O erotismo em branco e preto na narrativa de márcia denser



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O EROTISMO EM BRANCO E PRETO NA NARRATIVA DE MÁRCIA DENSER
Cintia Cecília Barreto

(mestranda em Literatura Brasileira, Letras Vernáculas, UFRJ)



Dedico este trabalho ao Professor Wellington de Almeida Santos

Resumo: A comunicação propõe-se à análise do conto “Branca de Neve (um conto de fadas para adultos)” de Márcia Denser, do livro Toda Prosa (2001), a partir do dialogismo erótico-simbólico entre a narrativa contemporânea e o a versão feita pelos irmãos Grimm de “Branca de Neve”. É valido esclarecer que o erotismo, neste trabalho, refere-se ao velamento, à sugestão e à provocação do desejo sem a exposição dos órgãos genitais. Tal definição de erotismo percorre ambos os textos que serão analisados. Tanto na versão dos irmãos Grimm quanto na “versão” de Márcia Denser é possível inferir a presença de uma atmosfera erótica sugerida pela linguagem. Como aporte teórico, serão utilizados, entre outros, os livros O Erotismo de Francesco Alberoni e A psicanálise dos contos de fadas de Bruno Bettelheim.

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho propõe-se à análise do conto “Branca de Neve (um conto de fadas para adultos)” de Márcia Denser, observando o processo de desconstrução de um motivo infantil em prol da construção de um espaço novo sob o signo do erotismo, acarretando a desmitificação do conto de fadas. Para tanto, vale revisitar a versão dos irmãos Grimm de “Branca de Neve”, atentando ao erotismo já presente.

Para a referida análise, dividiu-se o trabalho nas seguintes partes: no primeiro momento, observar-se-á o erotismo em “Branca de Neve”, conto de fadas e, no segundo momento, o foco será o erotismo no conto de Márcia Denser. Aqui, intitulados como “Erotismo em Branco” e “Erotismo em Preto”, respectivamente, numa sugestão cromática entre o motivo infantil, portanto “pureza”, “inocência”, “brancura” e a versão “adulta” da escritora da geração de 80, que, por ser o inverso da outra, configura-se na cor oposta, o preto, insinuando, assim, também os possíveis simbologismos da referida cor, como “impureza”, “obscuridade” e “luto”.

É valido esclarecer que o erotismo, neste trabalho, refere-se ao velamento, à sugestão e à provocação do desejo sem a exposição dos órgãos genitais. Tal definição de erotismo percorre ambos os textos que serão analisados. Tanto na versão dos irmãos Grimm quanto na “versão” de Márcia Denser é possível inferir a presença de uma atmosfera erótica sugerida pela linguagem, ora ambígua ora “explícita”.

Assim, com este trabalho, pretende-se observar o discurso erótico, debochado e transgressor de Márcia Denser a partir do dialogismo traçado entre sua narrativa contemporânea e a narrativa tradicional-cristã dos irmãos, alemães, contadores de histórias infantis.

2. EROTISMO EM BRANCO

A porta se abrirá lentamente e eu verei o que tem detrás.1

2.1. Branca de Neve: O Conto de Fadas

Quando se fala em conto de fadas, fala-se, automaticamente, sobre crianças, sobre o espaço infantil. Segundo Noemi Paz:

O conto de fadas é uma alegoria da passagem iniciática na qual o herói representa a alma perdida no mundo a lutar contra os poderes inferiores de sua própria natureza e contra os enigmas que a vida lhe propõe, até encontrar, após aceitar e realizar as provas, os meios para a sua própria redenção. 1

Sabe-se que o conto de fadas provém do conto maravilhoso e, além de se constituir da literatura popular, manteve-se vivo e se propagou devido à tradição oral. “Branca de Neve” é um dos contos de fadas mais conhecidos e faz parte do imaginário infantil. Como todo conto de fadas, sofre variações conforme o tempo e o espaço.

