O diálogo Bohr e Wheeler-Everett sobre fundamentos da quântica e relações de poder na ciência



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O Diálogo Bohr e Wheeler-Everett sobre fundamentos da quântica e relações de poder na ciência

Fábio Freitas£ e Olival Freire Jr.§


I – Introdução:

É bem estabelecido no campo dos “science studies” que controvérsias científicas são momentos privilegiados para a análise da produção da ciência (Latour, 2000). Este privilégio fica ainda mais acentuado se os participantes da controvérsia têm posições muito desiguais no que diz respeito ao prestígio nas comunidades científicas envolvidas na controvérsia, pois esses casos podem evidenciar também as relações de poder presentes no que Bourdieu (1975) denominou de campo científico. O caso da controvérsia sobre os fundamentos e as interpretações da física quântica, uma controvérsia octogenária (Freire & Freitas, 2006) serve, portanto, como episódio da história da física que atravessa o século XX, para discutir tanto as circunstâncias concretas de produção da ciência quanto das relações de poder entre os cientistas.

A mecânica quântica se tornou um dos mais fascinantes temas da ciência contemporânea fora dos círculos acadêmicos por dois motivos: o primeiro é o impressionante desenvolvimento tecnológico que ela permitiu e, com isso, o grande impacto que teve na vida da sociedade e das pessoas; o segundo motivo é a permanente "revolução" filosófica que a acompanha, fruto de uma contínua insatisfação com as possíveis lições que podemos extrair de seus fundamentos para a nossa compreensão de seu significado. Esse segundo tema, fruto de nossas pesquisas, é um episódio frutífero para se compreender a dinâmica da prática científica e das relações sociais dentro da mesma durante o século XX. A mecânica quântica foi fundada formalmente entre 1925 e 27, porém o significado de seu formalismo e a imagem de mundo subjacente nunca vieram a se tornar uma unanimidade. Efetivamente, a literatura histórica parece sugerir três períodos distintos para a controvérsia relativa aos fundamentos da teoria quântica. O primeiro período compreende o intervalo entre suas origens e o início da década de 1950, durante o qual a interpretação de Copenhague, desenvolvida por Niels Bohr e seus colaboradores, se tornou dominante entre os físicos, e somente poucos eram os dissidentes, entre eles incluídos Albert Einstein e Erwin Schrödinger. Esse primeiro período foi denominado por Max Jammer (1974, p.250) como o da monocracia da escola de Copenhague na filosofia da mecânica quântica. Um dos autores, Freire (2003, 2004), tem sugerido dois outros períodos distintos. Sobre o segundo período falamos adiante, porque ele é melhor demarcado em comparação com o terceiro. Esse último período tem início na década de 1970 e parece permanecer até hoje, caracterizado pela situação de uma controvérsia institucionalizada, na qual esses temas de fundamentos da quântica são aceitos como parte do “mainstream” da Física e periódicos e encontros especializados garantem a circulação de suas pesquisas. O segundo período, do qual tomaremos um estudo de caso como objeto deste trabalho, ficou conhecido como um período de transição, quando a monocracia de Copenhague começou a ser minada e novas tentativas de se interpretar a mecânica quântica foram se desenvolvendo, mas não sem grande resistência da comunidade de físicos.

Durante esse período de transição, um jovem estudante de doutorado em Princeton, Hugh Everett III, sob a orientação de John Archibald Wheeler, desenvolveu a interpretação dos estados relativos, hoje conhecida por interpretação dos muitos mundos e tão difundida a ponto de ter sido, nos seus 50 anos em julho de 2007, objeto da capa e do editorial da prestigiada Nature. Porém, essa interpretação, quando de seu desenvolvimento, não despertou grande interesse na comunidade científica. Mais do que isso, essa interpretação que parecia trazer contribuições originais sobre a natureza do domínio quântico sofreu um duro golpe quando Wheeler resolveu levá-la, ainda na forma do “draft” de uma tese, para debate com Niels Bohr. O objetivo de Wheeler era conseguir o aval de Bohr, publicando-a na Academia de Ciências da Dinamarca; porém, a recepção por parte de Bohr e dos seus colaboradores em Copenhague foi extremamente negativa. Estes não reconheciam os problemas que Everett objetivava resolver e consideravam que a sua própria interpretação dava conta de todos os problemas, fechando o caminho para novas interpretações. Em outros trabalhos temos examinado as dimensões histórica, conceitual, e historiográfica desses episódios. Nesta comunicação nós queremos examinar de que modo relações de poder no campo da física influenciaram a carreira do jovem Everett e de sua interpretação. De fato, desencantado com os obstáculos colocados à aceitação de sua interpretação, Everett abandonou a pesquisa em Física, indo trabalhar no Pentágono, e sua interpretação permaneceu esquecida por muito tempo.



