O ensino de história e a construçÃo de uma identidade regional: memória e patrimônio tombado na lapa/PR



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O ENSINO DE HISTÓRIA E A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE REGIONAL: MEMÓRIA E PATRIMÔNIO TOMBADO NA LAPA/PR
Maria Julieta Weber Cordova, *
A construção de identidades regionais está indissociavelmente ligada ao processo em que se implantou o sistema federativo nacional. Com a república e a ascensão do regime federativo, afirma-se a união nacional, permitindo a descentralização administrativa e a afirmação econômica e territorial. O amparo legal do federalismo garantiu aos republicanos o impedimento de ideais separatistas, mas acabou por estimular a construção de identidades regionais, como no Rio Grande do Sul o gauchismo, em Minas Gerais a mineiridade, em São Paulo o bandeirantismo e no Paraná, o paranismo. O individualismo político que já se tornara um marco à época final do império, irá caracterizar a situação republicana no país ao disseminar diferenças regionais na construção destas identidades culturais (PEREIRA, 1997).

A pesquisa sobre o “ensino de história e a construção de uma identidade paranaense: memória e patrimônio tombado na Lapa”, parte do princípio de que a interação do ensino de história com a memória do patrimônio tombado está estreitamente ligada à determinação de uma produção historiográfica. No caso do paranismo, tal conjunto constitui-se pela identificação de características essencialmente regionais, evidenciando a construção de uma identidade paranaense. A investigação do processo de produção historiográfica paranista pode contribuir para o entendimento do ensino de história local e regional e sua atuação no aprendizado dos significados da memória do patrimônio tombado. Pretende-se questionar ainda, qual é o momento da história que se quer perpetuar com um tombamento ?

Assim, o cerne da pesquisa é a relação do processo de produção historiográfica paranista com o ensino de história local e regional, em especial acerca da memória do Cerco da Lapa na Revolução Federalista (1893-1895), cultuada como marco historiográfico pela memória do patrimônio tombado. A produção historiográfica paranista atribuiu ao Cerco da Lapa como um período de resistência notória na Revolução Federalista (1893-1895), e que possibilitou a vitória das forças republicanas de Floriano Peixoto, contra os maragatos, que se constituíam em sua maioria pela antiga elite do Partido Liberal do Império.

Se a Lapa constitui-se em uma das cidades paranaenses que mais preserva seu patrimônio cultural, muito se deve à memória deste episódio do Cerco da Lapa. Desta forma, a escolha do local a ser pesquisado, deu-se por entender que a Lapa reúne em si questionamentos sobre a memória do patrimônio tombado: a memória que se cultua como resultante do Cerco da Lapa e a que se pergunta sobre os significados dos “lugares da memória” (NORA, 1993).

A memória cultuada do Cerco da Lapa foi vitalizada pela veiculação da produção historiográfica paranista, que visava a construção de uma identidade regional por um discurso histórico de busca a um “ponto zero” (HOBSBAWN, 1984), ou seja, de uma identificação comum que unisse os paranaenses a um mesmo passado.

Neste ponto, evidencia-se a utilização da ciência positivista na história da educação, formadora do princípio da neutralidade e imbuída de conceitos sobre a ordem estabelecida: “...o positivismo surge, em fins do século XVIII- princípio do século XIX, como uma utopia crítica-revolucionária da burguesia antiabsolutista, para tornar-se, no decorrer do século XIX, até os nossos dias, uma ideologia conservadora identificada com a ordem (industrial/burguesa) estabelecida” (LÖWY, 2000, p. 18).

Ao se procurar apreender a trajetória do positivismo no processo de produção de conhecimento, enquanto fomentador da ordem e progresso, compreende-se as manifestações destes princípios nos entrelaçamentos de poder; estes definidores do que deve ser aprendido e do que dever ser ensinado, ou seja, o papel da memória do patrimônio tombado, enquanto repassadora cultural da ordem estabelecida e de critérios identitários já previamente adotados.

Sendo assim, o estudo da memória do patrimônio tombado enquanto formador de uma identidade regional, no caso o paranismo, fundamenta-se essencialmente por princípios positivistas, especialmente quando procuram interpretar acontecimentos econômicos e sociais pelo viés de um determinismo geográfico. Os paranistas idealizaram uma identidade regional, construindo uma história regional a fim de “inventar tradições” (HOBSBAWN, 1984) ligadas às características naturais e lendas primitivas, de modo que fosse criado nos habitantes do Paraná um sentimento de pertencimento à terra. Enfim, o movimento paranista objetivou criar um passado idílico para um futuro promissor (PEREIRA, 1997). Bento Munhoz da Rocha Neto, político atuante e um dos intelectuais paranistas, assim define a significação do homem paranaense e sua relação com o meio:

Temos assim uma significação geográfica incontestável como incontestável é a nossa dignificação humana daí conseqüente.

