O ego e o id e outros trabalhos volume XIX


ALGUMAS NOTAS ADICIONAIS SOBRE A



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ALGUMAS NOTAS ADICIONAIS SOBRE A

INTERPRETAÇÃO DE SONHOS COMO UM TODO (1925)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

EINIGE NACHTRÄGE ZUM GANZEN DER TRAUMDEUTUNG
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1925 G.S., 3, 172-84.

1925 Traumlehre, 63-76.

1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 369-81 (omitindo a Parte III).

1952 G.W., 1, 559-73.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:

‘Some Additional Notes upon Dream-Interpretation as a Whole’

1943 Int. J. Psycho-Anal., 24 (1-2), 71-4 (Trad. de James Strachey.)

1950 C.P., 5, 150-62. (Reimpressão revista da tradução acima.)


O Volume III dos Gesammelte Schriften, em que este trabalho pela primeira vez apareceu, foi publicado no outono de 1925. Aproximadamente na mesma época (setembro de 1925), somente o terceiro destes ensaios foi incluído no Almanach 1926 (págs. 27-31) e foi também impresso em Imago, 11 (3) (1925), 234-8. Uma reimpressão da tradução inglesa do terceiro ensaio só foi incluída em Psychoanalysis and the Occult, Nova Iorque, 1953, International Universities Press, 87-90, editado por George Devereux. A presente tradução inglesa constitui versão ligeiramente modificada, com notas adicionais, da publicada em 1950.

Estes três breves ensaios tiveram uma história bibliográfica um tanto acidentada. Como se explicou na Introdução do Editor Inglês a A Interpretação de Sonhos (Edição Standard Brasileira, Vol. IV, xviii, IMAGO Editora, 1972), quando a primeira edição coligida das obras de Freud (os Gesammelte Schriften) apareceu, foi decidido dedicar o segundo volume a uma reimpressão exata da primeira edição de Die Traumdeutung e recolher no terceiro volume todas as alterações e acréscimos àquele trabalho, que haviam sido feitos em suas edições posteriores. Em meio a esse material adicional estavam três ‘Zusatzkapiteln (Capítulos Suplementares)’ inteiros. Os dois primeiros (que tratavam dos símbolos e da elaboração secundária, respectivamente)consistiam quase inteiramente em material antigo que fora adicionado ao livro da segunda edição em diante. O Zusatzkapitel C (o presente grupo de artigos) era, porém, inteiramente novo e jamais aparecera em qualquer edição anterior. Entretanto, pouca dúvida pode haver de que Freud pretendia incluí-lo em todas as edições posteriores de Die Traumdeutung, pois o lugar em que deveria aparecer — ao próprio final do livro — fora indicado claramente na reimpressão da primeira edição nos Gesammelte Schriften (2, 538).

Isso foi em 1925. A seguinte edição normal, em um só volume, de Die Traumdeutung (a oitava), apareceu em 1930. Ela incluía todo o material novo da edição de 1925, com a única exceção do Capítulo Suplementar C. Uma das conseqüências imediatas disso foi a sua ausência também na tradução inglesa revista (de Brill) de 1932. Tampouco é ele incluído na edição de Die Traumdeutung que ocupa o volume duplo 2-3 das Gesammelte Werke (1942). De fato, parecia atormentado por infortúnios, pois foi acidentalmente negligenciado quando chegou a sua vez para inclusão no ponto cronológico correto em G.W., 14, (publicado em 1948) e, finalmente, teve de se encontrar lugar para ele no final de G.W., 1, o último volume da série a aparecer, em 1952. O texto alemão, assim, fora perdido de vista por mais de vinte anos.

Existe uma explicação possível para o mais antigo desses acontecimentos — a omissão do capítulo na 8ª edição de Die Traumdeutung. A aceitação em grande parte, por Freud, da genuinidade da telepatia no último destes ensaios provocara em seu primeiro aparecimento fortes protestos de Ernest Jones, com fundamento em que prejudicaria a causa da psicanálise nos círculos científicos, particularmente na Inglaterra. A descrição do episódio dada por Jones (1957, 422 e segs.) mostra que Freud não pareceu tocado pelos protestos, mas é concebível que, sem embargo, tenha-se rendido a eles, a ponto de não incluir o ensaio no cânone do mais famoso de todos os seus trabalhos.


