O ensino de Ciências Sociais na Educação Tecnológica: o desafio da transposição do conhecimento



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O ensino de Ciências Sociais na Educação Tecnológica: o desafio da transposição do conhecimento
Leandro Raizer
Resumo
O presente artigo é resultado das experiências e reflexões investigativas realizadas durante a realização do estágio docente na Escola Técnica da UFRGS. O estágio faz parte da disciplina de Prática de Ensino em Ciências Sociais ministrada pelo professor Me. Mauro Meirelles no semestre 2006/01. Nesse artigo descrevo a organização da educação tecnológica de nível médio no país; problematizo o conceito de transposição do conhecimento aplicado ao ensino de Ciências Sociais; assim como o potencial papel que o ensino da disciplina poderia desempenhar frente ao contexto de crise e fragmentação social. Para esse último intento, utilizo os conceitos de técnica social (Manheim, 1972) e escola unitária (Gramsci, 1978).

Introdução
O ensino de Ciências Sociais no ensino médio vem ganhando, a cada dia, maior legitimidade frente às comunidades escolares, organizações da sociedade civil, órgãos e secretarias de governo; que mostram-se sensíveis diante da necessidade de oferecer às novas gerações ensino mais qualificado e que inclua no currículo escolar disciplinas voltadas para a construção de sujeitos críticos e conscientes do contexto sócio-político da sociedade brasileira.i Tal demanda está relacionada com a crise de valores e sentidos compartilhados experenciada pela sociedade brasileira que, entre outros aspectos, caracteriza-se pela exacerbação de busca de soluções individuais para problemas coletivos como o aumento da criminalidade violenta, desemprego estrutural e falta de horizontes políticos e culturais mínimos para a garantia de certo grau de segurança ontológica aos sujeitos. Nesse contexto, espera-se que disciplinas como as Ciências Sociais e a Filosofia, desempenhem um duplo papel: oferta de ensino de qualidade; e intervenção e formação cidadã dos alunos frente ao contexto de fragmentação e crise das instituições sociais.

O primeiro papel, por si só, considerando-se a falta de pessoal qualificado e de materiais didáticos disponíveis, apresenta-se como um desafio ao ensino dessas disciplinas com garantias mínimas de qualidade. Também a função de “colaborar” para a formação cidadã dos alunos, devido a inúmeros fatores, é um desafio imenso, pois há um pressuposto de que o professor é um sujeito crítico e portador de certos valores considerados relevantes socialmente; o que, através de diversos estudos tem sido contestado ao longo dos últimos anos. Frente a esse duplo desafio, apresentarei e problematizarei nesse artigo o conceito de transposição do conhecimento no ensino de Ciências Sociais e discutirei, de forma breve, alguns elementos que poderiam consolidar a disciplina como uma técnica social transformadora que busca construir uma sociedade mais justa e uma escola unitária.




  1. A educação tecnológica no país e o ensino de humanidades: o caso da Escola Técnica da UFRGS

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Segundo a legislação (LDBN/96), os cursos tecnológicos de nível médio (ensino técnico) viabilizam a formação profissional de nível médio, para a atuação na operação do processo produtivo, com autonomia relativa, requerendo geralmente supervisão de profissional de nível superior. Atualmente, são oferecidos um total de 5508 cursos técnicos no país; a rede estadual e a rede privada oferecem juntas 5025



cursos; já a rede federal conta com um total de 400 cursos no país, seguida pela rede municipal com 83 .

O ensino de educação técnica no país tem suas origens no início do século passado, no ano de 1909, quando foram criadas 19 Escolas de Aprendizes Artífices, uma em cada estado da União, por meio do Decreto n.º 7.566. Essas escolas foram, ao longo do tempo, destacando-se no contexto educacional brasileiro por oferecerem formação geral e específica de alta qualidade, sendo consideradas "ilhas de excelência", especialmente nas regiões menos desenvolvidas do país. As Instituições Federais de Educação Tecnológica – IFET (ver mapa ao lado) formam atualmente uma rede de 144 escolas sendo: 36 Escolas Agrotécnicas Federais (EAF); 33 Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET); 34 Unidades de Ensino Descentralizadas (UNED); 31 Escolas Técnicas Vinculadas às Universidades Federais; 01 Escola Técnica Federal; 1 Universidade Tecnológica Federal (6 Campus vinculados à Universidade Tecnológica). No sistema privado de ensino técnico, encontramos uma pluralidade de instituições que oferecem esse tipo de formação: SENAC e SENAI (ligadas aos setores industrial e comercial); diversas escolas de ensino médio que ofertam ensino técnico; e instituições de ensino superior que ofertam cursos tecnológicos.

