O ensino de História local como estratégia de aprendizagem histórica Flávio Batista dos Santos (uel) Introdução



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O ensino de História local como estratégia de aprendizagem histórica

Flávio Batista dos Santos (UEL)



Introdução

Este artigo é parte de uma pesquisa em curso desenvolvida no Programa de Mestrado em Educação, da Universidade Estadual de Londrina, voltada à análise no campo da Educação Histórica sobre o ensino da história local como proposta de aprendizagem histórica. Tendo como suporte teórico os estudos de Jorn Rusen (2001, 2012), Isabel Barca (2011), Maria Auxiliadora Schmidt (2008) pretende-se investigar a forma de desenvolvimento do ensino de história, considerando a percepção, imaginação e memória dos sujeitos envolvidos na pesquisa, buscando compreender e perceber a utilidade da aula de História, bem como esta se relaciona com a vida de cada indivíduo.

Os sujeitos da pesquisa são alunos do 9º ano do Ensino Fundamental do Colégio Nossa Senhora das Neves, situado no centro de Ibaiti – PR. Os alunos foram submetidos a questionários de caráter sócio-econômico-cultural, sobre o ensino de história na escola e produção de narrativas, referentes aos conhecimentos sobre o Brasil e seus saberes sobre o município. A instituição dedica-se a Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio, sendo uma Associação Beneficente Educacional controlada por uma ordem religiosa católica.

O presente trabalho constitui-se em um estudo com alunos do ensino fundamental, anos finais, objetivando responder a uma questão importante dentro do ensino de história relacionado à relevância e a significância histórica nos conteúdos trabalhados pelos professores para a vida prática desses estudantes. Nesse sentido, analisaremos como a histórica local pode influenciar na formação de uma consciência histórica pautada numa orientação temporal que sustente uma interpretação do seu cotidiano. Neste caso, entendemos a consciência histórica como “a suma das operações mentais com as quais os homens interpretam sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo” (RUSEN, 2001, p. 57).

A opção pelo tema leva em conta as limitações que o ensino de história local proporciona aos professores dos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, tendo em vista que os materiais sejam eles livros didáticos ou outros meios utilizados pelo professor não dão conta do assunto, criando, nesse sentido, um vácuo no que tange o estudo das histórias locais. O trabalho com história local é vivenciado nas escolas brasileiras durante os anos iniciais do ensino fundamental. Nos anos finais e no ensino médio essa prática está condicionada a trabalhos isolados de um ou outro professor, mesmo que nos documentos oficiais e legislações especificas, caso do estado do Paraná, a história local tem que obrigatoriamente ser desenvolvido em sala de aula.

Partindo desse contexto, nosso intuito é observar até que ponto a história local é importante para os alunos desenvolver conceitos de mudança e permanência no tempo, tendo como foco uma abordagem qualitativa de análise, a partir de questionários e produção de narrativas respondidos e produzidas por alunos do ensino fundamental.



Conduzimos nossa pesquisa buscando responder as seguintes questões: abordar a história local possibilita a construção do conhecimento histórico escolar? Em que medida o trabalho com história local se concretiza na prática, rompendo com os limites do localismo e a generalização globalizante que refuta as particularidades e as especificidades do local?

A opção por compreender o ensino de história na ótica do aluno se justifica à medida que ele é o principal componente no processo de aprendizagem e a sua construção do pensamento histórico passaria pela sua empatia pelo tema abordado.
História local como estratégia de aprendizagem histórica

Vivemos na contemporaneidade uma situação paradoxal, pois ao mesmo tempo em que há uma tendência homogeneizadora em atitudes e costumes, ou seja, uma cultura construída de modo global, onde as fronteiras dos Estados Nacionais não são mais barreiras para incorporar determinados padrões perceptíveis nos mais diversos locais, observa-se o crescimento de particularismos de grupos que pretendem ver suas reivindicações serem aceitas no dia a dia. Para isso basta verificar a luta de minorias, de grupos distintos na busca de direitos, mesmo que isso cause contestações em parcelas amplas da sociedade, como exemplo, podemos citar os movimentos negro, feminista, gay, além de diversas manifestações culturais locais, ligadas à tradição cultural que lutam em permanecer vivas no contexto de massificação global da cultura.

O local aqui expressado refere-se ao espaço geográfico, cujos laços sociais, econômicos, de parentesco e políticos se dão de modo significativo direto ou indireto, o qual influencia na sociabilidade entre eles. Esse espaço envolve, portanto, o município e suas adjacências, tendo como limite a unidade federativa denominada de estado.