Uma análise de relações de poder na ciência em situações de controvérsias científicas sugere o uso da noção de campo científico de Pierre Bourdieu. Coincidentemente, um dos primeiros usos da noção de campo científico na análise da ciência (Pinch, 1977) visou acontecimentos estreitamente relacionados ao nosso tema; no caso, Pinch analisou o desafio lançado pelo físico David Bohm à prova contra a existência de interpretações alternativas da mecânica quântica que havia sido formulada pelo matemático John von Neumann.1 Na seção 2 desse trabalho nós apresentamos a noção de campo científico, e o seu uso por Trevor Pinch. Na seção 3, nós faremos um resumo dos eventos históricos que serão objeto de análise; enquanto na seção seguinte, de número 4, nós faremos uma releitura dessa narrativa à luz da idéia de campo científico. Por fim, apresentamos a conclusão desse ensaio.
II – O campo científico de Pierre Bourdieu.
Bourdieu elabora a sua noção de campo científico contrapondo-a à noção de comunidade científica tal como essa aparece nas obras de R. K. Merton e T. S. Kuhn. No lugar de uma comunidade de pares iguais e em equilíbrio de forças, Bourdieu sugere que,
O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e de agir, legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado. (Bourdieu, 1983, p. 122-3)
Desse modo, para Bourdieu, a noção de campo científico não é um esquema explicativo destinado a dar conta apenas de certos aspectos da atividade científica, excluindo da explicação através desse esquema os conteúdos propriamente cognitivos da ciência. A rigor, a própria distinção entre as dimensões histórica, conceitual e as relações de poder, formulada por nós na introdução desse trabalho, seria estranha ao pensamento de Bourdieu. Para ele,
Uma análise que tentasse isolar uma dimensão puramente “política” nos conflitos pela dominação do campo científico seria tão falsa quanto o parti pris inverso, mais freqüente, de somente considerar as determinações “puras” e puramente intelectuais dos conflitos científicos. Por exemplo, a luta pela obtenção de créditos e de instrumentos de pesquisa que hoje opõe os especialistas não se reduz jamais a uma simples luta pelo poder propriamente “político”. Aqueles que estão à frente das grandes burocracias científicas só poderão impor sua vitória como sendo uma vitória da ciência se forem capazes de impor uma definição de ciência que suponha que a boa maneira de fazer ciência implica a utilização de serviços de uma grande burocracia científica, provida de créditos, de equipamentos técnicos poderosos, de uma mão-de-obra abundante. Assim, eles constituem em metodologia universal e eterna a prática de sondagens com amplas amostragens, as operações de análise estatística dos dados e formalização dos resultados, instaurando, como medida de toda prática científica, o padrão mais favorável às suas capacidades intelectuais e institucionais. Reciprocamente, os conflitos epistemológicos são sempre, inseparavelmente, conflitos políticos; assim, uma pesquisa sobre o poder no campo científico poderia perfeitamente só comportar questões aparentemente epistemológicas. (Bourdieu, 1983, p. 124)
Bourdieu, desnaturaliza, dessa maneira, os mais elementares procedimentos da atividade científica. “Não há ‘escolha’ científica – do campo da pesquisa, dos métodos empregados, do lugar de publicação, [...] – que não seja uma estratégia de investimento objetivamente orientada para a maximização do lucro propriamente científico, isso é, a obtenção do reconhecimento dos pares concorrentes”(p.126-7). Para a nossa finalidade nesse trabalho, precisamos ainda apontar que Bourdieu conclui que a entrada de um cientista recém formado em um campo científico é um momento crucial na definição de sua carreira, vez que ela implica em escolhas que definirão sua estratégia de luta no campo. Segundo Bourdieu, e grosso modo, o jovem cientista (“new entrant”), deverá escolher uma estratégia de sucessão ou uma estratégia de subversão, e esta escolha será condicionada pela sua inserção prévia na estrutura do próprio campo, isso é, condicionada, no caso de um recém-doutor, por exemplo, pelo prestígio da instituição na qual se graduou e do pesquisador que o orientou. Estas duas estratégias podem ser definidas, conforme Bourdieu, desse modo:
É o campo que designa a cada agente suas estratégias, ainda que se trate da que consiste em derrubar a ordem científica estabelecida. Segundo a posição que eles ocupam na estrutura do campo (e, sem dúvida, também segundo as variáveis secundárias tais como a trajetória social, que comanda a avaliação das oportunidades), os “novatos” podem orientar-se para as colocações seguras das estratégias de sucessão, próprias para lhes assegurar, ao término de uma carreira previsível, os lucros prometidos aos que realizam o ideal oficial da excelência científica pelo preço de inovações circunscritas aos limites autorizados; ou para as estratégias de subversão, investimentos infinitamente mais custosos e arriscados que só podem assegurar os lucros prometidos aos detentores do monopólio da legitimidade científica em troca de uma redefinição completa dos princípios de legitimação da dominação. Os novatos que recusam as carreiras traçadas só poderão “vencer os dominantes em seu próprio jogo” se empenharem um suplemento de investimentos propriamente científicos sem poder esperar lucros importantes, pelo menos a curto prazo, posto que eles têm contra si toda a lógica do sistema. (Bourdieu, 1983, p.138)
O foco da análise de Trevor Pinch (1977), ao analisar o desafio implícito na interpretação alternativa da teoria quântica formulada por David Bohm, em 1952, foi precisamente a distinção entre essas duas estratégias. Pinch argumentou que Bohm seguiu com êxito uma estratégia de sucessão desde seu doutorado com Robert Oppenheimer, diretor científico do projeto Manhattan que desenvolveu a Bomba Atômica americana, em Berkeley durante a Segunda Guerra, passando pelo seu trabalho com física do plasma, já como professor em Princeton, até 1952, quando mudou sua estratégia para uma estratégia de subversão ao publicar uma interpretação alternativa àquela que predominava entre os físicos da época. Pinch questionou se essa mudança de estratégia foi adequada para Bohm vez que essa estratégia desencadearia necessariamente uma estratégia de sucessão entre os defensores da posição dominante entre os físicos, no caso defensores da prova de von Neumann. Interessante como esse trabalho de Pinch possa ter sido como tentativa pioneira de análise sociológica dos próprios conteúdos da ciência, ele apresenta limitações, como apontamos (Freire, 2005, pp. 26-27), derivadas em grande parte de uma análise histórica limitada que não percebeu que a interpretação de Bohm representou um desafio ainda maior às posições dominantes no campo da física, sendo o desafio à prova de von Neumann apenas parte de um desafio maior. Afinal, a proposta bohmiana implicava em substituir uma interpretação probabilística dos fenômenos quânticos, como aquela apoiada pela escola de Copenhague da mecânica quântica, por uma interpretação causal dessa teoria científica. Incidentalmente, a análise histórica revela que os maiores críticos da interpretação de David Bohm, aqueles mais alinhados com o físico dinamarquês Niels Bohr, pouco usaram o argumento da prova de von Neumann na rejeição da sua proposta.
III- Estudo de caso : Um resumo do diálogo de Everett, Wheeler e Bohr2
O mais jovem personagem de nossa história formou-se em Engenharia Química na Universidade Católica da América, em Washington DC, obtendo a menção magna cum laude. Após se formar, Everett decidiu fazer o doutorado no programa de Física da Universidade de Princeton e solicitou uma carta de recomendação ao seu professor durante a graduação, Willian Boone, para a seleção no doutorado. Nesta carta, Everett é descrito como um verdadeiro gênio. Boone afirma que “Esta é uma recomendação única na vida, pois eu acho que é muito pouco provável que eu venha a encontrar um estudante para o qual eu possa oferecer um apoio tão completo e sem reservas.” Boone continua afirmando que de todos os estudantes que ele já teve contato, Everett foi, de longe, o melhor. “Everett sabe mais sobre matemática que a maioria dos estudantes de Pós-Graduação nesta universidade e provavelmente nenhum outro estudante pode se comparar a ele em habilidade nata.” Toda essa habilidade matemática permitiu que Everett, ainda durante a graduação, pudesse cursar diversas disciplinas de matemática avançada, sendo que muitas apenas como ouvinte devido ao limite imposto pela universidade em relação ao número de créditos máximo que um estudante poderia cumprir. Desse modo, mesmo fazendo Engenharia Química, ele obteve créditos que seriam suficientes para receber um major em matemática. Em suma, a avaliação que temos após a carta de recomendação é de um estudante brilhante. Com todo esse histórico, Everett recebeu uma bolsa de Pós-Graduação da National Science Foundation3. Porém, mesmo com toda essa recomendação, um dos membros do comitê de seleção de Princeton, ao perguntar se deveriam aceitá-lo, reforçou o fato de ele ter obtido a bolsa4. Desse modo, ele foi aceito no programa de doutorado em Matemática de Princeton. Cerca de um ano depois de seu ingresso, em 1954, Everett transferiu-se para o departamento de Física. Seu orientador seria, após uma troca, John Archibald Wheeler.

