O espelho Esboço de uma nova teoria da alma humana Tema



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O Espelho

Esboço de uma nova teoria da alma humana

Tema
O conto discute a existência de duas almas, ou seja, da duplicação da alma humana, sendo uma que tem valores externos e sempre muda e outra que é a interna e imutável. Além disso, uma não pode existir sem a outra.
No conto existem vários exemplos de almas exteriores e interiores, e as mudanças sofridas ao longo da vida de alguém. Os exemplos, somados a história contada por Jacobina servem de argumentos que sustentam o tema.


Resumo

A história narrada acontece durante a noite, em uma casa situada no morro Santa Teresa, onde “quatro ou cinco cavaleiros debatiam várias questões de alta transcendência”. Na verdade eram quatro cavaleiros que discutiam amigavelmente, enquanto um dos homens, chamado Jacobina, apenas escutava.


Jacobina permanecia em silêncio, pois nunca discutia, já que pensava que a discussão era a forma contida do espiruto guerreiro do homem. Porém naquela noite, um de seus amigos contestou tal argumento contra a discussão, desafiando a Jacobina prová-lo.
O homem começou a falar, até que a conversa chegou na natureza da alma humana. Para falar sobre o assunto, Jacobina disse que contaria uma história vivida por ele e que, como não discutia, exigia ser ouvido sem contestações. Com a história, o homem iria provar a existência de duas almas.
Então Jacobina conta que quando rapaz se tornara alferes aos 25 anos, nomeação considerada importante na época. Era pobre, mas o fato de ele ter sido condecorado com o “status” de alferes foi motivo de enorme alegria para sua família (e de inveja para alguns). Sua tia Marcolina convidou-o para passar uns dias em seu sítio, sempre o chamava de “seu alferes” e o cercava de mimos e realizava todos os seus desejos, além de ter mandado colocar um grande espelho em seu quarto. Tal espelho era considerado uma relíquia. Tudo corria bem, até que sua tia Marcolina recebe notícias da doença de sua filha e viaja para vê-la, deixando-o sozinho com os escravos.

Jacobina sentiu uma grande tristeza, apesar dos escravos o tratarem muito bem. Mas no dia seguinte Jacobina estava só, os escravos haviam fugido, e com eles todos os mimos, não havendo ninguém mais no sítio que o chamasse de alferes ou o elogiasse constantemente, assim, sua auto-estima decaiu.


Jacobina perdera então sua motivação para a vida.Tinha medo de se olhar no espelho. Não era mais possível ver sua imagem refletida no grande espelho. Sua imagem era agora difusa, e sua figura era completa apenas nos sonhos (segundo ele, porque o sono eliminava a necessidade de uma alma exterior, aflorando sua alma interior).
Até que ele tem a idéia de colocar a farda e olhar-se diante do espelho. Assim fardava-se uma vez ao dia e se punha diante do espelho, retomando sua identidade. Ao terminar de contar a história, Jacobina deixa o local sem dar nenhuma explicação a mais para seus amigos.

Análise dos Personagens e Narrador

O principal e único personagem caracterizado no conto é Jacobina. O cavaleiro é extremamente ponderado, buscando sempre favorecer aos dois lados para que nenhum saia perdendo. Portanto não discutia e era um moderador das discussões, assim como os “serafins e os querubins”, os quais ele toma como exemplo para justificar o seu espírito avesso à controvérsia.


O narrador do conto é em terceira pessoa, pois não se inclui na história, e onisciente, já que tudo sabe sobre os personagens tanto física como psicologicamente.


Características e Visão de Mundo de Machado de Assis
Um dos aspectos do conto que mais chama a atenção é a citação de outros escritores e poetas famosos, característica observada muitas vezes nos contos de Machado. Em “O Espelho” há a citação de uma obra de Shakespeare, Shylock de “O Mercador de Veneza”. Ha também referência a um poema do inglês Longfellow, “Never forever – forever never!”
Outra característica que deve ser observada é o uso de personagens históricos importantes nos exemplos dados por Jacobina durante a explicação da alma exterior, quando fala de Camões, Júlio César e Oliver Cromwell. O fato mostra o que Machado de Assis possuía um grande nível cultural e procurava demonstrá-lo através de citações como essas.
Além disso, é possível perceber o uso do francês e do inglês em algumas passagens do conto. O que também demonstra grande conhecimento, já que na época eram essas as línguas dos principais pensadores e intelectuais.
No conto é apresentada a visão pessimista de Machado, o próprio corrompimento e ilusão de glórias e poder almejadas por Jacobina são um exemplo na descrença do autor nos humanos e em seus valores.
Também há a colocação da contrariedade de Machado com as ideias evolucionistas de Darwin e positivistas de Comte. As especulações feita sob a alma sem fundamentos ou ideias claras são criticas diretas ao tipo de ciência influente em sua época.

Hábitos Sociais do Século XIX

É possível encontrar características típicas do século XIX em algumas passagens do conto. O próprio titulo de alferes é um ótimo exemplo, afinal, denomina um antigo posto militar, cuja função era a de transportar a bandeira ou estandarte, além de mais algumas responsabilidades.


Além do antigo titulo militar a existência de escravos na fazenda da tia de Jacobina também exemplifica a época em que se passa o conto.

Como Machado viveu no período em que a escravidão estava em seu fim, era comum que existissem poucos escravos em propriedades não tão grandes como os engenhos. Além disso, as fugas desses escravos também estavam mais comuns, assim como é relatado por Jacobina durante a sua história.


O uso de línguas estrangeiras, além de demonstrar conhecimento de Machado, reflete um habito da época, pois quem falava inglês e francês tinha seu “status” elevado. Afinal tudo vindo da Inglaterra e França era espelhado aqui no Brasil, visto que tais países europeus “estavam na moda”.


Ironia e Título do Conto

A ironia começa já no titulo. No conto, tudo é reflexo, nada é verdade. Desde o clima da casa “cuja luz fundia-se misteriosamente com a lua que vinha de fora”, até o aspecto fantástico que assume a história do alferes, o conto parece ser uma especulação ("esboço") nada séria sobre a fragilidade das ideias sustentadas pelo materialismo científico da sua época.


“O Espelho” seria então, através do recurso da ironia, uma forma de desmascaramento da sociedade e, mais especificamente, dos defensores do cientificismo positivista. Ou seja, através da ironia Machado ridiculariza os brasileiros que tentam copiar (espelhar) os europeus, discutindo física e metafisica.
Outro fato que contêm ironia é o modo amigável e despreocupado que os cavaleiros discutem as “questões de alta transcendência”, como se falar sobre “os mais árduos problemas do universo” fosse tão simples e comum quanto discutir sobre política ou até mesmo futebol nos dias atuais.
O nome do personagem principal também é irônico. A aproximação com o vocábulo “jacobino” é uma clara ironia machadeana, pois este vocábulo alude aos revolucionários franceses, designando alguém combativo e radical, características estas totalmente opostas ao caráter pacífico e mediador de Jacobina.


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