O espaço perceptivo da exclusão na mídia



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O espaço perceptivo da exclusão na mídia


Beatriz Marocco1

0A constituição do objeto discursivo


Através de uma arqueologia do discurso jornalístico, em trabalho anterior (MAROCCO: 1997), constatei a existência de uma certa regularidade no tratamento pela mídia de acontecimentos protagonizados por pobres e delinqüentes. Na dispersão das produções discursivas contemporâneas forma-se um arquipélago mediático que reúne, a despeito de suas diferenças, os excluídos da história, tanto por suas condições objetivas de pobreza quanto por seus atributos de delinqüência. Mesmo produzidos por diferentes jornalistas, em diferentes veículos, em épocas diferentes, os discursos homogeneizam o outro em objeto visível e condenam signos da experiência e certos discursos que dariam espaço a heterogeneidade ao limbo das coisas que não são ditas ou, quando ditas, são «denominadas», o que acarreta um silêncio no próprio ato de nomear. No caso da série sobre agricultores identificamos a denominação «sem-terra», que geralmente cesura a possibilidade de discussão sobre a questão fundiária, na medida em que toma por definitiva sua passagem de agricultor, colono, para sem-terra. Pobres e delinqüentes são construídos como objetos do discurso jornalístico. Através dos textos pouco sabemos sobre eles, como personalidades, a não ser por marcas que designam «facetas» sensacionalistas de suas figuras concretas descritas pelos jornalistas e pelas declarações de diferentes pessoas importadas para os textos. Quando mais violência houver, mais oportunidade terão de ser visibilizados. Seu cotidiano, sua identidade social, são elementos secundários em relação ao aqui/agora, mesmo quando se sujeitam às regras da formação discursiva - ou seja, quando oferecem elementos informativos próprios à concepção jornalística de notícia. Segundo a ótica mediática, os excluídos normalmente se confundem com o acontecimento que os transforma em notícia. Eles não têm história.

Diante da restrição do arqueólogo (DREYFUS e RABINOW: 1995, p. 62) a encontrar as regras locais de transformação que, num dado período, numa formação discursiva particular, definem a identidade e o sentido de um enunciado, e meu objetivo de transpor a descrição de uma formação discursiva para escrever uma história da exclusão, comecei a empreender movimentos em direção a algo que entendo como uma genealogia. Poder-se-ia, de outro modo, dizer que se trata, em uma primeira dimensão, de uma investigação sobre como o jornalismo "disciplinou" ou "sujeitou" e fixou, pela redundância diária, ao longo da história, determinados "tipos" necessários a uma "ordem" das coisas na sociedade. Em uma segunda dimensão, este reposicionamento vai possibilitar a análise dos conjuntos de discursos jornalísticos, literários, religiosos e éticos que evocam o problema da pobreza e da delinqüência, dentro da idéias foucaultianas das pluralidades das séries e descontinuidade.

Meu primeiro empreendimento foi o jornal «Gazetinha», editado no século XIX em Porto Alegre. Examinando exemplares disponíveis para consulta (1895, 1896, 1897 e 1898), fui organizando observações que vieram a reforçar as conclusões de meu trabalho anterior. Por exemplo: esse jornal homogeneiza como «inimigo social» tipos tão heterogêneos quanto prostitutas, jogadores, gatunos, «creanças» que vagabundeiam pelas ruas, etc. As condições objetivas - ou seja, as suas condições de pobreza - não são ditas. O homem ocupa o centro do acontecimento, geralmente no anonimato, e em situações dramáticas - delitos, histórias de pecado e insalubridade.

Encontrei alguns textos que descrevem a condição de pobreza dos trabalhadores, que estariam fora deste arquipélago mediático, porque o jornal é um «orgam dos trabalhadores», mas que acabam agregando os atributos da pobreza por inércia, ou seja, pelo lugar em que estão fixados na geografia da cidade.

Este trabalho sintetiza a leitura e organização em séries discursivas do jornal Gazetinha.

1O jornal Gazetinha


Ainda no processo de leitura dos primeiros originais uma regularidade foi sendo observada no discurso jornalístico. Na virada do século, mesmo um jornal como a Gazetinha, cuja retórica era a defesa do trabalhador, produzia estereótipos controvertidos que revelavam uma estranha vizinhança entre as palavras e os sentidos que produziam, por exemplo, sobre o trabalhador, o vadio, pobreza e delinqüência. A estratégia burguesa de isolamento em dois eixos distintos - delinqüentes/operários -, nesta época, é muito tênue, na medida em que a economia da cidade induz os operários a ocuparem os mesmos espaços geográficos da delinqüência.

A representação do operário como sujeito moral acaba sendo enfraquecida a partir de seu local de moradia, tipo de trabalho, aparência física e movimentos na cidade. Sua inserção na pobreza e na geografia da cidade o marginaliza.

A fabrica nos centros commerciaes obriga o operario a approximar-se delles, afim de não faltar á hora de serviço. Ali, porem, as habitações não estão ao alcance de sua bolsa, e elle é obrigado a alugar um cortiço.

(...)


A tuberculose, o typho, a diphteria, dizimão-lhe a familia e o medico e a botica sugam-lhe o magro salario.

(...)


