O ensino de história da educaçÃo no curso de pedagogia da universidade estadual de londrina



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O ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO CURSO DE PEDAGOGIA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA.

Marta Regina Gimenez Favaro

UEL – Universidade Estadual de Londrina

e-mail: martafavaro@uel.br


Palavras-chave: História da Educação; Ensino de História da Educação; Formação do Pedagogo

Eixo temático: O Ensino de História da Educação

Pesquisa em andamento



A preocupação com a formação do pedagogo e nesse processo a contribuição da disciplina História da Educação, nos levou a propor no Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina, Paraná, o desenvolvimento de um Projeto de Pesquisa em Ensino intitulado: “O Ensino de história da Educação no Curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina”. As atividades do projeto tiveram início no segundo semestre do ano de 2010, com a seleção de alunos da graduação em Pedagogia e início dos trabalhos de revisão da literatura pertinente ao tema. Esse texto tem por objetivo apresentar a proposta do projeto de pesquisa em ensino, bem como as primeiras percepções construídas sobre o ensino de história da educação, na experiência de trabalho desenvolvida no projeto, com professores e alunos. Consideraremos também, na escritura do texto, nossa trajetória como professores de história da educaçãoi.

Assumimos como foco de atenção no projeto, a reflexão sobre o ensino de história da educação, tomando como referência inicial o Curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina. Originária da preocupação com a educação enquanto ação humana intencional baseada em princípios científicos, a História da Educação pode ser entendida como uma das fundadoras das Ciências da Educação, como mostra Nóvoa (1999, p.11) ao citar Compayré: Na ciência da educação, [...], como em todas as ciências filosóficas, a história é a introdução necessária, a preparação para a própria ciência.


A História da Educação nasce como disciplina nos cursos de formação de professores, passando por diferentes momentos no que diz respeito ao entendimento da sua tarefa e ao papel que deve desempenhar na construção do conhecimento sobre educação e pedagogia. Voltada inicialmente mais para a formação de professores, e nesse sentido mais distante da História e mais próxima da Educação, vai se constituindo nos últimos 50 ou 60 anos em campo específico de pesquisa e investigação. A produção sobre a história da educação é historicamente bastante recente, como também o trabalho com esses conteúdos desenvolvidos por disciplina específica.

Segundo Nóvoa,


O mínimo que se exige de um historiador é que seja capaz de reflectir sobre a história de sua disciplina, de interrogar os sentidos vários do trabalho histórico, de compreender as razões que conduziram à profissionalização do seu campo acadêmico. O mínimo que se exige de um educador é que seja capaz de sentir os desafios do tempo presente, de pensar sua acção nas continuidades e mudanças do trabalho pedagógico, de participar criticamente na construção de uma escola mais atenta às realidades dos diversos grupos sociais. (1996, p.1)

A aproximação dessas duas exigências, conhecer a história da disciplina em que atua e pensar a ação/prática educativa nas continuidades e mudanças, inspirou o trabalho que vem sendo desenvolvido no projeto de ensino, visto que essa compreensão pode influir na formação do pedagogo. A disciplina história da educação tem sido componente curricular presente nos cursos de formação de professores desde o início de sua institucionalização. Nesse percurso histórico a disciplina assumiu diferentes características.

Nóvoa esclarece que a construção disciplinar da história da educação pode ser entendida a partir de três processos simultâneos: “[...] a estatização do ensino, a institucionalização da formação de professores e a cientificização da pedagogia” (1996, p.4). Esses processos são expressão do século XIX. A organização dos Estados Nacionais e a progressiva elaboração e implantação dos sistemas nacionais de ensino, instalam um exercício comparativo entre os Estados no que respeita à condição da organização da educação escolar. A história da educação como base para que se realize esse exercício comparativo, permite avaliar a condição da organização escolar e canalizar por parte do Estado esforços no sentido de sua composição.

