O desconhecido que causa medo nas famílias tradicionais guineenses



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O DESCONHECIDO QUE CAUSA MEDO NAS FAMÍLIAS TRADICIONAIS GUINEENSES

Orientanda: Cristina Mandau Ocuni Cá

Orientadora: Drª Maria Juraci Maia Cavalcante
Introdução

O presente artigo trata-se de um estudo realizado por meio de análise documental e entrevistas com algumas famílias da aldeia Ponta Adolfo Ramos/grupo étnico balantas, com o intuito de recolher as informações que discutem a questão do abandono dos bebês pelas “famílias indígenas”. A ideia de produzir este artigo partiu de um estudo em desenvolvimento no Programa da Pós-Graduação, na Universidade Federal do Ceará, na Faculdade de Educação/FACED, cujo tema é A Formação Feminina no Internato de Bor (Guiné-Bissau) de 1933 a 2011 (e seus reflexos na educação de jovens na sociedade guineense contemporânea).


Durante a investigação, descobrimos no acervo que o mesmo Instituto de Beneficência, denominado Asilo de Infância Desvalida de Bor, foi criado pelo Governo da Colônia e sustentado pelas verbas de “assistência ao indígena”. O Internato de Bor, como é conhecido popularmente, funcionava a sete quilômetros aproximadamente da cidade de Bissau, sob a direção das Missões Católicas. Segundo as informações colhidas no acervo do internato, consta que o Asilo de Infância Desvalida de Bor pretendia “dar asilo e proteção a muitas pequenas abandonadas e órfãs” (DOCUMENTO DE ACERVO DE INTERNATO DE BOR, CASA DE ARQUIVO DA GUINÉ-BISSAU/CÚRIA/16/04/2012).

Ainda nos documentos do acervo, consta que as crianças órfãs de sexo feminino recebiam instrução primária e a preparação necessária para poderem escolher no futuro um modo de vida compatível com as aptidões reveladas e com as normas da moral. Além das referidas menores, seriam igualmente amparadas pelo estabelecimento os bebês “abandonados ou vadios”, cuja família era desconhecida. Em função disso, como assinala esta citação, nos anos de:

1939 foi criada uma creche dentro do Asilo de Infância Desvalida de Bor, para recolher os bebês indígenas arrancados dos costumes bárbaros e tradicionais. Desde então passaram por ali 126 criancinhas [bebês] abandonadas juntos aos rios e arrancadas ao esquife das mães (DOCUMENTO DE ACERVO DE INTERNATO DE BOR/ PASTA DE 1939 A 1940).

Nesse contexto, ao analisarmos a citação acima, a palavra “abandonada” não só chamou a nossa atenção, como também nos levou a refletir profundamente sobre esse assunto, a fim de compreendermos o motivo pelo qual as mães indígenas praticaram esse ato com seus próprios filhos. Em busca da informação, recorremos às entrevistas realizadas com senhoras e senhores da aldeia Ponta Adolfo Ramos. Como resposta, foi confirmado, nos depoimento desses moradores, que antigamente havia sim essa prática de abandono de bebês indígenas, entre eles (gêmeos e bebês especiais ou anormais), suspeitos da ação de “força sobrenatural”.

Assim, a nossa inquietação buscou entender o motivo que levava essas mulheres da zona rural da Guiné-Bissau a praticarem o abandono de seus bebês. O tema sobre abandono não é um problema recente, como podemos perceber, pois alguns estudos têm revelado que isso já causou extrema preocupação na antiguidade, como revela este relato apresentado por Marcílio (1998): “abandonar bebês é um fenômeno de todos os tempos, pelo menos no Ocidente. Variaram apenas, no tempo, as motivações, as circunstâncias, as causas, as intensidades, as atitudes em face do fato amplamente praticado e aceito”, (p. 21).

De igual modo, na discussão apresentada por Venâncio (2010), Maternidade negada, também foi destacado o abandono das crianças no Brasil colônia. Segundo o autor, com o disparo de crescimento da população nos grandes centros do país, houve muita miséria, o que, talvez, tenha sido um dos motivos que estimularam o abandono dos bebês no Brasil colonial. Diferentemente, foi revelado pelo mesmo autor que, naquela época, nas zonas rurais brasileiras, onde havia transformações lentas, a prática de abandono dificilmente acontecia e, quando havia os enjeitados, como eram denominados, podiam contar com ajuda de outras famílias, bem estruturadas, que os adotavam como “filhos de criação” ou agregados. Também no campo e na pesca, lembra Venâncio (2010) que a força de trabalho familiar se tornava fundamental para garantir o sustento de toda a família. Nesse caso, a participação de todos era necessária.