Wheeler tinha recebido seu doutorado em Física no ano de 1933 pela prestigiada John Hopkins University. Durante a década de 30, Wheeler desenvolveu importantes contribuições à Física Teórica. O seu modelo de gota líquida de 1939, trabalho conjunto com Niels Bohr, teve um papel importante na compreensão do processo de fissão nuclear, que seria central na construção da bomba atômica. Como pesquisava tal tema, Wheeler, como a maioria dos grandes físicos americanos da época, trabalhou intensamente no projeto Manhattan. Posteriormente, Wheeler seria um personagem importante na construção da Bomba H americana. Em 1938, ingressou como professor na Universidade de Princeton. Deste modo, na década de 1950, Wheeler já era um físico de grande renome. Nesse período, entretanto, ele decidiu mudar seu foco de pesquisa, deixando a área de Física Nuclear para a área de Cosmologia, que até então possuía um prestígio relativamente menor, vez que era um campo sem o poder de atração que tinha a física nuclear. De fato, Wheeler foi,de fato, um dos principais rearticuladores deste campo de pesquisa.

Quando Everett se aproximou de Wheeler, o interesse principal de pesquisa de Wheeler não envolvia a Teoria Quântica diretamente, mas sim a quantização da interação gravitacional, o que seria uma unificação da Teoria da Relatividade Generalizada com a Teoria Quântica. Porém, Everett não estava interessado em cosmologia, mas sim em uma nova interpretação da teoria quântica. De qualquer modo, o estilo de Wheeler de fazer Física, anteriormente, já havia o levado a orientar Richard Feynman no desenvolvimento de uma formulação distinta da teoria quântica e, desse modo, ele teve predisposição para orientar outro estudante trabalhando com fundamentos da teoria quântica.

Nesse período, em 1954, as idéias de Everett sobre a Teoria Quântica ainda não estavam amadurecidas, o que só viria a acontecer em 1955. Nesse processo, é possível identificar bastante o estilo de Wheeler: quando olhamos a interpretação de Everett, vemos que o seu objetivo era tentar desenvolver uma interpretação sem nenhum postulado adicional, apenas seguindo o que as equações dizem, levando-as ao seu extremo. Wheeler estava justamente fazendo isso com as equações da relatividade generalizada. Ao levar ao extremo essas equações, ele chegou a resultados importantes, com, por exemplo, os buracos negros. Assim, ainda que a idéia original fosse realmente de Everett, o processo que Everett desenvolveu para amadurecê-la carrega uma forte marca do estilo de Wheeler, o que, certamente, desenvolveu neste último uma espécie de relação filial com essa interpretação.