Si, na epoca das epidemias, dissessem ao argentario: "Ali está o vosso inimigo - o assassino de vossos filhos - fugi delle, porque podeis"- de então em diante, ninguém o convenceria de que os cortiços eram necessarios, por ser uma fonte de receita de seus colegas.

Ass: João Mendes de Taquary (3 de junho,1897).


2.1 A construção dos delinqüentes


Prostitutas, jogadores, mendigos, gatunos, desordeiros são inimigos da moral pública, que habitam os subterrâneos da cidade e são descritos nos textos da Gazetinha como uma "legião" de tipos perigosos (exemplo 1).

Exemplo 1

Emquanto uns vivem sendo assaltados impunemente pelas ruas de nossa cidade, outros atiram-se de braços abertos aos prazeres do vicio. No emtanto a estes ninguem incommoda!

Semtam-se ás mezas de jogatina e ahi vivem em plena ociosidade de braços dados com os seus parceiros de tavolagem.

(...)

Não, o "Beija flor" perseguirá até onde possa todos aquelles que se desviarem dos são principios da moral, afim de que não appareçam mais vagabundos, jogadores e salteadores (1/8/1897).



Na posição de sujeito moral, que tem poder para produzir representações negativas dos delinqüentes e direcionar contra a delinqüência em geral verdadeiras campanhas de saneamento público, a Gazetinha contrapõe-se a este conjunto de tipos mal identificados. Via de regra a posição é monolítica e moralista, com o jornalismo se instituindo em instância de denúncia e julgamento da delinqüência, do estado, da polícia, e não reveladora dos problemas sociais.

A Gazetinha estampando hoje os retratos das victimas dos assaltantes de Porto Alegre, cumpre não só um dever para com os seus favorecedores como tambem aquelle de defender a causa dos opprimidos. (30 de setembro)

Numa genealogia deste processo moderno de moralização, jogadores e prostitutas são invariavelmente associados à idéia de "mau", enquanto "bom" é tudo aquilo que contribui para uma ordem social.

Outra estratégia empregada (exemplos 2 e 3) pelo jornal é identificá-los e combatê-los por grupos de pertença.

Exemplo 2

O jogador é um perdido para a sociedade; é mais do que isso é um prejudicial á elle.

Como um individuo atacado de enfermidade epidemica, elle torna-se prejudicial aos incautos com quem anda (...)

(...)


De jogador a ladrão vae um passo, de ladrão a assassino talvez nem isso...

Hoje, em cada canto da cidade ha (...) um antro de tavolagem (...); ha casas de jogos prohibidos, frequantadas assiduamente por pessos de todas as cathegorias, e todas as classes sociaes (...)desde o vagabundo ao ricaço que vive de rendimentos.

Joga-se escandalosamente nesta cidade (...) não sera admiravel que d'aqui a um lustro Porto Alegre fizer vantajosamente concorrencia a Monte Carlo. (3/9/1896)

Exemplo 3

(...) Bem sabemos que cahimos no desagrado dos habitues dos prostibulos conhecidos pelo significativo nome de maternidade, mas não importa; a consciencia de que prestamos um grande serviço á moral publica, que chamamos a attenção de muita mulher incauta que eventualmente possa ser attrahida aos immundos antros de perdição, é um poderoso incentivo para que prossigamos na ingloria faina de denunciar á policia as miseraveis pocilgas, onde o vicio da prostituição impera impunemente, com todo o seu negro cortejo de miserias e desgraças. (21 de novembro, 1897)

(...) A "Gazetinha" conforme dissemos em nosso penultimo numero, não descançará (...)emquanto não ver cortada de uma vez para sempre a cabeça da grande hydra da prostituição, que ora se levanta estendendo a cauda scibillante para todos os pontos da cidade. (27/2/1896)

Note-se quantas dessas desgraçadas mulheres que chegaram ao ponto de não ser nem solteiras, nem casadas e menos viuvas, transitam de continuo pelas praças e ruas (...)

Não se diga que estamos a phantasiar malles; isso que ahi citamos é visto quase que todas as noites na praça da Alfandega e na rua dos Andradas (...).

(...)

Acabe a policia com as taes bodegas que não são mais nem menos do que miseraveis antros do vicio e feoras de mulheres, e verão todos como o numero de messalinas reduzir-se-á consideravelmente. (26/3/1896).



Entendemos pois, que em primeiro lugar as visitas policiaes aquellas casas de má reputação devem ser feitas a noite, e de surpresa (...).

Não vae n'essas linhas uma licção á policia (5/4/1896)

Em algumas situações (exemplo 4), ocorre um desvio deste comportamento em relação à delinqüência. Mas, mesmo quando o sujeito protagoniza um acontecimento determinado, descolando-se da delinqüência em geral ou de seu grupo de pertença, a construção discursiva das circunstâncias reforça o estereótipo. Há um "formato" jornalístico para estes tipos, sujeitados ou não pelo discurso, que pode ser entendido como um processo de "sujeitamento" à mecânica jornalística.

Exemplo 4

Este sujeito, que vive de relações intimas com uma caftina que dá pelo nome de Marcolina, já não se contenta mais com o seu nojento e repellente commercio de prostituição, procura tambem explorar a roleta e consente em torno de suas mesas de jogo menores que são assim inconscientemente arrastados para o lodaçal do vicio e da perdição.

