diversidade étnico-racial, o qual também já havia sido determinado pela coordenação do PIBID, como um dos temas para nortear o trabalho educativo da Unidade Escolar. Dentro desta perspectiva, pibidianas e professoras regentes desenvolveram o projeto de forma interdisciplinar, utilizando obras literárias infantis, envolvendo o respeito pelas diferenças, com o objetivo de desenvolver atividades de sensibilização, visando ampliar a compreensão e a valorização da diversidade étnica e cultural que compõe a nossa sociedade, e, ao mesmo tempo, promover o processo de alfabetização e letramento. A escola comprometeu-se com o projeto de forma que a culminância obteve êxito entre os alunos e também na comunidade escolar, a qual participou e colaborou significativamente nos trabalhos desenvolvidos durante o período de realização do projeto.
Palavras chave: Pluralidade cultural. Alfabetização e Letramento. PIBID.

Introdução

A temática da Pluralidade Cultural vem ganhando espaço no ensino escolar devido às resoluções da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nº 9.394/96 e também aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’S), influenciados pelos Órgãos Internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) que buscam a implantação dos direitos humanos. A proposta de valorização das características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem nos mesmos espaços, o entendimento acerca das desigualdades socioeconômicas e das relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, visa oferecer aos alunos “a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo, multifacetado e algumas vezes paradoxal”, para que uma nova perspectiva de respeito e solidariedade seja criada em relação a si e ao outro, como é explicitado nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais): pluralidade cultural, orientação sexual (BRASIL, 1997, p.121):


Este tema propõe uma concepção que busca explicitar a diversidade étnica e cultural que compõe a sociedade brasileira, compreender as suas relações, marcadas por desigualdades socioeconômicas e apontar transformações necessárias, oferecendo elementos para a compreensão de que valorizar as diferenças étnicas e culturais não significa aderir as valores do outro, mas respeita-los como expressão da diversidade, respeito que é em si devido a todo ser humano, por sua dignidade intrínseca, sem qualquer discriminação.

O tema do projeto desenvolvido na EMEFTI Prof. Waldy Emrich Portilho foi estabelecido pela coordenação do Programa PIBID como uma das etapas e atividades norteadoras para o trabalho na Unidade Escolar. A temática foi repassada às professoras regentes pela nossa Supervisora do PIBID e também Coordenadora da Escola. A questão foi discutida em grupos de estudo pelo corpo docente que constatou a necessidade de implantar tal projeto na escola, considerando as dificuldades apresentadas pelas crianças em aceitarem as suas próprias diferenças étnicas raciais e as de seus colegas.

Houve a necessidade de se trabalhar a autoestima e a autovalorização do aluno a partir do projeto interdisciplinar de criação de grupos de expressão étnico racial, para demonstrar as diferenças físicas entre as pessoas, destacando a igualdade de direitos e a importância do respeito. Desta forma, direcionamos as ações para o processo de alfabetização, envolvendo o lúdico, no sentido de ampliar a prática de alfabetização e do letramento, visando ao desenvolvimento de habilidades de leitura escrita.

A Escola tem o papel de ser o local de aprendizagem onde os alunos são estimulados a enxergar o outro, valorizar as diferenças e trabalhar a Pluralidade Cultural, conforme os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais): pluralidade cultural, orientação sexual (BRASIL, 1997, p.117):


O trabalho com Pluralidade Cultural se dá a cada instante, exige que a pessoa alimente uma “Cultura de paz”, baseada na tolerância, no respeito aos direitos humanos e na noção de cidadania compartilhada por todos os brasileiros. O aprendizado não ocorrerá por discursos, e sim num cotidiano em que uns sejam “mais diferentes” do que os outros.