A nova condição de regulamentação do ensino e de entendimento de sua organização impõe ações para formação de professores, que deveriam ser preparados para os novos desafios, o maior deles a formação de uma nova “sociedade”, “nação”. Essa formação deveria ser conduzida e proposta pelo Estado, característica que diferencia a formação de professores desenvolvida em tempos históricos anteriores. O Estado a partir da representação ideológica que o compõe estabelece as regras, os conteúdos e o método para a formação desses professores. É nesse contexto que se instala a escola normal. Esse período também manifesta uma intensa e crescente preocupação com a reflexão e sistematização de conhecimentos que assumem como objeto a educação, a formação humana e mais especificamente a prática educativa constituída na relação ensino aprendizagem. A pedagogia instaura a partir desse período o movimento de conquista de seu estatuto de ciência.

O ensino da história da educação passa a fazer parte da organização curricular dos cursos de formação de professores, “a referência identitária da História da Educação ao campo da formação de professores e educadores é essencial para compreender a sua razão de ser e uma parte considerável das suas contradições” (VIOLAS, apud NÓVOA, 1996, p.6). A disciplina história da educação assumiu diferentes composições de conteúdos e objetivos. Segundo Nóvoa essas mudanças podem ser caracterizadas em quatro grandes orientações:
De início, a História da Educação organiza-se como uma reflexão essencialmente filosófica, baseada na evocação das idéias dos grandes educadores, desde a antiguidade ao período contemporâneo (século XIX). [...] No final do século XIX, e de modo mais evidente no princípio do século XX, esta primeira tradição é prolongada por uma outra, mais marcadamente institucional. Numa época de edificação dos sistemas estatais de ensino, tal como os conhecemos nos dias de hoje, é natural que fosse concedida uma atenção privilegiada à gênese e ao desenvolvimento das instituições educativas. [...] Acentua-se, assim, o valor prático e a funcionalidade da história da educação, disciplina que estreita laços de proximidade com as temáticas da organização e administração escolares. [...] Em meados do século XX verifica-se uma reacção contra estas duas tradições [...]. Há, por um lado, a crítica dos historiadores, claramente sintonizada com as revoluções em curso na sua própria área científica e, por outro lado, a crítica dos sociólogos, imbuída frequentemente de uma perspectiva marxista ou neo-marxista. [...] Nos dias de hoje, há uma diversificação de perspectiva na forma de ensinar a História da Educação e de justificar a sua inclusão nos programas do ensino superior e universitário: por um lado, há uma espécie de redescoberta da especificidade das temáticas escolares e do papel dos diferentes actores educativos e da sua experiência; por outro lado, há uma tendência para retomar práticas de história intelectual e cultural, a partir de novas concepções teóricas; finalmente, há um regresso às origens da história da Educação através de uma revalorização das abordagens comparadas. (NÓVOA, 1996, p.7-8)

A disciplina história da educação, tradicionalmente, ocupa um espaço nos currículos dos cursos de pedagogia desde sua criação no Brasil. Ela nasce, comparativamente à experiência internacional, atrelada aos cursos normais, no século XIX, e depois também aos cursos de pedagogia, que são criados no Brasil no século XX, década de 30. Está intimamente relacionada à filosofia, sendo que na primeira fase são tratadas conjuntamente, o que de certa forma dificulta a precisão do objeto de pesquisa da História da Educação. Na primeira metade do século XX, após o movimento escolanovista, outras ciências ganham notoriedade na explicação do fenômeno educacional, como a sociologia, psicologia e a biologia. Dessa forma a história da educação é vista com menor valor no processo de formação de professores, definida por alguns como de pouca “utilidade”. Os conteúdos definidos nos programas de História da Educação geralmente consideravam a História da Educação Geral. Segundo Lopes,


Por muito tempo, a História da Educação ensinada nos cursos de formação de professores era restrita à história Geral da Educação. Às vezes, no final do programa, se o professor tivesse tempo e disposição, podia incluir uma unidade sobre a História da Educação no Brasil. Somente na década de 1970 se inicia sistematicamente, nos cursos de Pedagogia, a introdução de uma disciplina específica que trata da história da educação brasileira. (2001, p. 33)