Embora a maioria desses cursos privilegie em seus currículos a inclusão de disciplinas técnicas e que estão ligadas diretamente as demandas do mercado de trabalho; há a possibilidade de inclusão de disciplinas ligadas as humanidades, as quais se propõem a formar cidadãos e profissionais críticos e cientes da realidade social, econômica e política do país. . No caso da Escola Técnica da UFRGS, que oferece 11 cursos técnicos, a disciplina de Sociologia é ofertada como componente obrigatório desses cursos. Tal disciplina tem sido desenvolvida objetivando a formação de sujeitos críticos e reflexivos da realidade profissional e nacional, que possam exercer a capacidade de reflexão fundada no campo da ética, utilizando-a para a atuação do exercício profissional. Dessa forma, através da análise das transformações pelas quais vem passando as relações de trabalho na atualidade e, com base nas mudanças experimentadas pelas organizações; busca-se estimular os alunos a compreenderem os sistemas hierárquicos, os processos de comunicação e aprendizagem envolvidos nas organizações produtivas da sociedade industrial, entendidas como fenômeno histórico e global, socialmente referenciado, dinâmico e conflitivo.


2. O desafio da transposição do conhecimento( ou transposição didática)
O conceito de transposição didática foi introduzido em 1975 pelo sociólogo Michel Verret e rediscutido por Yves Chevallard em 1985 em seu livro La Transposition Didatique, onde esse último reflete sobre as transposições que um saber sofre quando passa do campo científico para a escola e, a importância da compreensão deste processo por aqueles que lidam com o ensino das disciplinas científicas.

Segundo Namo de Mello (2004) para fazer uma transposição didática eficaz, é preciso: saber como é a aprendizagem em determinada área e articulá-la com os princípios gerais da aprendizagem; selecionar e organizar o conteúdo; distribuir o conteúdo no tempo, estabelecendo seqüência, ordenamento, séries lineares ou não de conceitos e relações, etapas de análise, síntese e de avaliação formativa de acordo com as características dos alunos; selecionar materiais ou mídias pelos quais os conteúdos serão apresentados — textos, vídeos, pesquisa na web etc. selecionar e aplicar técnicas e estratégias de ensino.

Partindo dessas conceituações iniciais, cabe aprofundar a relevância desse conceito e a sua possibilidade de aplicação no ensino de Sociologia na educação tecnológica. Um primeiro elemento a discutir, tendo em vista o nosso caso analisado, diz respeito à “dificuldade” advinda da grande heterogeneidade encontrada nesses cursos: faixa etária (varia desde alunos com 17 à 50 anos); posição no mercado de trabalho ( alunos já atuantes e com experiência no mercado, alunos que ainda estão por ingressar já que são egressos do ensino médio, alunos desempregados); nível de instrução ( alunos recém egressos do ensino médio, alunos com curso superior completo ou incompleto, alunos com outras formações de nível médio e superior –técnica, tecnológica, especialização.). Tal elemento requer do professor da disciplina certa flexibilidade e reflexão prévia sobre a educação de jovens e adultos (EJA), pois caberá a ele utilizar diferentes metodologias e técnicas de ensino para conseguir abarcar os diferentes interesses e tempos de aprendizagem, algumas vezes até conflitantes, dos alunos.

Um segundo elemento, diz respeito ao diálogo do conhecimento sociológico com as categorias mentais de percepção da realidade com a qual os alunos operam. Nesse sentido, no ensino de sociologia, há momentos de aproximação e distanciamento gradual que tendem a uma síntese consolidada ao longo das discussões e realizada pela interação professor-aluno-mundo-conhecimento. Assim, desde essa perspectiva, o saber do aluno é tido como de grande relevância, pois é a capacidade de entender esse saber e a relação que ele possui com o mundo e com a subjetividade do aluno, que permitirá ao professor realizar a transposição didática. Em outras palavras, podemos pensar esse processo em dois momentos: o que ocorre na mente do professor que parte do abstrato-concreto-abstrato e; na mente do aluno, concreto-abstrato-concreto.

De forma mais clara, o que propomos aqui é que o professor, considerando a particularidade dos seus alunos, opte por priorizar no processo de construção do conhecimento, processos de equilibração e desequilibração que correspondam a experiências significativas para os alunos. Tal ênfase não só permitirá um aprendizado mais prazeroso, como também elucidará, de forma sumária, a relação imbricada na conexão conhecimento-mundo-saberes. A compreensão de tal imbricação é condição não só para que os estudantes adquiram uma capacidade analítica-crítica permanente consolidada, fugindo do ensino reprodutivista; como também, a capacidade de transpor as fictícias fronteiras que separam a ciência do mundo e, a ciência da ação.

3. Educação para a transformação social: a sociologia como técnica social para a construção de uma escola unitária e uma sociedade mais justa
O ensino de Sociologia não pode se furtar de conceber e fundamentar-se em uma epistemologia e filosofia consciente e crítica de sua existência; tal falta poderia representar a adoção de um postura ingenuamente pseudo-neutra, como a assumida por algumas disciplinas. Em tal conjunto de saberes, deve estar explicitado as concepções de mundo e sociedade, conhecimento e saberes, justiça e injustiça. Na nossa concepção, um relativismo radical deve ser tolhido e substituído por um relativismo crítico e humanista, consciente de seu etnocentrismo.

