O estado” e “a gazeta”: posturas frente ao fechamento da Aliança Nacional Libertadora em 1935



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O Estado” e “A Gazeta”: posturas frente ao fechamento da Aliança Nacional Libertadora em 1935.
Victória G. da Silva
Lançada oficialmente no dia 30 de março de 19351, a Aliança Nacional Libertadora (ANL) tomou proporções nacionais no cenário político brasileiro. Caracterizada inicialmente como uma Frente de luta antiintegralista e antiimperialista, fruto da reorganização das forças políticas do país, ocorrida após a instalação da Assembléia Constituinte em 1933, congregava em suas fileiras diversos setores descontentes com o direcionamento que tomava o governo de Getúlio Vargas2.

Entre esses setores destacamos os tenentes, que vinham perdendo influência política no cenário nacional desde 1930, e com o restabelecimento da ordem hierárquica no Exército e o fechamento do Clube Três de Outubro em abril de 19353


“...uma parte destes retornaria aos quartéis, outros passariam a apoiar as aspirações golpistas dos generais e, ainda, um pequeno número “procuraria novos caminhos de luta através da formação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), sendo artífice de sua criação”4.

o Partido Socialista, influente no movimento operário organizado na Coligação de Sindicatos e que através de seus deputados buscava consolidar e ampliar algumas conquistas obtidas. E o Partido Comunista Brasileiro, que inicialmente colocou-se na condição de apoiador, “participando desta organização junto aos membros de muitos outros partidos e grupos políticos”, passando a prioriza-la ao longo dos acontecimentos e assumindo sua direção no período de ilegalidade5. Antes disso, permanecia o caráter de amplitude da Frente, identificado no discurso do deputado estadual João de Oliveira, proferido na solenidade de abertura da sede estadual da ANL em Santa Catarina,

“ Dentro dela cabem os trabalhadores das cidades e do campo; cabem, também homens de todos os partidos políticos, de todos os credos filosóficos e religiosos, desde que se disponham a preencher com honra a sua finalidade, que se resume em tomar mais digna e humana a vida do povo, na vastidão do território pátrio”6

No entanto, a presença dos comunistas na ANL, aliada às proporções de mobilização que esta alcançou durante os meses que atuou na legalidade, firmando sedes na maioria dos estados brasileiros e atuando através da mobilização de sindicatos, deferimento de pequenas greves e combate acirrado aos Integralistas, resultaram no aumento das pressões para a aprovação da Lei de Segurança Nacional, a chamada “Lei Monstro”7.

No dia 5 de julho de 1935, a ANL fez sua última sessão pública. Um comício realizado no Rio de Janeiro onde o estudante Carlos Lacerda leu um manifesto escrito por Luís Carlos Prestes. Este manifesto, segundo Marly Vianna, teria sido o estopim para a aprovação da LSN e, em conseqüência desta, o fechamento das sedes da ANL em todo o Brasil8. Desse manifesto cabe-nos a atenção à parte final que dizia,

“Brasileiros. Todos vós, que estais unidos pelo sofrimento e pela humilhação, em todo o Brasil! Organizai vosso ódio contra os dominadores, transformando-o na força irresistível da Revolução Brasileira!....Abaixo o fascismo! Abaixo o governo odioso de Vargas! Por um governo popular nacional e revolucionário! Todo poder à Aliança Nacional Libertadora!”9

A associação da frase “Todo poder à Aliança Nacional Libertadora” com aquela proferida por Lênin na Revolução de 1917, “Todo poder aos soviets”, fora suficiente para que no dia 11 de julho de 1935 fosse assinado o decreto de fechamento da ANL, este embasado na recém aprovada Lei de Segurança Nacional. Como justificativa colocou-se a ANL como um instrumento utilizado pelos comunistas para a articulação de um golpe de estado patrocinado pelo governo de Moscou10.