(...)


Este digno casal de lagartos, o portuguez e a sua creoula, é que devia ter cabido sob o cacete do Cazuza, que assim longe de ter praticado um crime teria prestado um não pequeno serviço á humanidade livrando-a de dois monstros mil vezes peores que o proprio Cazuza. (9/9/1897)

2.2 A representação do operário


O operário é o humilde; e o jornal diz-se a sua tribuna. Segundo MAUCH (1994, p. 9), a Gazetinha considerava perigosos gatunos, meretrizes, vadios e desordeiros e "todos os habitantes das zonas mais pobres da capital, que não se enquadravam no modelo do 'bom trabalhador' e que viviam em ambientes física e moralmente degenerados. Mas o "bom trabalhador" e a heterogeneidade de tipos excluídos repartiam o mesmo espaço público, nos cortiços em que moravam pela proximidade do local de trabalho, ou nas tabernas em que deixavam seus salários.

Pobres operarios!

Seus superiores os tratam como entes differentes dos de sua classe; suas familias vivem em cubiculos sem a miinima confiabilidade nem selecção; as tabernas sugam lhes os mesquinhos salarios! (Gazetinha, 29 de abril, no. 104).

Em alguns textos, o jornal reconhece que o bom operario, salário baixo, tem que morar nos cortiços próximos ao centro da cidade, onde estão situadas as fábricas. Este centro da cidade é construído como uma região homogênea e que é: 1. foco de desordens e de doenças infecciosas; 2. foco de baixeza, nas tavernas onde há jogo e prostituição; 3. foco de epidemia, nas ruas sujas e insalubres.

A fabrica nos centros commerciaes obriga o operario a approximar-se delles, afim de não faltar á hora de serviço. Ali, porem, as habitações não estão ao alcance de sua bolsa, e elle é obrigado a alugar um cortiço.

(...)


A tuberculose, o typho, a diphteria, dizimão-lhe a familia e o medico e a botica sugam-lhe o magro salario.

(...)


Si, na epoca das epidemias, dissessem ao argentario: "Ali está o vosso inimigo - o assassino de vossos filhos - fugi delle, porque podeis"- de então em diante, ninguém o convenceria de que os cortiços eram necessarios, por ser uma fonte de receita de seus colegas.

Ass: João Mendes de Taquary (3 de junho,1897).


2.3 A construção da polícia


A polícia é representada de diferentes formas no discurso da Gazetinha. Às vezes conivente, se misturando com os delinqüentes, às vezes incapaz de resolver os problemas de segurança na cidade. Raramente eficiente. Negativa ou positivamente ela está sempre ligada à idéia de ordem, mesmo quando não consegue mantê-la, o que parece importar é a disseminação da necessidade do controle policial.

Ao finalizar o artigo epigraphado Ó da policia! inserto no ultimo numero d'esta folha, prometem voltar ao assumpto.

(...)

Em nosso artigo demonstraremos o modo e o meio do policiamento (...)



Demonstraremos o modo mau porque é feito o policiamento por meio de praças agrupados nas esquinas das ruas, boquiabertos para o movimento e vitrines (...) e em outras ruas de palestra nas tabernas, tomando cana paga pelos vagabundos e frequentadores das mesmas. (Gazetinha, 15 de julho, 1897).

A Gazetinha representa o medo que o delinqüente provoca e a ameaça que representa à população.

O medico, receoso do cacete traiçoeiro, nega-se redondamente a nos acompanhar e o pharmaceutico não sabendo si quem batte fora é o homem do cacete, ou não, diz lá com o seu barrete de dormir; "melhor é não abrir", e morre lá quem estiver doente. (5 de agosto,1897).

É tempo de fazer uma limpa, varrendo das ruas de nossa capital todos estes typos extranhos, cujo viver é desconhecido, e dos quaes se recruta o elemento que traz a nossa cidade em constante sobressalto. (19 de agosto,1897).

Os crimes se succedem espantosamente (...)

Por toda a nossa cidade campeia o vicio impunemente.

Aqui as casas de libertinagem (...) ali os autores da mais desenfreada jogatina, algumas nas ruas mais frequentadas, sem que se acabe com estes covis da perdição. De dia claro, em plena praça d'Alfandega, um bando de ociosos e vagabundos, menores entre elles, leva horas e horas a jogar o osso. (19 de agosto, 1897).

Nas edificações em parte dellas não tem sido observado o codigo respectivo, pois que, grande numero de individuos requerem á intendencia para edificarem cocheiras ou galpões, e concedida que seja a licença, como é justo, os requerentes abuzam da negligencia da fiscalização municipal e essas cocheiras e galpões são mais tarde transformados em pequenos cubiculos, que alugam para moradia por bom dinheiro (...).

Esses improvisados casebres alem de tornarem-se fócos de immoralidades, tem o grave inconveniente de serem prejudiciaes á saude publica.

(...)


Outrossim peço-vos igualmente que me digas si sois conhecedor de certos fócos de jogatina ("roleta") existentes n'esta cidade nas ruas mais frequentadas e que funcionam todas as noites sem o menor escrupulo da autoridade (...).