Neste trabalho, utiliza-se, porém, apenas uma versão: a de Jacob e Wihlelm Grimm. Nessa versão, Branca de Neve é a concretização do desejo de sua mãe em ter uma criança bela. O conto inicia-se assim:

Era uma vez uma rainha. Um dia, no meio do inverno, quando flocos de neve grandes como plumas caíam do céu, ela estava sentada a costurar, junto de uma janela com uma moldura de ébano. Enquanto costurava, olhou para a neve e espetou o dedo com a agulha. Três gotas de sangue caíram sobre a neve. O vermelho pareceu tão bonito contra a neve branca que ela pensou: “Ah, se eu tivesse um filhinho .branco como a neve, vermelho como o sangue e tão negro como a madeira da moldura da janela.” Pouco tempo depois, deu à luz uma menininha que era branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como o ébano. Chamaram-na Branca de Neve. A rainha morreu depois do nascimento da criança.2

Branca de Neve nasce conforme sua mãe desejou: com a tez alva, com as bochechas vermelhas tais qual a cor de uma maçã — fruto proibido, elemento simbólico do prazer, da perdição — e com os cabelos negros. Agrega em si um cromatismo sugestivo, pois o branco faz lembrar a pureza, a inocência; o vermelho, a paixão, a sexualidade e suas madeixas escuras remetem à noite, à escuridão, ao sofrimento.

Segundo Bruno Bettelheim, a história de Branca de Neve, aparentemente inocente e infantil, está carregada de símbolos relacionados à sexualidade, à sensualidade e ao erotismo. Diz ele sobre o referido conto:

Aqui a estória propõe os problemas a resolver: inocência sexual, brancura, contrastada com o desejo sexual, simbolizado pelo sangue vermelho. Os contos de fadas preparam a criança para aceitar um acontecimento que seria conturbador: o sangramento sexual, como na menstruação, e posteriormente na relação sexual quando o hímen é rompido. Ouvindo as primeiras frases de Branca de Neve a criança aprende que uma quantidade pequena de sangue — três gotas (sendo o número três o mais associado no inconsciente com o sexo). — é uma pré-condição para a concepção, porque a criança só nasce depois do sangramento. Aqui, então, o sangramento (sexual) está intimamente ligado ao acontecimento “feliz”; sem explicações detalhadas a criança aprende que nenhuma criança — nem mesmo ela — poderia nascer sem sangramento.3

Por intermédio do espelho — metáfora do voz da consciência feminina, narcísica, invejosa e vulgar — a madrasta da bela moça fica ciente da beleza insuperável da enteada e exige que um caçador mate-a, na floresta, e leve para ela seus pulmões e seu fígado, como prova de que a matou. O caçador, diante da beleza de Branca de Neve, em vez de cumprir as ordens dadas, deixa a moça fugir livre pela floresta julgando que essa não fosse resistir, por muito tempo, sozinha num lugar que mantém tantas ameaças.

A fim de enganar a mandante do crime, o caçador mata um javali que cruzou o seu caminho, arranca-lhe os pulmões e o fígado e os leva ao seu destino. A mulher come as peças, acreditando estar comendo a filha de seu marido. Esse ato canibalesco alude à sabedoria popular que a faz acreditar que, ingerindo partes de Branca de Neve, pode adquirir sua beleza, tornando-se, enfim, a mais bela das mulheres.

Ao contrário do esperado, Branca de Neve resiste e chega à casa dos sete anões. Ao avistarem a moça, a reação é de surpresa e contentamento: “Ó céus, ó céus!” todos exclamaram. ‘Que bela menina!’Os anões ficam tão encantados com aquela visão que resolveram não acordá-la, deixá-la continuar dormindo em sua caminha.” (2004: 96). Diante de tamanha beleza, a acolhem sob a condição de ser responsável pelas tarefas domésticas. Os anões lhe dizem: “Se quiser cuidar da casa para nós, cozinhar, fazer as camas, lavar, costurar, tricotar e manter tudo limpo e arrumadinho, pode ficar conosco, e nada lhe faltará.” (2004: 91).

Vale lembrar as próprias palavras do conto para observar o estado dos diminutos homens frente à imagem de Branca de Neve. Nesse primeiro momento, o campo lexical acolhe os vocábulos: “bela” e “encantados”. Por ser a moça “bela”, é capaz de deixar os homens à sua volta “encantados”. Sobre esse natural poder de sedução da personagem da história infantil, Francesco Alberoni, em seu livro O Erotismo comenta:

Existem mesmo duas imagens arquetípicas da sedução feminina. A Bela Adormecida, Branca de Neve, Cinderela, onde o homem é atraído pela beleza. Apaixona-se e a mulher parte com ele. A segunda é a da feiticeira (Circe, Alcina) que prende o homem com um encanto. O mito nos diz que Branca de Neve ou a Bela Adormecida estão enamoradas do príncipe.4

Na verdade, na história infantil, os anões não “partem com ela”. Esses homens, por serem pequenos, não representam perigo sexual tampouco despertam algum tipo de desejo na bela jovem. Eles a mantém “cativa” da forma que podem e ela responde à pergunta dos anfitriões: “ ‘Sim quero ficar, não desejo outra coisa’, Branca de neve respondeu e ficou com eles.” (2004: 97).