Apesar de ser esta a versão considerada oficial pelo governo, o fechamento da Aliança Nacional Libertadora repercutiu na mídia impressa brasileira com diferentes posturas e versões, dependendo estas, conseqüentemente, do posicionamento político desses órgãos e dos interesses que representavam. Essa lógica nos é exemplificada por Vianna através dos jornais do Rio de Janeiro. Enquanto os jornais oficiais, ligados ao poder público, confirmavam a versão do governo e colocavam o PCB como principal articulador da ANL, os jornais aliancistas, dos quais destacaremos “A Manhã”, protestavam quanto ao decreto de fechamento acusando o governo de autoritarismo gratuito


“...não pense o governo que cometerá impunemente a violência que premedita. A aliança não será posta na ilegalidade...nenhum sindicato será fechado, nenhum jornal independente será proibido de circular, nenhum líder libertador, civil ou militar, como nenhum dirigente proletário ou popular sofrerá qualquer constrangimento. O povo reagirá a qualquer arreganho fascista....”11

Este artigo, então, desenvolveu-se na tentativa de verificar a presença da mesma lógica, da ligação dos posicionamentos políticos e interesses específicos com a reprodução destes nas posturas da mídia impressa, em Florianópolis. Para isto, foram selecionados entre os vários jornais editados na capital durante o período referido, os jornais “O Estado” e “A Gazeta”. Isso, porque segundo a bibliografia consultada seriam, em 1935, veículos de ideologias opostas, sendo possível então a visualização do confronto de opiniões.

O jornal “O Estado”, sempre esteve ligado ao poder público. Isso, devido ao fato de que seus editores constantemente exerciam cargos públicos12. E segundo Maria Margarete Mata, adotava uma política de exaltação aos “homens ilustres de Santa Catarina”13. Apesar de colocar-se como jornal independente14 era um veículo da elite local.
“...como imprensa de Florianópolis, nas primeiras décadas do século XX, através do jornal O Estado, instrumento privilegiado da esfera pública burguesa, indicava um “entrelaçamento” entre o poder público e os interesses privados nas suas páginas. Entrelaçamento este que se dava por intermédio das relações de poder, com o enaltecimento de figuras “públicas”, buscando o Jornal um espaço público garantindo o que a elite local podia oferecer-lhe.”15

 
Já o jornal “A Gazeta” era de propriedade de Jairo Callado. Segundo Celso Martins, Callado era simpatizante da ANL, e o periódico que dirigia serviu de porta-voz da aliança em diversas ocasiões16. Sua presença nas sessões da Aliança foi, inclusive, noticiada pelo jornal “O Estado” do dia 06 (seis) de julho,


“Durante a sessão usaram da palavra os srs. Deputado João de Oliveira, Jairo Callado, diretor de , José Rodrigues Fonseca, do Syndicato dos Operários em Construção Civil, Phorphirio Gonçalves, despachante e Manoel Alves Ribeiro, operário. Todos os oradores foram muito aplaudidos.”17

No entanto, apesar dessa proximidade com os aliancistas, o periódico trazia em seu cabeçalho o mote “A GAZETA. A VOZ DO POVO - Sem quaisquer ligações políticas.”18 Anos mais tarde, na segunda metade da década de 1940, “A Gazeta” tornaria-se órgão oficial do PSD19.

No que se refere ao fechamento das sedes da ANL, o “O Estado” publica no dia 12 de julho, uma notícia de página inteira, contendo as razões governamentais para o ato:
“SOB PRESSÃO DA LEI, A “ANL” LANÇA UM MANIFESTO AO POVO BRASILEIRO - “ Rio 11 - Em sua quinta edição de ontem, o “Diário da Noite” adiantava a notícia de que em reunião das altas autoridades do país, ficara assentado o fechamento da Aliança Nacional Libertadora em todo o Brasil (...) A medida vai ser tomada pelo governo, sob a allegação de que aquella agremiação vem incindindo em preceitos a Lei de Segurança, cujas sancções serão aplicadas no caso...”20

e, para contrapor a versão oficial, um manifesto do Diretório Nacional da ANL, que clamava pela mobilização popular frente à atitude do governo de Getúlio Vargas. O Manifesto traz em suas linhas doses ideológicas claras, cabendo destaque às seguintes passagens:


“Pelo Brasil inteiro levanta-se o grito popular contra a exploração imperialista; contra a tyrania e as dictaduras que se esboçam no país; pela emancipação nacional de nossa pátria, miseravelmente explorada pelos magnatas estrangeiros; por Pão, Terra e Liberdade (...) Operários, vós que vos ergueis pela melhoria das vossas condições de vida, lembrai-vos que o fechamento e a “ilegalidade” da ANL, e dos vossos sindicatos será a mais negra opressão e a mais terrível miséria (...) De pé companheiros contra os bandidos imperialistas em defesa da Pátria e da Aliança Nacional Libertadora! (...) No Brasil há de haver liberdade, conquistada por nós - Diretório Nacional”21

Tem-se ainda neste manifesto críticas acirradas ao governo Getúlio como a feita por João P. Stevenson, Secretário geral da ANL, São Paulo:

“(...) a Aliança Nacional Libertadora é uma sociedade perfeitamente legal, cujo funcionamento é permitido pelas leis vigentes no país...O governo á guisa de combater o que elle chama de extremismo está prevaricando e burlando mesmo a própria constituição.”22

Como pode-se notar, o periódico apresenta aos leitores duas opiniões opostas ao fato em questão, mantendo assim uma postura imparcial. Postura esta que se irá constatar também no jornal “A Gazeta”.

O periódico pertencente a Jairo Callado também noticiou as duas opiniões quanto ao fechamento da Aliança no dia 12 de julho. Por um lado, as declarações do General Filinto Muller expondo a descoberta de um golpe comunista:

 
“ GOLPE COMUNISTA CONTRA O BRASIL - Rio,12 - Tudo quanto temos assistido aqui nada mais é do que o desdobramento de um plano preconcebido e executado sobre o controle absoluto da 3ª Internacional e que se encontra, em linhas geraes no valioso documento nº39 intitulado “Plano de acção comunista.

É exactamente esta a organização actual da ANL. Basta destacar o que esta dito acima para deixar patente que a organização nacionalista que obedece a chefia de Luis Carlos Prestes nada mais é do que a pelle de cordeiro com que se vestiu o Partido Comunista de maneira a que se pudesse agir mais livremente entre nós.”23

Pelo outro lado, publicou fragmentos do mesmo manifesto publicado no jornal “O Estado”


“Pelo Brasil inteiro levanta-se o grito popular contra a exploração imperialista; contra a tyrania e as dictaduras que se esboçam no país; pela emancipação nacional de nossa pátria, miseravelmente explorada pelos magnatas estrangeiros; por Pão, Terra e Liberdade (...) Operários, vós que vos ergueis pela melhoria das vossas condições de vida, lembrai-vos que o fechamento e a “ilegalidade” da ANL, e dos vossos sindicatos será a mais negra opressão e a mais terrível miséria (...) De pé companheiros contra os bandidos imperialistas em defesa da Pátria e da Aliança Nacional Libertadora! (...) No Brasil há de haver liberdade, conquistada por nós - Diretório Nacional”24

Se no âmbito nacional ambos os jornais adotaram posturas imparciais, no âmbito estadual não fugiu-se a regra. No que se refere ao fechamento da sede da ANL em Florianópolis, “A Gazeta” publicou no dia 13 de julho uma nota informativa,


“ FECHADA A SÉDE DA A.N.L. - Hoje, ás 11:30 horas, attendendo ordem do governo Federal o sr. dr. Claribalti Galvão, chefe de Polícia, acompanhado dos srs. Capitão João Cancia, delegado auxiliar, tenente Souza Lima, commissarios de policia e do escrivão Becker, esteve no prédio, onde esta installado a Aliança Nacional Libertadora, à rua Conselheiro Mafra esquina da praça 15 de novembro, sendo lacrada, pelo sr. delegado auxiliar a porta daquella séde.

Durante o cumprimento dessa oredem do sr. presidente da República o prédio esteve interdictado pelo pelotão da cavallaria da Força Pública.