Ass: Argus municipal 26/5/1897 (30 de maio,1897).

A Gazetinha preenche simbolicamente esse vazio de poder, que muitas vezes é associado à inoperância do estado, julgando, ditando punição ou dizendo ao cidadão o que fazer para se defender.

Aconselhamos mesmo ao filho da culta Germania que faça presente d'esta vibora de sobra ao sentenciado Cazuza, a fim de que este habil discipulo de Troppmann e de Pransini a submeta ao mesmo processo pelo qual eliminou o infortunado casal Capote. (11 de novembro, 1897).

O jornalista prega a justiça fora da lei, ou seja, que um assassino extermine, por exemplo, um pai que abusou da filha. Sugere que as pessoas andem com armas para se defenderem nas ruas, policia a polícia.

E indignação por lembrar que um crime monstruoso (...) fica sem punição; que o miseravel, o reptil social cuja satisfação de lascivia matou, de modo excepcionalmente horrivel, uma desgraçada innocentinha, um malaventurado anjinho (...) anda e, com certeza andará ainda em liberdade, a rir-se talvez do codigo penal (...) em vez de estar enjaulado como féra carniceira que é, lobo em quem se accordaram todos os mais ferozes instinctos de sensualidade! (4/6/1898).

Este digno casal de lagartos, o portuguez e a sua creoula, é que devia ter cabido sob o cacete do Cazuza, que assim longe de ter praticado um crime teria prestado um não pequeno serviço á humanidade livrando-a de dois monstros mil vezes peores que o proprio Cazuza. (9/9/1897)

Agora, pouco se nos dá que Pedro ou Paulo (...); agora mande-nos o dever, não trepidemos em dizer alto e bom som que a policia é inepta, que o cidadão em Porto Alegre para ter defendida a propria existencia precisa violar a lei, andar munido com qualquer arma e saber manejal-a, porque a instituição que é paga para garantil-o - a policia, não o faz. (1 de agosto, 1897).

E desde já pedimos á autoridade a quem está affecto o caso que proceda com toda energia, afim de poder livrar o arraial da S. Manoel, e immediações, das incessantes gatunices e tentativas disto (...) que bem denotam a organisação de uma quadrilha que age confiante na falta de policiamento sério. (18/4/1897).

De novo eis-nos na faixa de policiar a policia.

(...)

e senão, apreciemos o que se passa n'esta cidade e que parte da imprensa tem publicado a respeito de assaltos, espancamentos e roubos perpetrados em todos os pontos da capital, ultimamente, com muita especialidade nos arrabaldes. (30 de maio, 1897).



O jornalista diz diretamente ao intendente o que fazer, ocupa o "se" - reflexivo do poder.

(...) Que se faça ainda uma economia para os cofres publicos: que em vez de se pagar a quem capinar as ruas da cidade, sejam empregados nesse serviço os vagabundos, desordeiros e ébrios que forem presos durante a noite; com isso conseguir-se-ão duas vantagens: livrar dos vadios a sociedade, e economisar para o municipio; e para elles proprios, evitar a continuação da embriaguez e vadiagem. (13 de maio, 1897).


2.4 Um "novo" racismo


Negro e índio são tipos com pouca credibilidade, associados à vagabundagem e ao crime.

Entregue á policia, foi conduzido ao posto proximo onde deu o nome de Israel Antonio. É creoulo, moço ainda, diz ter sido praça do 26º batalhão do qual teve baixa por incapacidade phisica, durante a revolução.

(...)

Convém notar que, a pessoa a quem devemos os dados para esta notícia, o experto creoulo deu o nome de José Antonio.



(...)

No emtanto, a seu lado, onde se occultara tinha uma trouxa de roupa ensaboada que ali apparecera não se sabe como, pois umas vezes disse elle que um seu companheiro ali a esquecera e outras que encontrando-a no local aproveitara-se para travesseiro. (18 de abril, 1897, nº 101).

E, para se acabar de uma vez para sempre com essas tropelias, com esses roubos e com esses assassinatos, é de imprescindivel necessidade, não deixar correr a solta - certa classe de individuos que, sem modo algum de vida, enfestam as ruas de nossa capital sustentando finas cadeias de ouro e delicados manjares.

Urge tambem não fazer mão leve sobre esta malta desbragada de alguns homem de côr, sem officio definido, que de dia, se apegam ao nogento balcão das tascas, até a hora de trancarem as portas. (8/3/1896).

Temos de sobejo vagabundagem indigena, e pois desnecessario se torna que a nossa policia tolere a extranha. (19 de agosto, 1897).

O negro também aparece como vítima, mas ocupando uma posição inferior que o associa à escravidão.

Ao sr. dr. chefe de policia.

Esteve em nosso escriptorio ante-hontem o cidadão João Paulo, cosineiro, e relatou-nos a violencia de que foi victima, ha dias praticada pelo sr. Frederico Fitzgerald, director e cremos que tambem proprietario do conhecido Gymnasio S.Pedro, sito á rua Riachuelo.

(...).

O homem livre que não quizera trabalhar por preço modico (...) soffreu por isso um castigo aviltante; como se fosse um escravo, foi elle seviciado por esse senhor!!



(...)

João Paulo é homem de côr, é preto (7/6/1896).

