O espaço da escrita oralizada em guimarães rosa cléa Corrêa de Mello Doutoranda em Literatura Comparada – ufrj



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O ESPAÇO DA ESCRITA ORALIZADA EM GUIMARÃES ROSA

Cléa Corrêa de Mello

Doutoranda em Literatura Comparada – UFRJ

A literatura escrita híbrida, por outro lado, mais acessível à investigação científica, oferece ao menos uns vestígios do que pôde ser e é ainda o continente submerso das literaturas orais; ao mesmo tempo, sua própria existência atesta que entre os dois universos, o da escrita e o da oralidade, sempre houve zonas de contato, de conflito, de intercâmbio.

(LIENHARD, 1990, p. 58)1

Ao longo das últimas décadas, a obra de Guimarães Rosa tem estimulado extensa recepção crítica, fundamentada nos mais diversos aportes teóricos. Neste sentido, leituras esotéricas e metafísicas, estudos de ordem lingüística e filológica, bem como interpretações implicadas na dimensão histórica coabitam o espaço da crítica rosiana numa convivência por vezes atribulada, tendo em vista a diversidade das bases epistemológicas sustentadoras de cada vertente analítica. Até tempos recentes observava-se a hegemonia das duas primeiras linhas de abordagem – esotérico/metafísica e lingüístico/filológica - mas este cenário acha-se em contínuo processo de mudança, dada a consistência das inúmeras apreciações que resgatam o negligenciado viés da história na exegese do escritor mineiro.

Mesmo não preponderando, desde os pioneiros estudos de Antonio Candido, passando pelos de Walnice N. Galvão até os mais recentes de Willi Bolle e Heloisa Starling, uma tendência crítica tem encampado o desafio de compreender os nexos entre a investigação do texto de Rosa e a realidade brasileira. E, se a princípio as soluções literárias do autor de Corpo de baile traziam para a arena do debate temas como experimentalismo da linguagem, regionalismo versus universalismo, caráter nacional e brasilidade, os câmbios conjunturais que passaram a emoldurar a chamada Crítica Pós-Colonial ativaram uma agenda distinta, onde questões como hibridismo, modernidade sem modernização e heterogeneidade cultural irrompem, apontando insuspeitados encaminhamentos interpretativos.

A relevância destas novas frentes investigativas é justificada quando consideramos os horizontes abertos no conhecimento da complexa identidade da nação; porquanto, no contexto da Crítica Pós-Colonial, refletir sobre o discurso da nacionalidade significa postular que este não se constitui como algo estático mas, sim, como uma prática cultural vincada pelo entrecruzamento de sentidos, e em constante processo de reformulação. Daí porque, no lugar dos usuais enfoques das homologias com o sistema feudal, da nobilitação do sertanejo, do enfrentamento superficial da cordialidade do povo do interior e de sua violência, outras visadas despontam a respeito da obra de Guimarães Rosa, contrapondo-se a pesquisas de base essencializante.

Muito embora testemunhemos deslocamentos importantes no que tange ao exame das mediações de dados sociais e políticos realizadas pela ficção rosiana, que respondem, em grande parte, pelo reconhecimento de Guimarães Rosa como original intérprete da nação, alternativas estimulantes apenas começam a ser sugeridas quando se trata do estudo da inserção da oralidade no seu texto. É assim que observamos, desde as primeiras interpretações do papel do discurso oral na narrativa de Rosa, uma valorização do aspecto folclórico, cujo acento romântico identifica no registro dos relatos populares o alcance do genuíno “espírito” de um povo. Tais estudos veiculam, igualmente, um traço nostálgico, na medida em que compreendem que inserir enunciações orais no texto literário significa preservar do esquecimento um mundo em vias de desaparecer, articulando de um só golpe o efêmero próprio do discurso oral, e da realidade que o inspira.

Por outro lado, a crítica literária tenderia a compreender de forma paradoxal a incorporação da oralidade pelo universo da escrita, ao configurá-la como uma tentativa de conservar intocada uma herança das tradições autênticas e, ao mesmo tempo, desejando transformá-la para que o País acertasse o passo com a modernização imposta a outros setores da vida nacional. Por conseguinte, a leitura da narrativa de Guimarães Rosa como um ‘etnotexto’, capaz de virtualizar sistemas semióticos que resguardariam as contribuições de uma cultura fadada à destruição, incorporaria compromissos de engendramento de sentidos fixos e de identidades definitivas, travo conservador em nada condizente com as potencialidades multidirecionais da narrativa rosiana. Ou seja, por esta perspectiva, a escrita nos ofereceria uma memória do discurso oral do qual foram expurgadas as possibilidades de intercâmbio dialógico. Trata-se aí de uma memória do discurso oral convenientemente neutralizada enquanto estratégia de resistência, devido ao enquadramento temporal que a imobiliza peremptoriamente no passado.