No ano de 1955, com as idéias mais amadurecidas, Everett começa a colocar no papel a sua interpretação. Nesse espírito, durante a redação da tese, Wheeler provavelmente sugeriu que ele fizesse uma apresentação de suas idéias de modo menos técnico, sem o uso do formalismo matemático. Em setembro de 1955, Everett entregou essa versão para Wheeler, cuja resposta não poderia ser mais direta: “Eu me sentiria realmente envergonhado de mostrá-lo a Bohr na presente forma, de grande valor e importante como eu considero ele sendo, devido a partes sujeitas a más interpretações místicas por muitos leitores não preparados”5. De fato, Wheeler considerou o trabalho de grande valor, e essa avaliação permaneceria durante todo o processo, porém o ponto importante é porque ele deveria mostrá-lo a Bohr?

Niels Bohr foi um dos mais influentes físicos do século XX. Nascido em 1885, na Dinamarca, ele desenvolveu seu modelo atômico em 1913, trabalho que lhe daria o prêmio Nobel de 1922. Obtendo um grande prestígio em função de sua carreira como físico, ele, com o apoio da fundação Carlsberg, fundou o Instituto de Física Teórica em 1921. Posteriormente, esse instituto seria um dos centros do desenvolvimento da Física Teórica mundial. Durante o período de estabelecimento da Mecânica Quântica, entre 1925-27, Niels Bohr foi o principal personagem no desenvolvimento da interpretação da complementaridade, que viria a se tornar praticamente hegemônica entre os físicos até a década de 1950. Entre 1927 e 35, seus debates com Albert Einstein, então ambos gigantes da Física, foram marcantes para o prestígio de Niels Bohr. Einstein, entre 1927 e 1929, tentou atacar um dos aspectos fundamentais da nova teoria, o chamado Princípio de Incerteza, utilizando experimentos de pensamento para mostrar que esse princípio poderia ser incorreto. Niels Bohr fez o papel de advogado da teoria, mostrando sempre alguma falha no raciocínio de Einstein, que inviabilizaria os resultados pensados, mostrando que a nova teoria era consistente e adequada aos fenômenos atômicos. Posteriormente, em 1935, Einstein, junto com dois colaboradores, Nathan Rosen e Boris Podolsky, desenvolveu o que seria considerada sua crítica madura da teoria quântica. Ele passou a aceitar que a teoria era correta, porém a julgou incompleta, pois ela não contemplaria certos aspectos da realidade física. Bohr publicou uma resposta, no mesmo ano, questionando a forma com que Einstein aplicou a teoria quântica, ignorando o aspecto contextual da mesma. Desde então, Einstein refluiu na crítica à teoria quântica, ainda que nunca tenha aceitado-a completamente, e Bohr foi visto pela comunidade de físicos como tendo resolvido todos os problemas interpretativos da nova Mecânica Quântica. De fato, nesse período, a visão mais comum era de que não existiam problemas interpretativos e que a Interpretação da Complementaridade não era uma interpretação, mas sim parte da própria teoria. Além da sua contribuição à Física e aos seus problemas epistemológicos, Niels Bohr era considerado como um grande líder carismático (Beller, 1999).

Além de todo o prestígio que Bohr tinha em 1955 nas questões interpretativas da teoria quântica, ele havia publicado, junto com Wheeler, em 1939 o já referido artigo sobre fissão nuclear, que se revelou crucial para o desenvolvimento da física nuclear e para a construção da bomba atômica. Por fim, Wheeler havia feito seu pós-doutorado em Copenhague no ano de 1934, sob orientação de Bohr. Durante o resto da vida de Bohr, ambos manteriam uma forte amizade. Assim, é possível compreender porque Wheeler queria mostrar o trabalho de seu estudante para Bohr: não somente Bohr era a maior autoridade nos fundamentos da teoria quântica, como ele havia sido seu mentor. Porém, Wheeler não considerou aquele artigo apresentado por Everett digno de ser mostrado a Bohr, devido ao modo como certos resultados eram apresentados. Everett teve, então, mais alguns meses para desenvolvê-la, até abril de 1956, quando o texto de sua interpretação seria enviado para Copenhague.

Durante esse período, Everett desenvolveu o texto da sua tese, e mesmo sendo considerada como um rascunho tanto por Everett como por Wheeler, a versão enviada já estava pronta. Todos os resultados já haviam sido alcançados. Nesse texto, Everett apresenta em detalhes a sua interpretação, com um longo desenvolvimento formal. Everett apresenta alguns problemas dos fundamentos da teoria quântica e sugere seis alternativas, incluindo a dele que era apresentada nesta tese. Após mostrar que sua própria alternativa era consistente do ponto de vista formal, ele volta a discutir as outras opções de solução dos problemas, incluindo a interpretação de Bohr, argumentando que a que ele próprio desenvolvera era a mais adequada.