Na quinta-feira ultima, foi inquerido na secretaria de policia o cosinheiro João Paulo, o infeliz que recebeu no physico a prova indubitavel dda brutalidade do director do Gymnasio S. Pedro. (14/6/1896).

Estamos informados que continuam as providencias policiaes (...). Esperemos o resultado das mesmas. (18/6/1896).

(...) e afinal nós prosseguiremos a pedir justiça (25/6/1896).

Os nossos leitores provavelmente hão de ter extranhado de ha muito tempo não lhes damos noticia alguma referente ás providencias (...) quanto ao crime de esbordoamento de que foi soffredor o infeliz João Paulo (...)

(...)

O inquerito acha-se finalmente em poder do dr. promotor publico. (23/7/1896).



Os estrangeiros devem ser braços para o trabalho.

(...) mas aqueles que vêm para cá com o fim unico de exercerem as artes liberaes, á estes, agradecemos a expontanea (...) porue aqui precisamos é de braços para a lavoura e não de elementos que primam em disputar do brasileiro a sua innata aversão aos trabalhos manuais. (19 de agosto, 1897).

Este atto de barbarie, de assassinato e latrocinio, que vai na gloriosa terra portugueza, enlutar o coração de ais extremecidos, de dedicações santas e affeições sinceras, contribuirá de algum modo para o nosso opprobrio, para a quebra dos nossos creditos de Povo civilisado e cheio de hospitalidade! (5/9/1897).

No mercado, ultimamente, se estabeleceu um grande numero de Arabes com taboleiros de pratibanda, onde diaria e comicamente expoem objetos de minima importancia.

(...)

Porem, os referidos Arabes, pouco a pouco vão sortindo os taboleiros com peças de fazenda. (...) essas fazendas (...) são vendidas com o seguro abatimento de 20%.



No entanto, quem soffre, quem zurze com as consequencias de um tamanho absurdo e de um tão visivel escandalo, posto em pratica pela massa estupida de estrangeirismo ferrenho, não é a intendencia, nem o povo; são justamente os legitimos negociantes dá quelle local. (12/4/1896).

Os brasileiros são um povo bom.

Nova attitude (capa)

Segundo provam os factos que diariamente occorem á luz meridiana, nós brasileiros somos um povo bom, compassivo e ordeiro. (26/4/1896).


2.5 A construção dos criminosos


No final do século, a Gazetinha mais qualifica do que descreve os tipos excluídos. Na reconstrução do "crime da Azenha", entretanto, a "identificação" de Ozorio Cazuza, as condições do assassinato e a história que o antecedeu são descritas longamente.

A Gazetinha traz hoje estampados nas suas columnas os retratos do autor e das victimas do pavoroso crime da Azenha.

Ozorio Cazuza, o feroz bandido e assassino do infortunado casal Capote é, a nosso vêr, um genuino producto do meio em que viveu e cresceu.

(...)


Mas, trata-se de um criminoso tão perverso, tão hediondo, tão vil e traiçoeiro, que crime seria todo e qualquer acto tendente a minorar a pena que fatalmente deve ser imposta a este aleijão social.

Ozorio Cazuza

É filho natural de Anna Cazuza, diz ter dezenove annos incompletos e nasceu na Cruz Alta.

É um rapaz moreno, acaboclado (...) e tem phisionomia bastante sympattica.

(...)

Foi sargento de um corpo civil na epocha revolucionaria (...)



Posteriormente esteve empregado em Santa Maria (...)

(...) foi algumas vezes á casa de Capote e ahi esteve de novo, no dia 11, dia em que perpetrou o crime (...)

(...) confessou ter depois da porretada que prostrou Capote ido a cosinha e matado a esposa daquelle e na volta como este ainda estivesse estrebuchando, degollou-o matando-o incontinenti. (5/9/1897).

Pode-se observar um comportamento semelhante na narrativa de um suicídio.

Pabst, assim chamava-se aquelle homem, pouco tempo depois tornou-se noivo da inexperiente moça, e assim, foi captando a confiança absoluta da noiva, até que um dia... tornou-a completamente desgraçada.

(...)


Paulina, não podendo resistir á vergonha a que o procedimento ignobil do Pabst expunha-a, suicidou-se...

(...)


Ella amava ardentemente a um homem... e preferiu esconder a sua deshonra no silencio de morte, do que expor-se á gargalhada infamante das multidões das praças que, avidas (...) de curiosidade, a tudo querem devassar (3/11/1895, capa).

2.6 A construção da cidade


Porto Alegre é representada pela Gazetinha como uma cidade insegura, insalubre, amoral e pobre, onde os espaços de exclusão ainda estão pouco marcados. A população circula livremente no centro, o coração da cidade, onde pode viver e morar.

Este povo do século XIX tem o sentimento muito forte de que o espaço público lhe pertence. (PERROT: 1992, p.123).


2.6.1 A cidade insegura


A capital do Rio Grande do Sul parece mais, hoje em dia, um escondereijo de bandidos do que a primeira cidade de um estado civilisado (1 de agosto, 1897).

Dia a dia (...) estão os jornaes a noticiar aggressões a transeuntes durante a noite, algumas das quaes em pontos não muito distantes do centro da cidade.