O enunciado ambíguo sugere algumas interpretações distintas daquelas pueris. Esse “desejo” de ficar pode, aqui e ali, comparar-se à vontade de ser mulher, adulta, objeto de desejo daqueles seres que a acolhem num momento tão difícil. Recorrendo a Bettelheim, pode-se perceber uma visão menos infantil dos anões:

Estes ‘homenzinhos’ de corpos atarracados e trabalhando na mineração — penetram habilidosamente em cavidades escuras — sugerem conotações fálicas. De certo não são homens em qualquer sentido sexual — seu modo de vida e o interesse em bens materiais sugerem uma existência pré-edípica.5

Bruno Bettelheim aponta também, ainda a respeito dos anões, que os conselhos que são dados à Branca de Neve para que não deixe ninguém entrar em casa, quando estiver sozinha, simbolizam, na verdade, o alerta de não deixar ninguém entrar, inclusive, nela. No entanto, tais conselhos são negligenciados, já que a jovem se deixa enganar três vezes pela madrasta disfarçada que bate à porta e anuncia: “Mercadorias bonitas a precinho camarada.” (2004: 92).

Curiosamente, em todas as vezes é oferecido a jovem algo que mexa com sua vaidade ou com seu desejo mais secreto. Na primeira vez, a velha ofereceu cadarços multicoloridos, a velha colocou o cadarço tão apertado no pé da moça que ela ficou sem ar e caiu no chão como se estivesse morta; da segunda vez, o “obscuro objeto de desejo” da jovem foi um pente envenenado e — mesmo sendo advertida, outra vez, para não atender a ninguém — sob a fala da velha: “Agora vou pentear seu cabelo como ele merece.” — deixou-se enganar, novamente, e, assim que o pente tocou seus cabelos, o veneno fez efeito e a moça caiu no chão. Nessas duas vezes, os anões retornam e conseguem ajudar Branca de Neve. Em contrapartida, na última investida da madrasta, o objeto oferecido foi uma maçã — elemento que faz parte do imaginário coletivo como símbolo do desejo, da paixão, mas também da perdição.

Como se vê, a jovem se deixa levar por seus impulsos e, num misto de ingenuidade e cobiça, cai em tentação. A partir desse último argumento simbólico (a maçã), a madrasta consegue deixar Branca de Neve semi-morta por um longo tempo, pois essa, envenenada, fica atravessada em sua garganta.

Um momento que instiga a imaginação do leitor “adulto” ocorre quando os anões chegam e encontram, pela terceira vez, a mocinha caída no chão. A fim de procurar algo que pudesse ser venenoso, os anões desatam seu corpete, penteiam seu cabelo e banham-na com água e vinho. Nossa! Se essa cena for narrada fora de contexto, pode, perfeitamente, sugerir uma bacanal feita por necrófilos: sete homens, intimamente, em volta de uma mulher morta que conserva ainda a beleza da vida.

Supondo estar a bela moça morta, os homenzinhos colocam-na num caixão de vidro e levam-na para o alto da montanha onde poderá ser sua beleza admirada e cobiçada para sempre, uma vez que, mesmo, aparentemente morta, exibe as bochechas vermelhas como se estivesse viva. Essa “exibição” e o fato de estarem ainda vermelhas as bochechas da moça evocam, mais uma vez, a cor da paixão, a cor da maçã, a cor das gotas de sangue. Não se pode perder de vista que a rainha dividiu a maçã com a Branca de Neve antes de ela morrer, aludindo assim à própria divisão da libido, da sensualidade.

Ao final, como a maioria dos contos de fadas, maniqueísta, o bem vence o mal. Branca de Neve é achada por um príncipe que por ela enamorou-se. Com o consentimento dos anões, resolve levá-la e num descuido de seus criados, ao transportar o caixão de Branca, um solavanco solta o pedaço de maçã envenenada que estava entalado na garganta da bela moça.