Neste contexto, pretendemos discutir o mesmo assunto (abandono dos bebês) na realidade guineense a fim de mostrar como surgiu a ideia de criar a creche no Asilo de Infância Desvalida de Bor, no período colonial. Por outro lado, escolhemos alguns autores que haviam discutido esse assunto noutras realidades, entre eles, Renato Pinto Venâncio (2010), que, em Maternidade negada, discute o abandono no Brasil colônia; Maria Luiza Marcílio (1998), com História Social da Criança Abandonada. Com esses estudiosos, tratamos da problemática do abandono nas zonas rurais guineense, no período colonial.

Nos documentos de acervo de Internato de Bor, consta que a creche de Asilo de Infância Desvalida de Bor acolhia os bebês indígenas arrancados dos costumes bárbaros e tradicionais. Assim, na ausência de dados confiáveis e de literatura específica, optamos por trazer as falas dos moradores da aldeia Ponta Adolfo Ramos, de modo a construir os percursos históricos e pessoais vividos por eles na zona rural da Guiné-Bissau. Nesse sentido, as histórias contadas por eles se tornam significativas, posto que aqueles com mais idade não apenas têm a memória dos seus antepassados, como também lembram as experiências vivenciadas por eles na aldeia. Assim, buscaremos entender os motivos de abandono nas zonas rurais guineenses.


O motivo do abandono dos bebês na zona rural da Guiné-Bissau

Com os depoimentos colhidos na zona rural guineense, podemos dizer que talvez a história sobre o abandono dos bebês tenha sido baseada na crença e na memória dos antepassados desse grupo étnico (balantas). Lembranças essas que nos levam a acreditar que talvez não houvesse, naquele momento, explicação científica sobre as crianças anormais mencionadas no documento de acervo de Internato de Bor. Diante da situação, ao nosso entender, o mito acaba sendo alternativa para auxiliar as famílias tradicionais guineenses, divididas em diferentes grupos étnicos, que viviam e ainda vivem as crenças e a memória dos seus antipassados. Assim, os depoimentos colhidos com moradores da aldeia Ponta Adolfo Ramos revelam algumas informações do abandono de bebês, chamados por eles de manifestação de força sobrenatural, que talvez sejam os bebês conhecidos hoje como portadores de Síndrome de Down ou Trissomia do Cromossomo 21. Segundo a explicação científica,



Síndrome de Down ou Trissomia do Cromossomo 21 é um distúrbio genético causado pela presença de um cromossomo 21 extra total ou parcialmente. Recebe o nome em homenagem a John Langdon Down, médico britânico que descreveu a síndrome em 1862.1 A sua causa genética foi descoberta em 1958 pelo professor Jérôme Lejeune.2 , que descobriu uma cópia extra do cromossoma 21.3 É o distúrbio genético mais comum, estimado em 1 a cada 1000 nascimentos1.4

Devido talvez à falta de conhecimento sobre os portadores de Síndrome Down ou Trissomia do Cromossomo 21 nas culturas tradicionais guineenses, várias famílias denominadas de indígenas foram levadas a procurar os djambacosses (videntes), como alternativa para dar explicações sobre esses portadores acima mencionados. Assim, nas lembranças dos moradores da aldeia Ponta Adolfo Ramos, podemos encontrar várias explicações a respeito desse desconhecimento, digamos assim, que causava medo nas famílias, denominadas de indígenas pelo colonizador português. Conforme os depoimentos,



MALÚ: Olha o abandono dos bebês existia e ainda existe. Só que é muito complicado fazer esse tipo de leitura. Mas pela história que eu tenho escutado dos mais velhos e um pouco que eu acompanhei dos bebês que nasceram na vizinhança, pude explicar que, às vezes pelo fato do bebê atrasar no seu processo de desenvolvimento isso era o motivo que levava a família a suspeitar que ele podia ser força sobrenatural (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