Wheeler, no ano de 1956, passaria seis meses na Holanda, na universidade de Leiden. Pouco antes de viajar, ele enviou essa nova versão da tese de Everett para Bohr e, algumas semanas depois, foi pessoalmente ao Instituto de Física Teórica, em Copenhague, para discuti-la. Em um trabalho anterior, caracterizamos esse momento como sendo, de fato, a banca de tese em Copenhague (Freitas e Freire, 2008a). Wheeler tinha dois objetivos quando enviou a tese de Everett para Bohr: o primeiro era obter a avaliação do amigo em relação à nova, e de grande valor, conforme sua apreciação, interpretação de seu estudante; o segundo, e mais importante, era obter o aval de Bohr de modo a publicá-la nos anais da Academia Dinamarquesa de Ciências. De acordo com Wheeler, “o aceite pela Academia Dinamarquesa [de Ciências] seria a melhor prova pública de ter sido aprovado em todos os testes importantes”6. Porém esse desejo terminaria frustrado e a tese nem mesmo foi submetida para publicação na Academia. Bohr, junto com seus colaboradores em Copenhague, rejeitou desde o início a nova interpretação7, mas o processo de discussão envolvendo Wheeler, Bohr e Everett teve desdobramentos nos meses seguintes. Após uma primeira conversa em Copenhague, Wheeler escreveu para Everett indicando que o problema com a sua interpretação eram as palavras e que o seu desenvolvimento do formalismo permanecia inabalado. Com isso, Wheeler insistiu para que Everett fosse passar alguns meses em Copenhague para “lutar com o maior dos lutadores”, aceitando humildemente as críticas, porém insistindo nos pontos fundamentais que formavam o núcleo de sua nova interpretação. Everett terminou não indo para Copenhague senão muito tempo depois, em 1959, e a discussão continuou durante o ano de 1956 através de cartas. A posição de Bohr permaneceu inalterada, indicando que o trabalho de Everett não trazia nada de novo para a teoria quântica e que Everett não compreendia direito diversos aspectos desta teoria.

O trabalho de Everett, por outro lado, foi bastante afetado. Wheeler, ao voltar para os Estados Unidos, insistiu que Everett desenvolvesse uma nova versão, cujo conteúdo fosse muito mais neutro que o original e cujo direcionamento fosse menos uma crítica à interpretação de Bohr e muito mais uma generalização da mesma. De fato, na versão final, logo na introdução, Everett se preocupa em dizer que essa nova interpretação não é nenhuma ruptura radical com a tradicional, e que seria possível deduzi-la dessa nova abordagem. A apresentação, como um todo, foi bastante afetada. A versão apresentada em Copenhague, em 1956, tinha cerca de 130 páginas, enquanto essa nova versão, defendida em março de 1957 e publicada com pequenas alterações de estilo, tinha somente 30. A revista escolhida para publicação foi a Reviews of Modern Physics. Sem dúvidas, essa era uma revista importante, porém para um texto que possivelmente revolucionária o campo de pesquisa em Física, esta foi uma escolha modesta. Existiam outras revistas mais adequadas para resultados inéditos e importantes. Além disso, o artigo foi publicado numa edição especial, no meio das atas de uma conferência sobre gravitação, diminuindo a visibilidade do texto. No final, durante os seus primeiros anos, esse texto praticamente não despertou o interesse da comunidade de físicos.



Efetivamente, essa foi a única publicação de Everett em Física. Ainda que em 1973 a versão original de sua tese tenha sido publicada, sua participação se resumiu a enviar uma cópia aos editores do volume, Bryce DeWitt e seu orientado de doutorado, Neill Graham. Everett seguiu uma carreira de sucesso dentro do Pentágono, tendo fundado posteriormente empresas que prestavam serviço para a defesa norte-americana e faleceu, em 1982, milionário e sem contato com a Física. Esse é um final não usual para alguém que, tanto na avaliação de seu professor na graduação como na avaliação de seu orientador, Wheeler, tinha tanto futuro na carreira acadêmica. De fato, mais de uma vez Wheeler indicou que Everett deveria se dedicar a transformar sua tese numa versão adequada e procurar um posto acadêmico que lhe desse liberdade para desenvolver suas tão valiosas idéias em fundamentos da teoria quântica. Na seção seguinte, analisaremos esse episódio do ponto de vista das relações de poder na ciência e esboçaremos uma explicação nesses termos para Everett ter desistido da carreira em Física.
IV – A heresia everettiana pela perspectiva de Bourdieu
Seguindo a agenda metodológica esboçada por Bourdieu, vamos analisar esse caso na perspectiva de uma luta por capital simbólico científico e das estratégias adotadas para obtê-lo e para mantê-lo, que nesse caso colidiram em função da adoção, por Everett, de uma estratégia subversiva, para usarmos os termos de Bourdieu.