É certo que a madrasta recebe seu castigo. Ela é convidada para ir ao casamento da enteada e, mesmo com toda sua inveja e ciúme vai. Ao chegar lá:

Sapatos de ferro já haviam sido aquecidos para ela sobre um fogo de carvões. Foram levados com tenazes e postos bem na sua frente. Ela teve de calçar os sapatos de ferro incandescentes e dançar com eles até cair morta no chão.6

Sobre essa passagem Bettelheim aponta:

O ciúme de sexual incontrolável, que tenta arruinar os outros, se destrói a si mesmo — simbolizado não só pelos sapatos de ferro em brasa mas pela morte que causam, dançando com eles. Simbolicamente, a estória diz que a paixão descontrolada deve ser refreada ou será a ruína da própria pessoa. Só a morte da rainha ciumenta (a eliminação de toda turbulência interna e externa) pode contribuir para um mundo feliz.7

Dessa forma, percebe-se que, até um conto universalmente conhecido e, superficialmente, inocente, apresenta em seus implícitos uma série de sugestões sensuais e eróticas. É possível reconhecer, numa leitura mais ampla e direcionada, os vestígios de uma sociedade cristã, repressora e manipuladora da libido alheia.



3. EROTISMO EM PRETO

Eu sou a chaga e o punhal!

Eu sou o rosto e a bofetada!

A roda e a carne lacerada,

Carrasco e vítima afinal,2

3.1. “BRANCA DE NEVE (UM CONTO DE FADAS PARA ADULTOS)”

Márcia Denser surge na literatura brasileira na década de 70, mas é na década de 80 que conquista seu espaço como escritora. Fica um tempo sumida e ressurge como fênix em pleno século XXI na antologia Os cem melhores contos brasileiros do século organizada por Ítalo Moriconi. Segundo Nelly Novaes:

Márcia Denser pertence à época da contracultura; da vulgaridade como arma de agressão; da sátira demolidora de mitos; do erotismo transformado em produto-de-consumo; da droga transformada em indústria rendosa; da violência da linguagem e de outras violências ... Embora nem todos esses elementos façam parte do mundo de ficção de Márcia, é nessa pauta que seus textos devem ser lidos e sua linguagem precisa ser entendida. Isto é, como elemento integrante da luta que a mulher vem travando para se libertar dos preconceitos seculares (ou milenares?) que a vêm subjugando.8

Toda Prosa (2001) reúne contos e novelas da autora numa mistura de textos antigos e novos. O texto, aqui, selecionado é o segundo conto do livro e narra uma história conhecida de todos por um ângulo diferente, acentuando o vermelho, concedendo voz àqueles que pouco se expressavam, retirando máscaras e colocando outras. O conto de Márcia “Branca de Neve (um conto de fadas para adultos)” apropria-se do conto de fadas “Branca de Neve” e, a partir da intertextualidade, desconstrói um mito infantil carregando-o de ludicidade e erotismo. Sobre a autora e sua linguagem Nelly completa:

Pertencente à geração “pós-pílula”, Márcia Denser assume com impiedade e lucidez raivosa as conquistas e mutilações que a mutação-em-processo no mundo vem provocando nos que, nela, estão empenhando a vida. A força de sua escrita inclui-se entre nossos raros livros eróticos “femininos” que, optando abertamente pela “linguagem do corpo”, não descambam para o sensacionalismo fácil, para o escândalo estéril ou para o cinismo.9

O erotismo, aqui, centra-se no desejo masculino. A história, em Márcia Denser, surge sob o ponto de vista do homem, ou melhor, dos sete pequenos homens: os anões. Ela problematiza as relações de gênero e não se intimida pelas relações preestabelecidas por uma sociedade preconceituosa, machista, burguesa e cristã.

Pelo contrário, a autora parece gostar de virar pelo avesso os “bons costumes”, instaurar o caos em algo que se encontra, aparentemente, equilibrado. É isso que a autora faz, ao reescrever um dos contos de fadas mais conhecidos: desconstrói o que parece estar bem situado social e culturalmente. Ela quer fixar suas raízes e mostrar a relatividade das coisas. Como quem dispõe de uma câmera e de um ângulo privilegiado e inédito, tece sua narrativa da forma que lhe convém.