(A) OS LIMITES À POSSIBILIDADE DE INTERPRETAÇÃO
Pode-se perguntar se é possível fornecer uma tradução completa e segura para a linguagem da vida desperta (isto é, uma interpretação) de todos os produtos da vida onírica. Essa questão não será tratada aqui abstratamente, mas com referências às condições em que se trabalha ao interpretar sonhos.

Nossas atividades mentais perseguem um objetivo útil ou um rendimento imediato de prazer. No primeiro caso, aquilo com que estamos lidando são juízos intelectuais, preparações para a ação ou a transmissão de informações a outras pessoas. No último, descrevemos essas atividades como jogo ou fantasia. O que é útil, é (como é bem sabido) em si apenas um caminho tortuoso até a satisfação prazerosa. Pois bem, sonhar é uma atividade do segundo tipo, mas na verdade é, do ponto de vista da evolução, o primeiro. É enganador dizer que os sonhos estão relacionados às tarefas da vida perante nós ou buscam encontrar solução para os problemas de nosso trabalho cotidiano. Isso é assunto do pensamento pré-consciente. Um trabalho útil desse tipo está tão afastado dos sonhos quanto qualquer intenção de transmitir informações a outra pessoa. Quando um sonho lida com um problema da vida concreta, soluciona-o à maneira de um desejo irracional, e não à maneira de uma reflexão razoável. Há apenas uma tarefa útil, apenas uma função que pode ser atribuída a um sonho, e ela consiste em guardar da interrupção o sono. Um sonho pode ser descrito como uma fantasia a trabalhar em prol da manutenção do sono.

Daí decorre que, em geral, para o ego que dorme é indiferente o que pode ser sonhado durante a noite, desde que o sonho desempenhe sua missão, e que esses sonhos desempenham melhor sua função quando nada se sabe sobre ela após acordar. Se (como acontece tão amiúde, doutra forma) recordamos os sonhos, mesmo após anos e décadas, isso sempre significa que houve uma irrupção do inconsciente reprimindo no ego normal. Sem essa concessão aoego, o reprimido não teria consentido em emprestar sua ajuda à remoção da ameaça de perturbação do sono. Sabemos ser o fato dessa irrupção que fornece aos sonhos sua importância para a psicopatologia. Se pudermos revelar a força motivadora de um sonho, conseguiremos informações insuspeitadas sobre os impulsos reprimidos no inconsciente; por outro lado, se pudermos desfazer suas deformações, entreouviremos o pensamento pré-consciente realizando-se em estados de reflexão interna, que não teriam atraído a consciência para si mesmos durante as horas do dia.

Ninguém pode praticar a interpretação de sonhos como atividade isolada; ela se mantém uma parte do trabalho de análise. Na análise dirigimos nosso interesse segundo a necessidade, ora para o conteúdo pré-consciente do sonho, ora para a contribuição inconsciente à sua formação, e amiúde negligenciamos um dos elementos em favor do outro. Tampouco seria de qualquer valia para alguém esforçar-se por interpretar sonhos fora da análise. Esse não conseguiria fugir às condições da situação analítica e, caso trabalhasse com seus próprios sonhos, estaria empreendendo uma auto-análise. Esse comentário não se aplicaria a alguém que passasse sem a colaboração daquele que sonhou, e procurasse interpretar sonhos pela compreensão interna (insight) intuitiva. No entanto, a interpretação de sonhos, desse tipo, sem referência às associações daquele que sonhou, permaneceria no caso mais favorável um virtuosismo não científico de valor muito duvidoso.