Se a nossa história foi a paulista, o paranaense já provou no alvorecer da República a têmpera férrea de sua fibra e a sua compreensão elevada ao dever, num fato de brilho inolvidável.

(ROCHA NETO, 1995)
Desta forma, a sociedade seria epistemologicamente assimilada pela natureza – ‘naturalismo positivista’: “As ciências da sociedade, assim como as da natureza, devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos, de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando previamente todas as prenoções e preconceitos” (LÖWY, p. 17).

Certamente que a neutralidade defendida pelo positivismo, acaba por negar ou ignorar “o condicionamento histórico-social do conhecimento” (LÖWY, p. 18). Enquanto que a questão da objetividade do conhecimento histórico não é veiculado pelo historicismo conservador (fins séc.XVIII- início séc.XIX), pela sua própria função romântica, monárquica e reacionária. Já o historicismo relativista (fins séc.XIX), ao questionar “todas as instituições sociais e formas de pensamento como historicamente relativas” (LÖWY, p. 70), acaba por negar também a expressão burguesa na ciência: fomentadora de produções legitimadoras de conhecimento.

Desta forma, a produção do conhecimento paranista, está intrinsecamente ligada às visões positivistas e historicistas, enquanto mantenedora da ordem político-social e exaltadora dos grandes feitos e dos grandes vultos da história, privilegiando portanto tais formas de representação cultural em detrimento de outras. Entretanto, há que se distinguir a história tradicional apoiada na argumentação erudita e assimilada pelos historicistas, da apoiada no positivismo de August Comte. Este último, entendia a história tradicional como apegada a “insignificantes detalhes estudados infantilmente pela curiosidade irracional de compiladores cegos de anedotas inúteis”, defendendo portanto “uma história sem nomes” (BURKE, 1991, p. 20) .

Ao se investigar a relação do positivismo no processo de produção historiográfica paranista, juntamente com o ensino de história local e regional, percebe-se que a ideologia paranista, alicerçou-se pelos princípios da ciência neutra, encontrando sustentação na elaboração dos programas e currículos escolares, especialmente os dirigidos ao ensino de história no nível fundamental. É neste nível de ensino que o referencial teórico paranista foi divulgado e transmitido como conhecimento produzido, delineando a história a ser ensinada nas escolas (NUNES, 1996) e estendendo tal mentalidade à memória patrimonial preservada.

Assim, é fundamental que se perceba o paranismo como um processo de produção historiográfica, que objetivou a construção de uma identidade paranaense, apoiada por produções culturais, “com forte cunho positivista e historicista, produzindo os primeiros heróis do Estado". Se a república recriou seus heróis, assim também o fará o movimento paranista. No entanto, este projetou para o próprio habitante do Paraná a possibilidade de se tornar um herói paranista, pensando em termos de coletividade e agindo como o próprio semeador do futuro (PEREIRA, 1997, p. 17).

Nesse sentido, Déa Fenelon ressalta que o paradigma central de uma pesquisa em história é o de “construir histórias que não sejam apenas a história de vilões e heróis” (1989, p. 120), ou seja, aquele tipo de história que privilegia meramente o aspecto político.

Investigando sobre o processo de produção historiográfica paranista e sua relação com o ensino de história local e regional, percebe-se o significado da memória do patrimônio tombado. Afinal, a produção historiográfica paranista como conhecimento produzido, traduziu-se no ensino de história por símbolos, imagens e pela construção de um discurso histórico de exaltação à identidade regional.

Os estudos de NORA (1993), que tratam dos aspectos de revitalização da memória, de representação da história e das diferentes formas de relação entre memória e história, constituem-se em suportes teóricos fundamentais na busca de “traços e vestígios da memória”, possibilitando a reconstrução histórica e cultural sobre os “lugares da memória” (NORA, 1993).

Mas a identificação da memória do patrimônio tombado na Lapa, com os paradigmas positivistas do paranismo, permite que a história local e regional identifique-se com outros “vestígios da memória” ? Ao se “dobrar a esquina e descer a rua” (SAMUEL, 1990), é possível identificar outra história além da que foi pré-definida pelo paranismo?