Sua apropriação pelos cursos de formação de professores, cria um espaço de reflexão e pesquisa, tanto sobre os conteúdos específicos quanto sobre o ensino desses conteúdos. Compreender como essa disciplina se configura e articula com a proposta de formação dos pedagogos, no caso particular do Curso de Pedagogia da UEL, e como sua proposta se materializa na relação ensino aprendizagem é o objetivo do projeto de pesquisa em ensino. Como reforço da afirmação da presença tradicional da disciplina no curso de pedagogia e como conseqüência, a importância do seu estudo como espaço de análise do trabalho que vem sendo realizado, tomamos como pressuposto as informações sobre a organização curricular do Curso de Pedagogia na UEL, desde a sua criaçãoii até a última atualização do projeto pedagógico ocorrida em 2009 com implantação em 2010.

No Brasil, o curso de Pedagogia é criado em 1939, a partir da herança da Escola Normal e dos cursos de Aperfeiçoamento anexos aos Institutos de Educação (BRZEZINSKI, 1996; SILVA, 1999). Podemos considerar que a organização curricular dos cursos de Pedagogia tenha sido normatizada, em 1939, a partir da experiência da USP, associada à da Universidade do Distrito Federal e da Universidade de Minas Gerais. Tendo iniciado como um bacharelado, apenas em 1943 é estabelecida a obrigatoriedade da licenciatura para o exercício do magistério.

Em Londrina, o curso de licenciatura em Pedagogia é criado em 1960, com início de atividades em 1962, juntamente com o “curso” de Didática (atuais Licenciaturas). O Curso de Didática permaneceu apenas nos anos de 1962 e 1963, sendo encerrado a partir de 1964 como curso autônomo. De acordo com a orientação do Conselho Estadual de Educação (Parecer n° 292), as matérias pedagógicas passaram a ser ofertadas pelo Curso de Pedagogia.

Os dados coletados indicam que a criação do Curso de Pedagogia na UEL, ocorreu por solicitação dos professores da escola normal aqui existente, no Colégio Mãe de Deus e na Escola Normal de Londrina. O Curso Normal de Londrina oferecia os dois níveis de formação de professores decorrentes da Lei Orgânica de Ensino de 1946: Curso Normal Ginasial e Curso Normal Colegial. O Instituto de Educação que poderia oferecer Cursos de Aperfeiçoamento só foi criado em 1963, época da abertura do curso de Pedagogia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Londrina.

Se, nos cursos de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil a composição curricular da Pedagogia tendeu a ser pautada tanto pelas disciplinas componentes da Escola Normal quanto dos Cursos de Aperfeiçoamento, no caso de Londrina a inspiração para essa composição inicial é claramente a grade curricular dos cursos de Pedagogia existentes em outros centros.

Várias alterações vão ocorrendo em todos os cursos de Pedagogia no Brasil desde o período de sua criação até os dias atuais, indicando um percurso pleno de contradições, com conquistas e perdas, mas indicativo de um processo de construção de alternativas para a formação dos profissionais da educação, pedagogos.

Neste processo de reformulações, a primeira constatação em relação ao Curso de Pedagogia da UEL, diz respeito a existência de três períodos bem demarcados: de 1962 a 1973, identificamos uma formação única: licenciatura em pedagogia, sistema de matrícula seriado, em um curso de 4 anos. Nesse período é possível constatariii, que a disciplina de História da Educação estava presente na 2ª e 3ª série do Curso. A preservação dos programas de disciplinas desse período, como também do segundo período foi bastante precária. Foram preservados poucos programas, quando do levantamento de dados para o projeto “História da História da Educação” fizemos cópias dos programas que estavam armazenados em caixas. Segundo os funcionários da PROGRAD – Pró-Reitoria de Graduação aquele material seria digitalizado. A digitalização foi realizada a partir de 2005.