Antes de prosseguirmos na caracterização da estratégia de atuação de Everett, é interessante prestar atenção na estratégia adotada por Wheeler no período em que Everett foi seu orientando. Wheeler, durante a sua carreira até a década de 1950, seguiu uma estratégia de sucessão, o que mostrou ser uma excelente escolha no caso dele. Tendo recebido o doutorado em Física pela importante Johns Hopkins University, Wheeler decidiu seguir uma carreira em Física fazendo dois pós-doutorados, um nos Estados Unidos na New York University, e o outro no Instituto de Física Teórica, em Copenhague, Dinamarca, sob a orientação de Niels Bohr. Durante esse período, Wheeler desenvolveu o que a agenda de pesquisa da Física daquela época determinava: a aplicação da teoria quântica em diversos domínios. Wheeler se especializou em Física Nuclear, tornando-se um cientista de grande prestígio. Ao final de seu segundo pós-doutorado, ele recebeu a oferta de emprego como professor na University of North Carolina – Chapell Hill, e a aceitou. Pouco tempo depois, seguindo sua estratégia de sucessão, ele recebeu uma oferta de promoção de sua carreira na atual universidade, com direito a tenure8, outra na Johns Hopkins University, também com direito a tenure e, por fim, uma oferta da Princeton University, esta sem tenure. Wheeler decidiu ir para Princeton, raciocinando que mesmo com uma posição menos prestigiada dentro da instituição, ele poderia ter a colaboração de uma quantidade maior de cientistas notáveis, o que certamente ajudaria no desenvolvimento de sua carreira, estratégia que efetivamente deu certo. Wheeler ficou em Princeton até pouco antes de sua aposentadoria compulsória, retornando posteriormente como professor emeritus. Já como professor de Física em Princeton, seu trabalho de pesquisa continuou e em 1939, como já mencionado, publicou um dos mais importantes trabalhos em um campo que estava atraindo toda a atenção da comunidade de físicos: a fissão do núcleo atômico. Obtendo sucesso numa área central de pesquisa, através de sua estratégia de sucessão, e fazendo importantes pesquisas de interesse militar, Wheeler, no início da década de 50 havia acumulado suficiente capital simbólico científico para mudar a sua estratégia. Como um dos mais renomados físicos americanos, em 1953 ele resolveu deixar a pesquisa em Física nuclear para se dedicar a um tópico cujo prestígio entre os físicos era modesto: relatividade generalizada ou cosmologia. De fato, em 1953, em uma das mais importantes universidades do mundo em relação à pesquisa em Física, com o agravante do próprio Albert Einstein trabalhar em um instituto de pesquisa próximo, o Instituto de Estudos Avançados, nunca havia sido ministrado um curso de relatividade generalizada. Wheeler foi o primeiro a oferecer o curso e certamente na autorização de seu chefe de departamento para fazê-lo pesou o seu altíssimo prestígio acadêmico. Assim, é possível caracterizar que sua estratégia de sucessão mudou para uma estratégia de subversão, ainda que não tão radical quanto a que havia sido tentada por David Bohm na mesma universidade. Enquanto Bohm tinha como objetivo a total reconfiguração do campo de pesquisa em teoria quântica, Wheeler não tentou mudar os fundamentos do campo de cosmologia, mas sim transformá-lo em um campo de grande prestígio. O caráter subversivo nesta aposta se dá pelo fato de não haver garantias de reconhecimento e de acúmulo de capital simbólico científico nesta pesquisa. Wheeler usou do seu próprio prestígio acadêmico para bancar a pesquisa em cosmologia e poderia ter obtido dois resultados: a perda de seu prestígio acadêmico, de modo semelhante com o ocorrido com Einstein, que, na visão dos físicos desde a década de 30, havia se afastado da fronteira da pesquisa em Física; ou conseguir a reconfiguração do estatuto da pesquisa em cosmologia e ser eternamente reconhecido pelos seus esforços pioneiros. Neste caso, a aposta de Wheeler deu certo. A cosmologia passou a ter um reconhecimento cada vez maior tanto dentro da comunidade de físicos como fora desta (o telescópio Hubble é mais famoso que qualquer acelerador de partículas), e Wheeler permaneceu sendo reconhecido como pioneiro neste campo9.

Foi durante essa nova estratégia de desenvolvimento de carreira que Everett encontrou Wheeler. Everett havia feito a graduação em uma universidade não tão prestigiada quanto aquela na qual foi fazer a pós-graduação, porém, ao concluir seu curso obteve, como vimos, excelente recomendação. Ele havia obtido uma bolsa da NSF, atribuindo-lhe capital simbólico cientifico. Sendo aceito em Princeton, seu capital simbólico científico aumentou, e, para completar, ele seria orientado por um grande pesquisador em Física. Assim, mesmo sendo um jovem ingressante na carreira, ele possuía o apoio institucional suficiente, ao menos em princípio, para poder escolher qual tipo de estratégia ele escolheria para sua carreira. O apoio institucional não garantiria o sucesso caso ele apostasse em uma estratégia de subversão, mas pelo menos ele teria a oportunidade de escolher esta. Estivesse ele em uma universidade com pouco ou nenhum prestígio acadêmico, uma estratégia de subversão somente serviria para ninguém nunca prestar atenção a ele.

A forma epistemológica da aposta subversiva de Everett foi o desenvolvimento ao extremo do formalismo da teoria quântica para daí tentar compreender o seu significado. A idéia de levar ao extremo as equações da Física não é, por si só, uma estratégia subversiva, mas não era tampouco uma estratégia central na agenda de pesquisa da época. Porém, no caso específico da pesquisa em fundamentos da teoria quântica, a abordagem largamente aceita, devida a Niels Bohr, condenava esse tipo de atitude. Ao fazê-lo, Everett tinha consciência que estaria questionando o pensamento de Bohr e, de fato, isso não o incomodava. Ele tornou explícita sua insatisfação com o pensamento e a estratégia de Bohr tanto na primeira versão da tese como em cartas. Mesmo a caracterização do problema que Everett decidiu desenhar era subversiva. Bohr condenava o que se poderia chamar de axiomatizadores da teoria quântica. Para Bohr, não fazia sentido axiomatizar a teoria quântica, pois para que a mesma fizesse sentido ele sempre dependeria de conceitos que não poderiam ser reduzidos a axiomas. Everett, por sua vez, tomou como principal problema a ser resolvido uma questão formal da teoria quântica como formulada por John von Neumann, um axiomatizador: nessa formulação, a equação de Schroedinger, equação central da teoria quântica, possui dois modos de evolução. O primeiro é linear e determinístico, enquanto o segundo é abrupto e não causal. Everett tentou eliminar o segundo modo de evolução da equação e desenvolveu todo o seu sistema interpretativo, tirando uma série de conseqüências, analisando somente o primeiro modo de evolução da equação. Ou seja, mais do que resolver problemas interpretativos da teoria quântica existentes na formulação de Bohr, Everett estava propondo reformular todo o campo, propondo novos problemas e sugerindo a solução destes a partir de suas idéias.