O conto, de Márcia, aproxima-se da versão de Walt Disney sobre a narrativa infantil, pois nela os anões são individualizados, possuem características próprias e recebem o nome de acordo com elas, facilitando o entendimento das crianças sobre quem é quem na trama. A história de Márcia inicia com os anões constatando que têm um problema, na verdade, um “belo” problema: “... uma bela encrenca, puxa vida — suspirou Soneca.” (2001: 25).

A autora não economiza palavras para representar a corja de homens diminutos que “cercam” a “pobre” moça de conto infantil. De súbito, deve lembrar-se de que, embora o título seja homônimo da história para crianças, o subtítulo adverte que é “um conto de fadas para adultos” e, é de conhecimento geral, que, quando se rotula algo como “para adultos”, entende-se que pode ocorrer: sexo, nudez, obscenidades, palavrões, entre outros elementos proibidos para crianças.

Verdade é que, mesmo tendo sido Márcia Denser considerada pela crítica como autora pornográfica assim como Hilda Hilst, nesse conto não há nenhuma cena de sexo explícito, tudo é velado, sugerido. O que surge na narrativa de Márcia, nesse momento, é o erotismo. A linguagem da autora é sensual, jocosa, ambígua e aberta a interpretações mais picantes. Por meio da linguagem, Márcia constrói o ethos” (caráter) de seus personagens que ganham, em sua narrativa, destaque. São eles os principais. De coadjuvantes a personagens-núcleo. Não são bons, pelo contrário são brigões, desbocados, trapaceiros e querem fazer sexo com a Branca de Neve. Eles são anti-heróis. “Salvam” a mocinha das garras da madrasta má em troca dos prazeres da carne.

Diferentemente das outras versões, os anões hesitam em ficar com a moça. A partir do discurso de Zangado, Márcia exibe as relações capitalistas de interesses, já que aos anões cabe a exploração de uma mina de diamantes, além de denunciar uma sociedade cristã vil na qual a igreja representa também os interesses financeiros de uma minoria aristocrata. Ficar com a moça significa arriscar perder o “direito adquirido” ao longo de trinta anos de trabalho duro naquele lugar. Eles não possuem a escritura da mina, ela não lhes pertence oficialmente Diz, ainda, Zangado:

Para eles o que conta é o papel, aquele que não temos, a escritura, o canhenho com o sinete, o lacre, o rabisco, e não trabalho, honra, orgulho, dignidade, nem uma vida inteira! Nada além duma mísera folha garatujada por um rábula para comprar-lhes o silêncio e livrar-nos das masmorras e do nome de ladrões e por que não de estupradores? Aí tem um banquete completo: ao povo do reino o purificador espetáculo de sete enforcamentos e a eles, o ricos senhores, nossa mina como penhor pelos danos materiais e morais — ou seriam estéticos? — que lhes causamos, sem falar nos padres que talvez também reclamem parte deles e a da santa madre igreja, afinal anões e bruxas sempre alimentaram as fogueiras da Santa Inquisição, daquele deus esfarrapado, daquele Cristo patético e sanguinário, daquele judeu que em nome de Deus clama por vingança, ouro, prata e diamantes ao pé do Seu altar e o que mais? A palavrinha piedade ainda faz algum sentido para vocês?10

Apesar do longo discurso de Zangado, eles decidem ficar com a moça, pois Mestre acredita que a moça será dada como morta, logo ninguém irá procurá-la. Assim que decidem ficar com ela, inicia-se um dialogismo com o conto de fadas dos irmãos Grimm. E diz o narrador: “Os anões piscavam dando-se cotoveladas, puxa, se estavam excitados, provocavam Zangado: — Vamos, sua ratazana velha, para que serve uma mulher dentro de casa?” (2001: 30). Num segundo momento, Feliz diz: “ela lava, passa, cozinha, tira teias de aranha, prega botões”. (2001: 31).

Nesse instante, começam as frases ambíguas entre os anões sugerindo um desejo sexual pela moça. Eles dizem: “... p-precisamos d-dar uma m-mãozinha p-pra ela — Dengoso corou como um semáforo. — Claro, quantas for preciso, até Branca pegar o jeito — Soneca piscou para Dunga que piscou para Atchim.” (2001: 31). Instaura-se uma discussão em torno de como tratar a moça e mestre fala para os anões irem conquistar Branca de Neve já que se julgam “irresistíveis”.