Praticando-se a interpretação de sonhos pelo único procedimento técnico justificável, logo se nota que o êxito depende inteiramente da tensão da resistência entre o ego desperto e o inconsciente reprimido. O trabalho sob uma ‘alta pressão da resistência’ exige (como já expliquei noutro lugar [[1]]) uma atitude diferente por parte do analista quanto ao trabalho sob uma baixa pressão. Em análise, há ocasionalmente que lidar durante longos períodos com fortes resistências ainda desconhecidas para nós, e de qualquer modo impossíveis de superar enquanto permaneceram desconhecidas. Portanto, não é de admirar que apenas determinada parte dos produtos oníricos de um paciente possa ser traduzida e utilizada, e, mesmo assim, na maior parte das vezes de modo incompleto. Ainda que, devido à própria experiência, estejamos em condições para compreender muitos sonhos, cuja interpretação recebeu pouca contribuição do sonhador, devemos sempre lembrar que a certeza de tais interpretações permanece em dúvida, e hesitamos em impingir nossas próprias conjecturas ao paciente.

Agora, vozes críticas vão-se elevar. Não sendo possível interpretar todo sonho com que se lida, irão objetar que seria preciso deixar de afirmar, mais do que se pode estabelecer, e contentar-me em dizer que se pode demonstrarpela interpretação que alguns sonhos têm um significado, mas que, quanto ao resto, nos vemos desconhecedores. O próprio fato de o sucesso na interpretação depender da resistência, porém, absolve o analista da necessidade de tal modéstia. Ele pode ter a experiência de um sonho, a princípio ininteligível, tornar-se claro durante a mesmíssima hora, após alguma observação afortunada ter-se libertado de uma das resistências daquele que sonhou. Parte do sonho que o paciente até então esquecera pode subitamente ocorrer-lhe e trazer a chave da interpretação, ou então emergir uma nova associação que lance luz sobre as trevas. Vez e outra também acontece, após meses ou anos de labor analítico, retornar-se a um sonho que no princípio do tratamento pareceu sem sentido e incompreensível, e agora, à luz do conhecimento obtido nesse meio tempo, contudo, é completamente elucidado. E levando-se ainda em consideração o argumento da teoria dos sonhos, de que os produtos oníricos modelo das crianças possuem invariavelmente um significado claro e são fáceis de interpretar, será então justificável asseverar serem os sonhos, muito geralmente, estruturas mentais capazes de interpretação, embora a situação nem sempre possa permitir que se chegue a uma interpretação.

Descoberta a interpretação de um sonho, nem sempre é fácil decidir se é ‘completa’, isto é, se outros pensamentos pré-conscientes também não podem ter encontrado expressão no mesmo sonho. Nesse caso, devemos considerar provado o sentido que se baseia nas associações do sonhador e em nossa estimativa da situação, sem por isso nos sentirmos obrigados a rejeitar o outro significado. Ele continua sendo possível, embora não provado; temos de nos acostumar com que o sonho é assim capaz de ter muitos significados. Ademais, a culpa aqui devida nem sempre deve ser atribuída à incompleteza do trabalho de interpretação; ela também pode ser inerente aos próprios pensamentos oníricos latentes. Na realidade, pode acontecer na vida desperta, inteiramente à parte da situação de interpretação de sonhos, a incerteza de saber se alguma observação ouvida ou alguma informação recebida estão abertas à construção dessa ou daquela forma, ou se aludem a algo mais além de seu sentido evidente.Uma ocorrência interessante, que foi insuficientemente investigada, pode ser vista onde o mesmo conteúdo onírico manifesto dá simultaneamente expressão a um conjunto de idéias concretas e a uma seqüência abstrata de pensamento, nelas baseada. Naturalmente, é difícil à elaboração onírica encontrar um meio de representar pensamentos abstratos.
(B) RESPONSABILIDADE MORAL PELO CONTEÚDO DOS SONHOS
No capítulo introdutório desse livro [A Interpretação de Sonhos] (que debate ‘A Literatura Científica que Trata dos Problemas de Sonhos’) demonstrei a maneira pela qual escritores reagiram ao que se considera como o fato aflitivo de o conteúdo desenfreado dos sonhos tantas vezes estar em disparidade com o senso moral daquele que sonha. (Deliberadamente evito falar de sonhos ‘criminosos’, visto tal descrição, que ultrapassaria os limites do interesse psicológico, parecer-me inteiramente desnecessária.) O caráter imoral dos sonhos naturalmente proporcionou novo motivo para negar-lhes qualquer valor psíquico: se os sonhos são o produto inexpressivo de uma atividade mental desordenada, não pode então haver fundamento para assumir responsabilidade por seu conteúdo aparente.