Assim, quando a teoria de Everett foi apresentada a Bohr, o mesmo não a aceitou. Mais do que isso, Bohr, disposto a manter o seu monopólio científico, utilizou de sua autoridade para minar o sentido do trabalho de Everett. A caracterização que Bohr e seus colaboradores deram do trabalho de Everett foi que o mesmo não conseguia compreender as bases da teoria quântica e, portanto, se prestava a tentar resolver problemas que não existiam. Em trabalho anterior (Freitas e Freire, 2008b), caracterizamos as duas abordagens como incomensuráveis. O que era problema para uma interpretação, não era para a outra e vice-versa. Porém, neste momento, Bohr era o detentor da autoridade científica e, portanto, cabia a ele definir em quais termos se daria a pesquisa e, com isso, o que é e o que não era problema. Assim, os problemas que Everett almejava resolver, definitivamente, não eram problemas nesse momento. O texto de Everett não poderia despertar interesse nesse contexto.

É interessante comparar a forma desse debate com o que ocorreria 15 anos depois, no início da década de 1970. Neste novo contexto, o campo havia se reconfigurado. Niels Bohr havia falecido e estava se estabelecendo uma controvérsia acerca dos fundamentos da teoria quântica (Freire, 2004). De fato, temos a caracterização desta transformação através de uma carta publicada por M. Hammerton em 1971 na revista Physics Today10:
As contribuições muito interessantes ao debate sobre a mecânica quântica na sua edição de Abril, e o artigo de DeWitt que as disparou, exemplificam os caminhos altamente complexos e sutis pelos quais a opinião científica pode mudar. Quando eu era um estudante de graduação lendo sobre Física há 20 anos atrás, a interpretação de Copenhague estava firme na sela. De fato, eu me lembro de um seminário durante o qual eu sugeri que ela era apenas uma maquiagem filosófica-positivista, e fui denunciado como um metafísico. A linha de Copenhague era “científica” e qualquer outra coisa era sem sentido, lero-lero ou, na melhor das hipóteses, um engano.

Agora o curioso é que, até onde eu sei, não houve nenhum grande achado ou insight teórico que poderia ser utilizado para demolir ou separar essa interpretação. Ainda assim, existe uma insatisfação considerável com ela, e uma disposição de considerar outros pontos de vista – por exemplo, variáveis escondidas – como sendo, pelo menos, respeitáveis.
Neste novo contexto, a interpretação de Everett voltou a ser apresentada, contando com alguns apoiadores, mas novamente sendo alvo de críticas. Porém, desta vez, as críticas envolviam, basicamente, compreender se Everett de fato resolvia os problemas que ele havia proposto resolver. Muitos apontaram falhas de consistência lógica na interpretação de Everett e seus apoiadores se dedicam até hoje a tentar resolver essas questões, porém o importante de se notar aqui é que, neste novo contexto, a interpretação de Everett não foi simplesmente descartada porque mirava em problemas que não existiam. Em um contexto de controvérsia, era aceitável a definição destes problemas e as tentativas de resolvê-los. Em um contexto de controvérsia, ainda que permaneça o jogo de acúmulo de capital simbólico, não é possível atribuir um monopólio, como aconteceu no período no qual Everett lançou seu desafio à interpretação de Bohr.

Por fim, é interessante caracterizar que ainda que a estratégia adotada por Everett tenha sido uma estratégia de subversão, a mesma não foi apresentada como tal, em particular devido ao modo como Wheeler interferiu no processo. Uma estratégia de subversão, enquanto tal, parece-nos que deveria explicitar as diferenças e não escondê-las, em especial quando quem está propondo possui muito pouco capital simbólico científico em comparação com o competidor. Everett, por mais que tivesse o apoio de Princeton e de Wheeler, ainda assim não tinha a mínima condição de, diretamente contra Bohr, sem o apoio de outros, reconfigurar o campo. Bohr não estaria disposto a ceder o monopólio que detinha sobre a filosofia da mecânica quântica para dar lugar a uma nova interpretação, mesmo porque não parecia haver motivos para uma reconfiguração naquele momento. Todavia, Wheeler não estava disposto a enfrentar Bohr. Ao invés de apresentar a interpretação de Everett como um questionamento da ordem vigente na interpretação da mecânica quântica, Wheeler decidiu apresentá-la como parte desta ordem, como uma tentativa de generalizar a interpretação de Bohr, tornando-a um caso particular da abordagem de Everett. Essa estratégia poderia ter dado certo caso Bohr tivesse sido convencido de que existia necessidade de uma reformulação do campo, e com isso ele teria a oportunidade de manter seu capital simbólico ao ser pioneiro no apoio à nova ordem, mantendo sua hegemonia. Todavia, como já mencionado, não havia indícios de que isso era necessário, então o pior aconteceu para Everett. A sua aposta em uma estratégia de alto risco acabou sendo infrutífera e, desgostoso com o baixíssimo prestígio que sua interpretação tinha nos anos iniciais, ele acabou desistindo da carreira em Física. Tivesse essa interpretação realmente sido apresentada como uma estratégia subversiva, existiria a possibilidade de obter apoio de outros pesquisadores, acumulando capital simbólico científico, o que permitiria alguma sobrevida e, com alguma chance, mesmo que pequena, de reconfiguração do horizonte de pesquisa. O caso de Bohm é um bom exemplo disso. Mesmo não conseguindo reconfigurar o campo, sua interpretação, junto com o capital científico acumulado anteriormente, foi suficiente para que continuasse a transitar dentro do campo científico, obtendo cargos em universidades e continuando dentro das regras do jogo.