A narrativa de Márcia desconstrói a imagem de Branca de Neve e dos próprios anões, na medida em que explicita o erotismo velado no conto “original”. O erotismo de Márcia chega à beira do obsceno, do vulgar. Todos tentam “ficar” com a Branca de Neve, entrando no quarto no qual se encontrava e a descrição de suas reações são de “espantar neném”. Ela deixa um com olho roxo, outro com um galo na testa, morde, dá uma overdose de rapé em Atchim, Soneca é exposto ao ridículo, pois sai de seu quarto, dormindo, numa cesta vestido de bebê. Há uma referência ao livro Lolita de Nabokov: “Talvez ela prefira um tipo grisalho e experiente, não leram Lolita? — estufando o peito e encolhendo a barriga, Mestre empurrou a porta.” (2001: 33). Também não foi feliz, pois sai “indignadíssimo, esfregando o traseiro”.

A relação de poder tratada por Alberoni é aqui encontrada, pois, o único que consegue “ficar”, num primeiro momento, com a moça é Dunga que oferece um diamante: “Ironicamente o tempo ensinou que a chave do paraíso também serve no inferno. As disputas por pedras cada vez maiores e mais puras se acirraram ao longo daqueles meses amargos.” (2001: 35).

Segue, assim, uma disputa para “ter” a moça. Todos agora conseguem e essa assemelha-se a uma prostituta, já que satisfaz os desejos carnais dos sete homenzinhos em troca de diamantes. Ela faz sexo pago, portanto, prostutui-se. Sobre o desejo por prostitutas Alberoni diz:

Ao dar-se, a mulher provoca nele uma forte emoção. Não é verdade que o sentimento dominante seja o orgulho por ter conseguido seduzi-la ou por ter conseguido humilhá-la, pagando-a. Claro, esses sentimentos existem, mas não têm a importância da emoção erótica da qual estou falando. Com o tempo, na verdade, não se lembrará mais da corte. Não se lembrará mais do pagamento. Nem da estória. Lembrar-se-á somente do ato erótico.11

Cegos de paixão, de uma paixão “adormecida por anos de isolamento”, os homens “trabalhavam indiferentes ao cansaço, à fome, ao sono: uma hora perdida podia representar incontáveis noites solitárias”. (2001: 35). A voz que narra a história descreve, minuciosamente, o estado de “pathos3” dos anões, como se pode ver:

Por ela sacrificaram tudo: honra, orgulho, dignidade, esse patrimônio do coração humano cujo valor está na inviolabilidade, em restar quietamente na treva.

Eles já não se reconheciam.

A antiga camaradagem desaparecera. Avaramente ocultavam o produto do trabalho de cada dia a ser depositado aos pés de Branca logo à noite.

Sequer se lembravam que haviam sido felizes.12

É importante estar atento à descrição emotiva feita pelo narrador, pois confirmará o ciúme, sentimento que Alberoni explica suas implicações:

No ciúme tememos que a pessoa amada prefira o outro a nós. Não devemos apenas defender o nosso objeto de amor da força do negativo, porque ele próprio é cúmplice desta força, é ele próprio esta força no momento em que escolhe o outro e não nos quer, subtrai-se ao nosso amor. No ciúme, portanto, a agressividade se dirige também contra a pessoa amada. Por isso dizemos que sentimos ciúmes de quem amamos.13

Nos instantes finais da narrativa de Márcia Denser, Branca de Neve queixa-se por vestir “trapos grosseiro” e de que nada adianta ter diamantes se encontra-se nesse estado. Arranca o corpete com um puxão, pisotea-o e atira-se na cama soluçando. Os anões tentam consolá-la, dizendo que ela “linda de qualquer jeito”, mas só atraem mais fúria à moça que num rompante diz: “—Vocês! Se não fossem vocês eu não estaria assim! Por que se agarram à mim? Por que não me deixam partir?” (2001: 36).

Após esse momento, Branca de Neve tem uma revelação: “— Alguém ... não sei quem ... está vindo — recomeçou num sussurro apagado — Vem num cavalo. Ouço-o há duas noites galopando ao redor das árvores.” (2001: 36). Os anões se entreolharam e perguntam se não foi um sonho e a moça responde que não sabe sonhar.