O problema da responsabilidade pelo conteúdo manifesto dos sonhos foi fundamentalmente deslocado e, na realidade, descartado pelas explicações fornecidas em A Interpretação de Sonhos.

Sabemos agora que o conteúdo manifesto é um engano, uma façade. Não vale a pena submetê-lo a um exame ético ou tomar suas rupturas da moralidade mais a sério que seus rompimentos com a lógica ou a matemática. Quando se fala do ‘conteúdo’ dos sonhos, necessariamente a referência só pode estar sendo feita ao conteúdo dos pensamentos pré-conscientes e do impulso desejoso reprimido, revelados por trás da façade do sonho mediante o trabalho de interpretação. Não obstante, essa façade imoral tem uma questão a formular-nos. Ouvimos que os pensamentos oníricos latentes têm de submeter-se a uma censura severa antes que lhes permitam acesso ao conteúdo manifesto. Então, como pode acontecer que essa censura, que cria dificuldades sobre coisas mais triviais, falhe tão completamente ante esses sonhos manifestamente imorais?

Não é fácil chegar-se à resposta, e talvez possa não parecer completamente satisfatória. Submetendo-se, em primeiro lugar, esses sonhos à interpretação, descobre-se que alguns deles não ofenderam a censura porque, au fond, não possuem um significado mau. São inocentes jactâncias ou identificações que colocam uma máscara de fingimento;não foram censurados porque não contam a verdade. Outros deles, porém — e, devemos admitir, a maioria — realmente significam o que dizem e não experimentaram deformação por parte da censura. São expressão de impulsos imorais, incestuosos e perversos ou de lascívias assassinas e sádicas. Aquele que sonha reage a muitos desses sonhos despertando assustado, caso em que a situação não mais é obscura para nós. A censura negligenciou sua tarefa, o que foi notado tarde demais, e a geração de ansiedade constitui um substituto para a deformação que foi omitida. Em ainda outros exemplos de tais sonhos, essa exata expressão de afeto está ausente. O assunto objetável é continuado pelo auge da excitação sexual, atingida durante o sono, ou encarado com a mesma tolerância com que uma pessoa desperta poderia encarar uma crise de raiva, um humor de raiva ou a indulgência em fantasias cruéis.

Nosso interesse na gênese desses sonhos manifestamente imorais é, porém, grandemente reduzida quando descobrimos, pela análise, que a maioria dos sonhos — sonhos inocentes, sonhos sem afeto e sonhos de ansiedade — são revelados, quando as deformações da censura foram desfeitas como a satisfação de impulsos desejosos imorais — egoístas, sádicos, pervertidos ou incestuosos. Tal como no mundo da vida desperta, esses criminosos mascarados são muito mais comuns que aqueles com a viseira levantada. O sonho direto de relações sexuais com a própria mãe, a que Jocasta alude em Édipo Rei, é uma raridade em comparação com toda a multiplicidade de sonhos que a psicanálise deve interpretar no mesmo sentido.