N’NALAD: desde gravidez dá para perceber que o bebê considerado forças sobrenatural é um bebê diferente. A noite ele sai da barriga da mãe para se alimentar de capim. Altas horas a casa da grávida de força sobrenatural fica iluminada enquanto todos os integrantes da família estão dormindo. Então tudo isso são sinais. As grávidas, às vezes acordam de repente e percebem que não estavam mais grávidas. Muitas delas acham que talvez tenham sonhado (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

MISSA: Até o recém-nascido dá para perceber. À noite a mãe tem que prestar atenção no bebê na forma como ele dorme. Se Deus permitir que você o flagrasse aí que você vai descobrir que ele é força sobrenatural. Mas todo cuidado é pouco, porque ele faz magia para mãe e outras pessoas da família terem sono profundo para não acordarem até ele voltar do lazer. Pois à noite, enquanto à mãe está dormindo o bebê acorda e engole todo o peito da mãe quando mama; outro sai para brincar com os companheiros da sua espécie; e outro para se alimentar de capim. Diante da situação, algumas mães permanecem caladas com medo de morrer se revelarem que o filho ou a filha é força sobrenatural. Outras mães tomam coragem e contam para as mães delas, sogras; para as idosas da aldeia e às vezes contam até para a primeira esposa do marido (combossa). De lá, a família fica observando (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

MBEGA: Tanto para mãe da primeira viagem como para a mãe da segunda ou terceira viagem não é fácil perceber, porque é uma força sobrenatural. Faz de tudo para não ser descoberto. As mães, por exemplo, sempre têm sonos profundos. Para isso é preciso ter uma pessoa idosa e experiente que pode ser a sogra ou a primeira esposa do marido, no caso de casamento poligâmico, que fica observando o bebê todo o tempo (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).
Os relatos apresentados pelos moradores da aldeia guineense nos fazem levantar as seguintes questões: Como separar o mito de um fato real numa sociedade tradicional? Como o mito é sustentado numa cultura? São essas as questões que, talvez, mereçam uma reflexão para compreendermos melhor o poder de mito e a força de controle que ele tem nessas sociedades tradicionais africanas/guineenses.

Lembrando que, nas sociedades tradicionais guineenses, desde cedo, as crianças e adolescentes crescem escutando muitas explicações do senso comum, que muitas vezes as deixam com muitas dúvidas e, ao mesmo tempo, com medo de saber a verdade. A título de esclarecimento, tudo o que os adultos não querem revelar ou fatos para os quais eles não têm resposta são vinculados à morte ou às forças sobrenaturais. A propósito, quanto mais se busca saber a verdade, mais risco de vida se pode correr.

Assim, os sábios africanos (djambacos; curandeiros e outros), responsáveis pela história/mito, conseguem manter muitas pessoas em silêncio sem que façam questionamento nem muito menos tentem saber a verdade, como mostram os depoimentos dos moradores da aldeia Ponta Adolfo Ramos, ao explicarem o motivo que leva algumas famílias a praticarem o abandono dos bebês nas zonas rurais da Guiné-Bissau.

Conforme as lembranças da Joana, consta que “o abandono dos bebês nas zonas rurais raramente acontecia com o recém-nascido, porque talvez era cedo para perceber algumas características que os diferenciavam das crianças consideradas normais” (Entrevista colhida no dia 04/08 de 2012/Guiné-Bissau). Quando ele começava a apresentar essas características, como “o bebê que não conseguia sustentar o pescoço; o bebê que babava muito; o bebê que não conseguia sentar sozinho ou engatinhar, as fases de desenvolvimento que poderiam ser vencidas antes de completar um ano de idade” (Entrevista colhida no dia 04/08 de 2012/Guiné-Bissau), então o bebê era levado para o curandeiro analisar e depois decidir se ele poderia ser submetido ao teste. Segundo Mbega, normalmente a família dá um tempo até o bebê completar um ano e meio ou dois anos de idade. Se ele não tivesse superado as dificuldades mencionadas pela Joana, aí virava motivo de preocupação e a família procurava o djambacos para aplicar a cerimônia do teste o mais rápido possível.