Desse período, conseguimos acesso a 7 programas da 2ª série e 7 programas da 3ª série. É possível constatar nesses programas uma variedade na composição dos conteúdos. Por exemplo, no ano 1963 programa da 2ª série inicia-se a discussão de uma história da pedagogia a partir da renascença até o século XX e um último item falando da educação brasileira. Essa opção talvez se explique por ser o primeiro ano de implantação da disciplina no Curso.

Nos anos de 1966, 1967, 1968 e 1969, os programas da 2ª série contemplavam os conteúdos da História da Educação primitiva à educação medieval. Os programas da 3ª série indicavam uma discussão do humanismo aos problemas da pedagogia atual, contando com um item da história da educação brasileira dividida nos períodos (colônia, Império, República, Período atual). De 1970 a 1972 os programas sofrem algumas pequenas alterações, como por exemplo, a inserção de um tópico de Educação Paranaense no programa de 1970.

Entre os anos de 1973 e 1992, encontramos a mudança para sistema de matrícula por disciplina (créditos) com a oferta de habilitações, já sob orientação da Reforma Universitária regulamentada pela Lei 5540/68. Nesse período encontramos registro da existência das disciplinas História da Educação I e História da Educação II. Tivemos acesso a programas dos anos de 1974, 1975, 1977 e 1981. A proposta estava organizada com os seguintes conteúdos: na História da Educação I, discussão da pedagogia clássica a pedagogia da reforma. Na História da Educação II, do Realismo Pedagógico a Pedagogia contemporânea. A ênfase é dada as teorias pedagógicas e aos principais pensadores dos diferentes períodos. Entendemos importante informar que na década de 1980, são poucos os documentos preservados no que respeita a organização pedagógica dos cursos, tanto que não encontramos programas da disciplina nesse período.

A partir de 1992 o sistema de matrícula volta a ser seriado e o curso passa a oferecer habilitações acopladas, ou seja, uma habilitação nuclear, que no caso da UEL foi a Habilitação para o Magistério das Matérias Pedagógicas no Ensino Médio. No final da segunda série do curso o aluno optaria por outra habilitação, as ofertadas na ocasião: Orientação Educacional, Supervisão Escolar, Magistério para a Educação Infantil e Magistério para as Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Nesse último período, o curso passou por três atualizações curriculares, mantendo a estrutura básica do sistema acadêmico, a saber, o sistema seriado retomado em 1992.

Nesse período, não foram consultados muitos programas, apesar da disponibilidade de acesso ter sido maior. Em função do tempo para o encerramento dos trabalhos do projeto “História da História da Educação em Londrina” mantivemos a atenção nos programas da década de 1990. Nas reformas implantadas em 2005 e 2007 a disciplinas sofrem alterações de carga horária e ementa, apresentaremos alguns comentários dessas mudanças pela experiência vivida e pelo relato que acompanhamos de professores que ministraram as aulas de História da Educação no período.

De 1992 a 2004 os programas e relatos indicam que os conteúdos de História da Educação eram tratados em duas disciplinas, a saber, História da Educação I e História da Educação II, ambas com 136 horas, respectivamente na 1ª e 2ª séries do curso.

Nos programas da década de 1990 é possível identificar que na 1ª série, eram trabalhados como conteúdos, a introdução a historiografia, iniciando os conteúdos da história da escola e da pedagogia da antiguidade grega a organização da escola pública no século XIX, e seu “transplante” (termo utilizado no programa) para o Brasil. Essa informação permite supor que se trabalhava a história da Educação Geral e História da Educação Brasileira pelo menos até o século XIX. Na 2ª série a indicação é de um trabalho centrado na educação brasileira a partir da implantação da República, tendo um enfoque bastante claro no aspecto político. Alguns relatos indicam que mesmo a ementa assumindo essa característica o que foi feito, foi uma divisão de conteúdos entre História da Educação Geral e História da Educação Brasileira. Ou seja, na experiência de sala de aula, trabalhava-se na 1ª série com conteúdos da História da Educação Geral – da antiguidade ao século XIX, e na 2ª série os conteúdos da História da Educação Brasileira da colônia ao século XX.