Lidei tão exaustivamente nessas páginas [isto é, de A Interpretação de Sonhos] com essa característica dos sonhos, a qual deveras fornece o motivo para sua deformação, que posso passar imediatamente desse tópico para o problema que jaz à nossa frente: devemos assumir responsabilidade pelo conteúdo dos próprios sonhos? Por amor à perfeição seria preciso, contudo, acrescentar que os sonhos nem sempre oferecem realizações imorais de desejos, mas com freqüência reações enérgicas contra elas sob a forma de ‘sonhos de punição’. Noutras palavras, a censura de sonhos pode não apenas expressar-se em deformações e geração de ansiedade, mas chegar ao ponto de apagar completamente o tema geral imoral e substituí-lo por algo que sirva de expiação, embora nos permita ver o que está por trás. O problema da responsabilidade pelo conteúdoimoral dos sonhos não mais existe para nós, como antigamente existia para escritores que nada sabiam dos pensamentos oníricos latentes e da parte reprimida de nossa vida mental. Obviamente, temos de nos considerar responsáveis pelos impulsos maus dos próprios sonhos. Que mais se pode fazer com eles? A menos que o conteúdo do sonho (corretamente entendido) seja inspirado por espíritos estranhos, ele faz parte de seu próprio ser. Se procuro classificar os impulsos presentes, em mim, segundo padrões sociais, em bons e maus, tenho de assumir responsabilidade por ambos os tipos; e, se em defesa digo que o desconhecido, inconsciente e reprimido em mim não é meu ‘ego’, não estarei baseando na psicanálise minha posição, não terei aceito suas conclusões — e talvez serei mais bem ensinado pelas críticas de meus semelhantes, pelos distúrbios em minhas ações e pela confusão de meus sentimentos. Aprenderei, talvez, que o que estou repudiando não apenas ‘está’ em mim, mas vez e outra ‘age’ também desde mim para fora.

É verdade que, no sentido metapsicológico, esse conteúdo reprimido mau não pertence ao meu ‘ego’ — isto é, presumindo que sou um indivíduo moralmente inatacável —, porém pertence a um ‘id’ sobre o qual meu ego se assenta. Esse ego desenvolvido a partir do id contudo forma com ele uma unidade biológica isolada, é apenas uma parte periférica especialmente modificada dele, e está sujeito às influências e obedece às sugestões ambas originárias do id. Para qualquer intuito vital, uma separação entre o ego e o id seria empreendimento irrealizável.

Ademais, se eu cedesse ao meu orgulho moral e tentasse decretar que, para fins de avaliação moral, poderia desprezar o mal no id e não precisaria tornar meu ego responsável por ele, que utilidade isso teria para mim? A experiência me demonstra que, não obstante, eu realmente assumo essa responsabilidade, que sou, de certa maneira, compelido a fazê-lo. A psicanálise nos tornou familiarizados com uma condição patológica, a neurose obsessiva, na qual o pobre ego se sente responsável por todos os tipos de impulsos maus, dos quais nada sabe; impulsos que são levantados contra ele na consciência, e que ele, no entanto, é incapaz de reconhecer. Algo, como parte disso, está presente em todapessoa normal. É fato notável que quanto mais moral ela seja, mais sensível é sua ‘consciência’. É exatamente como se pudéssemos dizer que quanto mais saudável é um homem, mais sujeito a contágios e ao efeito de danos ele fica. Isso sem dúvida se deve ao fato de a consciência ser, em si, uma formação reativa contra o mal percebido no id. Quanto mais fortemente o último é suprimido, mais ativa é a consciência.

O narcisismo ético da humanidade deveria contentar-se em conhecer que o fato da deformação nos sonhos, assim como a existência de sonhos de ansiedade e sonhos de punição, fornece uma prova tão clara de sua natureza moral quanto a interpretação de sonhos proporciona da existência e força de sua natureza . Se alguém ficar insatisfeito com isso e gostar de ser ‘melhor’ do que foi criado, deixem-no ver se pode atingir na vida algo mais que hipocrisia ou inibição.

O médico deixará ao jurista construir para fins sociais uma responsabilidade que é artificialmente limitada ao ego metapsicológico. É notório que as maiores dificuldades são encontradas pelas tentativas de derivar de tal construção conseqüências práticas que não estejam em contradição com os sentimentos humanos.


