O desenvolvimentismo periférico e as especificidades do caso brasileiro e uruguaio: um ensaio de história comparada



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O desenvolvimentismo periférico e as especificidades do caso brasileiro e uruguaio: um ensaio de história comparada

Fábio Pádua dos Santos*

Leonardo Dias Nunes**

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Resumo

O objetivo do presente artigo é analisar o desenvolvimentismo brasileiro e uruguaio entre 1930 e meados da década de 1980. O argumento central do trabalho é que, historicamente, o desenvolvimentismo não alterou a natureza da posição destes Estados na economia-mundo capitalista. Em outras palavras, Brasil e Uruguai não lograram melhores condições de apropriação do excedente mundial. Este argumento é suportado por uma análise macrohistórica cujo esforço é entender os largos processos nos quais estes Estados estão inseridos. Neste caminho, o esforço analítico é estabelecer, de um lado, propriedades comuns entre os desenvolvimentismos brasileiro e uruguaio e, de outro, estabelecer princípios de variação em relação aos Estados do Leste Asiático. A estratégia de comparação empregada é a encompassing comparison. Esta seleciona casos dentro de um processo ou estrutura e explica similaridades ou diferenças entre os casos como conseqüência de suas relações com o todo. Em outras palavras, casos inter-relacionados são integrados e definidos em relação a um processo histórico geral. A análise histórica sugere que, independente das diferenças espaços-temporais entre Brasil e Uruguai, o desenvolvimentismo nestes Estados não foi suficiente para falsear a hierarquia do sistema mundial capitalista.



Palavras-Chave: Desenvolvimentismo, Brasil, Uruguai.
Peripheral developmentalism and specificities of Brazilian and Uruguayan instances: a comparing history essay

Abstract

The aim of this paper is analyzing the Brazilian and Uruguayan developmentalism between 1930 and middle of 1980. The central argument is that, historically, the developmentalism has not changed the nature position of these nation States on the capitalist world-economy. In other words, Brazil and Uruguay have not outwitted appropriation conditions of the world surplus. This argument is supported by macrohistorical analysis whose attempt is understood the large process in which these States are put. On this step, the analytical effort is to establish, on the one hand, common proprieties between Brazilian and Uruguayan developmentalism and, on the other hand, principles of variation among Asian East States. The strategy of comparison employed was the encompassing comparison. It selects location within the structure or process and explains similarities or differences among those locations as consequences of their relationships to the hole. In other words, interrelated instances are integrated to and defined as the general historical process. The historical analysis suggest that, independently of space-time differences between Brazil and Uruguay, the developmentalism on these States was not sufficient to false the capitalist world-system hierarchy.



Key-words: Developmentalism, Brazil, Uruguay.
. Introdução

A fase terminal da hegemonia britânica, isto é, as duas Grandes Guerras interligadas pela Grande Depressão de 1929, delimitam um novo quadro sistêmico à periferia da economia-mundo capitalista. Por um lado, as duas grandes guerras (a I e II Guerra Mundial) implicaram a reorientação do papel do Estado bem como provocaram a redução do comércio internacional. De outro, a própria redução no volume de comércio foi agravada na América Latina pelo quase esgotamento das fontes de recursos externos e pela insolvência decorrente da Crise de 1929. Nos países especializados em produtos primários, em geral, a crise manifestou-se na deterioração dos termos de intercambio. Com a nova relação de preços alteraram-se as vantagens comparativas que justificavam economicamente a especialização dos países latino-americanos em produtos primários. Segundo Halperin Donghi (2007, p.376-383), a deterioração dos termos de intercambio foi um convite à industrialização nos países da América Latina. Ademais, os Estados latino-americanos avistaram, nas condições excepcionais do pós-guerra, a oportunidade de escapar da situação marginal da economia mundial. Estava claro neste período, portanto, a idéia de que industrializar significava desenvolvimento econômico.

A reforma estrutural pela qual passaram os Estados nacionais levou-os a assumir novas atribuições na orientação e no controle da economia. Nas zonas periféricas, sobretudo, tornam-se o agente central dos processos de industrialização, quer dizer, do processo de desmarginalização da economia mundial. As políticas econômicas, em especial os planos de desenvolvimento que logravam alterar a natureza da posição dos Estados periféricos em relação à apropriação do excedente mundial, foram os principais instrumentos utilizados por estes Estados. Portanto, são chamados de Estados desenvolvimentistas os Estados que utilizaram tais instrumentos.

Entre as décadas de 1930 e 1980 é possível observar o fenômeno desenvolvimentista em alguns Estados do Leste Asiático e da América Latina. Todavia as décadas mais recentes têm demonstrado que os primeiros lograram uma melhor posição na distribuição do excedente mundial e que os segundos, apesar dos esforços industrialistas, não obtiveram o mesmo êxito. Desta constatação surge nosso problema de pesquisa: por que os Estados da América Latina, apesar das práticas desenvolvimentistas, não ascenderam na hierarquia mundial da riqueza ao longo do século XX? Buscaremos responder a esta pergunta, estudando comparativamente o desenvolvimentismo brasileiro e o uruguaio entre 1930 e meados da década de 1980. A comparação com o Leste Asiático nos leva a formular a hipótese segundo a qual o desenvolvimentismo não alterou a natureza da posição de Brasil e Uruguai na economia-mundo capitalista. Em outras palavras, estes não lograram melhores posições de apropriação mundial do excedente. Como será sugerido, o desenvolvimentismo observado no Brasil e no Uruguai é um desenvolvimentismo periférico, isto é, as políticas econômicas e não econômicas promovidas pelo Estado cujo objetivo era alterar a distribuição mundial do excedente a seu favor não foram capazes, por razões sistêmicas e particulares, de extrapolar o padrão médio de desigualdade da estrutura centro-periferia. Este argumento é suportado por uma análise macrohistórica, a qual permite entender os largos processos nos quais os Estados estão inseridos. Deste modo, o esforço analítico é estabelecer, de um lado, propriedades comuns entre os desenvolvimentismos brasileiro e uruguaio e, de outro, estabelecer princípios de variação em relação aos Estados do Leste Asiático que expliquem as causas macrohistóricas do insucesso brasileiro e uruguaio.

Para dar conta de nossos objetivos, será necessário: realizar primeiro uma breve análise das teorias do desenvolvimento que influenciavam as políticas econômicas de Brasil e Uruguai, extraindo suas concepções de desenvolvimento. Este tema será objeto da seção 2. Posteriormente, na seção 3, problematiza-se o desenvolvimento econômico em perspectiva macrohistórica, delimitamos a unidade de análise e apresenta-se o método de comparação. Na seção 4 realiza-se o estudo de caso, comparando Brasil, Uruguai e Leste Asiático. Por fim, na seção 5, apresentamos algumas considerações e pontos a serem ainda mais explorados.


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