O ciúme como foi descrito por Alberoni toma conta dos amantes e esses, num medo frêmito de perder o objeto de desejo saem em busca da solução para o problema. O fim é trágico e alude ao retorno dos anões à casa — feita por Walt Disney. No desenho, os anões retornam e vêem Branca de Neve “morta”. No conto de Márcia, os anões colhem oito maçãs, envenenam uma para dar à moça — chave que serve tanto ao paraíso quanto ao inferno — como foi dito pelo narrador.

Assim, o conto de Márcia está carregado de elementos existentes nas versões de Branca de Neve, mas, neste, há algo de erótico, político e trágico. É, realmente, um conto de fadas para adultos. Agora, a “paz” reina na casa daqueles pequenos homens que tiveram suas vidas reviradas pelo símbolo do erotismo encarnada numa pele alva, de bochechas vermelhas e cabelos negros.



4. CONCLUSÃO

Com este trabalho, foi possível vasculhar o que há por trás do conto infantil. Pode-se perceber por que Branca de Neve encontra-se na lista das histórias de maior teor erótico de todos os tempos.

Tanto na versão dos irmãos Grimm quanto na versão de Márcia Denser lê-se a história de Branca de Neve como uma narrativa que suporta uma sensualidade natural capaz de encantar sete homens, sem contar o príncipe que está predestinado a salvá-la. Na primeira história ele consegue, mas na segunda não é tão feliz.

Branca de Neve é uma mulher que carrega em si, a inércia, a fantasia, o sexo e o luto. Ela simboliza o paraíso e o inferno. Dessa forma, Márcia Denser lê o conto de fadas. Dessa forma, pode-se ler Márcia Denser como uma escritora que como uma restauradora moderna retira as tintas à procura do íntimo, da origem da obra. Escava e encontra um erotismo que eleva à quinta potência a fim de fazer o interlocutor enxergar o invisível.

Por tudo que foi dito, entende-se que foi possível aguçar a curiosidade de todos a respeito do erotismo em branco e preto na narrativa de Márcia Denser e do dialogismo entre a escritora e o imaginário infantil proposto pelos irmãos Grimm e por Walt Disney.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBERONI, Francesco. O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret, 2002.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

CHARAUDEAU, Patrick. O ato de linguagem como encenação. In: Langage et discours: éléments de semiolinguistique. Paris, Hachette, 1983.

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio,2003

COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993.

______. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.

Contos de fadas: edição comentada e ilustrada / edição, introdução e notas Maria Tratar; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

DENSER, Márcia. Toda Prosa. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.



PAZ, Noemi. Mitos e Ritos de iniciação nos contos de fadas. São Paulo: Cultrix, 1989.

1 BEAUVOIR, Simone de. A mulher desiludida. Rio de Janeiro: O Globo, 2003. p. 190

2 BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret, 2002, p. 92.

3 A autora procura produzir emoção no interlocutor pela ação discursiva. Ela “torna emocionantes as coisas indiferentes”. “Em análise do discurso, esta noção é (de pathos), às vezes, utilizada para assinalar as discursivizações que funcionam sobre efeitos emocionais com fins estratégicos”. In: Dicionário de análise do discurso de Charaudeau e Maigueneau, p. 372.

1 PAZ, Noemi. Mitos e Ritos de iniciação nos contos de fadas. São Paulo: Cultrix, 1989, p. 18.

2 Contos de fadas: edição comentada e ilustrada / edição, introdução e notas Maria Tratar; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004, p. 86.

3 BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p. 241-242.

4 ALBERONI, Francesco. O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 48.

5 BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p. 249.

6 Contos de fadas: edição comentada e ilustrada / edição, introdução e notas Maria Tratar; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004, p. 99.

7 Contos de fadas: edição comentada e ilustrada / edição, introdução e notas Maria Tratar; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004, p. 253-254.

8 COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993, p. 252.

9 COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993, p. 250.

10 DENSER, Márcia. Toda Prosa. São Paulo: Nova Alexandria, 2001, p. 28 - 29.

11 ALBERONI, Francesco. O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 89.

12 DENSER, Márcia. Toda Prosa. São Paulo: Nova Alexandria, 2001, p. 35.

13 ALBERONI, Francesco. O Erotismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 154.






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