(C) O SIGNIFICADO OCULTO DOS SONHOS
Não parece haver fim para os problemas da vida onírica; isso, porém, só pode ser surpreendente se esquecermos que todos os fenômenos da vida mental reaparecem nos sonhos, com o acréscimo de alguns novos, emergentes da natureza especial daqueles. Muitas dentre as coisas que estudamos nos sonhos, porque as encontramos aí, não obstante pouco ou nada têm a ver com a peculiaridade psicológica dos sonhos. Assim, por exemplo, o simbolismo não é um problema onírico, mas sim um tópico vinculado ao nosso pensar arcaico — nossa ‘língua básica’, como foi apropriadamente chamada pelo paranóico. Ele domina os mitos e o ritual religioso tão bem quanto os sonhos, e o simbolismo onírico sequer pode reivindicar ser peculiar no sentido de ocultar mais especificamente coisas que são sexualmente importantes. Mais, não é de se esperar que a explicação dos sonhos de ansiedade seja encontrada na teoria dos sonhos. A ansiedade é mais propriamente um problema da neurose, e tudo quanto resta a discutir é o modo como ocorre que a ansiedade possa despertar sob condições oníricas.

A posição é exatamente a mesma, penso eu, na questão da relação dos sonhos com os supostos fatos do mundo oculto. Entretanto, visto os próprios sonhos sempre terem sido coisas misteriosas, eles foram colocados em vinculação íntima com os outros mistérios desconhecidos. Indubitavelmente, também, eles possuem um direito histórico a essa posição, de vez que nas eras primevas, quando nossa mitologia se formava, imagens oníricas podem ter tido um desempenho na origem das idéias sobre espíritos.

Pareceria haver duas categorias de sonhos com direito a serem considerados fenômenos ocultos: os sonhos proféticos e os sonhos telepáticos. Uma multidão incontável de testemunhas fala em favor de ambos, ao passo que contra os dois existe a aversão obstinada, ou talvez preconceito, da ciência.

Com efeito, não pode haver dúvida de que existem coisas tais como sonhos proféticos, no sentido de seu conteúdo fornecer determinado tipo deretrato do futuro; a única questão é saber se essas predições coincidem em algum grau observável com o que, em realidade, subseqüentemente acontece. Devo confessar que a esse respeito minha resolução em favor da imparcialidade me desampara. A noção de que existe algum poder mental, afora um cálculo acurado, que possa prever com detalhes acontecimentos futuros, está, por um lado, muitíssimo em contradição com todas as expectativas e suposições da ciência e, por outro, corresponde de muito perto a determinados desejos humanos antigos e familiares que a crítica tem de rejeitar como pretensões injustificáveis. Tomadas em consideração a infidedignidade, a credulidade e a inconvencibilidade da maioria desses relatos, juntamente com a possibilidade de falsificações da memória facilitadas por causas emocionais e pela inevitabilidade de alguns acertos felizes, sou de opinião que, feito isso, pode-se antecipar que o espectro de sonhos proféticos verídicos desaparecerá no nada. Pessoalmente, jamais experimentei algo ou soube de alguma coisa que pudesse encorajar suposição mais favorável.

Outra coisa sucede com os sonhos telepáticos. Nesse ponto, porém, deve-se esclarecer com toda a nitidez que ninguém ainda sustentou estarem os fenômenos telepáticos — a recepção de um processo mental de uma pessoa por outra, por outros meios que não a percepção sensorial — relacionados exclusivamente aos sonhos. Assim, mais uma vez a telepatia não constitui um problema onírico: nosso julgamento sobre ela existir ou não, não necessita basear-se em um estudo dos sonhos telepáticos.

Se submetemos relatórios de ocorrências telepáticas (ou, para falar mais exatamente, de transmissão de pensamentos) à mesma crítica que as histórias de outros eventos ocultos, resta uma considerável quantidade de material que não pode ser tão facilmente negligenciada. Ademais, é bem mais possível coletar observações e experiências próprias nesse campo que justificam uma atitude favorável para com o problema da telepatia, malgrado possam não ser suficientes para acarretar uma convicção segura. Chega-se à conclusão provisória de ser bem plausível que a telepatia realmente exista e que forneça o núcleo de verdade em muitas outras hipóteses que doutra maneira seriam incríveis.É certamente correto, no que concerne à telepatia, aderir obstinadamente à mesma posição cética, e só render-se com relutância à força da evidência. Acredito ter descoberto uma classe de material, que está isento de dúvidas que se podem doutra maneira justificar — como profecias não realizadas efetuadas por adivinhos profissionais. Infelizmente, tenho apenas poucas observações desse tipo à minha disposição; duas dentre elas, porém, me causaram uma impressão poderosa. Não estou apto a descrevê-las em detalhes que produzam efeito semelhante em outras pessoas, e devo restringir-me a apresentar alguns pontos essenciais.