(...) Durante o dia temos policia (...) para multar, principalmente, porém á noite ella é avis rara no centro da cidade depois das dez horas, e desapparece completamente dos suburbios deixando-os á mercê dos vagabundos, dos gatunos e dos salteadores de estrada.

Em a noite de 2 do corrente um pobre operario italiano, mais de 60 anos e de nome Pedro Miliarellli, tendo adormecido no mercado de peixes, junto á uma das bancas, ahi foi saqueado em centos e tantos mil réis sendo que, além disso, para glorioso fecho de obra, foi esbordoado barbaramente.

(...)

Em uma das primeiras noites d'esta semana, também foi saqueado um empregado da Companhia Carris de Trens Porto Alegrense, no caminho do arraial do Parthenon.



(...)

Estamos na antiga Calabria. (9 de maio, 1897)

Repetidas agressões, assaltos, assassinatos, etc.etc., têm occupado a attenção popular, tomada de justa sorpresa.

(...)


Os desordeiros são recolhidos á cadêa municipal; lá ficando "no molho" dois ou tres dias, sahindo após esse tempo e vindo cá fóra de novo revolucionar a pacatez da cidade (12/1/1896)

A capital do Rio Grande do Sul parece mais, hoje em dia, um escondereijo de bandidos do que a primeira cidade de um estado civilisado (1 de agosto, 1897)

Porque que Porto Alegre já não é mais a pacifica capital do ordeiro estado do Rio grande do Sul, parecendo-se antes com alguma cidade turca, entregue aos salteadores (...)

Ass: Arminio (1 de agosto, 1897)


2. 6.2 A cidade insalubre


O estado sanitario de nossa cidade é pessimo, e vae, de dia a dia, tornando-se assustador.

O numero de obitos é enorme, relativamente a população da cidade.

No dia 7 do corrente elevou-se a mortalidade á asustadora cifra de 25, quando é sabido que o total da nossa população não atinge a 70 mil almas.

A média de casos de morte, que ultimamente eram quando muito de doze, tem augmentado progressivamente na estação calmosa (...)

O tipho, a cholerina e a diarrhéa choleriforme (...) estão grassando com intensidade (...).

Além dessas, as tropas que regressaram de Canudos trouxeram-nos a variola (...).

É necessario que o distincto funccionario, que se acha a testa da adminstração municipal, encare com seriedade o grande perigo (...).

(...)


Espalhados por todo o vasto perimetro da cidade existem innumeros casebres sem ar e sem luz, impregnados de atmosphera insalubre (...).

Convinha pois uma severa e constante fiscalização nessas immundas espeluncas (12 de dezembro, 1897).

Quando nas horas mais quentes do dia nos refugiamos no nosso gabinete de trabalho, para escrever (...) ouvimos muitas vezes um som (...) da corneta: é um vendedor ambulante de sorvetes, ou por outra, um fabricante indireto de molestias.

(...)


Todos nós sabemos quanto o gelo é prejudicial á saude quando tomado em estado de cansaço e fadiga! (19 de dezembro)

Elevada a immundicie nas ruas á altura de um principio (...) nos vemos obrigados a estabelecer nesta folha uma secção especial onde iremos notificando quaes os lugares para onde os supra-mencionados srs. (...) finca-multas devem aproar os seus mal educados narizes, afim de providenciarem melhor quanto á limpesa da cidade.

(...)

Comecemos pois o serviço da nova secção:



A praça Pinto Bandeira (...) devia deixar de ser denominada assim, para chamar-se simplesmente praça do lixo. (16 de dezembro, 1897).

E aproveitamos a occasião para chamar a attenção dos srs. fiscaes da intendencia para o desaceio da referida rua General Paranhos ou beco Poço; as calhas acham-se quasi sempre cheias de porcarias (5/3/1896).

(...) Fócos de infecção encontram-se espalhados por todo o vasto perímetro da cidade... (24/5/1898).

(...) Quereis saber, leitores, o que é immundicie lucrativa?... São os innumeros casebres, e habitações subterrâneas (vulgo porões); para vergonha de nossa capital espalhados por toda a cidade e habitados pelos infelizes desprotegidos da fortuna, onde os sexos e as idades se confundem em revoltante promiscuidade, sem ar sufficiente, sem luz, verdadeiras jaulas de féras, emfim e que os sordidos proprietarios alugam a esses infelizes por preços exorbitantes. (2/6/1898).


2.6.3 A cidade amoral


Diariamente a imprensa noticia desordens (...) succedidas em muitas das espeluncas que em tão grande numero existem nesta cidade (12/3/1896).

Porque em lugares onde reunem-se ebrios e vadios, a ordem não póde permanecer inalteravel.

Porém é preciso que comprehendam que o nosso intuito não é unicamente ativar a execração social o criminoso da lesa-moral; a nossa intenção é mais extensa, alcança um fim nobre: queremos que se evite a facilidade com que a immoralidade abriga-se e desenvolve-se por todos os pontos da capital. (s/d, 1896).

E por falar em indigentes, lembrem a sabia policia municipal o grande numero de vagabundos que andam esmolando por estas ruas (...)

Diariamente vem pelas ruas da capital um robusto italiano, conduzindo pela mão um rapaz cégo, que, dedilhando uma sebosa sanfona anda de porta em porta esmolando. (12 de agosto, 1897).