Ao analisarmos os depoimentos dos entrevistados da aldeia, somos levados a entender que, talvez, as características atribuídas aos bebês suspeitos de manifestação de força sobrenatural, sejam as mesmas características atribuídas aos portadores de Síndrome de Down. Nesse caso, cabe a cada um de nós interpretar as descrições de ambas as partes. Assim, a citação abaixo traz os informes científicos que talvez possam nos auxiliar a compreender melhor quem são esses bebês, denominados por moradores da aldeia de “forças sobrenaturais”. De acordo com a explicação científica,

A síndrome é caracterizada por uma combinação de diferenças maiores e menores na estrutura corporal5. Geralmente a síndrome de Down está associada a algumas dificuldades de habilidade cognitiva e desenvolvimento físico, assim como de aparência facial. A síndrome de Down é geralmente identificada no nascimento.

Pessoas com síndrome de Down podem ter uma habilidade cognitiva abaixo da média, geralmente variando de retardo mental leve a moderado. Um pequeno número de afetados possui retardo mental profundo.

Muitas das características comuns da síndrome de Down também estão presentes em pessoas com um padrão cromossômico normal. Elas incluem a prega palmar transversa (uma única prega na palma da mão, em vez de duas), olhos com formas diferenciadas devido às pregas nas pálpebras, membros pequenos, tônus muscular pobre. Os afetados pela síndrome de Down possuem maior risco de sofrer defeitos cardíacos congênitos, doença do refluxo gastroesofágico, otites recorrentes, apneia de sono obstrutiva e disfunções da glândula tireoide.

A síndrome de Down é um evento genético natural e universal, estando presente em todas as raças e classes sociais2.

Também, nos depoimentos dos moradores da zona rural guineense, buscaremos entender como era feita a cerimônia do teste que prova que o bebê é força sobrenatural e como o djambacos decide o abandono do bebê depois da comprovação do teste.



Djambacos/Vidente: cerimônia de comprovação

Conforme as lembranças dos entrevistados, tudo indica que a decisão sobre o abandono dos bebês força sobrenatural só é possível com a decisão do djambacos. Assim, os depoimentos dos entrevistados ajudam a entender as etapas da cerimônia. Começamos com Mbega, uma senhora de terceira idade, que talvez tenha muita informação a respeito da cerimônia para nos contar:



MBEGA: essa cerimônia normalmente é realizada por djambacos com alguns membros da família do bebê (avós, tias, tios etc.). Ao se aproximarem do mar, o djambacos segura o bebê e pede para os acompanhantes se esconderem. As recomendações são levadas a sério e quem não seguir pode morrer. Em seguida, ele (o djambacos) leva o bebê ou a criança até a beira do mar, o deixa sentada caso ele já está sentando ou deitado junto com ovo de galinha cru e farinha3 no formato redondo. Em seguida, o próprio djambacos também se esconde para acompanhar o processo de transformação. Se o bebê for força sobrenatural ele quebra ovo e bebe, depois come a farinha e, em seguida, se transforma numa serpente e faz um ruído muito forte para avisar colegas serpentes que está de volta. Por último, entre na água. Mas caso o bebê ou a criança colocada na beira do mar ou rio permaneça sentado ou deitado, sem comer farinha nem beber o ovo, apenas chorando desesperadamente é porque não é força sobrenatural. Neste caso, o djambacos chama um dos acompanhantes para carregá-lo ou ele mesmo o leva até as famílias e avisa que o teste foi aplicado, mas não houve a transformação. Isso não significa que o teste acabou. Pois o mesmo bebê também é levado no cupinzeiro gigante para fazer outro teste. Assim, no dia seguinte, ele é colocado ao lado de um buraco enorme do cupinzeiro. Se for diabo, ele bebe o ovo; come a farinha e em seguida entra no buraco de cupinzeiro. Mas caso ele permaneça deitado ou sentado chorando, é considerado um ser normal que talvez tenha problemas mentais ou outros que não têm explicação, “um tolo” (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

Ainda durante a entrevista, foi levantada a questão de, no buraco de cupinzeiro gigante, não existir a possibilidade de ter cobra ou outro roedor que possa puxar o bebê para dentro do buraco, como se fosse a presa. Ninguém veria, já que todas as pessoas que participam da cerimônia ficam escondidas.