Ao se questionar sobre os monumentos tombados na Lapa e os significados do seu processo de fundamentação de valores, faz-se necessário o estudo de história local e regional. Neste ponto, a busca pelo método científico adequado para a argumentação do objeto de pesquisa, definirá não só as estratégias do processo de construção do conhecimento (DEMO, 1994), mas a própria concepção de ciência enquanto construção teórica do conhecimento. Conforme POOLI, para “encontrar o método adequado, é necessário primeiro uma construção argumentativa do objeto”, sendo a ciência ideal aquela “construída para dar conta dos problemas que nos são colocados pela sociedade” (1998, p. 106).

Desta forma, Raphael Samuel, em Documentação - História local e história oral, apresenta a diversidade de documentos, fontes e a proximidade do pesquisador ao se trabalhar com história local, ressaltando inclusive a importância do depoimento oral nos estudos de história local. Assim analisa o conhecimento acerca de história local:
A História Local requer um tipo de conhecimento diferente daquele focalizado no alto nível de desenvolvimento nacional e dá ao pesquisador uma idéia muito mais imediata do passado. Ele a encontra dobrando a esquina e descendo a rua. Ele pode ouvir seus ecos no mercado, ler o seu grafite nas paredes, seguir suas pegadas nos campo. (...) Os materiais básicos do processo histórico devem ser constituídos de quaisquer materiais que estejam à disposição no local.

(SAMUEL, 1990, p. 220)


A memória do patrimônio tombado na Lapa aponta para uma versão heróica de valorização da república positivista quando revela sua importância preservacionista. Mais uma vez, uma história erudita estrutura-se pela história dos grandes vultos, em contraponto à uma história dos costumes. Contudo, a memória de um patrimônio tombado ainda pode possibilitar uma outra história: da lembrança e do cotidiano, do anseio ao novo e da identificação ao antigo; uma história que certamente deve ser ensinada nas escolas.

NUNES (1996) estuda sobre as características elitistas e conservadoras do ensino de história definidas por produções historiográficas. A autora defende a expressão “concepção de mundo” pelo sentido gramisciano como “um conjunto de conceitos que constrói a ideologia do professor, numa relação dialética determinada-determinante da práxis pedagógica” ( 1996, p. 11). A formação da cidadania e a construção dos conceitos adquiridos pelo professor são fatores diretamente ligados às características das produções de ensino. Até que ponto a produção historiográfica paranista interferiu ideologicamente no ensino de história local e regional ?

Enfim, ao se estudar sobre o processo de produção historiográfica paranista e sua relação com o ensino de história local, regional e com a memória do patrimônio tombado na Lapa, objetivou-se refletir sobre como o ensino de história pode contribuir para a formação de sujeitos da construção histórico-social do conhecimento.

Sendo assim, a interação de uma produção historiográfica regional com o ensino de história, evidenciada pela memória do patrimônio tombado, constituem-se em estudos que fazem parte de uma mesmo processo educativo: a formação da cidadania. Não há como dissociar o ensino de história da produção historiográfica que o sustenta, assim como da seleção dos “lugares da memória” e do seu significado como memória preservada pela legitimação de patrimônio tombado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BURKE, Peter. A Escola dos Annales. A Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Unesp, 1991.

CARNEIRO, David. O Paraná e a Revolução Federalista. Secretaria da Cultura e

do Esporte: Indústria Gráfica Gonçalves. Curitiba: 1982, 2 ed.

DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994, p. 09-53.

HOBSBAWN, Eric; Ranger, Terence (org.). Invenção das tradições. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1984.

LÖWY, Michael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen.

São Paulo: Cortez, 2000, p. 15-33.

NORA, Pierre. Entre memória e história. A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 93.

NUNES, Silma do Carmo. Concepções de mundo no ensino de história. Campinas: Papirus, 1996.

PEREIRA, Luís Fernando Lopes. Paranismo: o Paraná inventado: cultura e imaginário no Paraná da I República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997.

POOLI, J. P. Decifra-me ou te devoro: a excelência do objeto pela construção do argumento. Porto Alegre: Educação e Realidade, v. 23, n. 2, 1998, p. 95-108.

ROCHA NETO, Bento Munhoz da. O Paraná, Ensaios. Curitiba: Coleção Farol do Saber, 1995.

SAMUEL, Raphael. História local e história oral. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol. 19, set. 89/fev. 90.




* Mestranda em Educação – Universidade Estadual de Ponta Grossa - Paraná


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