O caminho percorrido

O PIBID colabora com o trabalho da Escola no preparo dos acadêmicos bolsistas para enfrentarem as transformações cotidianas de nossa sociedade globalizada e as consequências advindas do progresso tecnológico. O PIBID apresenta como forma efetiva de enfatizar valores essenciais como solidariedade, autonomia, responsabilidade, democracia, igualdade, honestidade e ajuda mútua. Tais valores devem ser estimulados para o exercício da cidadania, para a luta por uma sociedade mais justa na qual haja, um lugar para expectativas positivas de um mundo melhor. Ao falar da função da escola em trabalhar a diversidade Lacerda (2015) diz:


A educação deve progredir no mesmo ritmo, acompanhando os progressos e trabalhando em vistas para diminuir as desigualdades que se originam devido aos avanços, visto que há pessoas que ficam desprovidas dessas inovações. Para tanto, faz-se necessário proporcionar esses “confortos”, também para aqueles que não têm acesso, e a ponte mediadora entre essas diferenças é a escola.
N
essa perspectiva foi organizada uma reunião com supervisores com o tema Étnico Racial, propondo que o tema fosse engajado nas unidades escolares. De acordo com a P.P.P (Proposta Político-Pedagógica) que já contemplava o tema e a necessidade da Unidade Escolar, o corpo docente empenhou-se a trabalhar a etnia, buscando combater o racismo, o preconceito. As professoras e pibidianas desenvolveram um trabalho por meio de leituras, interpretação, análise de gráficos, tabelas, dramatizações e apresentações.
Figura 1: Reunião para elaborar atividades com o tema étnico-racial.
A escola buscou implantar no seu currículo o que é proposto pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais): pluralidade cultural, orientação sexual (BRASIL, 1997, p.117):

(...) reconhecer a diversidade como parte inseparável da identidade nacional e dar a conhecer a riqueza representada por essa diversidade etnocultural que compõe o patrimônio sociocultural brasileiro, investindo na superação de qualquer tipo de descriminação e valorizando a trajetória particular dos grupos que compõe a sociedade.


A nossa equipe, formada por 8 pibidianos, reuniu-se na Unidade Escolar sob a direção da Supervisora para discutir, esclarecer dúvidas do projeto a ser implantado na Escola. Depois fomos encaminhados para salas de aula para observarmos e participarmos das atividades de grupos de expressão étnicos raciais aplicadas pelas professoras regentes.
Mãos à obra!

Acompanhamos a sequência didática na sala do primeiro ano preparada pela professora regente que duraria um mês e terminaria com uma culminância juntamente com as outras turmas. Naquela sala o momento do encantamento foi inspirado no projeto, a professora dramatizou a história “A menina bonita do laço de fita” da autora Ana Maria Machado. Ela se caracterizou conforme a personagem da história, organizou os alunos em círculo e contou a história. A partir do conteúdo da história, as crianças foram estimuladas a exemplificar situações cotidianas em que haja respeito pelas diferenças existentes nos indivíduos e nos grupos sociais.

Figura 2: Dramatização do livro “Menina Bonita do laço de Fita”.

Associamos essas ações ao processo educacional que considera a pluralidade no espaço escolar, como descreve Lacerda (2015):


Uma escola que eduque para a pluralidade cultural, que perceba o outro como legítimo outro, o qual possui uma história, uma cultura, uma etnia e que perceba a turma de alunos como heterogênea, visto que cada aluno possui um diferencial, pois provém de lugares, culturas e famílias distintas, apresentando ritmos diferentes para aprender, o que caracteriza a pluralidade no espaço escolar.
Após esse momento, foi trabalhada uma atividade que propunha aos alunos a ordenação das partes da história de acordo com a ordem lógica dos fatos. Assim os alunos puderam desenvolver a leitura e a interpretação, a sequência lógica e também internalizar a mensagem da história. Esta atividade foi importante para analisar o entendimento que as crianças estavam tendo acerca da história e de preconceito racial.