Na primeira atualização curricular ocorrida em 1997 com implantação em 1998, em que se agrega em apenas uma, as habilitações para o magistério da Educação Infantil e o Magistério para as Séries Iniciais do Ensino Fundamental, a estrutura das disciplinas História da Educação I e História da Educação II continua a mesma do período imediatamente anterior.

Uma segunda atualização ocorre em 2004 com implantação em 2005. Numa mobilização dos professores do Departamento de Educação, na tentativa de instauração de um trabalho coletivo, buscou-se reestruturar o curso numa composição curricular mais orgânica, que respondesse as diferentes funções desenvolvidas e exigidas ao pedagogo nos espaços da educação formal e não formal, articulando os conteúdos da docência e da gestão pedagógica desde a primeira série. Nessa atualização o curso manteve habilitações: um tronco comum que habilitava para o magistério das matérias pedagógicas e para as séries iniciais e ao final da terceira série o estudante optaria, ou pela habilitação magistério para a educação infantil ou pela habilitação que agregava os conteúdos da Supervisão Escolar e Orientação Educacional. A docência como base foi o elemento orientador dessa atualização curricular.

Nesse período a História da Educação continua sendo ofertada em duas disciplinas de 136 horas, uma na 1ª série e outra na 2ª série. Sendo recomposta a ementa, incorporando o que já se fazia na experiência de sala de aula. Ficam melhores definidos os conteúdos, assumindo como foco a instituição escolar e mantendo o trabalho com a História da Educação Geral da antiguidade ao século XIX na 1ª série. Na 2ª série os conteúdos privilegiavam a História da Educação Brasileira da Colônia ao século XX.

A terceira atualização se deu por força da implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia, sancionada em 2006. Essa atualização aconteceu mesmo sem a implementação total da reformulação anterior, iniciando a nova organização em 2007. Nela extinguiu-se as habilitações, construindo uma proposta de formação geral e comum a todos que ingressassem no curso. Nessa reformulação foi necessária uma recomposição das áreas de conhecimento. No caso da História da Educação é reafirmada a opção pelo trabalho a partir da organização escolar, com maior enfoque nessa organização a partir da modernidade contexto ocidental e brasileiro. Os conteúdos são distribuídos em três séries, 1ª, 2ª e 3ª, sofrendo uma redução de carga horária, três disciplinas de 68 horas. Em 2010 a carga horária geral do curso é expandida, em função da aplicação da normatização federal que impôs cumprimento dos sessenta minutos para hora aula. A medida hora aula na Universidade, era, antes dessa regulamentação, 50 minutos. Nesse processo de revisão as áreas recompuseram suas cargas horárias. A História da Educação passa a ser ofertada na 1ª, 2ª, 3ª e 5ª sériesiv.

Desde o início das atividades do Curso de Pedagogia da UEL 1962 até o presente momento, a disciplina de história da Educação compôs seu currículo, apresentando nesse percurso histórico algumas alterações de composição tanto de carga horária quanto de ementas.

É possível supor, pela sua permanência, que a história da educação foi assumida como importante componente curricular para a formação do pedagogo. Nóvoa (1999) ao expressar o que entende como contribuição da História da Educação para a formação de professores elenca quatro argumentos: primeiro, sendo a História da Educação forma de expressão do conhecimento histórico se constitui como meio efetivo para a compreensão dos problemas da educação e da escola na atualidade. A História da Educação é indispensável no que diz respeito à formação do que o autor chama de um “saudável ceticismo” frente a diversidade de idéias e propostas pedagógicas que circulam na atualidade. Conhecer a História da Educação possibilita aos professores a construção de uma identidade profissional, indispensável para o exercício docente. A dimensão histórica da educação, enquanto construção humana, permite ampliar o entendimento do papel profissional do professor e do significado da educação escolar nos seus diferentes momentos, permitindo a re-significação do trabalho do professor.



