O ensino hodierno de língua portuguesa no programa a distância resumo



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O ENSINO HODIERNO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO PROGRAMA A DISTÂNCIA

RESUMO

Este artigo descreve e analisa as metodologias criadas e desenvolvidas nas aulas de Língua Portuguesa do Ensino Médio num Programa a distância. Estas aulas se fundamentam em teorias modernas do ensino de Língua Portuguesa como a linguística textual que concebe a língua como atividade sociointerativa situada, relacionando os aspectos históricos e discursivos. Nesta nova perspectiva do ensino de língua, as mídias ora são usadas como ferramentas no processo ensino/aprendizagem, ora como o próprio objeto de estudo da língua.

Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa a distância; linguística textual; mídias.

1. Introdução

O ensino de língua portuguesa passa por grandes e significativas mudanças. Hoje, não se comporta mais um olhar mecânico da Língua Portuguesa, ou seja, baseado em regras e normas decoradas sem contextualizá-las. O homem questiona, reflete e este olhar filosófico também permeia no momento da aprendizagem, o que facilita melhor a compreensão dos sentidos oferecidos pela língua no seu uso, além de proporcionar momentos de interação e reflexão sobre a Língua Portuguesa.

É com base nesta nova perspectiva que professores de Língua Portuguesa atuam no Programa Ensino Médio com Intermediação Tecnológica (EMITec). Este Programa teve início em 2008 e atende alunos de regiões longínquas de Municípios do Estado da Bahia. As aulas são transmitidas ao vivo no estúdio localizado na capital baiana para mais de 400 localidades. Os estudantes assistem às aulas e interagem com professores das 11 disciplinas da base comum e 02 da parte diversificada da Matriz Curricular do Ensino Médio. Todas as aulas são previamente elaboradas por profissionais que visam à qualidade do ensino público. No momento da produção das aulas, estes profissionais pesquisam e estudam uma melhor forma e metodologia para apresentar os conteúdos programáticos que fazem parte do currículo nacional comum. Para isso, recorrem às ferramentas tecnológicas e metodologias diversificadas, como vídeos, jogos eletrônicos, entrevistas ao vivo, enquetes e outras que facilitam a aquisição de conhecimento.

Todas as aulas têm uma programação cronológica: Momento de exposição do assunto, momento da produção dos alunos e o momento de interação entre professores e alunos. Portanto, são aulas dinâmicas que requer a participação dos alunos. Nas aulas de Língua Portuguesa, os professores promovem questionamentos do uso da língua e seus possíveis sentidos como também mostram aspectos culturais diversos que contemplam o assunto em estudo. Nesta modalidade de ensino, o professor conta com diversas ferramentas tecnológicas, mas elas não são usadas apenas como apoio ou suporte, elas promovem interação e reflexão e, muitas vezes, são o próprio objeto de estudo.



2. As mídias, a gramática e a linguística textual nas aulas de Língua Portuguesa

Na preparação das aulas de Língua Portuguesa, os vídeos musicais são bem aceitos e explorados nas discussões. Um exemplo foi a Aula gramatical de Adjunto Adverbial, Adjunto Adnominal e Complemento Nominal, com o subtítulo “Do vinil ao CD”. Nesta aula, diversificamos os conteúdos gramaticais com a cultural musical brasileira. A cada assunto iniciado, interagiremos com os alunos questionando sobre a regravação de músicas que fizeram sucesso no final do século XX e que hoje estão no palco de artistas atuais. Com isso, mostramos que estudar Língua Portuguesa é entender o processo cultural expresso nas manifestações artísticas. Alguns slides selecionados para a exemplificação:



Fig. 1 Slide 01



Fig. 2 Slide 02



Fig. 3 Slide 03



A primeira música foi “Diz que fui por ai” (Fig. 1 Slide 01), da musa da Bossa Nova Nara Leão, na década de 60 a 80, regravada por Fernanda Barbosa Takai. A segunda foi “Aluga-se” (Fig. 2 Slide 02), de Raul Seixas, considerado um dos pioneiros do rock brasileiro, regravada pela banda Titãs. A terceira e última foi “Você não me ensinou a te esquecer” (Fig. 3 Slide 03), de Fernando Mendes, José Wilson / Lucas, regravada por Caetano Veloso.

Interessante foi a interação dos alunos em tentar adivinhar as regravações e a surpresa em descobrir os cantores, além de despertar para o uso das expressões gramaticais nas letras das musicas. Entre uma música e outra, exploramos os sentidos apresentados pelas classes gramaticais em estudo. A aula foi assim subdividida:

Primeiro momento:

Iniciamos com o assunto Adjunto Adverbial. Revisamos a função do advérbio e sua importância na oração. Este assunto foi intercalado com trechos de músicas e atividades.

Segundo momento:

Diferenciamos o adjunto adverbial do adjunto adnominal. Mais uma vez passamos um clipe de uma música que foi regravada para que os alunos tentem identificá-la. Depois, interagimos com informações da música e do cantor e prosseguiremos com o assunto expresso nos trechos musicais. Também houve atividades para compreensão textual.

Terceiro momento:

Depois que os alunos perceberam as diferenças entre os adjuntos adnominais e adverbiais, fizeram comparações entre o Adjunto adnominal e complemento nominal, através de orações presentes em charges, trechos de músicas e atividades.