Em relação à alfabetização, a sequência didática procurou alcançar os seguintes objetivos:




  1. Ler e reconhecer significados de palavras;

  2. Realizar comentários acerca da história vista;

  3. Ler e classificar as palavras em determinados grupos;

  4. Listar palavras iniciadas com M;

  5. Produzir frases ampliadas com palavras do contexto em estudo;

  6. Ordenar partes da história;

  7. R
    ealizar agrupamentos, de acordo com a letra inicial;

Figura 3: Pibidianas fazem a seleção para peça teatral.
No decorrer do mês, a nossa equipe de bolsistas do PIBID juntamente com as professoras regentes, continuamos os preparativos das atividades étnico raciais. Auxiliando a professora, fizermos uma pré-seleção de alunos que representaram o teatro da história “A menina bonita do laço de fita”. O teatro foi utilizado como meio de comunicação pelo qual as crianças puderam expressar seus sentimentos, suas emoções, sua criatividade.

Ressaltamos, conforme FERREIRA (206, p.15), que:


Teatro é educação, é “pedagogia cultural” que veicula sentidos e discursos, que exercita, primordialmente, a imaginação, tanto em atores e diretores quanto nos espectadores, em todos que lançam seus esforços para realização do fazer teatral.

Foram aplicados métodos de alfabetização utilizando o tema étnico racial. As crianças foram estimuladas com atividades de completar o texto com palavras que estão faltando, circular a escrita correta de palavras com apoio de gravuras. Em todo o trabalho foi estimulada a participação oral dos alunos para que pudessem expor sua opinião, as suas experiências em relação ao preconceito racial. Pois com diz Kulisz (2004, p.67) em relação a escolar ser “(...) um espaço de convivência social, de construção de um conhecimento de mundo e de constituição de identidade e autonomia da criança no interior do seu desenvolvimento pessoal e social”.




Frutos do Projeto Interdisciplinar

Depois de concluída a sequência didática, o projeto foi encerrado com a Culminância, que contou com a presença de toda a comunidade escolar. Todos os responsáveis pelos alunos foram convidados para assistirem as apresentações das crianças e as exposições dos trabalhos.

Este foi um momento especial não só para as professoras, mas para os alunos que puderam expressar através da música, dos desenhos a nova perspectiva de ser humano e do valor de si e do próximo. As professoras e pibidianos organizaram várias apresentações, como dramatização de peças teatrais, como “A menina bonita do laço de fita” e dramatizações musicais como, “Aos olhos do Pai” e “Você é especial”, que emocionaram aos pais por mostrar o valor único e a singularidade de cada pessoa.

Foram expostos os trabalhos realizados pelos alunos no decorrer do 1º semestre de ilustrações das histórias da “Menina Bonita do laço de fita” e também da “Bonequinha Preta”.

As atividades desenvolvidas foram encerradas com chave de ouro, onde a equipe da EMEFTI Professor Waldyr está de mãos dadas com o PIBID, mostrou que devemos estar sempre trabalhando valores e eixos temáticos como o étnico racial enfatizando que cada um tem seu próprio valor e não devemos cultivar nenhum tipo de preconceito.

As crianças foram beneficiadas em todos os setores, pois além de desenvolver a afetividade, a cidadania, todo o trabalho interdisciplinar culminou para o desenvolvimento da leitura e escrita.

Para nós pibidianas foi um momento único participar da construção deste projeto e da sua execução. Foi empolgante ver os alunos desenvolver esse amor por si mesmo e por outro. A preocupação de mostrar o seu melhor, através dos textos escritos e dos desenhos. Pudemos perceber a importância do papel do professor, que é o referencial, o modelo do aluno, pois somos os primeiros a q
uem eles desejam receber esta afetividade, a valorização do seu ser.
Figura 4: Painel produzido e apresentado na Culminância do Projeto.
Vejamos algumas manifestações de alunos, professores e de nossa supervisora, após todos esses meses de atividades em sala de aula, por meio dos depoimentos a seguir:

“Eu aprendi que meus amigos são importantes porque eu preciso de todos eles. Eu aprendi que na história “A menina bonita do laço de fita” que a cor dela não importa a nem a cor dos olhos o que importa é o que ela é por dentro. Adoro ter amigos de todos os jeitos porque somos especiais. ” (A. C. V. V., aluna do 2º ano)






