O corpo do professor revela



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O CORPO DO PROFESSOR REVELA
Msnda Angela Rodrigues Luiz - UFU

INTRODUÇÃO
Pessoas caminham, vão de um lado para o outro, objetivando cumprir determinada tarefa. Em meio a esse movimento vertiginoso nem sempre há tempo para observar, sentir, obedecer aos desejos do corpo. Por instantes, num sobressalto os olhos encontram seu próprio corpo refletido por espelhos ou vidraças.

Esse ritmo acelerado tem se tornado situação comum e habitual nas cidades, nas ruas e também nas escolas.

O corpo passa pela escola, mas é profundamente marcado por ela. Com raríssimas exceções ele se faz presente ao longo dos anos escolares. A aceitação das vontades do corpo é inversamente proporcional ao nível de ensino em que este corpo se encontra. Tal situação diz respeito não exclusivamente aos alunos, mas também aos professores e demais funcionários que atuam em instituições educacionais.

Dispensar atenção para o seu próprio corpo. Ouvir, ver e principalmente ler a história que ele revela, se expressando pela estrutura, postura e fisionomia corporal. Assim se configura a proposta deste artigo, que vê nos professores o meio de disseminar uma educação mais significativa e que passe pelo corpo.

Para tanto entendemos que os professores necessitam estar em contato com o próprio corpo, viabilizando assim, a interação com outros corpos. Em seu estudo Moysés (2003) indica aos professores que permitam que o corpo esteja presente em todos os momentos do ensino-aprendizagem, mantenham-se sempre alertas para não contribuírem em aumentar os bloqueios energéticos corporais dos alunos.

Cada corpo trás em si o registro de uma história que é única, peculiar aos momentos vivenciados por aquela pessoa, conhecer os meandros revelados por cada curva, significa também aceitar que somos diversos, que experiênciamos um mesmo fato com diferentes intensidades, de distintos modos. Justificando assim nosso interesse em conhecer um pouco da história dos corpos que atuam na educação, e se mostram diariamente a tantos outros corpos e que muitas vezes se vêm espelhados.


PROFISSÃO, PROFESSOR E CORPO
Este estudo pretende ir além das constatações das dificuldades e dos desprazeres que a profissão promove aos professores, compartilhando com Esteve (1999, p. 25) cuja visão amplia os horizontes a fim de “abrir uma porta à esperança, descrevendo e valorizando as estratégias postas em andamento com o fim de abreviar ou reduzir os efeitos negativos desse ciclo degenerativo da eficácia docente”.

Neste sentido, Esteve (1999) assinala uma crescente confusão com respeito à complexa e extensa função do professor, a família e a sociedade transferiram algumas de suas atividades à escola e consequentemente a pessoa do professor. Porem, essas transferências não foram acompanhadas por mudanças no processo de formação profissional dos educadores.

A formação inicial dos professores estimula o estereótipo ideal, e quando este se depara com a situação real de uma instituição de ensino sente-se desconcertado e despreparado para a prática docente. Com o passar do tempo esgotam as tentativas e expectativas de melhoria do ensino e das condições de trabalho, definindo-se um quadro comportamental de desanimo, também chamado de Mal-estar Docente por Esteve (1999) e assim previamente caracterizado em sua obra:
O professor queimado é um fenômeno demasiado familiar para qualquer adulto que trabalhe na escola pública atual. Os sintomas incluem um alto índice de absentismo, falta de compromisso, um desejo anormal de férias, baixa alto-estima, uma incapacidade de levar a escola a sério, os problemas do professor separam-no cada vez mais de seus alunos. (ESTEVE 1999, p. 57)

Da mesma forma encontramos o termo burnout, em muitos casos associados ao conceito de stress. Para este último termo encontramos sua origem na física, cujo significado é o de fricção, ou desgaste provocado por fricção; as energias vão sendo roubadas pela fricção de um corpo em relação aos outros. Biologicamente podemos encontrar a definição de Hans Selye para o estresse como “a resposta não específica do corpo a qualquer requerimento. Desenvolve-se como reação a um estímulo (chamado stressor) e implica um processo de adaptação que se manifesta mediante mudanças nos níveis hormonais e no tamanho de muitos órgãos” (SELYE, apud ESTEVE, 1999, p. 148).