A chave da porta da sede da ANL, não foi encontrada, visto os dirigentes daquella aggremiação não poderem informar onde se achava, a referida chave.”25
A mesma postura teve-se do “O Estado”,
“AS SEDES DA ANL NESTA CAPITAL E NA LAGUNA. - “O sr. Dr. Chefe de Polícia em officio, comunicou aos srs presidente da Corte de Appellação e Juiz Federal na seccção deste Estado o fechamento da sede da Aliança Nacional Libertadora nesta capital...hoje, às 17 horas, as grandes iniciais vermelhas “ANL” da frontaria da sede da Aliança, nesta capital, foram arrancadas pela polícia...sabemos que a sede da ANL na Laguna, foi ontem fechada.”26

 
Como pode-se notar a partir dos trechos transcritos, o conflito esperado entre os discursos dos jornais selecionados, não está evidente. Poderia-se dizer até que ele não existe, no que se refere ao fechamento da ANL.

Do Jornal “O Estado”, esperava-se um discurso semelhante ao proferido pelo jornais oficiais, ligados ao poder público, do Rio de Janeiro, de ataque e denúncia da “ameaça comunista”. No entanto, têm-se a publicação dos “dois lados”. Os motivos que levaram o governo ao fechamento da Aliança e o manifesto do diretório nacional da ANL expressando sua contrariedade ao fato. O Manifesto, foi publicado na íntegra, mesmo contendo ataques diretos ao governo e uma linguagem ideológica clara.

Já do “A Gazeta”, onde esperava-se a defesa dos ideais aliancistas, tem-se a mesma postura imparcial, com a publicação dos “dois lados”. Novamente os motivos que levaram o governo ao fechamento da Aliança e o manifesto do diretório nacional da ANL expressando sua contrariedade ao fato.

Constatando a adoção da postura imparcial por ambos os periódicos, levantam-se várias questões para serem desenvolvidas posteriormente. Por exemplo, para entender essa atitude frente ao fechamento da Aliança Nacional Libertadora, será necessária uma análise mais profunda da conjuntura política em que circulavam os dois periódicos, no caso, a conjuntura política de Florianópolis. Bem como, um histórico mais aprofundado dos próprios periódicos. Afinal, apesar dos perfis de “independente” e “sem ligações políticas” que “O Estado” e “A Gazeta”, respectivamente, reivindicavam e procuraram manter frente ao fato em questão, ambos eram no período ligados a setores políticos27. E, não seriam as posturas de imparcialidade adotadas em julho de 1935, reflexo dos interesses desses setores políticos? Fica a sugestão para pesquisas posteriores.

Bibliografia:

- CARREIRÃO, Yan de Souza. Eleições e Sistema Partidário em Santa Catarina (1945-79). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 1988.

- MARTINS, Celso. Os Comunas: Álvaro ventura e o PCB catarinense. Florianópolis: Paralelo 2; Fundação Franklin Cascaes, 1995.

- MATA, Maria Margarete Sell da. Jornal O Estado: uma história em construção (1915-1931). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 1996.

- VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Fontes:
Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina

- O Estado - Florianópolis



- A Gazeta - Florianópolis



1 VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p 125.

2 Idem, p 99-108.

3 Idem, p 106

4 Idem, p 101

5 Idem, p 155-159.

6 MARTINS, Celso. Os Comunas: Álvaro ventura e o PCB catarinense. Florianópolis: Paralelo 27; Fundação Franklin Cascaes, 1995, p.73

7 VIANNA, op cit, p. 134-137.

8 Idem, p.43-50

9 Idem, p.145.

10 VIANNA, op cit, p146

11 Idem, p 146

12 MATA, Maria Margarete Sell da. Jornal O Estado: uma história em construção (1915-1931). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 1996, p.42

13 Idem, p 03

14 Idem, p 37

15 Idem, p 04

16 MARTINS, op cit, p. 74-80.

17 O Estado, 06 de julho de 1935

18 A Gazeta

19 CARREIRÃO, Yan de Souza. Eleições e Sistema Partidário em Santa Catarina (1945-79). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 1988.

20 O Estado, 12 de julho de 1935

21 Idem

22 Idem

23 A Gazeta, 12 de julho de 1935

24 Idem

25 A Gazeta, 13 de julho de 1935.

26 O Estado, 15 de julho de 1935.

27 MATA, op cit, p.42.


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