V- Conclusões
As idéias de Bourdieu sobre o campo científico parecem servir bem para caracterizar esse caso específico. Com estas idéias, foi possível compreender a resistência de Bohr em relação às idéias de Everett, observando o quanto o jogo político e social era indissociável do debate científico e epistemológico. Pode-se ainda notar os efeitos que uma escolha de estratégia inadequada, no caso apresentar uma estratégia subversiva como sendo de sucessão, podem ter no início de carreira de um pesquisador11. Essa comunicação sugere o seguinte desdobramento, que será efetivado em pesquisas ulteriores: trata-se de examinar se a caracterização da história de outros pesquisadores envolvidos na controvérsia de fundamentos da teoria quântica pode ser tão frutífera como esta.

Bibliografia

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£ Departamento de Física, Universidade Estadual de Feira de Santana e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências, UFBa/UEFS. (fabiofreitas@gmail.com)

§ Instituto de Física, Universidade Federal da Bahia e Programa de Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências, UFBa/UEFS. (olival.freire@gmail.com)

1 Não deixa de ser interessante a influência da sociologia de Bourdieu entre os protagonistas da nova sociologia da ciência quando esta estava ainda em seus primeiros momentos. Essa interação se reduziu com o tempo, e o registro desse afastamento está bem documentado no último curso de Bourdieu no Collège de France, quando o mesmo empreendeu uma revisão do legado da sociologia da ciência que foi bastante crítica tanto dos autores mais identificados com a escola de Edinburgo quanto de autores mais recentes como Latour. Ver Bourdieu (2001).

2 O esboço histórico aqui desenvolvido baseia-se em Freitas, 2007, Freitas e Freire 2008a e b, e Osnaghi, Freitas e Freire, The Everettian Heresy (em desenvolvimento, a ser submetido em 2008). Para um texto de divulgação, ver Byrne, 2007. Um esboço biográfico da vida de Hugh Everett foi desenvolvido por Shikovtsev, 2003.

3 As bolsas da National Science Foundation não são vinculadas aos cursos, assim Everett teria a bolsa mesmo indo para outra universidade que não Princeton.

4 Carta de William Boone para Hugh Taylor, reitor da Pós-Graduação, 17 de abril de 1953. Alumni File of Hugh Everett III, Seeley G. Mud Manuscript Library, Princeton.

5 “Probability in Wave Mechanics”, Everett Papers, Box 1, Folder 6. A resposta é uma nota manuscrita de Wheeler para Everett, 21 de setembro de 1955, Everett Papers, Box 1, Folder 5, American Institute of Physics, College Park, MD.

6 Carta de Wheeler para A. G. Shenstone, 28 de Maio de 1956. Wheeler Papers, Box Di, series #2, American Philosophical Society, Philadelphia, PA.

7 Na próxima seção entraremos nos termos pelos quais a interpretação foi rejeitada.

8 Tenure, no sistema acadêmico estadunidense, equivale à estabilidade do contrato de trabalho na instituição.

9 De fato, é possível pensar se realmente a mudança de estratégia lhe foi frutífera. Wheeler, mesmo sendo considerado um gigante da Física do século XX, não chegou a ser agraciado com o prêmio Nobel, o que muitas vezes é considerado uma grande injustiça. Esse tipo de raciocínio é puramente especulativo, mas com todo o seu talento, se ele tivesse continuado a seguir uma estratégia de sucessão, trabalhando com os temas principais da agenda de pesquisa, teria ele sido agraciado com o prêmio Nobel?

10 Still more quantum mechanics.: 1971, Physics Today, 24(10), p.11. [Letters by G.L. Trigg, M. Hammerton, R. Hobart Ellis Jr., R. Goldston, H. Schmidt].

11 Nesse caso específico, é preciso notar que a decisão de Everett de abortar o ingresso em uma carreira acadêmica também sofreu grande influência do estatuto social e dos altos salários pagos para funcionários do Pentágono. Porém, diversos outros cientistas dividiram, durante parte de suas carreiras, a pesquisa acadêmica com pesquisas de interesse militar, incluindo Wheeler. Everett, mesmo após a publicação de sua tese, mesmo não tendo procurando um posto acadêmico, visitou Copenhague em 1959 para discutir sua interpretação, porém o resultado era previsível. Bohr continuou considerando que Everett não compreendia a teoria quântica. Everett chegou a participar de alguns congressos até 1961, porém com muito pouco capital científico e completamente desmotivado por não ter obtido o quanto ele esperava com sua aposta, abandonou de vez a Física.

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