O interesse pela história local não é um tema novo. Muitos pesquisadores já desenvolveram trabalhos nessa área.

A abordagem sobre história local, no que se refere ao ensino de História foi alvo de grande debate entre historiadores no Brasil, que valorizaram esta abordagem por possibilitar novas visões sobre o processo de aprendizado da História e, a influência do meio em que o aluno e a escola estão inseridos.

Em nosso país, o tema de história local, já foi proposto pelo menos há duas décadas, com diferentes formas de abordagem, sendo que nas décadas de 1970 e 1980, as propostas curriculares foram organizadas em círculos concêntricos, com abordagem dos estudos sociais partindo da realidade mais próxima do aluno. Entre as décadas de 1980 e 1990, predominou-se a histórica temática, sendo a história local colocada como estratégia pedagógica, para garantir o domínio do conhecimento histórico (GERMINARI, BUCZENKO, 2012, p. 128).
Defendemos em nosso trabalho um modelo de ensino de história que contemple as particularidades dos próprios estudantes como forma de compreensão do passado, presente e as perspectivas de futuro, mas sem desvincular essa relação local dos acontecimentos globais.

Neste sentido, a história local é entendida como uma abordagem que vincula as particularidades do lugar e suas relações e conexões com outros lugares, num processo contínuo de interrelação entre os sujeitos e o objeto de estudo nas suas múltiplas especificidades, identificando a partir do local as diferentes culturas existentes. Nos escritos de Samuel (1990, p. 220) observa-se que:

A história local requer um tipo de conhecimento diferente daquele focalizado no alto nível de desenvolvimento nacional e dá ao pesquisador uma ideia muito mais imediata do passado. Ele a encontra dobrando a esquina e descendo a rua. Ele pode ouvir os seus ecos no mercado, ler o seu grafite nas paredes, seguir suas pegadas nos campos. As categorias abstratas de classe social, ao invés de serem pressupostas, têm de ser traduzidas em diferenças ocupacionais e trajetórias devidas individuais; o impacto da mudança tem de ser medido por suas consequências para certos domicílios. Os materiais básicos do processo histórico devem ser constituídos de quaisquer materiais que estejam à disposição no local ou a estrutura não se manterá.
A história local demanda uma série de ações teórico-metodológicas no seu tratamento, pois muitas vezes o seu estudo se dá com o vivenciado, ou seja, a aproximação efetiva com os indivíduos, objeto de estudo, torna-se a um estudo onde há um apego afetivo maior, tornando-a dessa maneira um fator de motivação para a aprendizagem. Porém, o trabalho em si não pode eximir-se das relações com o nacional ou geral, pois, em muitas situações, os fatos locais não se explicam em si mesmo, tendo a necessidade de uma relação com dimensões mais amplas de análise histórica.

O local na perspectiva aqui abordada é vista como um espaço de identidades e facilita as relações e o entendimento num mundo cada vez mais global. Assim, é vista como uma estratégia de ensino que possibilita uma inserção dos estudantes num processo de conquistas de identidade, contribuindo para uma melhor percepção de sua existência como ser social e analista dos acontecimentos cotidianos, mas também aprimorando novas leituras de mundo.

Ao enfatizar a história local como um meio metodológico que visa dar maior significado ao ensino de história, nossa intenção é a superação de uma aprendizagem voltada à memorização, desarticulada e sem relação com a realidade dos estudantes, ou seja, um estudo passivo, constituídos por feitos ligados a personagens ilustres, excluindo ou secundarizando aqueles que não apresentaram algum destaque no cenário nacional ou global. Nesse sentido, a possibilidade de um recorte histórico, associado a contextos mais amplos integrariam o conjunto de saberes que seriam apropriados pelos alunos. Desta forma,

O trabalho com a história local no ensino da História facilita, também, a construção de problematizações, a apreensão de várias histórias lidas com base em distintos sujeitos da história, bem como de histórias que foram silenciadas, isto é, que não foram institucionalizadas sob forma de conhecimento histórico, ademais, esse trabalho pode favorecer a recuperação de experiências individuais e coletivas do aluno, fazendo-o vê-las como constitutivas de uma realidade histórica mais ampla produzindo um conhecimento que, ao ser analisado e trabalhado, contribui para a construção de consciência histórica (SCHMIDT, CAINELLI, 2004, p. 114.