Ainda no ano de 1999, burnout foi apresentado em um estudo brasileiro, coordenado por Wanderley Codo, como a síndrome da desistência do educador, que pode levar à falência da educação. A pesquisa desenvolvida por Codo e sua equipe envolveu 52.000 sujeitos em 1.440 escolas do ensino básico, que compreende o ensino infantil, fundamental e médio, situadas em vários pontos de todos os estados do Brasil. Após investigação exaustiva e abrangente, chegou-se a um resultado alarmante: 48% dos profissionais da educação entrevistados apresentam sinais de mal-estar com a profissão, características da síndrome de burnout.

São problemas que instigam professores, psicólogos e pesquisadores afins, abrindo novos caminhos para estudos que buscam contribuir, auxiliar na compreensão dos fatos e possibilitar o desenvolvimento de novas atitudes perante a vida e, por conseguinte na profissão.

Do mesmo modo que o burnout é uma desistência de quem ainda está lá, encalacrado em uma situação de trabalho que não pode suportar, mas que também não pode desistir, o corpo segue vivendo sem energia, faltando vitalidade e esperando um fim por si mesmo. O trabalhador arma, inconscientemente, uma retirada psicológica, um modo de abandonar o trabalho apesar de continuara no posto. O professor, em específico, está na sala de aula, mas passam a considerar cada aula, aluno, semestre, como números que se somam. (CODO, 2002)

Então buscamos uma teoria que possibilitasse compreender o homem a partir de seu corpo e encontramos a psicanálise das atitudes corporais, dos gestos, das caras e dos tons de voz, desenvolvida por Wilhelm Reich (1897 – 1957), também conhecida como Psicoterapia Corporal.

Como nos apresenta Gaiarsa (1991), a teoria reichiana trata do homem inteiro, não somente da comunicação pela palavra e “mostra em pormenores e insistentemente que todas as nossas posições, gestos e caras têm funções ou têm efeitos – sobre os outros e sobre nós mesmos” (p. 13). De modo intencional ou não o nosso corpo expressa nossos desejos e vontades, logo ele fala tanto quanto a palavra.

Enquanto tecemos a problematização da profissão docente, conduzimos o pensamento do professor para a análise da sua real situação corporal sendo esta o resultado das ações desmedidas do modo de sobreviver em meio a uma sociedade que em nome do coletivo e do social, esfacela o organismo individual, o que interfere nas relações como o todo. O corpo é inferiorizado, silenciado em seus desejos, mas deve estar inserido nas manobras sociais que o utilizam, desmedidamente, para manter acesa a chama do comercio, onde ele também é mercadoria.


LENDO A HISTÓRIA REGISTRADA NO CORPO
Muitas pessoas têm a impressão que, ao falar, o que realmente importa “é o rosário das palavras”, e que estão dizendo, exato e unicamente, o que pretendiam. “Mas se fosse assim a pessoa não estranharia sua figura vista num teipe, nem sua voz e inflexões ouvidas num gravador” (GAIARSA, 1991). Podemos então medir a diferença entre o que pretendemos comunicar e o que o outro entende.

Percebemos que no centro dos fatos está o corpo, que pode ser visto e entendido por um observador que esteja atento e interessado. “O corpo revela os meandros e as curvas da historia pessoal: os segredos, traumas e triunfos de dias passados.” (Kurtz, 1989) Também encontramos como premissa reichiana que todo indivíduo trás sua história de vida registrada no corpo.