JOANA: não porque se o bebê for realmente força sobrenatural, ele come rapidinho a farinha e bebe o ovo depois se transforma e entra em seguida no buraco do cupinzeiro. Mas caso ele permaneça sentado ou deitado, dependendo da posição que o djambacos o deixou, isso significa que ele é um bebê normal embora com algum tipo de atraso no desenvolvimento. Neste caso, o djambacos chama as pessoas que o acompanharam para levá-lo de volta para casa (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

Também, na entrevista, os depoentes manifestaram que antigamente, quando fosse provado no teste que o bebê era força sobrenatural, ele não podia continuar convivendo com a família, porque, com o tempo, começaria a matar os integrantes da família (pai, mãe, irmãos e outros parentes, primos, tios, avôs/avós etc.).

Assim, no relato de Missa, entendemos que havia djambacosses que preferiam fazer a cerimônia de teste sozinho, enquanto outros permitiam que algumas pessoas da família os acompanhassem na cerimônia, embora de forma escondida; pois, segundo Missa, “os acompanhantes vão até o local da cerimônia, mas são obrigados a se esconderem, pois caso seja provado que o bebê era força sobrenatural, durante a transformação, mata qualquer pessoa que aparecesse na sua frente”. Por isso era considerado um teste de alto risco.

Ao lermos os depoimentos, levantamos esta questão: no caso de djambacos que vai sozinho para realizar o teste, não haveria a possibilidade de ele fazer qualquer coisa contra o bebê e depois falar para família que o bebê se transformou e foi embora? Missa e Joana já haviam dado essa resposta nas suas entrevistas. Não, segundo elas, porque, quando é um bebê normal, ele permanece durante horas determinado para o teste. O senhor Malú respondeu diferente, alegando o seguinte: “aí que está a minha dúvida, pois eu acho que os djambacosses matam o bebê e depois inventam esta história de que o bebê se transformou. É mentira essa história de transformação” (Entrevista colhida no dia 04/08 de 2012/ Guiné-Bissau).

Apesar das manifestações culturais e das crenças expostas pelos moradores da aldeia, percebemos que havia contradições na história sobre o abandono. Alguns entrevistados acreditam nas transformações que o djambacos alega que acontece, já outros depoentes discordam dessas transformações dos bebês força sobrenatural, alegando que não existem provas palpáveis. Assim, no depoimento abaixo, depois da história do djambacos contada pelo senhor Malú, algumas mulheres voltaram atrás, duvidando de alguns djambacosses.

MALÚ: deixa contar a história do Midana, um djambacos que foi preso nessa história de levar os bebês que ele achava que não são normais, para submeter ao teste. O djambacos Midana fazia a cerimônia do teste e era famoso nessa prática. Um dia, fez o teste no filho do sobrinho da minha esposa e depois confirmou a família que o bebê se transformou e entrou no mar. Mas em poucas horas, os pescadores vizinhos de etnia pepel acharam o corpo do bebê. Como não foi a primeira vez e nem a segunda que esses pescadores vinham encontrando corpos de bebês durante a pesca, isso os deixou muito revoltados e acabaram dando queixa na polícia (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

Segundo Malú, os pescadores explicaram à polícia que há um djambacos que faz cerimônia de teste dos bebês suspeitos de força sobrenatural no mar, mas toda vez que essa cerimônia era realizada, eles (os pescadores) encontravam no mar o corpo do bebê. Depois da denúncia, o caso foi investigado e depois foram presos o djambacos, o pai do bebê e a mãe. O senhor Malú ainda disse: “se o djambacos Midana não tivesse passado por essa situação, eu o chamaria para você entrevistar. Mas depois de tudo isso não ficaria bem”.