O estudo desenvolvido se volta para a incorporação de outros elementos presentes no cotidiano dos estudantes, como uma praça, uma rua, o contato com pessoas comuns, relacionando esses elementos a olhares interpretativos da realidade a partir de eventos do passado, organizando, dessa forma, a mudança ou permanência temporal, ou seja, desenvolvendo um pensamento histórico tendo como origem a própria localidade.

A relação existente entre o estudante e o fato, por consequência da proximidade, torna o ensino de história local como um fator de relevância significativa no que diz respeito ao ensino da disciplina de história. No entanto, cabe frisar que não se pretende por ora dessa proposta fragmentar o ensino de história, isolando-o do contexto geral da história. Pelo contrário, o que se busca é articular o ensino do local, com o nacional e o global. Em tese a proposta, caracterizada pelas particularidades, mostrará uma diversidade na constituição da história nacional, rompendo com uma história voltada apenas para o ato político ou econômico, como é o viés de estudos da história do Brasil.

As condições encontradas nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio para o ensino de história é desfavorável para o ensino da história local, uma vez que os materiais utilizados por professores, em sua grande maioria, tem no livro didático ou apostilas de escolas particulares uma ênfase na história nacional e geral. Isso nos leva a pensar que essa dificuldade encontrada nos materiais dificulta sua disseminação nesses níveis de ensino, reduzindo o ensino do local a ações esporádicas e particulares por parte dos professores. Em várias localidades, incluindo o Paraná, o ensino da história local é contemplado de forma legal, com determinações que resultam em obrigatoriedade dessa prática. Nas Diretrizes Curriculares da Educação Básica – História, da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, a história local é abordada como:

O estudo das histórias locais é uma opção metodológica que enriquece e inova a relação de conteúdos a serem trabalhados, além de promover a busca de produções historiográficas diversas. Segundo o historiador italiano Ivo Mattozzi (1998, p. 40), histórias locais permitem a investigação da região ou dos lugares onde os alunos vivem, mas também das histórias de outras regiões ou cidades. Esse historiador aponta alguns caminhos para o estudo das histórias locais:

- a importância da dimensão local na construção do conhecimento do passado e que há fenômenos que devem ser analisados em uma pequena escala;

- a relação entre os fatos de dimensão local e os de dimensão nacional, continental ou mundial;

- o estudo e a compressão das histórias locais do outro (como as historias dos indígenas, dos latino-americanos, dos africanos e dos povos do oriente);

- o respeito pelo patrimônio que testemunha o passado local;

- os termos das questões relativas à administração e gestão do território em que vivem;

- a função e o valor histórico-social das instituições incumbidas da conservação do patrimônio e do estudo do passado;

- a utilização e divulgação pública de narrativas das histórias locais. (PARANÁ, 2008, p. 71)
No ensino médio, o interesse pela história local por parte dos estudantes se dá exatamente pela obrigatoriedade de um percentual de questões relativas à história do Paraná estar presente nos vestibulares das instituições públicas do estado, conforme estabelecido pela Lei nº 13439/02:

Art. 1º. O processo seletivo para ingresso em cursos de educação superior de instituições de ensino mantidas pelo Estado do Paraná, exigirá dos candidatos conhecimento sobre história, geografia e atualidades do Estado do Paraná nas disciplinas de História e Geografia.

Parágrafo único. As questões sobre História e Geografia do Paraná deverão apresentar pelo menos 20% (vinte por cento) em cada área de conhecimento especificado nesta lei.

Art. 2º. O disposto nesta lei será aplicado pelas instituições de ensino superior a partir dos exames seletivos para preenchimento de vagas para o ano letivo de 2003. (PARANÁ, 2002)
A ênfase na história local é compreensível à medida que através dela seria possível verificar os diferentes tempos entre diferentes lugares. Não estamos partindo do pressuposto que os eventos históricos são necessariamente originados num ambiente local. O fato da generalização do tempo esconde entre outras coisas as particularidades que só é percebida a partir do momento que se privilegia o local. Desta forma, o estudo local vivifica as experiências diversas e caracteriza o tempo de cada lugar. Ao tratar de orientação temporal, Jorn Rusen argumenta:

As pessoas só podem agir se elas têm o rumo da sua vida, que coordena e orienta as ações e intenções organizadoras de suas experiências, para todos possam saber o que elas mesmas fazem. Nesta orientação, os ganhos da realização temporal estão relacionados com a experiência de mudança no mundo humano e do seu sentido, na medida em que a experiência está relacionada aos efeitos orientadores da ação que dizem respeito à transformação no tempo. Tempo como um ato intencional e tempo como ato condicional são trazidos para um contexto interior de uma orientação da vida prática humana.