Para Manheim a educação poderia se transformar numa “técnica-social” estratégica no planejamento e na construção de uma sociedade democrática e que não reproduzi-se o caos criado pelos regimes totalitários. Ou seja, ao contrário da visão de Durkheim e Parsons que tendem a classificar a educação principalmente por seu aspecto reprodutor e conservador do status quo, a educação é apontada como um instrumento de mudança social. Dessa forma, a educação torna-se o principal meio pelo qual se deve ensinar os cidadãos para a prática de regras e ações democráticas. (Mannheim, 1972) A educação democrática não se limitaria apenas às escolas, mas também se estenderia às famílias e aos grupos de referência (vizinhança, grupos de amigos, associações de bairro, etc.) e, ao local de trabalho (sindicatos, partidos, clubes, etc). É nesses diferentes espaços sociais, incluindo centros de atendimento social e profissionalizante, que as práticas democráticas seriam aprendidas, consolidadas e reproduzidas.

De outra parte, para Gramsci - que pensava a educação italiana e suas relações com o desenvolvimento do capitalismo- a educação possui um papel muito importante na perpetuação do status quo, da desigualdade e da diferença de classes; ao mesmo tempo em que, de forma semelhante pela qual pensava Manheim, pode ser um meio de mudanças profundas nesse status. De acordo com ele, toda relação de hegemonia é uma relação pedagógica. A educação profissionalizante, sob um caráter falsamente democrático, visaria oferecer a todos uma profissão, mas, na verdade, estaria preocupada unicamente com interesses práticos e imediatos. Já a educação humanista, por estudar profundamente temas culturais, políticos e filosóficos, que não são abordados na escola profissionalizante é, somente, na interpretação desse autor, dedicada às classes dominantes. Partindo dessas críticas, Gramsci defendia a implantação de uma “escola unitária” que proporciona-se o ensino de cultura geral e humanista desde o início da formação escolar; e que oferece-se um ensino equilibrado com o desenvolvimento de aptidões manuais e intelectuais. Para ele a educação era uma questão pública, e o Estado teria a responsabilidade de financiá-la. (Gramsci, 1978)

Diante dessas reflexões, nos parece que a disciplina de Sociologia deve assumir um papel engajado em relação aos valores democráticos, a justiça e a maior equidade social nas sociedades. Tal engajamento deve ser ao mesmo tempo, crítico em relação à injustiça e desigualdade social e; crítico de si, compreendendo-se como discurso e prática historicamente referenciados.


Considerações finas:
Nesse artigo busquei discutir alguns elementos que me parecem relevantes para discutirmos o ensino de sociologia na educação tecnológica. Num primeiro momento descrevi a organização da educação tecnológica de nível médio, seus princípios e o papel que as humanidades desempenham no currículo desse tipo de ensino. Também apresentei e discuti alguns aspectos do conceito de transposição do conhecimento à luz do caso analisado. Por fim, apresentei algumas perspectivas teóricas que abordam o papel das humanidades na educação, para tanto utilizei os conceitos de técnica social de Manheim e escola unitária de Gramsci.

A inclusão das humanidades no nível médio (ensino médio e cursos técnicos), assim como também no superior(cursos tecnológicos, cursos de graduação e seqüenciais), poderia representar um avanço na implementação das políticas públicas de educação profissional, já que se manteria a formação técnica especializada, ao mesmo tempo em que se qualificaria os alunos com conhecimento reflexivo e crítico. Tal política poderia ajudar a consolidar a educação como técnica social para a transformação e emancipação individual e social e, a escola, como unitária.

Quanto ao ensino da disciplina de Sociologia, especificamente, deve-se priorizar, além da discussão com base em informações e teorias, a construção dialogada junto ao aluno de um quadro analítico da realidade ao qual esse possa recorrer, ao longo de sua educação e vida, para analisar as dinâmicas, fenômenos, práticas e discursos sociais. Nesse sentido, a Sociologia, pode auxiliar no incremento da capacidade reflexiva e crítica dos estudantes de nível técnico, que passam a ter a possibilidade de vislumbrar, de forma mais clara, os impressionantes e angustiantes acontecimentos que estamos presenciado. ademais, talvez possam deixar de ser simples “repetidores de cálculos”, e de “frases prontas” para tornarem-se sujeitos da história, destruidores e construtores de fórmulas e, talvez, de um novo mundo.

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i Tal preocupação acaba de consolidar-se na decisão tomada, no dia 7/07/2006 pelo Conselho Nacional de Educação, que torna obrigatório o ensino das disciplinas de Sociologia e Filosofia no Ensino Médio.


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