A consciência da contribuição da História da Educação para a formação dos profissionais da área implica entender sua especificidade a partir da compreensão do seu processo de constituição, primeiro como disciplina nos cursos de formação docente, como campo de investigação e também, espaço bastante novo de pesquisa, o ensino de história da educação. Saviani (2007) ao apresentar seu entendimento de como deveria ser estruturado os cursos de pedagogia, no contexto do pós diretrizes, reafirma o significado do estudo da história da educação na constituição da formação profissional do pedagogo.
[...] pelo caminho da história os vários elementos que, na atualidade, são considerados como necessários à formação do educador serão contemplados no seu nascimento e desenvolvimento, explicitando-se as condições e as razões que conduziram ao entendimento de sua necessidade para a formação do educador. Com esse desenho curricular as disciplinas do currículo de pedagogia ligadas à filosofia, história, sociologia, psicologia, estatística, política e gestão escolar, assim como à didática, à educação infantil e às várias metodologias das matérias do ensino fundamental etc., deixariam de ser estudadas como algo estático e esquemático tornando-se algo vivo, em íntima articulação com a história da escola, isto é, do próprio objeto de que se ocupam. [...] de um curso assim estruturado espera-se que irá formar pedagogos com uma aguda consciência da realidade onde vão atuar, com uma adequada fundamentação teórica que lhes permitirá uma ação coerente e com uma satisfatória instrumentação técnica que lhes possibilitará uma ação eficaz. (SAVIANI, 2007, p.130)

Acatamos a afirmação do professor Saviani como uma provocaçãov, no sentido, primeiro de reconsideração do princípio que orienta a formação do pedagogo e segundo, do papel assumido pela área história da educação na formação desse pedagogo. O Curso de Pedagogia da UEL não está estruturado a partir do eixo história da instituição escolar como indicado por Saviani, mas apresenta desde o início de suas atividades os conteúdos de história da educação como elementos curriculares e mais precisamente a partir das duas últimas reformulações, tomou como norte de seu trabalho a história da instituição escolar da modernidade ao dias atuais, no contexto europeu e brasileiro.

A proposta de trabalho com o projeto de ensino iniciada em meados de 2010, é a criação de um espaço de reflexão e sistematização sobre o papel da história da educação na formação do pedagogo. Estão presentes nessa ação vários esforços: 1) o de compreender mais elaboradamente o sentido assumido pelos conteúdos de história da educação na formação do pedagogo: como isso vem sendo desenvolvido pelos professores? Qual a articulação proposta série a série para a área de história da educação? Qual a articulação dessa proposta com o objetivo geral do projeto pedagógico do curso? 2) Qual a medida de apreensão e significação dos conhecimentos de história da educação pelos alunos, considerando a representação construída por eles sobre as exigências na formação do pedagogo? Qual a compreensão da importância do estudo da história da educação para a sua formação?


O trabalho no projeto está sendo mediado pela orientação da pesquisa participante, “alternativa epistemológica na qual pesquisadores e pesquisados seriam sujeitos ativos na produção do conhecimento” (VEIGA apud NORONHA, 2006, p. 135). Nossas fontes serão os protagonistas (professores e alunos) e os documentos (registros institucionais, programas de disciplinas, documentos oficiais, relatórios de pesquisa e os projetos pedagógicos do Curso de Pedagogia da UEL). Faremos uso, para levantando dos dados, de alguns procedimentos e instrumentos tais como, análise documental, questionários, depoimentos, e nossos registros, professores e alunos em diário de campo.