Nesta orientação, o tempo é visto como a experiência de mudança do homem e do seu mundo e como a esperança de que estas mudanças estejam relacionadas entre si, para que as pessoas possam se organizar no fluxo do tempo. (RUSEN, 2012, p. 37-38).
Ao estudar o local nos deparamos com a questão do tempo e assim com um ponto fundamental em história que é exatamente estabelecer parâmetros de mudanças ou de permanências. Sabemos que nem tudo aquilo que aconteceu no passado pode ser tratado como história, apenas o que se consegue observar de alterações. A história local tem essa dimensão, de comparar, observar e verificar que o tempo não é único e cada lugar tem uma especificidade e tem uma história, construída por aqueles que em um dado momento e num determinado espaço ali estiveram.

Torna-se relevante no ensino da história local a diversidade de olhares sobre os lugares, distanciando-se de um processo homogeneizador do pensamento e dos sujeitos sociais, fato esse que coloca o conjunto dos estudantes de fora do processo histórico. A história local promove um processo de alteridade entre os diferentes grupos sociais existentes em espaços distintos.

Relevância e significado são expressões que caminham juntos no processo educativo. No ensino de história não é diferente, ou seja, aquilo que se trabalha em sala de aula, de algum modo, carece de uma importância para os estudantes que muitas vezes não percebem isso nos conteúdos ensinados. Assim:

Para a maior parte dos estudantes brasileiros, o estudo de história carece de sentido ou utilidade; não se tem a visão de ciência e sim de uma matéria decorativa, estudo do passado, que só exige como vimos, a prontidão em declinar nomes, datas e fatos. Não é de se estranhar que assim seja, porque ocorre a enorme distância entre a realidade vivenciada pela comunidade e o tratamento dado ao ensino de história, já que o aluno torna mero espectador de fatos, não necessitando esforços no sentido de qualquer reflexão ou elaboração (BARBOSA, 2006, p. 58).
Pelo fragmento, a história ensinada em sala de aula necessita de uma empatia por parte dos estudantes. Muito dessa falta de interesse pelo ensino da história está relacionado à metodologia aplicada, baseada no livro didático, que muitas vezes trazem uma sequência de fatos isolados, resultando numa tarefa de estudos decorativos e sem reflexão daquilo que se estuda. Neste sentido, cabe ressaltar que a história local ao ser trabalhada no contexto da sala de aula ajudaria numa proposta de ensino processual, voltada para o estudo da experiência humana no tempo, compreendendo as mudanças e permanências pelas quais as sociedades passam, contribuindo, desta maneira, para a construção de uma identidade histórica e a formação do pensamento histórico nos estudantes.

O conhecimento histórico é resultado da ação humana no tempo, para tanto tem métodos apropriados para se chegar a interpretações do passado, uma vez que o passado não pode ser reproduzido no presente, mas através de fontes pode-se argumentar como se deram as relações num tempo diferente do nosso. Para fazer essa análise e reflexão sobre um fato é necessário trabalhar com evidências.

Segundo Schimdt e Cainelli (2004), o trabalho com a história local pode ser instrumento para a construção de uma história mais plural, menos homogênea, que não silencie a multiplicidade de vozes dos diferentes sujeitos da história. Portanto, colabora para um processo de reflexão sobre a realidade se trabalhada numa perspectiva exploratória das possibilidades de compreensão dos acontecimentos do passado a partir da realidade local.