As aulas de compreensão textual adota a perspectiva da linguística textual em que texto não é concedido como um produto acabado, pronto, cujo sentido é único e está nas mediações cotextuais. Para Marcuschi e outros, a noção de texto adotada é a definida por Beaugrande “O texto é um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e cognitivas” (apud MARCUSCHI, 2008, p. 72), portanto o sentido é construído num processo de interação autor-texto-leitor.

É nesta concepção sociointerativa que as aulas de Língua Portuguesa se fundamentam, para isso, os professores buscam métodos e ferramentas que proporcionam o entendimento desta construção de sentidos. Uma das aulas que mais teve repercussão foi a intitulada “Estratégia de leitura”. Nela, utilizamos a mídia impressa, uma história em quadrinhos. A estrutura da aula foi a seguinte:

Primeiro momento:

Início da aula sobre estratégia de leitura. Após fazer perguntas reflexivas sobre leitura, foi mostrada a história em quadrinho (anexo I), tirinha após tirinha e entre os intervalos de leitura, eles levantavam hipóteses sobre este suposto “problema de leitura” e o que poderia acontecer nos próximos quadrinhos, isto fez com que os alunos praticassem uma das estratégias de leitura, levantamento de hipótese. Depois, foram apresentados quadros resumos desta estratégia (Fig. 1a, 2b).



Fig. 1a Slide 01



Fig. 2b Slide 02



Segundo momento:

Os alunos fizeram a leitura da crônica “A Verdade” de Luís Fernando Veríssimo, publicado no Jornal Folha de São Paulo (anexo II) e responderam algumas questões de interpretação textual. Esse material também foi disponibilizado no ambiente moodle do curso. Nesta atividade foi explorada questões de inferência textual.

Terceiro momento:

Foi realizada uma oficina de produção de texto, entre muitos gêneros, o cordel foi o escolhido, pois os alunos estavam mais envolvidos com o trabalho sobre o nordeste.

Finalizamos com as apresentações de algumas estrofes elaboradas pelos alunos, enquanto outros após ouvirem a apresentação, construíam sentido para aquele texto e diziam suas impressões e opiniões.

3. Considerações finais

As aulas com intermediação tecnológica requer do professor muito mais pesquisa e criatividade, pois o uso das TIC não deve servir apenas como suporte sem uma finalidade educacional. Há excelentes mídias e recursos tecnológicos que valorizam uma aula transmitida ao vivo ou a distância, basta saber como explorar estes recurso. Como afirma Moran (2000), “O professor tem um grande leque de opções metodológicas, de possibilidades de organizar sua comunicação com os alunos, de introduzir um tema, de trabalhar com os alunos presencial e virtualmente, de avaliá-los.”, portanto, o professor é fundamental neste processo de aprendizagem, é ele quem cria estratégias e facilita a aquisição do saber. Hoje com várias e moderas mídias não faltam recursos, mas pessoas estimuladas para desenvolver uma aula que possibilita reflexões e interação.

As aulas de Língua Portuguesa vêm mudando com a era digital, o professor atento percebe que a cada gênero textual ou digital, o autor assume determinada linguagem, portanto não cabe mais um ensino fechado em si mesmo, mas fundamentado numa ação interacional e social, afinal somos sujeitos responsivos ativos como afirma Bakhtin (2007, p. 291), pois concordamos, refutamos ou ampliar a enunciação do outro (locutor).

Referências

BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

CARVALHO, Maria Angélica Freire de. Produção e Intelecção de Textos: Fios condutores no processo de ensino-aprendizagem. In ALVES, Wedencley; RODRIGUES, Marlon Leal (Orgs.). Discurso e Sentido: questão em torno da mídia, do ensino e da história. São Carlos: Editora UEMS, 2007.

GERALDI, J. W. et alii. Linguística, ensino de língua materna e formação de professores, DELTA, v. 12, n.2, 1996.

KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e Compreender: os sentidos do texto. 2ª ed.; São Paulo: Contexto, 2008.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

MORAN, José Manuel. O Vídeo na Sala de Aula. Artigo publicado na revista Comunicação & Educação. São Paulo, ECA-Ed. Moderna, [2]: 27 a 35, jan./abr. de 1995

_____, Artigo publicado na revista Informática na Educação: Teoria & Prática. Porto Alegre, vol. 3, n.1 (set. 2000) UFRGS. Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação, pág. 137-144.

POSSENTI, Sírio. A leitura errada existe. In BARZOTTO, V. H. (org.) Estado de leitura. Campinas: Mercado das letras, Associação de leitura do Brasil, 1999, p. 169-178.

Anexo I

Texto I – Aula “Estratégia de leitura”



Disponível em Acesso em 20 mar. 2012



Anexo II

A Verdade

Luís Fernando Veríssimo

Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamante ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margarida. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse:

- Agora me lembro, não era um homem, eram dois.

E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse:

- Então está com o terceiro!

Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram, e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela.

- Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida - gritaram os aldeões. - Matem-no!

- Esperem! - gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. - Eu não roubei o anel. Foi ela quem me deu!

E apontou para a donzela, diante do escândalo de todos.
O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo "Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor". E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.

Todos se viraram contra a donzela e gritaram: "Rameira! Impura! Diaba!" e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço.

Antes de morrer, a donzela disse para o pescador:

- A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?

O pescador deu de ombros e disse:

- A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.




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