O desastre de acelino



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Os Mensageiros Cap.8


8

O DESASTRE DE ACELINO
Ía falar algo a Otávio novamente, quando alguém se aproximou e falou ao ex-médium, com voz forte:

- Não chore, meu caro. Você não está desamparado. Além disso, pode contar com a dedicação de sua mãe. Vivo em piores condições, mas ainda tenho esperanças. Sem dúvida, estamos em completa miséria espiritual. No entanto, é justo esperarmos confiantes novas oportunidades divinas. Deus não é pobre.

Virei surpreso e não reconheci o recém-chegado.

D. Isaura teve a gentileza de nos apresentar.

Estávamos diante de Acelino, que tem história parecida.

Percebendo sua tristeza, Otávio sorriu e avisou:

- Não sou criminoso no mundo, mas sou um falido para Deus e para “Nosso Lar”.

- Mas vamos analisar com lógica – respondeu Acelino, parecendo mais encorajado – você perdeu a partida por não jogar e eu perdi jogando desastradamente. Tive 11 anos de sofrimento no Umbral. Você não precisou passar por isso. Mesmo assim, confio em Deus.

Nesse momento, Vicente interveio:

- Cada um de nós tem a experiência que lhe é própria. Nem todos ganham nas experiências terrenas.

E, falando em especial comigo, acrescentou:

- Quantos de nós, os médicos, perdemos lamentavelmente?

Depois de concordar, comentando o meu próprio caso, observei:

- Mas seria muito interessante conhecer a história de Acelino. Você passou pela mesma situação de Otávio? Creio ser muito proveitoso receber estas lições. No mundo, não entendia bem o que eram as tarefas espirituais, mas aqui, a visão se modifica. Temos que pensar em nosso futuro eterno.

Acelino sorriu e respondeu:

- Minha história é muito diferente. O fracasso que vivi tem características diferentes e, a meu ver, muito mais graves.

E correspondendo à expectativa de todos, continuou contando:

- Também parti de “Nosso Lar” no século passado, depois de receber valiosa bagagem instrutiva dos nossos amigos. Fui enriquecido de bênçãos. Uma de nossas Ministras da Comunicação, dirigiu, pessoalmente, o processo de minha nova encarnação. Não faltaram providências para que eu tivesse saúde física e equilíbrio mental. Depois de fazer grandes promessas aos nossos amigos maiores, parti para uma das grandes cidades brasileiras, para serviço de nossa colônia. O casamento estava em meu roteiro de vida. Ruth, minha dedicada esposa, se imcumbiria de me ajudar para melhor desempenho de minhas tarefas.

Cumprida a primeira parte do programa, aos 20 anos de idade fui chamado à tarefa mediúnica, recebendo muita ajuda dos amigos invisíveis. Ainda me lembro da sincera satisfação dos companheiros do grupo de doutrinação. A vidência, a audiência e a psicografia que Deus me dera, por misericórdia, representavam fatores de êxito em nossas atividades. Era muito grande a alegria de todos. Entretanto, apesar das lições maravilhosas de amor evangélico, decidi transformar minhas faculdades em fonte de renda material. Não me dispus a esperar pelos abundantes recursos que Deus me enviaria mais tarde, após meus testes no trabalho, e resolvi, eu mesmo, os meus problemas lucrativos. O meu serviço não era igual a outros? Os sacerdotes católicos não recebiam a remuneração pelos trabalhos espirituais e religiosos? Se todos pagamos pelos serviços para o corpo, por que fugir de receber pelos serviços para a alma? Amigos, inconscientes do caráter sagrado da fé, aprovavam minhas opiniões egoístas. Admitíamos que, no fundo, o trabalho principal era dos desencarnados, mas também havia a minha colaboração pessoal como intermediário, pelo que devia receber a justa retribuição,

Em vão, os amigos espirituais tentaram me indicar o melhor caminho e companheiros encarnados me alertaram e aconselharam. Agarrei-me ao interesse inferior e fixei meu ponto de vista. Viveria definitivamente por conta das pessoas que quisessem consultar-se. Fixei o valor das consultas, com bonificações especiais para os mais necessitados, e meu consultório encheu-se de gente. Houve grande interesse dos que queriam melhoras físicas e solução para negócios materiais. Grande número de famílias ricas me fez seu conselheiro habitual, para todos os problemas da vida. As lições de espiritualidade superior, a confraternização amiga, o serviço de elevação do Evangelho e as palestras dos planos superiores ficaram à distância. Não quis mais saber da escola da virtude, do amor fraternal, da edificação superior e, sim, da consulta comercial, das ligações humanas legais ou criminosas, dos caprichos apaixonados, dos casos de polícia e de todo um conjunto de misérias da humanidade, em suas experiências inferiores. A atmosfera espiritual que me rodeava havia se transformado completamente. Para garantir o ganho sistemático à força, as baixas correntes mentais do clientes desequilibrados me prenderam em grande sombra psíquica. Cheguei ao crime de zombar do Evangelho de Jesus, esquecido de que os negócios escusos dos homens de consciência viciada também contam com entidades perversas, que se interessam por eles nos planos invisíveis. E transformei a mediunidade em fonte de palpites materiais e avisos mesquinhos.

Nesse momento, os olhos de Acelino ficaram vermelhos de repente, demonstrando profundo terror, como se ele revivesse grandes sofrimentos.

- Mas a morte chegou, meus amigos, e tirou-me da ilusão – continuou, mais sério. – Desde o instante do desencarne, os consulentes criminosos que haviam desencarnado antes de mim passaram a me rondar, exigindo palpites e orientações de cunho inferior. Queriam notícias de cúmplices encarnados, de resultados comerciais, de soluções referentes a ligações escusas.

Gritei, chorei, implorei, mas estava preso a eles por sinistros elos mentais, em virtude da irresponsabilidade para defender meu próprio patrimônio espiritual. Durante 11 anos seguidos resgatei minha falta entre eles, oscilando entre o remorso e a amargura.

Acelino se calou, parecendo mais comovido, tendo em vista o modo como chorava. Profundamente sensibilizado, Vicente observou:

- O que é isso? Não se atormente desse jeito. Você não matou ninguém, nem quis espalhar o mal propositadamente. A meu ver, você também se enganou, como vários de nós.

Acelino, porém, enxugou os olhos e respondeu:

- Não fui assassino nem ladrão vulgar, não tive intenção de ferir ninguém, nem desrespeitei o lar dos outros, mas, tendo encarnado para ajudar as pessoas, nossas irmãs, ajudando-as no crescimento espiritual com Jesus, só criei viciados da crença religiosa, mutilados da fé, delinquentes, e aleijados do pensamento. Não tenho desculpas, porque estava esclarecido. Não tenho perdão, porque não me faltou ajuda divina.

E, depois de longa pausa, conclui sério:

- Vocês podem imaginar o tamanho da minha culpa?







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