Pensamento de estudantes sobre o ensino de História na escola
O ensino de História, assim como outras ciências, vive uma situação inusitada no que consiste no trabalho em sala de aula. Com os avanços tecnológicos, que apresenta uma série de fatores positivos, o ensino em sala de aula, no modo tradicional, muitas vezes centrado na figura do professor, tem enfrentado uma série de questionamentos sobre a sua eficácia no sentido de levar o aluno a desenvolver uma postura favorável ao aprendizado. As facilidades vivenciadas por todos em termos de informação, dos mais variados tipos e velocidade tem levado a um problema a ser resolvido tanto por educadores quanto pelos sistemas de ensino, tendo como propósito aumentar o interesse pelos saberes oferecidos pelas escolas. Ensinar História buscando envolver os alunos com vista a uma aprendizagem significativa é um objetivo que deve ser perseguido pelo professor de história. A disponibilidade de recursos tecnológicos certamente proporciona um avanço nas práticas de ensino, no entanto, somente com recursos tecnológicos não resulta em um ensino mais significativo, pois se as ferramentas são usadas durante as aulas como simples projeções em substituição ao quadro de giz, o fundamento da aula continua sendo o mesmo, ou seja, permanece uma aula descontextualizada, sem interação com os sujeitos e sem vinculo com a realidade. Neste contexto, as aulas continuam desinteressantes e os alunos apáticos em relação aos assuntos abordados, pois, não há uma integração entre os componentes que compõem o processo de ensino e aprendizagem.

Numa sociedade ávida pelo novo, pelas mudanças rápidas, o ensino de história muitas vezes é visto como algo do passado e que não teria nenhuma relação como o tempo vivido. Tornar esse passado vivo é um desafio a ser enfrentado, objetivando um ensino que provoque nos estudantes um interesse por esse passado com vistas a sua relação com o presente, perspectivando o futuro. Neste sentido, a empatia histórica, conceito desenvolvido por pesquisadores como Peter Lee e Rosalyn Ashby contribui para uma história mais reflexiva e menos burocrática, como a que se observa nas escolas. A empatia histórica, entendida como a capacidade de perceber as diferenças entre o eu e o outro, colocando-se no lugar desse outro possibilita uma interação maior entre o estudante e os conteúdos escolares. (2001).

Os conteúdos escolares, entendidos como substantivos são observados no dia a dia da prática escolar, em grande medida são esses conteúdos que os alunos conseguem identificar como sendo a história propriamente dita. Ao desenvolver categorias de análise sobre o pensamento histórico Lee (2001) os denomina de conceitos de segunda ordem, tais como narrativa, explicação, empatia, consciência e evidência histórica. Esses conceitos ajudam a formar o pensamento histórico e estimulam os estudantes a refletir sobre a história, dando a ela um sentido que podem estar vinculados à sua vida prática. Ashby (2006) tratando da evidência histórica aponta para uma aproximação em relação à fonte histórica, sendo ambas remetidas na busca do conhecimento histórico. Peter Lee (2001) tem como preocupação a progressão dos alunos em relação à compreensão da história, demonstrando que as relações entre idades pouco diferem de um grupo a outro, recorrendo assim à empatia para explicar como ações de determinados sujeitos ocorrem em contextos distintos.

O ensino de história e a aprendizagem histórica devem ser entendidos como um processo de compreensão da história que vai além de um acúmulo de eventos, muitas vezes sem relação um como o outro, e por consequência, distanciando daqueles que estão tomando conhecimento destes fatos. Entender a história como um processo dinâmico e vivo desenvolvendo a compreensão dos alunos sobre os processos históricos requer uma leitura dos acontecimentos que vão além das técnicas de decorar datas ou episódios. Necessita, na prática, de uma reflexão e que possibilite a esses alunos fazerem inferências sobre os eventos.

Desta forma, para além de um significado especializado, o ensino de história deve levar os alunos a compreender como os conhecimentos históricos são produzidos, que aquilo que é exposto no presente não é cópia do passado, mas uma tentativa de explicação de um determinado evento, ou seja, a história não é somente um acúmulo de informações do passado.

Para nossa investigação, usamos questionários para tratar do ensino de história no cenário da sala de aula. Os estudantes foram convidados a responder a sete questões sobre o ensino de história e, posteriormente, narrar a história do Brasil e do município onde residem de acordo com os saberes que possuíam. Cabe ressaltar que para fazer essas atividades os mesmos não foram avisados, ou seja, a respostas e as narrativas foram dadas de modo instantâneo. Maria Auxiliadora Schmidt destaca que:

Não é somente pela lembrança que se recupera o passado. Seja qual for o modo em que a consciência histórica penetra no passado, como no itinerário dos arquivos da memória, o impulso para esse retorno é sempre dado pelas experiências do tempo presente. Ou seja, a consciência histórica é o local em que o passado é levado a falar e este só vem a falar quando questionado; e a questão que o faz falar origina-se da carência de orientação na vida prática atual, diante das suas experiências no tempo. Trata-se de uma lembrança interpretativa que faz presente o passado, no aqui e agora. (SCHMIDT, 2008, p.85).
Para este trabalho, nossa análise se dará em torno de uma questão chave para pensarmos sobre o ensino de história do ponto de vista dos estudantes:
Para que serve a História que é ensinada na escola?
As respostas obtidas dos estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental, ao todo vinte e dois questionários, demonstram através das narrativas entendimentos da história que pode ser dividido em três categorias ou grupos distintos. Num primeiro grupo, o mais numeroso, as repostas relacionaram a história com o passado simplesmente, ou seja, o estudo da história serve para conhecer o passado e as reflexões dos estudantes se limitam a isso. Num segundo grupo, os estudantes compreendem a história como um conhecimento sobre o passado, mas que tem relação direta com o tempo presente. Por fim, um grupo restrito de estudantes vê a história como um processo integrado entre passado, presente e futuro. Ao tratar sobre a consciência histórica, Jorn Rusen destaca que:

A consciência histórica pode ser vista de muitas maneiras diferentes, não serve como já dito, como uma área com um objeto definível, e é insuficiente para justificar uma disciplina especialmente dedicada a ela. A consciência histórica não foi arbitrariamente escolhida como categoria central da didática da história (Jeismann); mas sua orientação disciplinar como objeto para esta área é bastante consistente, diante da questão de como a história é ensinada e aprendida, de como isso pode e dever ser. Nesse caso, se leva em consideração a perspectiva de que a consciência histórica é direcionada exatamente à organização dos fatores de ensino e aprendizagem e se divide em dois aspectos: em primeiro lugar, trata-se de trazer o lado subjetivo que todos os professores e alunos de história têm, a tal ponto que ele não possa apenas ser transportado ou transmitido, mas referem-se sempre, e ao mesmo tempo, a processos determinados de individualização e socialização, nos quais a autocompreeensão histórica do sujeito afetado forma sua identidade, por meio de experiências históricas seletivas, normativas e de uma apropriação significativa. Ao mesmo tempo, trata-se de deixar aparecer sobre a folha da vida prática humana, um principio organizador (principalmente do ponto de vista escolar), do ensino e a aprendizagem de história (RUSEN, 2012, p. 71).


Nas diferentes respostas dos estudantes sobre a função da história no contexto escolar, nota-se a presença da importância histórica no sentido do conhecimento do passado, de saber como os acontecimentos num tempo remoto se deram, ou seja, um interesse especificamente em ampliar os conhecimentos sobre fatos que marcaram o passado da humanidade. Por outro lado, verifica-se também uma necessidade de uma identificação entre passado e presente, em um processo que produza uma explicação da realidade atual. Além dessas abordagens, pode-se se obervar também, uma preocupação com o vir a ser, ou seja, como que o passado e o presente construirão modos de agir no tempo futuro. Como é observado nas citações de estudantes ao responder para que serve a História que é ensinada na escola:

Grupo 1: História: relação com o passado

Grupo 2: História: passado e presente.

Grupo 3: História: passado, presente e futuro.

- Serve para aprendermos sobre nosso passado, fatores históricos, guerras, sem a história não seria possível saber sobre tudo isso.

- A História serve para que possamos aprender sobre os antepassados, guerras, períodos históricos e outros assuntos importantes que aconteceram no passado. Serve também para sabermos como o Brasil surgiu, virou império, república, ou seja, sua história.



- Para saber fatos históricos que abalaram o mundo e suas consequências que acarretaram no mundo em que vivemos.

- A história serve para que saibamos o que houve no passado para entendermos como chegou até aqui, como é hoje.



- Ela nos ensina o porque de estarmos aqui, o que houve para o que acontece hoje, esteja acontecendo e futuramente para escolher melhor os rumos que vamos levar durante a vida.



Considerações
Os estudos realizados em relação aos estudantes sobre o para quê a história serve, verifica-se três grupos distintos de análise: uma referente à exclusividade de conhecimento sobre o passado, outra, numa relação direta entre os acontecimentos do passado e as vivências do presente e, num outro grupo de estudantes, as experiências do passado e do presente como orientação para o futuro.

A partir das constatações verificadas nesse estudo parcial, conclui-se que há um território rico a ser explorado tanto no que diz respeito à inserção da história local como proposta de ensino e na compreensão do pensamento dos estudantes em relação à disciplina de história.


Referências

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