Assim sendo, nossa pergunta no projeto é: “Como se caracteriza o ensino de história da educação no Curso de Pedagogia da UEL?” Nossos objetivos são: Compreender o ensino de história da educação; Analisar os conteúdos, objetivos, procedimentos e materiais didáticos próprios da disciplina História da Educação. Avaliar a composição de conteúdos e metodologia/procedimentos pensados para a disciplina história da educação no curso de pedagogia / UEL; Compreender a partir das representações dos alunos o significado e importância atribuídos aos conteúdos de História da Educação na formação do Pedagogo; Selecionar e categorizar as fontes utilizadas na pesquisa como parte do acervo do Laboratório de Ensino e Pesquisa em História da Educação - LEPHE.


Nossa preocupação no projeto de ensino, é de tentar compreender e sistematizar aquilo que mais próximo de nós está, a prática educativa desenvolvida na disciplina de história da educação. No nosso entendimento, por aproximação e distanciamento essa reflexão poderá contribuir na caracterização dos impasses e conquistas no processo de formação dos pedagogos. Como também na revisão da nossa própria prática.

Clarice Nunes ao escrever sobre sua experiência como professora de história da Educação apresenta no início de seu texto a pergunta: o que faz um professor quando ensina? A essa questão ela responde,


Convida alguém a aprender algo sobre alguma coisa a partir do repertório que ele mesmo forjou de conteúdos, abordagens, ferramentas, materiais, técnicas, enfim de tudo que faz parte da sua cultura profissional, dos seus modos de fazer. (NUNES, 2003, p117)
Essa caracterização permite elencar alguns aspectos que constituem, formam a prática educativa, a ação pedagógica desenvolvida na relação professores, alunos e conhecimento. Na ação de ensinar nós professores, apresentamos aos nossos alunos o repertório que possuímos, tanto no que diz respeito aos conhecimentos quanto à forma de organizá-los e apresentá-los no espaço da sala de aula. Aqui nos parece que se apresenta o primeiro aspecto que deve ser observado quando se pensa o ensino, a saber, a formação continuada dos professores e o investimento na pesquisa como processo de construção do conhecimento, base para o ensino.

Quanto daquilo que pesquisamos está em nossas “aulas”? A análise dos programas da disciplina mostrou pouca alteração na proposição dos conteúdos, e na organização temporal em que ele é apresentado. Nesse sentido um dos desafios identificados nos parece ser aproximar os resultados das pesquisas atualmente desenvolvidas com o espaço de sala de aula, não apenas enquanto novos conteúdos, mas também como atitude e disposição para formação. Ou seja, o estudante não está numa relação passiva frente ao conhecimento, ele deve instalar também um processo de pesquisa, aqui o estudo entendido como pesquisa.

Ensinamos o que sabemos, o que construímos das leituras e pesquisas que fizemos, ao ensinar mobilizamos conhecimentos e criamos estratégias para que os alunos se aproximem desses conteúdos e mobilizem também recursos de apropriação e reelaboração, construindo a partir daí seus próprios conhecimentos.

Compreender esse ofício na trama da diversidade do conhecimento trazido pelos alunos que compõem a sala de aula, é o desafio que estamos enfrentando no projeto. Não é uma experiência rara perceber nos nossos alunos um certo espanto e dificuldade de compreensão do porquê estudar História da Educação.

Essa é a primeira reflexão que desenvolvemos com eles na 1ª série. Mas o interessante, e que deve ser também objeto de nossa atenção, é que esta dificuldade está posta no conjunto das dificuldades em perceber o que é o Curso de Pedagogia. O que é ser pedagogo no contexto atual? E na busca de resposta a esse questionamento qual a contribuição da História da Educação na formação desse profissional.

Os alunos expressaram nas conversas que tivemos em sala a dificuldade em compreender os conteúdos de História da Educação. As vezes a frágil compreensão do objetivo do curso dificulta a significação dos conteúdos da disciplina. As vezes a fragilidade está, na forma como propomos e conduzimos o trabalho com os conteúdos e, na percepção ainda não suficientemente elaborada por nós da mobilização que os alunos estão fazendo, ou não, para a apreensão daqueles conteúdos.