Porque assim, com um pequeno passeio pela Praça da Alfandega, o sr. intendente verá que como d'antes, continua alli a jogatina do osso entre cocheiros, engraxates e quanto vagabundo apparece por aquellas immediações. Vera tambem que a sua imprestavel "administrativa" contempla philosophicamente o vicio que ali campeia impunemente, ou porque faça parte da jogatina ou porque se acobarda ante a sanha dos vagabundos. (15 de agosto, 1897).

A côrte do crime, - assim devia chamar-se o sinistramente celebre arrabalde d'esta cidade e que é conhecido pela denominação de Colonia Africana. (1/3/1896).

(...)


A dois passos da capital, ali ao lado de um arrabalde concurridissimo como é o dos Moinhos de Vento, estabeleceu-se um quartel general de bandidos (1/3/1896).

Na quadra do referido becco, entre as ruas Andrade Neves e Riachuelo, existem duas bodegas que acham-se seguidamente cheias de vadios e vadias que, na falta de qualquer occupação proveitosa, passam o dia e até alta noite fazendo algazarra (5/3/1896).

Mulheres (...), algumas das quais já tem o nome registrado no livro da cadêa, soldados, marinheiros (...) e paisanos de infima classe, levam, á porfia, a depravarem-se mais ainda e a prejudicar o transito publico (5/3/1896).

Ainda na segunda-feira última duas creoulas, sem casaco e sentadas á beira da calçada, divertiam-se a proferir obscenidades (5/3/1896).


2.6.4 A cidade pobre


É inacreditável que em Porto Alegre (...), nas mais frequentadas ruas da bella cidade encontre-se a cada passo, homens, mulheres e crianças implorando a caridade publica! (1/3/1896).

Mulheres (...) vagam pelas ruas, não em busca de um trabalho honesto que poderiam facilmente encontrar, pois muita falta nos fazem pessoas do serviço; mas pedindo descaradamente, sujeitando-se a propostas aviltantes, capazes de fazer corar a messalina mais desavergonhada. (...)

Temos tido occasião de ver meninos em cujo olhar brilha o sagrado fogo da intelligencia instigados por seus paes ou alguem por elles, a penhorarem as ultimas moleculas do brio e pedirem um pedaço de pão para matar a fome. (...)

Esses entezinhos que deviam ser recolhidos a asylos ou entregues a pessoas caridosas que, além da nutrição corporal, pudessem dar-lhes a instrucção necessaria para formal-os cidadãos uteis a si e á sociedade, vegetam por essas ruas pedindo em quanto forem pequenos e roubando depois de grandes.

Da vagabundagem ao roubo medeia apenas um passo!

(...)


Faça a nossa policia qualquer coisa semelhante e em breve ficará Porto Alegre livre do espectaculo repugnantede ver passearem pelas ruas vagabundos e mendigos. (26/maio/1898).

2.7 A representação das crianças


No final do século XIX a criança ocupa duas posições no discurso jornalístico. Ou faz parte dos grupos que vagabundeiam pelas ruas, ou é vítima de estupro.

Temos por demais falado sobre estas creanças vagabundas que por ahi existem empregando dias inteiros na famosa jogatina.

(...)

Infelizmente a educação adoptada hoje, na sua generalidade, está muitissimo corrompida e é a causa predominante d'estes maltrapilhos que por ahi existem entregues não só a jogatina como tambem a vicios libidinosos e perversos.



(...)

Que sejam punidos esses que dão o exemplo e que essas creanças cujos paes não têm posses para dar-lhes a devida educação sejam matriculadas em nossos arsenaes d'onde poderão sahir uns homens uteis a si e á sociedade.

(...)

A area comprehendida entre as ruas (...) possue um grande morro o qual tem uma estrada pela rua Clara.



É esse o logar predilecto d'essa malta que não tem outra occupação que não seja a do vicio.

Ali reunem-se quotidianamente muitas creanças acompanhadas tambem de algumas praças e entregam-se o dia inteiro ao jogo do osso, do vintem e mesmo muitos outros para os quaes andam habilmente preparadas.

(...)

É pois em nome dos moradores d'estas circumvizinhanças que solicitamos um corretivo não só aquellas creanças viciadas (...). Já esse morro não é só o theatro dos vicios e das depredações sem nome e sim guarda das maiores offensas á moral e aos bons costumes. (3/10/1897).



Não tem outro qualificativo o procedimento de um homem que para ter um momento de goso, experimentado muitas vezes com auxilio de brutalidade, agarra uma innocente creança e a obriga a ceder aos seus desejos carnaes. E isto se reproduz contnuamente como se fosse uma epidemia e peior que o cholera-morbus que atira no tumulo milhares de vidas preciosas.

Ainda ha pouco veiu ao nosso conhecimento que na cidade de S. Leopoldo um pae vivia amancebado com sua propria filha e dessa pouco escrupulosa juncção haviam nascido tres pobres creanças todas defeituosas. (28/10/1897)

Quinta-feira chegou ao nosso conhecimento de que na rua da Floresta existia um pae asqueroso e perverso que abusava de suas imnocentes filhas, creanças menores, para a saciação de seus instinctos libidinosos.