Em muitos casos o relato verbal não concorda com a expressão corporal, fazendo necessária a utilização de práticas, movimentos que possibilitem a energia, o sentimento de se exteriorizar, assumir aspectos físicos ou orgânicos para ser completamente aceito. À medida que mais pessoas buscam entender que o corpo não mente – enquanto as palavras o fazem – analisar o corpo está se tornando a nova estrada real para o inconsciente e ações que organizam o comportamento.

Assim justificamos nossa associação de teorias para abarcar o professor em sua vida e profissão, instigando-o a conhecer-se e transformar suas ações na melhoria dos dias vividos pelo seu corpo. Através do corpo podemos percorrer o caminho de volta e que a princípio, nos conduziu àquele estado crítico, por muitas vezes apático.

Ler a história de vida registrada no corpo implica também em aceitar uma estrutura do caráter que vem se formando desde os primeiros anos de vida, em muitos casos trazem reflexos da vida intra-uterina. Com o passar dos anos uma educação repressora define os hábitos corporais, esses hábitos passam a limitar o movimento, diminuindo a flexibilidade, bloqueando e truncando a nossa expressão, nos impedindo de experimentar de forma plena a vida.

Na infância, o ser humano é dotado de uma energia completa e integrada, mas a criança está a mercê de uma sociedade que ameaça, exige e castiga, assim os desejos são reprimidos e etapas saudáveis do desenvolvimento humanos são interrompidas ou anuladas. Quando um ciclo não tem todas as etapas cumpridas gera desarmonia e seus reflexos podem ser percebidos por tempos e em lugares indeterminados.

Toda criança evita o medo e a dor, fogem de situações que promovam essas experiências. Porem, quando uma criança é constantemente submetida a situações que causam tensão, ela cria seus próprios mecanismos de defesa. Para exemplificar traremos a idéia de Ron Kurtz que expressa o livre fluxo energético e a sensação em um corpo bloqueado:

Em uma pessoa aberta e saudável o sentimento flui facilmente e se transforma em expressão. Um intenso sentimento de tristeza espontaneamente se transforma em uma mandíbula trêmula, lágrima e choro. Em uma pessoa com bloqueios emocionais, a tensão muscular crônica interrompe esse fluxo. Por exemplo, ao bloquearmos a expressão de tristeza, nós enrijecemos a mandíbula, o tórax, o estômago, o diafragma e alguns músculos da garganta e do rosto – todas as áreas que se movem espontaneamente quando é permitido ao sentimento sua válvula de escape natural. Se a tristeza for intensa e duradoura e o bloqueio continuar, a tensão se transforma em hábito e a capacidade de expressar-se ficará tolhida. (KURTZ e PRESTERA, 1989, p. 28)

Deste modo, conhecer os mecanismos corporais, prever as reações para acontecimentos vivenciados pelo corpo e acima de tudo promover um auto-conhecimento que restaure os abalos negativos sofridos pelo ego.

Em linhas gerais o ser humano é pensado por Reich como um ser humano que sofre por desconhecer como a energia vital atua em seu organismo, adequando-se aos padrões aceitos pela sociedade e renegando a memória corporal que está registrada no corpo. Assim, proporcionamos às pessoas uma experiência de auto-conhecimento que os impulsionem para novas vivências, e consequentemente desenvolverão seu trabalho com mais ânimo, observando e respeitando as vontades de seu próprio corpo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CODO, Wanderley (Coord) Educação: carinho e trabalho. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
STEVE, J. M. O Mal-estar Docente. Trad. Durley de C. Cavicchia. Bauru: EDUSC, 1999.
GAIARSA, J. A. O que é corpo? 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
MOYSÉS, M. H. F. Sensibilização e conscientização corporal do professor: influencia em seus saberes e suas práticas pedagógicas. 2003. Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Uberlândia, 2003.
PEREIRA, V. R. T. A Saúde Emocional do Educador: saberes necessários aos trabalhadores da educação. 2005. Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Uberlândia, 2005.
RON, K.; PRESTERA, H. O Corpo Revela: um guia para a leitura corporal. 3 ed. Trad. Maria A. B. Libanio. São Paulo: Summus, 1989.


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