Depois da história contada pelo senhor Malú, Missa destacou: “se os corpos dos bebês fossem encontrados no mar é porque eram bebês normais ou bebês com problemas mentais que acabaram sendo vítimas dessa história”. Em busca de mais informações, foi perguntado aos entrevistados se não havia muitos bebês que talvez fossem arrastados pela correnteza de água e que acabavam morrendo afogados, sem os corpos serem encontrado nos locais que eles são conhecidos. Uma das entrevistadas, de nome Canhn, respondeu: “tem essa possibilidade sim dos corpos serem encontrados nos lugares distantes e, às vezes, também podem ser comidos pelos peixes”. Neste caso, confirma Canhn que fica difícil saber se houve transformação ou não. “Essa história do djambacos Midana é conhecida por todos aqui.” - disse Malú. Ainda durante a entrevista, N’naland, contou outra história da aldeia onde eles vivem.
N’NALAND: nasceu um bebê desse tipo (suspeito de força sobrenatural) naquela casa (casa vizinha aonde está acontecendo entrevista). É uma menina, já levaram ela no mar, no cupinzeiro e em todo canto indicado pelo djambacos, mas não houve nada de transformação. Num dos testes que fizeram no mar, ouvi dizer que a água encheu até perto dela, mas não houve transformação. Ela chorava desesperadamente até que djambacos chamou a mãe, que estava escondida, para carregá-la. Ela só foi salva graças a Deus. Recentemente começou a andar. No salão de baile, se ela dançar você não vai acreditar (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

JOANA: o próprio Iala, o djambacos chamado para aplicar teste na menina referida pela N’naland, disse à família que ela [a menina] não é força sobrenatural. Apenas uma criança com problema de atraso no desenvolvimento, mas que um dia vai andar (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

MISSA FANDA: a conclusão do djambacos Iala causou polêmica aqui na aldeia, porque muitas pessoas o chamaram de mentiroso. Hoje há prova de que ele não mentiu, porque a criança acabou andando recentemente e a família passou a tratá-la como uma criança normal apenas com problema mental (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

MALÚ: Por isso que eu falei: hoje em dia, os djambacosses não estão mais fazendo teste corretamente como antigamente. Hoje eles estão jogando ou estão matando afogados os bebês no mar (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).
Em todo caso, havia prática de abando nesse grupo étnico, mas isso não significa que acontecia com todos os bebês, pois, durante as entrevistas, esses moradores confirmaram que não havia prática de abandono contra bebês com deficiência física nem contra surdos e mudos, pois eles acreditavam que o bebê que nasceu com esses problemas era porque Deus quis que nascesse assim.

É importante resaltarmos que se trata aqui de um estudo etnográfico realizado com elementos da etnia balanta da Guiné-Bissau. Para esclarecimento de algumas dúvidas, foi colocada a seguinte questão aos entrevistados: além de etnia balantas, havia outros grupos étnicos que abandonavam esses bebês suspeitos de força sobrenatural? Como resposta, foi confirmado em coro que todas as etnias abandonavam os bebês que eles desconfiavam que fossem forças sobrenaturais. O senhor Malú ainda respondeu que “as mulheres de etnia mancanha/brames praticavam muito abandono. O colonizador português lutou muito contra essa prática. Os brames são metidos às bestas, por isso nunca aceitavam esses bebês suspeitos de força sobrenatural” (Entrevista colhida no dia 04/08 de 2012/Guiné-Bissau). A mesma pergunta também foi colocada para a irmã Leonídia, responsável pela Creche de Bor, nos anos de 1965 a 1972. Segundo a irmã,



IRMÃ LEONIDIA: Então, iam lá várias crianças que ficavam ali. Bebês muitos durante os sete anos que eu estive na creche, eu devo ter recebido mais, sei lá, mais de 50 bebês. Sim, porque como eu é que estava com bebês, quando chegava alguém iam me chamar para falar com a família, para receber os bebês. Então, ia muita gente, toda a Guiné-Bissau ia ali levar os bebês quando tiver a infelicidade das mães falecerem do parto; quando bebês nasciam com problemas; outros também, bebês doentes. Então pegavam as crianças e nos levavam lá [no Internato de Bor] (Entrevista colhida no dia 13 de 01 de 2012).
Outra questão que chamou muito a nossa atenção neste trabalho foi o abandono dos gêmeos. Ao lermos a historiografia sobre Internato de Bor, Cá (2012), ela destaca que “a área da creche tinha merecido, por parte da direção do asilo, maior carinho e atenção, pois se tratava de salvar da morte selvática às crianças gêmeas e disformes” (p. 516). Nesse caso, entendemos que talvez tenha havido o abandono dos bebês gêmeos. Na dúvida foi lançada esta questão aos moradores da aldeia Ponta Adolfo Ramos: havia prática de abandono dos bebês gêmeos? Respondeu o senhor Malú: “Sim é verdade. Os bebês gêmeos eram também abandonados. Há pouco tempo que eles começaram a ser considerados como bebês do bem. Eu sou gêmeo e meu gêmeo está vivo, graças a Deus”. A versão contada por Ndami foi a seguinte: “antigamente abandonavam sim os bebês gêmeos, alegando que são sagrados e também, as famílias não queriam ter dois bebês ao mesmo tempo”.