Identificamos aqui um desafio de dupla ordem: 1º a partir do estabelecimento do objetivo da disciplina na série, quais os melhores textos para esse primeiro contato com os conteúdos da História da Educação? 2º como conduzir o trabalho para que se consiga mobilizar a disposição dos alunos para a aproximação com o conteúdo? Verificamos pela experiência, principalmente com as reuniões de trabalho desenvolvidas no projeto de ensino, que nossas percepções da trama pedagógica em sala de aula são muito diversas. Os alunos são afetadosvi pelo enredo por nós produzido. Essa afetação assume diferentes características positivas ou não.

Olhar com atenção a percepção e apreensão por parte dos alunos, dos conteúdos por nós orientado, pode nos permitir olhar e ressignificar o nosso trabalho na tentativa de alcançar os objetivos estabelecidos. Esse é nosso desafio.

Nossa preocupação em entender o ensino de história da educação se ancora justamente na necessidade de melhor equacionar essa relação pedagógica, tendo em vista a formação do Pedagogo. Pretendemos construir pelo exercício de análise e reelaboração uma prática pedagógica significativa. Retomemos o que Nunes entende por “prática significativa”,
Diante da sua “platéia cativa” o que faz um professor de história da educação? O que afeta o que ele faz? Como faz? A palavra fazer parece simples, mas não dá conta das múltiplas possibilidades do que se faz e de como se faz, nem da complexidade da relação entre ambos os aspectos. O ensino da história da educação é um campo de dissenso por conta dos múltiplos paradigmas que abraçamos com relação à educação e às opções que defendemos com relação às teorias da história. É um campo onde se toma partido e, por isso mesmo, exige a apresentação de alternativas diferentes das nossas próprias para que os alunos possam confrontá-las. No entanto, qualquer que seja nosso compromisso político e ideológico, o fato é o de que só promovemos a aprendizagem a partir de práticas significativas. Mas o que é uma prática significativa? É aquela que desinstala, que reorganiza nossa estrutura de conhecimento e nos mobiliza para a ação. É aquela que repercute interiormente do ponto de vista dos afetos e da cognição. (NUNES, 2003, p. 120)
Assumimos no Projeto de Pesquisa em Ensino esse desafio, construir um espaço em que nossas ações profissionais, nossa prática pedagógica, sejam constante objeto de reflexão.
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i A equipe de trabalho do Projeto de Pesquisa em Ensino é composta pelos professores: Maria Luiza Macedo Abbud, Marta Regina Gimenez Favaro, Simone Burioli Ivashita, Thais Bento Faria e Celso Luiz Junior. E pelos alunos do Curso de Graduação em Pedagogia: Janilda do Socorro A. Barros, Juliana Caroline da Silva, Mara Cristina Rodrigues Caovilla, Naiara Franciele Bugatti, Ravena Fornazieri Ferri, Silvia Singh Costa, Valéria Regina Santos de Jesus e Vilma Paula Teles.

ii Os dados apresentados são resultado do trabalho desenvolvido no Projeto de Pesquisa sobre as Instituições Educativas no Paraná: O Curso de Pedagogia na UEL de 1962 – 2005 sob a coordenação da profa Dra Maria Luiza Macedo Abbud e Colaboração da profa Marta Regina Gimenez Favaro

iii As informações relativas a organização da disciplina de História da Educação no Curso de Pedagogia na UEL foram obtidas dos resultados da pesquisa realizada no âmbito do projeto de pesquisa “História da História da Educação em Londrina” registrado na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UEL sob o número 03710. Período de realização 2004 a 2007.

iv O Curso de Pedagogia após o ajuste implementado em 2010 fica organizado com 4 anos e meio, ou seja 9 semestres.

v Entendemos aqui o termo provocação como ato ou processo de tentar causar uma reação, estimulação, incitamento, desafio. (HOUAISS, 2009, p. 1569)

vi Assumimos o termo afetar com o significado de “[...] impressionar afetivamente; comover; sensibilizar; interessar; atingir” (HOUAISS, 2009, p. 60)


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