Compreender a ficcionalização da oralidade em Guimarães Rosa nos parece fundamental no desvelamento não apenas de uma verdadeira “poética da voz” empreendida pelo autor, como permite que analisemos as implicações dos vetores selecionados ao longo dos anos para o estudo deste tema. Pois as estratégias de inscrição da oralidade na narrativa de Rosa são cruciais para a gênese de uma peculiar resposta discursiva ao desafio de representar esteticamente nossa heterogeneidade cultural.

As novelas de Corpo de Baile, por exemplo, urdem no entrecho narrativo o avatar de estórias da tradição oral contadas por seus personagens, de autos populares, e de canções. O recurso a estes elementos, para além da funcionalidade no que se refere à economia interna da ficção, viabilizaria a expressividade de um projeto estético-político empenhado em mediar o discurso oral de grupos subalternos, questionando as subordinações tradicionalmente estabelecidas por artistas e críticos entre o discurso oral e a escrita. Trata-se então de, no plano criativo, desestabilizar as práticas hierárquicas que sujeitam a oralidade à escrita, o popular ao culto, a multiplicidade à homogeneidade. Além disso, estas aproximações heterogêneas permitiriam uma rearticulação do social e do histórico no campo dos estudos literários, uma vez que o texto rosiano elaborou, como poucos, um discurso que conjuga contradições e antagonismos de nossa formação social.

O eixo metodológico de nossa leitura sobre a escrita “oralizada” de Guimarães Rosa, encontra ressonância nos objetivos e nas possibilidades incorporados recentemente à Literatura Comparada. Pois se o comparatismo tradicional caracteriza-se pela defesa de uma abordagem universalizante e pelo compromisso com um discurso apolítico, os novos paradigmas propõem uma moldura teórica distinta, empenhada basicamente na contextualização dos estudos críticos. De fato, a partir da década de 1970, a relativa estabilidade da Literatura Comparada é rompida por uma série de discussões a propósito de suas bases epistemológicas, levantadas, sobretudo, pelas propostas do Desconstrutivismo, dos Estudos Culturais e Pós-Coloniais. Estas linhas de pensamento introduzem no cenário comparatista uma agenda teórica e metodológica responsável por desestabilizar os antigos pressupostos de base ontológica. No rastro destas reorientações surgem estudos que problematizam o cânone literário, e concebem a noção de conhecimento como provisória, e a de verdade como historicamente circunscrita.

Outro apelo não menos importante refere-se à superação e ao remapeamento dos domínios potencialmente comparáveis pelo especialista em Literatura Comparada. A rigor, o que está em curso é um verdadeiro reordenamento deste campo, uma vez que o cunho interdisciplinar viabiliza as necessárias conexões na complexa rede de trocas culturais. Ou seja, as ferramentas conceituais procuram agora impedir a compartimentação das áreas do saber, dando margem a um profícuo diálogo transcultural. Portanto, o horizonte que se descortina para o comparatista concilia, numa convivência por vezes atribulada, as amplas perspectivas abertas por uma maior liberdade na sua arena de atuação, com os perigos de um campo de dimensões recém-ampliadas e potencialidades apenas pressentidas. Isto para não mencionar a inevitável desestabilização ou ansiedade provocada ao se terem desierarquizado as práticas discursivas sobre as quais a Literatura Comparada se volta.

Para investigar as estratégias narrativas, os pressupostos e as contradições que orientam a incorporação do discurso oral em Guimarães Rosa, podemos, ainda, considerar o aporte de valiosas pesquisas empreendidas por estudiosos da cultura latino-americana. Autores que, a exemplo do que fizeram Ángel Rama, ou Antonio Cornejo Polar, vêm se dedicando com criatividade e compromisso libertário, ao deciframento das culturas de países de passado colonial, vincados por heranças heterogêneas e por relações conflituosos entre a cultura escrita e a oralidade.

Investigações como as de Martin Lienhard interpretam o choque entre a cultura européia, com o seu “fetichismo da escrita” (LIENHARD, 1990, p. 20), e as culturas predominantemente orais dos autóctones, ou de outros segmentos subalternos. Para o autor, um conjunto de análises insinua que, na América Latina, o discurso dominante, europeizado e elitista, não expressou, e nem expressa realmente, a visão e a sensibilidade de amplos grupamentos marginalizados, desde a conquista até uma época mais recente. Esta linha de indagação também sugere a existência de expressões literárias “alternativas”, pois segundo Lienhard:

Esta “outra” história, a dos vencidos na conquista, dos que “perderam” não apenas a independência, mas também outras guerras posteriores (como a expansão latifundiária de fins do século passado), quase não se conhecia – exceto para alguns momentos excepcionais – até há pouco. Entre a imagem da sociedade pré-hispânica esboçada pelos arqueólogos-historiadores e a das subsociedades “étnicas” modernas tal como aparece na literatura etnográfica, mediava uma zona de obscuridade de séculos. A etno-história, nos últimos anos talvez a mais bem sucedida das ciências humanas, conseguiu, através de um trabalho paciente e imaginativo, reduzir esta zona e reconstruir, para algumas subsociedades e períodos relativamente longos, esta “outra história”. (Ibidem, p. 15) 2

Da mesma forma, perscrutando as complexas relações entre a palavra e a escrita, e ainda levando em conta o cenário de países de passado colonial da América Latina, encontramos o importante Escribir en el aire – ensayo sobre la heterogeneidad socio-cultural en las literaturas andinas, de Antonio Cornejo Polar. No preâmbulo, o escritor reflete sobre o choque, nem sempre sutil, entre o universo da oralidade e o da escrita, mormente num espaço onde este conflito metaforiza o embate entre o conquistador e o conquistado:

/.../ o que intuía era que o duro conflito entre a voz e a escrita, plasmado dramaticamente em 1532, continuava de algum modo vigente na cultura letrada andina, porém - com todo o peso que o paradoxo comporta – essa vigência se expressava na extensa e impossível nostalgia que nossos escritores sentem pela oralidade perdida, assumindo – quase sempre obscuramente – que na palavra falada reside a autenticidade da linguagem /.../. (CORNEJO POLAR, 1994, p. 235) 3

Empenhado em deslindar a heteróclita configuração das sociedades e das culturas latino-americanas, assim como a coexistência de variados e conflituosos ritmos históricos nos espaços nacionais, Cornejo Polar observa que, no funcionamento dos processos de produção de literatura, onde coexistam dois ou mais universos socioculturais, sob uma textura ocidental jazem formas de consciência e vozes nativas marginalizadas. Para o autor de Escribir en el aire, a condição colonial – que consiste precisamente em destruir no colonizado todos os vínculos que pudessem conferir sua identidade, através da imposição de subordinações desarticuladoras – explicaria a tendência para o obsessivo auscultamento do estatuto latino-americano. Cético quanto à possibilidade de se configurar um conceito único ou totalizador de sujeito latino-americano, suas análises apontam, ao contrário, para indivíduos que, oriundos de uma situação colonial, instalam-se numa rede de encruzilhadas múltiplas e cumulativamente divergentes.

Portanto, um ponto comum reúne os estudiosos que acabamos de mencionar: o entendimento da importância da oralidade, mesmo quando mediada pelo espaço da escrita, como veículo de expressão de grupos subalternos, e, por conseguinte, como espaço onde são administrados os conflitos gerados por relações assimétricas. A rigor, este é um veio analítico recente e distinto, sobretudo quando levamos em consideração as idéias conciliadoras que nortearam, em fins do século XVIII, e no século XIX, o estudo da cultura popular tradicional, e de seus vínculos com os movimentos nacionalistas.



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1 No original: La literatura escrita híbrida, en cambio, más accesible a la investigación científica, ofrece siquiera a unos atisbos de lo que pudo ser y es todavía el continente sumergido de las literaturas orales; al mismo tiempo, su propia existencia atestigua que entre los dos universos, el de la escritura y el de la oralidad, siempre ha habido zonas de contacto, de conflicto, de intercambio.

2 No original: Esta “otra” historia, la de los vencidos de la conquista, de los que “perdieron” no sólo la independencia, sino también otras guerras ulteriores (como la expansión latifundista de fines del siglo pasado), casi no se conocía – salvo para algunos momentos excepcionales – hasta hace poco. Entre la imagen de la sociedad prehispánica esbozada por los arqueólogos-historiadores y la de las subsociedades “étnicas” modernas tal como aparece en la literatura etnográfica, mediaba una zona de oscuridad de siglos. La etnohistoria, en los últimos años quizás la más exitosa de las ciencias del hombre, ha logrado, a través de un trabajo paciente e imaginativo, reducir esa zona y reconstruir, para algunas subsociedades y períodos relativamente largos, esa “otra historia”.

3 No original: /.../ lo que intuía era que el hirsuto conflicto entre la voz y la escritura, plasmado dramáticamente en 1532, seguía de algún modo vigente en la cultura letrada andina, pero que - con todo el peso que la paradoja conlleva – esa vigencia se expresaba en la extendida e imposible nostalgia que nuestros escritores sienten por la oralidad perdida, asumiendo – oscuramente casi siempre– que es en la palabra hablada donde reside la autenticidad del lenguaje /... /.


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