“Ao trabalhar a história “Menina bonita do laço de fita”, mostrei a história real, explorei capa: autor, ilustrador, falei da cor de pele da menina e que era graciosa e muita inteligente inventando histórias engraçadas, e o coelho branco que era apaixonada por ela. A mensagem que usei foi de que a cor da pele é resultante da descendência familiar e que a beleza pessoal não está ser “preto” ou “branco”, mas sim na essência de cada um. Perguntei a eles sobre qual a importância da cor da pele e obtive resultados maravilhosas, tanto que abriu um leque para abordar outros assuntos como discriminação racial, de sexo, etc. Para o encerramento, selecionei alguns meninos para representarem a história, foram selecionadas por meio de votação e todos concordaram com o resultado.” (M. S. M., professora do 2º ano)

“Eu gostei de fazer o livrinho, com os desenhos da história e foi muito divertido. Aprendi que devemos gostar de todo mundo mesmo sendo de outra cor ou raça e que a música nos alegra muito.” (M. B. C., aluno do 2º ano)






“O trabalho com Literatura Infantil, nos traz possibilidades de explorar várias habilidades e competências desta faixa etária. Sendo assim, com a opção da história “A Bonequinha Preta”, pode-se explorar a heterogeneidade na escola, como o preconceito racial, buscando, as origens dos participantes, suas descendências, culturas em que estão inseridos não só local, mas também global com isso formar cidadãos críticos e autônomos que participam do processo social, conscientes de seus direitos e deveres na sociedade com base no respeito mútuo.” (S. M. S. e F. M., professoras do 2º ano)




“É muito gratificante chegar ao fim do semestre e ter a oportunidade de presenciar apresentações e exposições de trabalhos tão significativos e perceber que todo esforço e dedicação dos professores valeu a pena.” (E. F. R., coordenadora pedagógica e supervisora do PIBID)

Considerações Finais

Conclui-se o trabalho com sucesso pois o mesmo surgiu da necessidade de ser trabalhado na atual sociedade na qual estamos inseridas, onde em todas as escolas, devemos garantir a igualdade de acesso dos alunos a uma Base Nacional Comum, de forma a assegurar a unidade e a qualidade da ação pedagógica na diversidade nacional.

Em todas as escolas, devemos garantir a igualdade dos alunos a uma Base Nacional Comum, de forma a assegurar a qualidade da ação pedagógica na diversidade nacional e a parte diversificada, de acordo com as necessidades e interesse da comunidade.

A escola por ser um espaço de múltiplas relações, se torna um lugar privilegiado e rico para a discussão da questão do preconceito ou do racismo, pois por sua esta reproduz o mundo social, no seu interior estão presentes as ideologias que estruturam o modo de ser e fazer na sociedade.

Observou-se no primeiro momento, que o assunto foi abordado com cuidado evitando constrangimento e interagindo as crianças, porém cada passo do desenvolvimento das ações (roda da conversa, análise de letra de músicas, leitura, interpretação de histórias, dramatização, dentre outras).

As crianças participaram ativamente de todas as atividades propostas e despertando o espírito de companheirismo e respeito mútuo.

O trabalho desenvolvido não se trata de educar todos iguais, mas sim educar na diferença ressaltando as especificidades. Não se trata apenas de respeitar a consciência negra, mas de resgatar as demais etnias de uma educação envenenada pelos preconceitos.

A educação comprometida com a construção da cidadania é aquela que cria condições para que o aluno possa desenvolver e ampliar continuamente seu universo existencial, cognitivo e da ação interativa.



Referências

Brasil. Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Pluralidade cultural, orientação sexual. Brasília: MEC/SEF,1997.

Educação e Diversidade: estudos e pesquisas. v.1. Disponível em: .Acesso em: 13 de outubro de 2015.

Lacerda, Caroline Cortês. Diversidade: o caminho para transformação do fazer pedagógico. Disponível em: . Acesso em 07 de outubro de 2015.



FERREIRA, Taís. A escola no teatro e o teatro na escola. 2 ed. Mediação. 128p.




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