O estado do Maranhão, V. 15639, p. 04, 11/09/2004. A democracia chilena ferida de morte



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A democracia chilena ferida de morte. O Estado do Maranhão, v. 15639, p.04, 11/09/2004.
A democracia chilena ferida de morte (Por um outro 11 de setembro)
Sempre que os meios de comunicação fazem alusão a uma “data histórica” ou a um “momento histórico” é importante que haja uma reflexão acerca do que se entende por histórico. Histórico é algo importante, diriam alguns, mas ainda assim caberia uma segunda reflexão: quem ou o que determina esta “importância” e a elenca como histórica?

Desde crianças nos deparamos com livros didáticos de História que narram, pretensamente, a história de toda a humanidade. Mas através de quais critérios? O que é histórico e, automaticamente, o que não é? Mesopotâmios, egípcios, hebreus, persas, fenícios, gregos, romanos, franceses, portugueses, espanhóis, ingleses, alemães e ... norte-americanos desfilam nestes materiais como sendo os povos “mais importantes” do seu tempo. Aliás, no tempo em que vivemos a história “mais importante” é a norte-americana. Sem me alongar nesta questão, é possível afirmar que a história difundida e massificada obedece critérios políticos e econômicos.

Mas por que esta discussão inicial? Hoje, dia 11 de setembro de 2004, será lembrado pelos meios de comunicação de boa parte do mundo como a data que marcou os três anos do ataque às torres gêmeas do World Trade Center. Já está decidido pelos “detentores da memória” que este episódio transformou-se num fato histórico importante. Mas por que? Pela morte de mais de três mil pessoas? Sem negar o aspecto humano da tragédia, as guerras civis que sangram o continente africano a décadas registram um número de mortos muito superior. Mas a África é histórica? E o que dizer da América Latina com suas ditaduras sanguinárias entre os anos 60 e 80 (amplamente apoiadas pelos norte-americanos que hoje, em nome da paz, espalham instabilidade pelo mundo) - para não citar nossas tragédias cotidianas...

Por falar em América Latina, hoje, dia 11 de setembro de 2004, faz 31 anos que as tropas do general Augusto Pinochet invadiram o palácio de La Moneda, assassinando o então presidente Salvador Allende (morto após bombardeios efetuados por aviões da aeronáutica chilena). Alguém, à exceção dos chilenos, lembrará esta data?

Salvador Allende foi eleito presidente do Chile em 1970. A Unidade Popular, frente composta por comunistas, socialistas e setores progressistas da Igreja Católica, chegou ao poder após décadas de tradição democrática no processo eleitoral chileno, fato bastante incomum ao restante da América Latina neste momento. A então recente trajetória da história política chilena (marcada, por exemplo, pela não intervenção direta das Forças Armadas no processo político) foi determinante na formulação de uma certa concepção de socialismo, bem como dos caminhos para alcançá-lo. Embora enfrentando a oposição de setores da Unidade Popular, Salvador Allende tentou implementar aquilo que ficaria conhecido posteriormente como “Via democrática para o socialismo”, ou seja, um gradativo processo de democratização social aprofundado à medida que a população chilena compreendesse e apoiasse a proposta de um novo país.

No entanto, os grupos prejudicados pela nova orientação política, dentre eles as empresas norte-americanas que atuavam no país e o exército, guardião do conservantismo e da ordem capitalista, deram início à chamada desestabilização do governo Allende, forma moderna de intervenção política largamente utilizada posteriormente pelo governo de Ronald Reagan em relação à Frente Sandinista de Libertação Nacional, que chegara ao poder na Nicarágua em 1979.

Desestabilizar significou, no contexto chileno, provocar focos diários de incêndio (greves, retirada dos investimentos, bloqueio de novos empréstimos, notícias sobre a violência governamental e relatos acerca da frustração da população em relação ao novo governo...).

Á medida que as expectativas populares por grandes mudanças se esvaíram e este vácuo não foi ocupado pelos setores mais tradicionais da política chilena, o exército, sob o comando do general Augusto Pinochet apoiado pelo governo norte-americano de Richard Nixon, assumiu o poder em 1973 anunciando um “novo tempo na história do Chile, a verdadeira revolução”.

As palavras da historiadora chilena Ximena Barraza sobre os tempos de Pinochet representam a importância de se lembrar, nesta data, de uma outra história, pouco difundida no seio da população latino-americana, mas fundamental para uma reflexão sobre a forma como nos constituímos historicamente: ”A tortura é expressão privilegiada da violência. Pois ainda, como terror latente, está sempre presente. Este saber interiorizado, esta antecipação subconsciente do horror, canaliza o poder. Sobre a tortura levanta-se e caminha a violência invisível da ordem autoritária. O desemprego, a fome, a miséria, a solidão, toda a força implacável das condições sociais fazem parte de uma sistemática ameaça de morte. A tortura aparece assim como o gendarme em ação da estrutura social, a garantia de sua vigência.“ (Notas sobre a vida cotidiana numa ordem autoritária, Santiago, 1979, p.148)

Lembrar o 11 de setembro chileno é, acima de tudo, resgatar tristes lembranças da história recente da América Latina, marcada pelo militarismo e por práticas de tortura e terror em nome da ordem. Propor uma reflexão sobre o “outro 11 de setembro” não tem como objetivo hierarquizar tragédias, já que o sofrimento humano não pode ser mensurado pela nacionalidade de quem o sofre, mas sim, pensar o mundo em que vivemos a partir das referências que nos constituem, ou seja, nossa identidade latino-americana.


Professor Marcelo Cheche Galves – Mestre em História Política pela UNESP/ASSIS-SP e professor do Departamento de História da Universidade Estadual do Maranhão.


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