Para mais informação, procuramos saber: a palavra sagrada causava algum problema para as famílias? Como resposta, Ndami confirmou que sim, porque mata o pai se forem dois meninos e a mãe se forem as duas meninas. Quanto ao casal de gêmeos, não houve qualquer comentário. A resposta dada por Ndami, nos leva a refletir sobre o caso dos gêmeos, para saber com que idade eles são abandonados e quem os leva para o abandono: os pais ou os djambacosses



Ndami: que eu saiba a mãe não participava do abandono e nem o djambacos. O pai também eu acho que não, mas normalmente são as senhoras de idade que levavam esses bebês, entre elas sogra, avó, tia do marido etc. Os gêmeos, às vezes, eram deixados vivos num lugar isolado. Em outros casos, eram jogados dentro dos buracos do cupinzeiro, onde pode ter cobras gigantes e outros bichos. É forte essa lembrança, mas fazer o quê era assim.

MISSA FANDA: sabemos sim dessa história, mas eram balantas de Nhacra que eram acusados de rejeitar os gêmeos. Eles levavam esses bebês nos lugares distantes das suas casas e os abandonavam. Uma vez contaram a história de que alguém tinha acabado de abandonar bebês gêmeos e uma pessoa que estava passando escutou o choro de bebês, foi lá ver e encontrou um casal de gêmeos; pegou os dois na zona de Nhoma (distrito de Nhacra).

MISSA: outra história contada pelas pessoas idosas é que tinha gente que fica grávida e assim que acabava de dar à luz os gêmeos levava-os direto para jogar na mata ou na beira do caminho. Então, o abandono de gêmeos era praticado pelas mulheres conhecidas como balantas de Nhacra. Além delas podem ter outros grupos também que abandonavam. A respeito de balantas de quintóe, pelo que escutei, não tinha o abando dos gêmeos. Até porque, algumas pessoas de grupo (balantas de quintóe) tinham sorte de cruzar no caminho com esses bebês e os levavam para criar. Era sorte ou destino de Deus colocar os bebês no caminho dessas pessoas que encontravam os dois bebês abandonados e ia cuidar deles com amor e carinho como se fossem seus filhos.
Com relação aos balantas de quinthoe, os depoimentos destacaram que não havia prática de abandono dos gêmeos. Nesse caso, procuramos saber como as mães trabalhavam no campo com os filhos gêmeos, já que se tratava de zona rural.

MISSA: normalmente o seu marido (quer dizer o pai dos gêmeos) procurava uma adolescente para ajudar a esposa a carregar os bebês até eles crescerem e pararem de mamar. Mbega reforçou que depois os bebês passavam por uma cerimônia em que deles seriam cortados os cabelos da cabeça até ficarem carecas. Além dos gêmeos, os pais também passavam pela mesma cerimônia. Assim, tanto o pai como a mãe não correriam risco de morrer. E durante a cerimônia o pai faz pagamento de uma cabra para a adolescente que ajudou a carregar os bebês gêmeos.
A adolescente que ajudava a cuidar dos gêmeos, dizem os entrevistados, normalmente é filha de um parente do pai dos gêmeos. Na elaboração deste artigo, consultando materiais que tratam do assunto de abandono de bebês e crianças, chegamos à conclusão de que o argumento usado para justificar a prática de abandono das crianças na antiga Grécia e no Império Romano era o mesmo usado por djambacosses/videntes, na realidade tradicional guineense, para convencer as “mães indígenas” a abandonarem filhos suspeitos de força sobrenatural. Conforme Marcílio, (1998), assim que o abandono dos bebês se tornou frequentemente na antiga Grécia e no Império Romano, o conjunto de leis sobre o abandono foi criado para combater essa prática; mas, segundo a autora, essas leis nem sequer se preocupavam com o lado ético da questão, muito menos com a vida das crianças, como foi apresentado nesse trecho da autora, ao revelar:

Bebês nascidos defeituosos, por exemplo, podiam perfeitamente ser mortos, atirados ao mar ou queimados. Acreditava-se que as deformidades traziam mau agouro para a comunidade e para a família, (MARCÍLIO, 1998, p. 24).