(...)


Entregue a menina Julieta de 10 anos ao sr. dr. Sebastião Leão para proceder o exame medico-legal reconheceu este não haver nenhum fundamento na declaração da avó d'aquella pobre creança. (7 de novembro)

Alguns dos orgams de nossa imprensa (...) atiraram á publicidade a noticia de que o allemão gustavo Heinrich fôra recolhido á prisão por ter praticado repugnante crime de incesto com duas filhinhas suas impuberes.

(...)

Também as meninas (...) declararam que seu pae era innocente.



(...)

Aconselhamos mesmo ao filho da culta Germania que faça presente d'esta vibora de sobra ao sentenciado Cazuza, a fim de que este habil discipulo de Troppmann e de Pransini a submeta ao mesmo processo pelo qual eliminou o infortunado casal Capote. (11 de novembro,1897).

Fazem dois meses que, nas colunas da Gazetinha, noticiamos um grave crime de estupro praticado em uma infeliz menina (...); fazem dois meses que trouxemos a publico o conhecimento dessa hediondez repulsiva, para a punição da qual tinha e tem ainda a sociedade inteira o direito de esperar (4 de junho, 1898).

2Conclusões


Existe uma vizinhança instigante entre o discurso jornalístico da Gazetinha e a idéia de FOUCAULT (1995, p. 251) sobre os processos necessários (legalidade de base) para separar as classes populares dos delinqüentes. Esta legalidade de base levada a termo pelos jornais consistiria na disseminação de regras elementares da propriedade e da poupança; treinamento para a docilidade no trabalho, para a estabilidade da habitação e da família; etc. Aos jornais e mais especificamente ao noticiário policial, segundo ainda FOUCAULT, coube descrever os delinqüentes com contornos bem determinados, apresentando-os como bem próximos, presentes em toda parte e em toda parte temíveis.

“A notícia policial, por sua redundância cotidiana, torna aceitável o conjunto dos controles judiciários e policiais que vigiam a sociedade; conta uma espécie de batalha interna contra o inimigo sem rosto.” (FOUCAULT, 1995, p. 251).

Entretanto, para quem se propõe a empreender uma história da exclusão, o caminho é bem mais árduo e estes resultados indicam apenas pontos de partida para novos movimentos. Há grandes interrogações. Embora aparelhos para moralização das classes populares, jornais dos séculos XIX seguidamente instalam pobres e delinqüentes num novo espaço perceptivo. Em que momento a exclusão que parece reunir pobres e delinqüentes recebe o estatuto de objeto do discurso jornalístico? Quanto à linguagem, a partir de qual modificação semântica ou sintática pode-se reconhecer que a exclusão passou a discurso racional? Como outros discursos - literário, religioso, econômico, ético - tratam o problema da pobreza e da delinqüência? O que estes enunciados heterogêneos, que emanam de grupos sociais e institucionais diversos, dizem sobre pobres e delinqüentes? É possível mostrar por qual jogo de articulações estas séries são recompostas numa figura epistemologicamente coerente do excluído? Como articular o que vem sendo enunciado numa base histórica à história do presente?

Crônicas, textos jornalísticos, sermões religiosos deverão ser esquadrinhados para que na seqüência de meu trabalho, seja possível apreender os discursos, suas transformações, os deslocamentos de tônica, a dominância discursiva. Estes movimentos poderão definir o lugar que ocupa o jornalismo e ocupa ou não mais ocupa a igreja, a literatura, nos discursos sobre pobreza e delinqüência. Poderão definir como desfez-se o espaços perceptivo da pobreza e da delinqüência e como especificou-se o novo espaço perceptivo da exclusão. Neste espaço, a dominância religiosa e a dominância ético-econômica, que caracterizaram os discursos sobre a pobreza nos séculos XVI e XVIII, perdem terreno para a figura do a-social violento, independentemente de sua condição objetiva de pobreza ou delinqüência. Nesse novo espaço, as idéias tradicionais sobre pobres e delinqüentes produzidas pela religião (imagem e semelhança de Deus), da economia (força de trabalho), da sociedade (moral, ordem pública e saúde) que ora separam ora fundem pobres e delinqüentes, ao longo da história, confluem nos discursos contemporâneos para uma equação: pobre=crime=violência.

Tal história da exclusão certamente representará avanços no entendimento da disseminação do medo em relação ao pobre.

Referências bibliográficas


FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1995.

MAROCCO, Beatriz. Zona de sombra. Sobre histórias da exclusão contadas pela mídia. Porto Alegre: PUCRS, 1997. Dissertação de Mestrado.

MOLLAT, Michel. Os pobres na Idade Média. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1989.

NIETZSCHE. A genealogia da moral. Lisboa: Guimarães & Cia Editores, 1976.

PERROT, Michelle. Os excluídos da história. Operários, mulheres, prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

RABINOW, Paul, DREYFUS, Hubert. Michel Foucault. Uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

ROBIN, Régine. História e linguística. São Paulo: Cultrix, 1978.

RÜDIGER, Francisco. Tendências do jornalismo. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1993.



VARGAS, Anderson Zalewski et alii. Porto Alegre na virada do século. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1994.

1 MS-PUCRS, professora e pesquisadora da Unisinos.



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