Uma predição fora feita aos inquiridores (num estranho lugar e por um estranho adivinho, que ao mesmo tempo realizava um ritual, presumivelmente irrelevante), de que algo lhes aconteceria em determinada época, o que, de fato, não se realizou. A data em que a profecia deveria ter-se cumprido já passou há muito tempo. Foi notável que os interessados relataram sua experiência sem escárnio ou desapontamento, e sim com satisfação óbvia. No que lhes fora dito estavam incluídos determinados pormenores bem definidos, que pareciam caprichosos e ininteligíveis, e que só se teriam justificado caso houvessem acertado o alvo. Por exemplo, a uma mulher de 27 anos (embora parecesse muito mais jovem), que havia retirado sua aliança de casada, o quiromante disse que ela se casaria e teria dois filhos antes de completar 23 anos. A mulher estava com 43 anos quando, agora seriamente enferma, contou-me a história em sua análise: ela continuara sem filhos. Acaso fosse conhecida sua história particular (que o ‘Professor’ no saguão de um hotel de Paris certamente ignorava), poder-se-ia entender os dois números incluídos na profecia. A jovem se casara após uma ligação inusitadamente intensa com o pai e tivera então um anseio apaixonado por filhos, de modo a poder substituir o marido pelo pai. Após anos de desapontamento, achando-se à beira de uma neurose, obteve a profecia, que lhe prometia — a ventura de sua mãe. Pois era um fato que essa última tivera dois filhos pela época em que contava 32 anos. Assim, somente com o auxílio da psicanálise se tornou possível fornecer uma interpretação significante das peculiaridades dessa pretensa mensagem do exterior. Mas então, não havia melhor explicação de toda a cadeia inequivocamente determinada de eventos que supor que um forte desejo por parte da inquiridora — o desejo inconsciente mais forte,em realidade, de toda a sua vida emocional e a força motivadora de sua neurose iminente — se tornara manifesto ao adivinho por ser-lhe diretamente transferido enquanto sua atenção era distraída pelos desempenhos que efetuava.

No decurso de experimentos em meu círculo particular tive, com freqüência, a impressão de que recordações intensa e emocionalmente coloridas podem ser transferidas com sucesso, sem muita dificuldade. Tendo-se a coragem de submeter a um exame analítico as associações da pessoa a quem se supõe que os pensamentos sejam transferidos, amiúde vêm à luz correspondências que, de outra maneira, teriam permanecido irreveladas. Com base em certo número de experiências, estou inclinado a concluir que uma transferência de pensamentos desse tipo ocorre de modo particularmente fácil no momento em que uma idéia emerge do inconsciente ou, em termos teóricos, quando ela passa do ‘processo primário’ para o ‘processo secundário’.

Apesar da cautela prescrita pela importância, novidade e obscuridade do assunto, sinto que não seria justificado reter mais tempo essas considerações sobre o problema da telepatia. Tudo isso tem apenas o seguinte a ver com os sonhos: se existem coisas como as mensagens telepáticas, não se pode desprezar a possibilidade de que elas alcancem alguém durante o sono e cheguem à sua consciência em um sonho. De fato, segundo a analogia de outros materiais perceptuais e intelectuais, surge ainda a possibilidade de que mensagens telepáticas recebidas no curso do dia só possam ser tratadas durante um sonho da noite seguinte. Então, nada haveria de contraditório em o material, telepaticamente comunicado, ser modificado e transformado em sonho, como qualquer outro material. Seria satisfatório se, com o auxílio da psicanálise, pudéssemos obter um maior e mais bem autenticado conhecimento da telepatia.


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