De igual modo, algumas famílias da cultura balanta também acreditavam nos argumentos dados pelos djambacosses a respeito dos bebês suspeitos de força sobrenatural. Ainda durante a entrevista, entendemos que esses moradores acreditam ainda que existe a forma para prevenir esses bebês suspeitos de força sobrenatural.

Como evitar a incorporação das forças sobrenaturais no corpo de uma grávida

Neste item, os depoimentos prometem mostrar as recomendações necessárias para evitar que uma força sobrenatural incorpore na barriga de uma grávida. Assim, as orientações dadas por Missa Fanda mostra que é simples seguir as recomendações. Segundo as depoentes Missa Fanda e Canhn, tudo indica que:

Quando a mulher grávida toma banho à noite, fica fácil para força sobrenatural entrar na barriga dela. Normalmente ela [força sobrenatural] entra na barriga da grávida, bebe o sangue do feto e fica no lugar dele como se fosse o bebê normal esperado pela família. E, mesmo na lagoa não é aconselhável uma mulher grávida tomar banho, porque, conforme as histórias contadas pelos nossos avós, tudo indica que é nesses lugares que costumam viver ou morar as forças sobrenaturais (Entrevista colhida no dia 04 de 08 de 2012/ Guiné-Bissau).

Ao passo que, no mar, responderam Missa e N’naland, a grávida poderia sim ficar sem roupa. Lembraram que antigamente as mulheres pescavam peladas como as mulheres da etnia pepel. Como na época não havia muita roupa, não fazia sentido pescar de roupa.



Considerações finais

Na nossa leitura, entendemos que a criação da creche, dentro de Asilo de Infância Desvalida de Bor, sob a direção da missão católica, tinha um papel fundamental para a salvação desses inocentes (bebês e crianças), sem esquecer que o Asilo de Bor, além de salvar a vida desses pequenos, também deu oportunidade para eles obterem uma formação que talvez tenha garantido um futuro melhor nas décadas de 30 a 50. A contribuição da missão católica e do governo português na época, portanto, foram de extrema importância por se preocupar com problemas sociais, inclusive da zona rural. Conforme o depoimento da irmã Leonídia, a creche recebia bebês e crianças e cuidava deles até completarem 09 ou 10 anos de idade. Então as meninas passavam para o Internato de Bor e meninos eram encaminhados para internato masculino na cidade de Bula.

Em todo caso, o nosso objetivo no presente artigo é compreender historicamente as vivências dos moradores das zonas rurais guineenses através das lembranças. Por ser recorte de uma pesquisa ainda em andamento, como havíamos mencionado no início deste trabalho, talvez não seja pertinente fazer qualquer comentário a respeito do assunto. Por essa razão, optamos apenas por descrever os relatos e esclarecer as dúvidas que estiverem ao nosso alcance, sem qualquer intenção de julgar o certo ou errado, já que se trata de um povo que acredita nos valores e nas crenças dos seus antepassados.

REFERÊNCIAS
100 anos de Presença em Hospitalidade na Guiné-Bissau. Fátima/Portugal: Confhic Província de Santa Maria, 21 de Março de 1993.

Documento de Acervo de Asilo de Infância Desvalida de Bor, Casa de Arquivo da Guiné-Bissau/Cúria, 16/01/2012.

FEREIRA, João. Uaná: narrativa africana. São Paulo: Global; [Brasília]: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1986.

GOODY, Jack. O mito, o ritual e o oral. Tradução de Vera Joscelyne. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

MARCÍLIO, Maria Luiza. História Social da Criança Abandonada. São Paulo: Ed. Hucitec, 1998.

VENÂNCIO, Renato Pinto. Maternidade negada. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. 9ª. ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2010.




1 Informações colhidas no dia 22/05/2013, em http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Down .


2 Informações colhidas no dia 22/05/2013, em http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Down .

3 Não foi informado se a farinha é de milho ou de arroz.




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